1 INTRODUÇÃO
2.4 GOVERNANÇA COMUNITÁRIA
2.4.3 Redes Sociais e Empowerment
A concepção de redes sociais ganha espaço cada vez maior nos últimos anos, tanto no âmbito das ciências sociais quanto no debate sobre gestão urbana. Neste trabalho, o destaque maior é dado às redes sociais, especificamente às redes de colaboração e de solidariedade, no sentido de verificar de que maneira estas redes podem ser significativas para a perseguição do desenvolvimento sustentável local, tema do próximo capítulo do presente trabalho.
“Onipresente” e “onipotente”. É assim que Musso define a noção de rede. Para o autor, em todas as disciplinas utiliza-se a noção de rede:
“Nas ciências sociais, ela define sistemas de relações (redes sociais, de poder...) ou modos de organização (empresa-rede, por exemplo); na física, ela se identifica com a análise dos cristais e dos sistemas desordenados (percolação); em matemática, informática e inteligência artificial, ela define modelos de conexão (teoria dos grafos, cálculos sobre rede, conexionismo...); nas tecnologias, a rede é a estrutura elementar das telecomunicações, dos transportes ou da energia; em economia, ela permite pensar as novas relações entre atores na escala internacional (redes financeiras, comerciais...) ou elaborar modelos teóricos (economia de rede, intermediação); a biologia é apreciadora dessa noção de rede que, tradicionalmente, se identifica com a análise do corpo humano (redes sangüíneas, nervosas, imunológicas...)” (MUSSO, 2004, p. 17).
Para Minhoto & Martins, o conceito de rede é polissêmico e de “notória complexidade”, podendo ser utilizado no âmbito econômico, político, organizacional,
acadêmico e social. Os autores consideram também, o seu uso como “estratégia privilegiada de luta contra o agravamento do quadro social no âmbito do capitalismo globalizado” (2001, p. 81).
Etimologicamente a palavra rede origina-se do latim rete, o que significa entrelaçamento de fios, formando uma espécie de tecido composto com aberturas regulares. A partir desta noção de entrelaçamento, segundo Adulis, a palavra ganhou diversos outros significados e passou a ser empregada em diferentes situações:
• Estrutura física reticulada (rede de esgoto, rede elétrica);
• Conjunto de meios de comunicação (rede telefônica, rede de televisão); • Rede de computadores (Internet, intranet);
• Conjunto de indivíduos e grupos (rede de contatos, de espionagem);
• Estabelecimentos que tem por finalidade prestar determinado serviço (rede bancária, rede pública de ensino, rede do crime organizado);
• Rede de organizações (rede de empresas, rede de ONGs). (ADULIS, 2005) Tanto Musso quanto Minhoto & Martins preocupam-se com a amplitude do conceito de rede. Por mais que o fato da intensa utilização do termo de rede seja uma prova de seu poder, Musso acredita que “o excesso de seus usos metafóricos parece condenar a própria noção, como se o excesso de empregos em extensão ocasionasse o vazio em compreensão, ou até mesmo sua diluição” (2004, p. 17).
Minhoto & Martins, por acreditarem ser o conceito de redes bastante amplo, preocupam-se sobre o risco de que o tema se converta “em espécie de panacéia analítico-explicativa” sobre as principais transformações da sociedade contemporânea (2001, p. 81).
Peci (2000), citando Lipnack & Stamps6, explica o papel das redes na atual sociedade. Inicia lembrando que a humanidade divide-se em quatro grandes épocas: a nômade, a agrícola, a industrial e atualmente, a da informação. Para cada uma destas épocas, há uma forma de organização. Sendo assim, na atual era da informação a forma organizacional predominante é a das redes, ou seja, as redes servem para organizar estruturas sociais.
6
LIPNACK & STAMPS. The age of network: organizing principles for the 21st century. New York: J. Wiley, 1994.
Segundo Marteleto, “o trabalho pessoal em redes de conexões é tão antigo quanto a história da humanidade, mas, apenas nas últimas décadas as pessoas passaram a percebê-lo como uma ferramenta organizacional”, que pode amenizar os conflitos permanentes “entre diferentes correntes nas ciências sociais, que criam pares dicotômicos – indivíduo/sociedade; ator/estrutura, abordagens subjetivistas/objetivas; enfoques micro ou macro da realidade social – colocando cada qual a ênfase analítica em uma das partes” (2001) p. 72). Para Trivinho, “na etapa atual das forças produtivas, as redes tecem as sociedades, rearticulam a política, reorganizam as economias, modulam as culturas” (1998, p. 13).
