4 SOBRE A MORTE NO JUDAISMO
4.7 Reencontro – Depoimento 06
A.S.
Fonoaudióloga
Entrevista realizada em 2016
“Tenha fé porque um dia a gente vai se encontrar.”
Eu venho de uma família católica não praticante e fui criada dentro de um contexto que não tinha a prática religiosa. Então, para mim, ter me convertido ao Judaísmo foi natural. Eu convivi muito no período de infância e adolescência com a comunidade judaica, aqui no Recife, embora eu seja de família católica por parte de pai e de mãe. Por não ter tido essa prática, eu não tive a voz. Normalmente, a gente
vem e recebe dos avós, que passaram para os pais e eles vão passando de geração em geração. Então, essa prática religiosa na minha casa, nunca existiu. Hoje, na senescência, na velhice, minha mãe é que está indo mais à igreja, mas eu preferi me converter ao judaísmo.
Foi há muito tempo. Eu não era nem casada, foi antes de casar. Também não foi uma imposição familiar por parte do meu marido que é judeu, mas foi uma opção que eu tive porque eu me identifiquei com o judaísmo. Foi uma identificação. Eu morei em Israel. Eu pude vivenciar, em Israel, por exemplo, a prática das festividades. Na verdade, hoje, minha família núcleo e a família de meu marido, que é toda de origem judaica, a gente não é uma família religiosa, tradicionalmente religiosa, mas a gente mantém as tradições religiosas. A gente mantém as festividades. O calendário judaico, ele é bem praticado na família, sem essa presença extrema dentro da religião, essa prática muito ortodoxa. Não, de jeito nenhum. A gente trabalha o judaísmo, a gente mantém as tradições judaicas.
Dentro dessa sua perspectiva, eu passei muito tempo, temendo a morte. Mas, hoje, dentro desses meus 51 anos de vida, eu já mudei muito o conceito com relação à morte. Eu vejo a morte, hoje, como uma passagem e de uma forma muito tranquila. Antigamente, era escondido das crianças essas coisas. “Não pode ter contato com o morto”. “Não vamos levar as crianças para o enterro”, inclusive o enterro no Judaísmo é muito diferente. A forma como se enterra o morto, é uma cerimônia completamente diferente da cerimônia católica, cristã. Mas, hoje, eu encaro a morte assim, como uma passagem. O final de um ciclo e o começo de outro.
No sentido bem simbólico, eu fico imaginando uma vela acesa, muito acesa, que fica ali, vibrando. Aquela energia que vibra quando ela está acesa e aí a pessoa, quando está no finalzinho da respiração, vem um suspiro que apaga a vela e aquela fumaça sobe. Então, essa passagem simbolicamente imaginando, se você tivesse que fazer um desenho, eu fazia esse desenho, de uma vela acesa e uma fumaça que subiu. O último suspiro é esse sopro que apagou a vela e fez a fumaça subir. Então, você sai de um plano e vai para outro. Você termina um ciclo e, imediatamente, já começa outro. A fumaça seria a alma e a vela, o corpo. A luz da vela em vida, mas a fumaça que vai... e quando você morre, você já está em outro plano. Começa outro ciclo.
Como eu pensava a morte antes, era um temor. Um misto de temor porque a gente não conhece nem se aprofundar muito no assunto, não procura se informar também, o que é que uma religião diz. Eu sou muito eclética, eu sou muito ecumênica, vamos dizer assim. Eu gosto de saber um pouco o que cada Religião diz a respeito da morte e também porque eu tenho, de um lado, uma família cristã e, de outro, uma família judia. Então dentro do conceito do que cada Religião diz, eu me interesso. A mim me interessa muito saber o que o Espiritismo diz sobre a morte. O que diz o Candomblé sobre a morte? O que diz o Budismo sobre a morte? Eu tenho lido muito, por exemplo, sobre alma, sobre reencarnação, sobre muitas coisas que, hoje, estão me acrescentando e me aquietando, me aquietando a alma. Isso me aquieta. Eu era inquieta com relação ao desconhecido. Continua sendo. A morte continua sendo um grande mistério, mas eu acho que passa muito quando o nível de fé vai aumentando. Eu sempre fui uma pessoa de fé. Eu acho que a gente tem que ser alimentado pela fé. Eu sempre digo assim: no maior dos desesperos, quando você perde uma pessoa muito querida, mas você tem que ter fé e é nisso que eu acredito. A fé, a gente tem que ser movida por ela. Ela é que conecta você com o que você acredita. Eu acredito em Deus. Eu acredito que um dia a gente se encontra, em algum momento. Que a energia não acaba, ela vibra. É um plano que a gente não alcança, que os olhos da gente não alcançam, mas que existe e que a gente consegue sentir.
