CAPITULO II – AS MODIFICAÇÕES NO ESTADO CAPITALISTA:
2.2 A reengenharia no Estado e o advento do neoliberalismo
Sabe-se que o desenvolvimento das sociedades tem uma relação estreita com as redes e os sistemas escolares. Sabe-se também que há um interesse efetivo por parte dos que controlam o modo de produção no sentido de que os sistemas escolares também influenciem as políticas educacionais. Nessa lógica é que entra o Estado como elemento controlador das políticas públicas e que geralmente se posiciona em favor do capital. Mas, de acordo com Neves (1999, p. 16), é necessário que se admita que os sistemas educacionais, “[...] no mundo capitalista contemporâneo, respondem de modo específico às necessidades de valorização do capital, ao mesmo tempo em que se consubstanciam numa demanda popular efetiva de acesso ao saber socialmente produzido”. Segundo Saviani (2000, p. 49), sob o prisma de uma postura comprometida com as camadas populares, isso implica ver “[...] a escolarização como uma das condições para a consolidação da ordem democrática”.
Durkheim (1980, p. 48), como referido no item anterior, ao perceber a relação entre educação e Estado, afirmou: “Admito que a educação seja função essencialmente social, não pode o estado desinteressar-se dela. Ao contrário, tudo o que seja educação deve estar até certo ponto submetido à sua influência”.
Esse posicionamento nos revela a crença numa visão idealizada do Estado como a única força capaz de atuar com imparcialidade e muito acima dos interesses particulares. Isso reflete historicamente o pensamento liberal construído sobre as bases da Revolução Francesa, no qual o Estado personificaria um caráter moral em suas instituições e aparelhos, representando, assim, o bem-estar moral supremo e exterior a quaisquer motivações individuais. Nesse contexto, essa feição ‘democrática’ do Estado tenderia a encobrir o caráter democrático-burguês sob o qual reside o alicerce do atual Estado capitalista.
O contexto que enreda a década de 90 do século passado se caracteriza pelas mudanças nas condições de vida do povo brasileiro, acompanhadas de conseqüências danosas do que até então era prometido sob a falaciosa alcunha de ‘modernidade’. Assim, envereda-se na onda do neoliberalismo, ou metaforicamente dizendo na tsunami do neoliberalismo, que deixa atrás de si um rastro enorme de destruição, e, como os demais países periféricos e endividados externamente, o Brasil também estava desprovido de quaisquer defesas. Assim, passou a sofrer as conseqüências dessa conjuntura, que se refletiram no desemprego, na flexibilização das leis trabalhistas, numa enorme perda de ganhos sociais e de conquistas populares, nas privatizações, na precarização dos serviços básicos (inclusive a educação), na priorização do capital especulativo e no pagamento dos juros da dívida externa, em detrimento das aplicações em geração de renda. Todos esses fatores levaram a baixos índices de crescimento medidos pelo PIB, em razão das altas taxas de juros aplicadas aqui para atrair o capital estrangeiro, dentre outras danosas conseqüências.
Nessa relação entre o Estado e a sociedade, ficou evidente que o aparelho de Estado, com toda a máquina estatal, destacando-se aqui a legitimação de Estado e seu aparato legal e formal, posicionaram-se do lado do capital especulativo. Dessa forma, ratificaram um aspecto de caráter metodológico na compreensão da natureza do Estado, em que, “Do ponto de vista ontológico, atribui-se uma primazia do capital em relação ao Estado” (FARIAS, 2001, p. 26).
Ora, havendo essa primazia ontológica, já está desvelado que o posicionamento do Estado é em favor do capital, inclusive com modificações através das reformas que o Estado brasileiro efetuou nos anos 1990, visando intervir diretamente nas poucas conquistas do povo brasileiro externadas nos diminutos ganhos sociais aqui existentes.
Para se efetuar uma abordagem que considere os aspectos evolutivos do capitalismo até chegar a atual fase – a neoliberal – e se estabelecer a relação entre o neoliberalismo e o atual estágio do Estado capitalista e as suas mais recentes modificações, convém que se faça um recorte que contextualizará e elucidará esse tema. Para tal, tomar-se-á como referência Silva (2002, p. 51), quando declara que o grande marco para a “mudança no eixo político-econômico mundial e a afirmação da hegemonia do centro financeiro de Wall Street” foi a Conferência de Bretton Woods, que aconteceu em New Hampshire, nos Estados Unidos, no ano de 1944.