Manuel Castells (1999, p. 33) considera a concepção da sociedade em rede como um traço vital da sociedade moderna. É uma caracterização de “uma nova estrutura social atrelada a um novo modo de desenvolvimento”. Para o autor, esta concepção da sociedade em rede tem como base material as novas tecnologias da informação e comunicação.
Para Loyola & Moura (1997, p. 63), o conceito de rede está atrelado às novas formas de organização e de gestão das instituições tanto públicas quanto privadas. É resultante de questionamentos sobre a eficácia das estruturas burocráticas e hierárquicas.
“O crescente recurso à interação em rede, surge como uma estratégia para enfrentar as turbulências e incertezas que caracterizam o ambiente contemporâneo, decorrentes do crescimento da competitividade, crises e movimentos de reestruturação, tanto na esfera pública como na dos negócios” (LOYOLA & MOURA, 1997, p. 56).
Fritjof Capra afirma que, nos últimos anos, “as redes se tornaram um dos principais focos de atenção em ciências, negócios e na sociedade em geral, através de uma cultura global emergente” (2004, p. 7).
“Atualmente, a maioria das grandes empresas está organizada em redes descentralizadas de pequenas unidades, conectadas a redes de pequenos e médios negócios que servem como sub-contratados ou fornecedores, e redes similares existem entre organizações sem fins lucrativos e organizações não governamentais. De fato, por muito tempo ‘construir redes’ tem sido uma das principais atividades de organizações políticas de base. O movimento ambientalista, o movimento para os direitos humanos, o movimento feminista, o movimento pela paz, e vários outros movimentos políticos e culturais de base têm se organizado como redes que ultrapassam fronteiras nacionais” (CAPRA, 2004, p. 13).
Conforme dito anteriormente, o conceito de rede é bastante amplo. Loyola & Moura (1997, p. 55 a 57) o delinearam como fazendo parte de quatro campos: das relações interpessoais, dos movimentos sociais, do Estado/políticas públicas e dos negócios.
As redes do campo das relações interpessoais focam o indivíduo e surgem por meio de interesses compartilhados. Normalmente são relações de base afetiva, de vínculos familiares, profissionais, entre outros, caracterizadas por comunicação intensa entre os atores, consolidando-se de maneira informal.
As redes do campo dos movimentos sociais são compostas das ONGs, das associações, dos sindicatos, etc. Visam entre outros objetivos, a formulação de projetos e políticas. Fundam-se em identidades e valores coletivos. São denominadas também de redes de movimento, redes sociais e redes de solidariedade.
No campo do Estado, as redes formam-se para enfrentar problemas sociais, formular e implementar políticas públicas. A articulação existente é entre as agências governamentais e/ou “destas com redes sociais, organizações privadas ou grupos”. Segundo Maurel (apud Loyola & Moura, 1997, p. 57), tratando-se exclusivamente das políticas públicas desenvolvidas no âmbito local, “o trabalho em rede (...) significa uma profunda redefinição das políticas sociais, uma recomposição do papel do Estado e das coletividades”.
Por fim, no campo dos negócios, a rede forma-se entre a empresa e o mercado, “rompendo os princípios da hierarquia inflexível”, nos processos da atividade econômica.
Seguindo esta classificação de Loyola & Moura, pode-se concluir que a rede de colaboração, objeto do estudo empírico deste trabalho “encaixa-se”, sobretudo, no campo das relações interpessoais. Apesar disto, possui características bastante fortes das redes do campo do Estado, dos negócios e dos movimentos sociais.
Apesar de existirem estudos acerca de redes sociais, Marteleto afirma que não existe uma “teoria de redes sociais”, pois seu conceito pode ser empregado com diversas teorias sociais e sua análise pode ser aplicada no estudo de diferentes situações e questões sociais, estabelecendo um novo paradigma na pesquisa sobre a estrutura social (MARTELETO, 2001, p. 73).
Sendo assim, existe atualmente uma fragilidade no que diz respeito ao apoio metodológico para o estudo das redes sociais. Esta fragilidade acaba por impedir, por vezes, um estudo mais aprofundado e apurado principalmente no tocante à análise de redes sociais.
Porém, seguem alguns conceitos sobre redes sociais que se encontram disponíveis na atual literatura.
