Capítulo 3. A Igreja, os devotos e os agentes de culto
3.2. Redes de sociabilidade e grau de parentesco
Baseada no ministério da cura divina, a Igreja Jesus Cristo Salvador, independentemente do seu sucesso, detém apenas uma pequena franja de fiéis estáveis. Normalmente, pela dedicação, honestidade e fidelidade, são promovidos à categoria de discípulos e pelo estatuto adquirido acabam por cumprir o mandato para o qual foram nomeados. Efetivamente, a integração em qualquer plano da hierarquia da igreja é entendida como um sinal de reconhecimento e uma via para a aprendizagem dos segredos da cura.
As redes de sociabilidade têm como primeiro estrato o círculo de socialização do pastor que vai da família aos amigos e colegas de trabalho. Assim, por exemplo, um dos pastores que foi funcionário da empresa Angola Telecom congregou alguns trabalhadores da empresa com assiduidade ao culto os quais, por sua vez, foram influenciando outros colegas, familiares, amigos e vizinhos.
167
Os termos negros, brancos, mestiços e albinos não têm obviamente conotações raciais, eles correspondem a terminologia classificatória usada pelos meus interlocutores.
97 A frequência da igreja é normalmente feita por convite de um amigo ou familiar quando existe um problema grave que não pode ser superado pelo hospital, pela santa, pelo quimbanda ou por outra igreja. Foi-me possível verificar que, na maior parte dos casos, o recurso a esta igreja é muitas vezes o culminar de uma longa trajetória em busca de ajuda para uma determinada situação168. Baseando-se no postulado de que o problema de um membro da família é de toda a família e o processo de libertação, purificação e cura passa pela implicação dela.
Também é importante referir que, em certos casos, a saída de um dos membros da família da igreja precipita a saída dos restantes, acontecendo, na maior parte das vezes, que quem sai é uma mulher: a avó, a mãe ou a cônjuge. Eis o que decorre da conceção de que as mulheres são mais eficazes do que os homens na identificação de resolução de um problema no seio da família, e que, por isso, têm autoridade suficiente para promover a solução encontrada, neste caso a saída da igreja.
Além disso, a representação das mulheres no culto é superior à dos homens por lhes estar adstrita a capacidade de proteção espiritual da família, principalmente dos filhos. As situações de saída verificam-se quando a estrutura da igreja começa por defraudar os fiéis, sendo os fatores de rutura mais importantes as transgressões sexuais envolvendo pastores, como a suspeita ligação de um pastor com uma mulher casada ou com filha desta. Igualmente decisivo é o desvio de fundos ou a falta de transparência na respetiva gestão.
Do ponto de vista étnico, é problemático afirmar a predominância de um determinado grupo pois, como afirmei anteriormente, trata-se de uma igreja cujos fiéis a frequentam sobretudo para situações de cura e, depois, regressam às suas igrejas anteriores. Deste modo, há uma renovação constante de devotos com a decorrente diversidade étnica.
*
168
Não se pode olhar para esta afirmação de forma linear pois, no caso de se recorrer ao quimbanda ou à santa, poderão estes ser também o culminar de uma longa caminhada em busca de cura.
98 As redes de sociabilidade identificadas ao nível da igreja organizam-se, como referi, a partir de núcleos familiares169, que se expandem para sociabilidades anteriores à frequência da igreja, construídas principalmente no local de trabalho, redes de vizinhança que, finalmente, se cruzam entre si no interior da igreja. É este o plano em que a diversidade de estatutos tende a ser diluída na conceção de que todos constituem um só corpo como irmãos em Cristo. O tipo de patologia apresentada à chegada constitui também um fator relevante para a constituição de redes de sociabilidade no interior da igreja, dado que o fiel que se sente curado como que inicia quem entra pela primeira vez, dando instruções de como pode ultrapassar a doença ou os problemas que vive. Ele torna-se um acompanhante diário que, do ponto de vista psicológico, acaba por exercer um papel bastante importante no processo de cura de quem inicia o tratamento. Esta solidariedade, não elimina, todavia, as disputas e rumores no seio da igreja que já tive a oportunidade de referir.
De qualquer modo, a igreja desempenha um papel importante na construção de sociabilidades que vêm colmatar os distanciamentos entre familiares e amigos, frequentemente afastados no seu quotidiano pela dinâmica social e profissional. A frequência da igreja funciona ainda como um dispositivo privilegiado de informação, através do qual se toma conhecimento da situação de outros membros da família e amigos, dispersos na “comunidade imaginada” (Anderson 1983).
Havendo situações de doença ou morte entre os fiéis, a igreja é também um importante corredor de comunicação e de solidariedade, sendo os fiéis chamados a empenhar-se em contribuições financeiras e em bens para apoiar o “irmão” em dificuldades. Em caso de morte, o grupo coral organiza-se e passa a noite170 em casa do morto, entoando hinos durante toda a noite em sinal de negociação com Deus no sentido de receber aquele que partiu e de consolar aqueles que ficaram. Os pastores participam também desta rede de solidariedade e realizam cultos no interior ou no quintal da casa emitindo mensagens de valorização das boas ações do morto e o facto de se ter convertido ao cristianismo. A
169
Refiro-me à família nuclear ou extensa porque o recurso à igreja para tratamento é feito de forma secreta e bastante discreta o que leva à circulação da informação entre um grupo bastante restrito. Existem casos em que a frequência de uma igreja de cura divina é aconselhada por membros da família algo afastados. Independentemente de a sugestão ser feita por um membro da família nuclear ou extensa, a informação é mantida no núcleo mais restrito possível por se supor que o responsável pelo problema seja membro da família e, no caso de ter acesso à informação, poder agravar a doença.
170
A frequência de uma igreja está também ligada ao facto de existir um grande apoio em situações de morte e permitir um funeral mais inclusivo com cerimónias de homenagem, recitais bíblicos e cânticos cristãos.
99 palavra é dada depois aos presentes e é lançado um apelo àqueles que ainda não se converteram e não frequentam qualquer igreja para que se convertam.
*
Terminado o culto, o espaço exterior à igreja é aproveitado para se praticar as línguas de origem e para reatar sociabilidades ocorridas durante a infância ou juventude. Estes factos refletem a natureza do Lubango como contexto de acolhimento, cujos habitantes são em grande parte originários de municípios periféricos ou de outras regiões do país, os quais se deslocaram para esta localidade por motivos de guerra, cumprimento do serviço militar ou por questões laborais.
A grande diversidade étnica no interior das igrejas leva à diversificação dos hinos entoados e da língua utilizada durante a pregação. Na Igreja Jesus Cristo Salvador, pode observar-se um clima de tolerância na diferença que contribui para a criação de novas redes de sociabilidade.