Sabe-se que o mundo capitalista passou por uma intensa e rápida modificação monetária e financeira depois da II Guerra Mundial. Vários elementos contribuíram para essas modificações, sendo que um dos mais preponderantes foi a saída para o exterior de capitais públicos e privados da economia dos Estados Unidos rumo à Europa e ao Japão, em concretização do Plano Marshall e da migração de filiais de bancos e empresas norte- americanos. O Plano Marshall consistia na intervenção direta do Estado no financiamento e reconstrução, pelo investimento de capitais, nos países destruídos pela guerra. Cano (1998, p. 37) afirma que “[...] os Estados Unidos passaram rapidamente de maiores credores internacionais para maiores devedores internacionais”.
Cardozo (2006) afirma que houve um agravamento na economia norte-americana após a assinatura do acordo da Jamaica, em 1976, em razão de que a comunidade econômica mundial abandonou o acordo de Bretton Woods, assinado na conferência de mesmo nome, em 1944, onde foi estabelecido que todas as moedas substituíssem o ouro pelo dólar norte- americano como referência. Decidiram também adotar um sistema de taxas de câmbio flexível, criando-se as condições estruturais que têm afetado as economias desde então.
Segundo Harvey (1996), nos anos 1960 e 1970, as políticas de substituição de importações que vários países do Terceiro Mundo adotaram, particularmente da América Latina, foram associadas à dinâmica das multinacionais, que se dirigiram mais para o sudeste asiático, concebendo um movimento intenso de industrialização fordista com alto poder de competição em diversos lugares novos.
Cardozo (2006) afirma ainda que, nessa base, a concorrência internacional foi intensificada, em razão de que a Europa Ocidental, o Japão e os New Industrialized Countries = Novos Países Industrializados (NICs), ou “Tigres Asiáticos”, como ficaram conhecidos) – China, Coréia do Sul, Taiwan, dentre outros – iniciaram incursões no mercado internacional, principalmente com produtos das indústrias têxtil e eletrônica. Esse ocorrido culminou por abalar a hegemonia norte-americana que preponderava mundialmente. A esse respeito,
Harvey (1992, p. 156) afirma que, no período de 1973 a 1980, os Estados Unidos passaram a importar de países em desenvolvimento quase dez vezes mais. Tais importações incluíam principalmente produtos industrializados japoneses e asiáticos do tipo carros, eletro- eletrônicos, placas de silício, sapatos e artigos têxteis, e ocasionaram o seguinte fato: “[...] A balança de pagamentos de bens e serviços dos Estados Unidos transformou rapidamente o país de credor global líquido em maior devedor do mundo”.
Associado a isso, outro elemento importante contribuiu para o aumento da crise e da instabilidade de vários países capitalistas: a crise energética, caracterizada mais, especificamente pelo choque do petróleo a partir de 1973, em razão do aumento do preço desse produto pelos países associados à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que, além disso, promoveram um embargo à sua venda ao Ocidente, como resposta à ocupação dos territórios egípcios por ocasião da guerra árabe-israelense.
Sabe-se que os dois maiores choques que compuseram a crise do petróleo trouxeram como conseqüências mais sérias a diminuição do crescimento econômico e a exacerbação inflacionária. Cano (1998, p. 37) afirma que tais fatos marcaram esse “[...] longo período, durante o qual a quebra da convertibilidade do dólar apenas desnudou a crise internacional e o abalo sofrido pela hegemonia norte-americana”. Certamente, na intenção de se sobrepor a essa crise de acumulação, foi preciso aumentar o envolvimento no sistema produtivo das novas tecnologias, reestruturar a economia e fazer um reajustamento social e político. Isso implicou o aumento da internacionalização do capital, sob o nome de “mundialização” ou “globalização”, processo esse que trouxe em seu bojo novas configurações: financeirização, desregulamentação do mercado, regionalização, crise do Estado de Bem-Estar14 e a reestruturação produtiva e capitalista.
Por regionalização entende-se a formação de blocos econômicos sob a hegemonia dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão (G3), em virtude de que, com a sua abrangência e colocação nos monopólios de poder, esses países interferem na política econômica mundial. De acordo com Cardozo (1998), eles buscam definir as relações exteriores entre si, de maneira a reduzir tarifas, combinar taxas de intercâmbio, transferir tecnologias, complementar mercados, planejar investimentos e estabelecer a quebra de barreiras alfandegárias, com o propósito de facilitar a exportação de seus produtos e a exploração de força de trabalho. Além dos grandes blocos hegemônicos, há os de menor porte, como o MERCOSUL e o Bloco Andino, dentre outros, que têm pouco poder de influência junto às organizações
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A crise do Welfare State (Estado de Bem Estar Social) se deu, logicamente, nos países onde ele de fato existiu. No caso da América Latina, criou-se uma expectativa de criação do mesmo.
supranacionais como a ONU, o FMI e o BIRD, as quais, sendo agências criadas na intenção de encabeçar o desenvolvimento, passam então a assumir nova função, com o reordenamento capitalista.