Para Peci, rede social é um conjunto de nós, representados pelas pessoas e pelas organizações, “ligadas através de um conjunto de relações sociais específicas, tais como amizade, família, entre outras” (PECI, 2000).
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, redes sociais podem ser definidas como “um agrupamento de indivíduos, organizações ou agências organizadas em bases não hierárquicas em torno de questões ou preocupações, as quais atuam proativamente e sistematicamente baseadas no compromisso e confiança” (ADULIS, 2005).
Para Kiriki et al, entende-se “rede social como uma estrutura horizontal, democrática, participativa, aberta e presencial que une indivíduos e/ou organizações em torno de valores e objetivos compartilhados, sem que as partes percam autonomia e identidade” (2003).
Capra (2004, p. 6) tem dedicado suas pesquisas no sentido de estender o conceito sistêmico de vida para o campo social. Para ele, “redes sociais são antes de tudo redes de comunicação, que envolvem linguagem simbólica, restrições culturais, relações de poder, etc. Para entender as estruturas de tais redes precisamos subsídios de teoria social, filosofia, ciência cognitiva, antropologia e outras disciplinas”.
Uma das características básicas das redes sociais é a horizontalidade. Porém, esta característica apresenta algumas concepções diversas. Entendida como um novo modelo de relações interorganizacionais, para Minhoto & Martins (2001), a rede pressupõe por definição, a ausência de relações hierárquicas, garantindo a horizontalidade entre os diferentes saberes dos nós que a compõem, a autonomia de seus participantes e o compartilhamento de informações, recursos e atribuições que fazem o sucesso da rede.
De acordo com Kiriri, a horizontalidade das redes é uma contraposição às relações tradicionais de poder e representação. As redes não possuem uma estrutura central de poder. Porém, Kiriri admite que a horizontalidade não precisa ser “absoluta”. A autora explica que, muitas vezes surgem figuras de liderança numa rede. Este fato não atrapalha sua configuração desde que esta liderança surja de maneira legítima, comprometendo-se com os compromissos firmados, e que represente de forma democrática à vontade do conjunto.
Uma comparação entre a estrutura organizacional e o conceito de rede, retirado do dicionário Aurélio e utilizado por Loyola & Moura:
“A presença de um ponto central, de uma fonte geradora/propulsora, não figura no significado popular de rede. A igualdade e a complementaridade entre as partes são seus aspectos básicos, reforçados pela regularidade entre as malhas. Cada nó do tecido é estratégico, é fundamental para o todo, mas eles só formam o tecido quando ligados entre si pelas linhas. Não há, portanto, diferenças nem entre os “nós”, nem entre as linhas. Além disso, como encarnam em si as idéias de origem e de destino, os “nós” limitam e, ao mesmo tempo, são pontos a partir dos quais a rede se expande. A transformação da rede dá-se apenas pela expansão. Por isso, não há também diferenças hierárquicas entre linhas e nós. Só há diferenças de função entre eles – ligação e sustentação, respectivamente – para formar o tecido” (1997, p. 54).
Loyola & Moura, explicam que, a horizontalidade acontece dependendo de que campo está se tratando, pois, ela marca fortemente as redes de movimentos sociais e das relações interpessoais. Já nas redes do campo do Estado e dos negócios, a hierarquia se faz presente na figura “do centro animador ou operador, ou ainda da empresa focal”.
Segundo Ayres, “não é possível pensar em uma rede horizontal sem liderança”. Para o autor, seria mais apropriado usar uma imagem de rede não horizontal, e sim “encaracolada”, ou seja, “onde a própria dinâmica de relacionamento entre os integrantes fortalece a todos para proporem e empreenderem ações de acordo com suas habilidades e objetivos” (AYRES, 2002).
Uma rede é composta por indivíduos, grupos ou organizações e sua dinâmica está voltada para a perpetuação, a consolidação e o desenvolvimento das atividades de seus membros, além do que, a participação em redes sociais envolve direitos, responsabilidades e vários níveis de tomada de decisões. Sua estrutura não supõe um centro hierárquico, sendo sua organização definida pela multiplicidade quantitativa e qualitativa dos elos entre seus diferentes membros, orientada por uma
lógica associativa. Porém, relações de poder e de dependência não são excluídas. O estudo de redes sociais significa considerar as relações de poder advindos de uma organização não-hierárquica e espontânea, além de procurar entender até que ponto a dinâmica do conhecimento e da informação interfere nesse processo (MARTELETO, 2001, p. 73).
