Redes internacionais
A teoria da complexidade é a mais importante nova ferramenta na economia hoje, não apenas para entender a política monetária americana, mas para entender o mercado de capitais global. Porque o mercado de capitais é um sistema complexo, não é um sistema de equilíbrio; o modelo macro dos bancos centrais de todo o mundo está obsoleto. Não deve ser surpresa que continuamos tendo crises e colapsos.
Esse não é um fenômeno recente. Considere 1987, quando o mercado de ações caiu 22% em um único dia, o equivalente a cerca de 4 mil pontos no Dow Jones em níveis atuais. Se o mercado de ações caísse
400 pontos hoje, a queda dominaria a cobertura na mídia. Imagine se caísse 4 mil pontos em um único dia. Foi o que aconteceu em 1987.
Em 1997, tivemos a quebra asiática; em 1998, a quebra do Long- Term Capital Management ; em 2000, a quebra das ações de tecnologia;
em 2007, a quebra das hipotecas; e em 2008 um pânico nanceiro. Por que essas crises continuam acontecendo? Porque o Fed está sentado na cabine de comando tentando pilotar o avião, mas a economia não é um avião – é muito mais complexa do que isso.
Se você estiver tentando introduzir políticas em um sistema complexo utilizando um modelo de equilíbrio, vai errar todas as vezes. É importante que entendamos a complexidade e vejamos como ela se aplica ao mercado de capitais. É uma empreitada mais construtiva do que seguir os debates de política do Fed.
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Temos certeza de que há conexões, interrelações e efeitos spillover
porque essa é a natureza das redes. Se você aplicar a teoria dos grafos e a ciência das redes à forma como os nós nanceiros são construídos, chegará à mesma conclusão. O problema é que essas conexões podem ser difíceis de ver na vida real. Darei um exemplo concreto.
Eu estava em Tóquio em setembro de 2007, logo após o mercado imobiliário americano começar a quebrar. O pânico teve um pico em 2008, com Lehman Brothers e AIG, mas a crise começou aproximadamente em agosto de 2007. Quando o mercado de ações de Tóquio começou a cair, meus colegas japoneses, inicialmente, não conseguiam ver as conexões. Eles entendiam que havia um problema com as hipotecas dos EUA, mas não viam o que aquilo tinha a ver com os mercados japoneses.
Expliquei para eles que, quando estamos em uma crise nanceira, vendemos o que podemos, não o que queremos vender. Nesse caso, o que estava acontecendo era que os fundos de hedge e outros investidores alavancados nos Estados Unidos estavam recebendo pedidos de cobertura nas hipotecas. Eles adorariam vender as hipotecas, mas não havia mercado para elas ou para qualquer título lastreado por ativos na época. Então, eles começaram a vender ações japonesas – não porque odiavam as ações japonesas, mas porque as ações japonesas eram líquidas e poderiam ser facilmente vendidas para levantar dinheiro e cobrir o pedido de cobertura em outras posições.
Apesar de os dois mercados não serem comumente correlacionados, problemas no mercado americano de hipoteca causaram um declínio simultâneo no mercado de ações japonês. Isso é o que meu antigo colega e vencedor do prêmio Nobel, Myron Scholes, chamou de correlação condicional. É uma correlação improvável entre dois mercados que de
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repente passa a existir devido a uma condição especíca. Correlação condicional é o exemplo perfeito do que um físico reconheceria como uma propriedade emergente de um sistema complexo.
Veja outro exemplo. Os EUA são líderes mundiais em tecnologia de satélite, não apenas para comunicação e entretenimento, mas para aplicações militares e de inteligência. A Boeing é uma grande empresa na área. Ela produz satélites nos EUA, mas terceiriza os lançamentos para a Rússia. Desde 2014, a animosidade entre a Rússia e os EUA
cresceu, principalmente por causa da situação na Ucrânia. Se deixarmos essa tensão ir longe demais e começarmos a cortar relações uns com os outros, de repente não poderemos lançar novos mísseis na Rússia e caremos sem inteligência no céu. A diminuição da capacidade de inteligência dos EUA no espaço está ligada ao aumento das tensões geopolíticas entre os EUA e a Rússia por causa da Ucrânia. Essa ligação pode não ter sido tão óbvia quando as tensões começaram, mas surgiu
das dinâmicas complexas.
Um problema analítico é que muitas pessoas não entendem o que complexidade signica quando usada de forma técnica. Muitas utilizam a palavra “complexo” como jargão ou a utilizam como sinônimo de “complicação”.
Na verdade, “complicação” e “complexidade” são duas condições diferentes quando os termos são utilizados em seu sentido técnico. Por exemplo, se você retirar a parte de trás de um relógio suíço, o que verá? Engrenagens, molas e outros componentes. É um sistema complicado, mas um relojoeiro experiente pode abrir o relógio, remover uma engrenagem e limpá-la ou substituí-la para consertar o relógio, que ca como novo.