Eu não tive avós. Só uma avó materna que morreu com cem anos. Ela ia fazer cento e um anos e foi dormir, mas não acordou. Ela não soube o que é um leito de hospital. Entre familiares próximos, eu não senti a morte assim, de tão perto, de perder uma mãe, um pai, um irmão. Eu ainda tenho pai e mãe. São todos vivos. Os avós, eu só tinha essa avó e que viveu muito. Eu vivi minha infância, minha adolescência, ela soube que minha filha M. nasceu, mas não a viu. Porém morreu sabendo porque ela morreu em março e M. nasceu em 26 de fevereiro. Foi muito próximo do período que ela morreu. Então, entre os entes queridos de família, eu não tive esse impacto forte. Depois, vieram os tios, mas também viveram muito, tanto de um lado como do outro. Eu tenho todas as minhas tias, só a mais velha que morreu com 96 anos. Meus familiares, eu tenho quase todos. O que chegou mais impactante para mim são as perdas de amigos que se foram muito brevemente. Por doença, por acidente e que, realmente, foi um impacto muito forte porque a gente fica pensando “Meu Deus, tinha muita coisa ainda para ser vivida!”, mas a gente não escolhe o dia. A gente pensa
assim: Deus coloca e leva no momento que para Ele é o momento certo de trazer para junto. Eu estou vendo mais por este aspecto, entendeu? Claro, impacta o fato de você perder uma pessoa próxima, claro que impacta! Mas hoje eu lido de uma forma, vamos dizer, mais tranquila do que antes. Quando eu digo antes, é bem antes, na minha juventude, de saber que uma pessoa tão jovem morreu ou um filho de um amigo seu, não é? Morreu de repente, não estava doente, um acidente. Dentro dessa perspectiva de você ainda ter uma vida longa pela frente e perde um filho, um filho de um amigo seu, ou um amigo seu próximo.
Essas mudanças não tiveram a ver com minha conversão para o judaísmo. Eu não faço essa ligação porque eu permeio nesses conceitos de outras religiões e crenças diferentes da minha. Vem mais de um amadurecimento pela busca dessa informação, movida por uma fé. Existe a fé. A minha conexão com Deus é muito grande e eu tenho minha maneira de me conectar com Ele. Eu não preciso estar numa sinagoga ou participando de uma missa de 7º dia, ou ter que entrar num templo. Eu não tenho essa necessidade física de estar em algum lugar que represente uma religião qualquer para me conectar, não. Dentro do judaísmo, eu não preciso estar numa sinagoga para entrar em contato com Deus. Minha relação com Ele é em qualquer lugar. Basta eu me concentrar e pedir, agradecer, entrar nesse movimento de oração e de calmaria mesmo. Eu acho que quando você quer conversar com Deus, você tem que estar em um lugar, em um momento com a sua disponibilidade, não precisa ser um tempo grande, mas um momento que seja significativo para você entrar nessa conexão. Eu faço isso com frequência.
Se eu acredito que tudo se encerra com morte? Não, não acredito não. Acredito que tem algo paralelo que a gente tem que esperar. É esse o grande mistério, não é? O que vem depois. Que vem, vem. Mas o que vem depois a gente vai ter que ter paciência para esperar. Eu sempre volto na palavra fé porque quando a gente abraça uma pessoa que perdeu um ente querido, você diz assim: “tenha fé porque um dia a gente vai se encontrar!”