Entendida a complexidade na qual está inserida o tema de redes, seu surgimento na atual sociedade da informação, bem como vistos alguns dos conceitos de redes sociais, a partir de agora se foca a importância das redes sociais como ferramentas capazes de auxiliar sobremaneira os processos de governança urbana que visam o desenvolvimento sustentável das comunidades.
Scherer-Warren encara a articulação social em rede como expressão de uma “nova cultura política” que caracteriza os movimentos sociais. Para esta autora, trata-se de uma tendência, uma inovação, uma prática social em construção e que faz com que muitos movimentos locais e seus líderes obriguem-se a “alargarem sua visão cotidiana original” para se “ramificarem em várias direções e juntarem forças em frentes unificadas de ação”, seja na construção de uma nova ética, seja na propensão política para a democracia, conduzida de maneira inédita em suas formas e expressões, por meio da articulação em redes (SCHERER-WARREN, 1993, p. 22). A forma de organização social em redes quebra diversos paradigmas antigos, pois esta “união” de pessoas proporciona vantagens antes não valorizadas e hoje consideradas como fundamentais num contexto de governança comunitária. De acordo com Adulis (2005) são elas:
• reunião de um “estoque” de conhecimento e capital social;
• surgimento de iniciativas descentralizadas entre os membros envolvidos, baseadas na comunicação e na troca;
• possibilidade de acomodar diversidade e diferenças, favorecendo a inovação;
• troca mútua de conhecimentos e construção coletiva de uma nova realidade;
• canais múltiplos de comunicação que facilitam a transmissão de informações e idéias;
• flexibilidade na entrada e saída de membros, bem como adaptação a novos contextos.
Considerando estas vantagens, em resumo, as redes favorecem “a troca e a circulação de informações, o compartilhamento de experiências, a colaboração em ações e projetos, o aprendizado coletivo e inovação, o fortalecimento de laços entre os membros, a manutenção do espírito de comunidade e a ampliação do poder de pressão do grupo” (ADULIS, 2005).
A partir do momento em que as estruturas de redes sociais quebram diversos conceitos e práticas antigas de gestão urbana, nas quais imperavam a burocracia, a morosidade das ações públicas, o clientelismo, a passividade dos cidadãos, elas tendem a passar uma expectativa de empoderamento para as comunidades, uma vez que, de acordo com os autores estudados, estas redes possuem potencial para reproduzem trabalhos de forma democrática, participativa e colaborativa possibilitando aos seus integrantes o fortalecimento, a aprendizagem, a superação das dificuldades pessoais e coletivas, a luta por seus direitos, a realização de suas ações, enfim, possibilitam o “empoderamento”.
Comunidades empoderadas representam boas parceiras aos gestores públicos que buscam soluções para as atuais crises sociais que acometem a grande maioria das cidades brasileiras, pois estas auxiliam na criação, implementação e continuidade das políticas públicas direcionadas a corrigir os efeitos negativos da atual economia globalizada (pobreza, miséria, desemprego, etc) e também para a construção de comunidades sustentáveis. “Cultural change in the organization of government has an important impact on local communities, and can go some way to building an empowered and self-regulaging system” (STEWART, 2000, p. 177).
As redes sociais configuram o atual momento histórico, no qual a população, segundo Frey et al (2005, p. 2).
“deixa de ser vista como uma mera receptora de políticas públicas, passando a ocupar, cada vez mais, um papel privilegiado no que se refere a sua acepção como uma importante fonte de informações, ao mesmo tempo em que passa a ser vista como um relevante ator em prol da consolidação de políticas públicas que visem o seu bem-estar”.
No quadro a seguir, Loyola e Moura ilustram os padrões tradicionais e as inovações decorrentes das redes no campo da ação pública.
QUADRO 02 – PADRÕES TRADICIONAIS E INOVAÇÕES NO CAMPO DE AÇÃO PÚBLICA
Padrões "tradicionais" Inovações
→ Redes de informais e pouco visíveis de acessoa centros decisórios ("anéis burocráticos", redes de clientela...)
→ Parcerias, espaços, negociação/participação,
democratização/mobilização de recurosos. Redes "sócio-governamentais de caráter público.