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Agora imagine retirar a mesma parte de trás e, em vez de engrenagens, ver uma sopa metálica. Como trocar uma engrenagem? É um exemplo imaginário de complexidade em que o movimento do relógio passou por uma fase de transição de sólido para líquido. Agora, a arte do relojoeiro não foi suciente. Modelos antigos não funcionam.
É como uma panela cheia de água no fogão. Você acende o fogo e, por muito tempo, a panela continua cheia de água, mas, de repente, a
água vira vapor. A panela contém as mesmas moléculas de H20, mas elas passam por uma transição. As moléculas de água agora existem em um estado diferente. A água passou do estado líquido para o gasoso.
Se você já observou uma panela de água, sabe que, antes de a água virar vapor, a superfície começa a borbulhar e ca turbulenta. Se você se transformasse em uma molécula em uma panela de água prestes a ferver, essa molécula não “saberia” se deseja ser água ou vapor. Ela pensa “água-vapor, água-vapor”, etc. – não consegue decidir o que
deseja ser. De repente, a turbulência explode e a água se transforma em vapor, mas, se você diminuir o calor, a superfície volta a ser água. Essa superfície turbulenta é onde cada molécula de água passa de um estado (água) ao outro (vapor).
Essa é uma boa metáfora do mundo hoje. Já saímos de um velho estado que existia antes de 2007, mas ainda não chegamos a um novo estado. Estamos naquela superfície borbulhante e turbulenta, e os investidores estão bastante confusos.
Complexidad
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A boa notícia é que muito pode ser feito em políticas para reduzir o risco da complexidade do mercado de capitais. A má notícia é que os
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formuladores de políticas não estão dando nenhum passo construtivo nessa direção. Sistemas complexos entram em colapso porque são insustentáveis após um certo tamanho ou escala. Ou a entrada de energia é muito grande para sustentar o sistema, ou as interações são numerosas demais para continuar estáveis, ou os dois. De qualquer modo, a solução é diminuir o sistema antes que um colapso ocorra.
O que a patrulha de socorristas numa montanha de Aspen faz quando vê perigo de avalanche? Sai logo cedo, antes dos primeiros esquiadores chegarem, escala a montanha e detona cargas de dinamite. Explode a neve e faz com que ela caia sem perigo antes que entre em colapso espontâneo e mate os esquiadores. O que o serviço orestal dos Estados Unidos faz quando vê um grande perigo de f ogo na oresta? Começa um fogo controlado para queimar a mata seca para que um raio ou uma fogueira não desencadeie um incêndio ainda
maior que traga muito mais prejuízo.
A quantidade de mata seca em uma oresta ou a quantidade de neve em uma montanha são exemplos de métricas de escala em sistemas complexos. Em mercados de capitais, também temos métricas de escala. Elas incluem medidas como o tamanho bruto dos derivativos, concentração de ativos no sistema bancário e ativos totais dos maiores bancos. Esses são os equivalentes nanceiros de neve instável e de orestas secas. Assim como os guardas orestais e a patrulha de socorristas diminuem os sistemas que administram, reguladores deveriam fazer o mesmo com o sistema bancário.
Deveríamos quebrar os grandes bancos em unidades menores, transformando-os em prestadores de serviços úteis com remuneração justa para tal, mas nada além disso. Mesmo que quebremos os grandes bancos, isso não signica que eles não podem falir. Só signica que,
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quando falirem, não vai fazer diferença. A questão não é eliminar a falência. A questão é eliminar o colapso catastróco que surge dessa falência. Nós também deveríamos banir derivativos e trazer de volta o
Glass-Steagall Act , que mantinha os bancos fora de negócios altamente
alavancados e arriscados.
Oponentes de separar os grandes bancos argumentam que seu tamanho cria eciências que reduzem os custos de serviços bancários. Mesmo assim, essas eciências, que são chamadas de benefícios de primeira ordem, são pequenas se comparadas aos custos de segunda
ordem de um colapso catastróco.
Em outras palavras, lobistas de bancos são bons em vender os benefícios de um grande banco em termos de típicas economias de escala
e de competitividade global, mas ignoram completamente os custos de segunda ordem pagos pela sociedade como um todo. Os benefícios de longo prazo de não ter um colapso sobrepujarão os custos de curto prazo de diminuir o sistema. Não é um cálculo que formuladores de políticas são capazes de fazer porque eles não entendem a dinâmica dossistemas complexos.
Não vejo sinais de que reguladores e banqueiros realmente compreendem a teoria da complexidade, ainda assim eles parecem perceber que outro colapso do sistema é iminente. Os EUA não estão conseguindo o crescimento de que precisam para pagar a dívida. Derivativos estão se acumulando, bancos controlam Washington, e o sistema nanceiro está fracassando. Ouro é o único seguro razoável na situação atual.