→ Arranjos neocorporativos → Redes de solidariedade assumem caráter público (ações de solidariedade pública, fóruns, ONGs) → Movimentos sociais cobram do
Estado ação pública (reivindicações/pressão)
→ Ação pública via rede de oferta de serviço - centro anima/incita e articula peradores
→ Ação pública via aparato específico
com profissionais → Trabalho em rede por projeto → Departamentalização
→ Integração burocrática
Fonte: LOYOLA & MOURA, 1997, p. 60
CAMPO DE AÇÃO PÚBLICA
→ Articulação de ações a partir do local. Repartição de competências.
Para Peci (2000), as redes sociais têm sido os grandes laboratórios da gestão contemporânea, pois se acredita que uma das mais significativas mudanças históricas nas funções administrativas é o aumento da interdependência organizacional, seja na área empresarial, seja na área governamental. Esta interdependência parece ser facilitada pelas redes sociais.
Segundo Weyer7 , citado por Frey (2003, p. 175), “em redes é imprescindível a ocorrência de formas de cooperação entre seus membros, viabilizadas e sustentadas por relações de interdependência”. Outro fator também citado é a cooperação, “marca central da rede”, que se baseia na confiança entre atores autônomos e interdependentes.
A interdependência, a cooperação e a confiança são atributos que podem levar à promoção da solidariedade. Redes solidárias são o assunto do item a seguir, porém, antes, se faz prudente abordar o “outro lado” das redes sociais.
7
WEYER, J. 2000. Soziale Netzwerke. Konzepte und Methoden der sozialwissenschaftlichen Netzwerkforschung. München/Wien: R. Oldenbourg.
Segundo Frey, “é possível constatar que redes dificilmente representam uma panacéia para os problemas que as comunidades locais estão enfrentando nos países em desenvolvimento”. Tal afirmativa decorre do fato de que, “uma concepção aparentemente democrática pode facilmente ser transformada em uma ferramenta capaz de reforçar as relações de poder existentes, sobretudo se não houver esforços explícitos para superar impedimentos institucionais e culturais” (2003, p. 177). O autor alerta que o processo de redes também pode se transformar em instrumento de exclusão, principalmente com relação a uma “pequena e poderosa elite”, tanto as elites políticas quanto as elites sociais tradicionais, que acabam por se beneficiar das vantagens intrínsecas às redes para seus interesses pessoais. Outro exemplo de implicações negativas das redes, citado tanto por Frey (2003, p. 177) quanto por Castells, é a atuação das redes do crime organizado e do tráfico de drogas, entre outras.
Em síntese, as redes sociais se constituem como uma nova forma de organização social, através da qual abre-se um leque enorme de oportunidades de participação e de empoderamento às comunidades.
Aos gestores locais, utilizar-se dos potenciais surgidos em meio às redes sociais se traduz numa opção bastante atrativa devido à agilidade que pode ser proporcionada na criação, implementação e gestão de políticas públicas que considerem o desenvolvimento sustentável local.
As redes sociais possuem potencial para empoderar comunidades, agilizam processos e, segundo Scherer-Warren (1993, p.123), tornam-se espaços de construção de novos modos de vida alternativa, onde o pluralismo de ideologias e organizações existente nestas redes se transformam numa “expressão da construção de um imaginário e de uma prática mais democrática e tolerante à diversidade social, mas não à desigualdade, produto da exploração e da discriminação”.
Conforme dito anteriormente, as redes sociais não se apresentam como uma panacéia aos problemas das comunidades locais, porém, se bem administradas e atentas às armadilhas relacionadas à dominação e ao abuso de poder, possuem uma importância fundamental no âmbito das comunidades locais, pois são capazes de promover e disseminar a solidariedade, a confiança, a reciprocidade e induzir ao
capital social, ou seja, contribuir para o aumento da eficiência da comunidade, facilitando ações coletivas coordenadas.
O presente capítulo mostrou as mudanças ocorridas no âmbito da governança comunitária, deixando clara a urgência das mudanças que devem ocorrer face às novas exigências urbanas e comunitárias, ou seja, não há mais espaço para antigos modos de governar tais como o patrimonialismo e a gestão burocrática, exigindo novos modelos de governança capazes de fomentar comunidades mais participativas e orientadas pelas concepções gerencial e democrático-participativo da gestão pública. Segundo Stewart, as práticas tradicionais de governo sofrem pressão das lideranças comunitárias em busca de novas práticas governamentais. A