5 CONCEPÇÕES DAS CRIANÇAS SOBRE CIDADANIA: VOZES E
5.1 Refletindo sobre políticas de ensino e projetos educacionais
Uma das formas de pensar sobre a rede de ensino municipal e suas escolas é analisar os documentos que traduzem sua identidade política e pedagógica, seus princípios, objetivos, propósitos e ideais.
As propostas curriculares da Rede Municipal de Ensino do Recife, fundamentadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica, foram publicadas pela Secretaria de Educação, Esporte e Lazer em 2012, no intuito de servir de embasamento para formulação e execução de planos, programas e projetos educacionais, subsidiando a reorganização curricular e a orientação de ações pedagógicas de qualidade (RECIFE, 2012).
Segundo o documento, a política de ensino da Rede Municipal do Recife é pautada pelos princípios éticos da solidariedade, liberdade, participação e justiça social e entende a educação com qualidade social como um processo de passagem pelos alunos da condição de invisíveis para visíveis, “que sabem propor, debater, argumentar, decidir, construindo novos significados para o local onde vivem, para os direitos, para os saberes das diferentes culturas” (RECIFE, 2012, p. 28).
Para tal, a política de ensino propõe que a educação no Recife se organize sobre os eixos e princípios da escola democrática, da diversidade, da cultura e meio ambiente,
traduzidos na construção de experiências democráticas de gestão escolar23 nas unidades de ensino, no planejamento coletivo de projetos, no contato com a comunidade onde a unidade escolar está inserida, incluindo na organização curricular os temas das relações étnico- raciais,24 orientação sexual, justiça de gênero, cidadania ambiental e planetária. Nesse sentido, a política de ensino entende que esses princípios, eixos, práticas e conteúdos devem orientar as discussões em cada unidade educativa para a elaboração/revisão de seu Projeto Político- Pedagógico (RECIFE, 2012).
No que concerne às práticas educacionais, além da escola, são enfatizadas as pedagogias culturais mais amplas, como mídia, indústria cultural e tecnologias da informação, como também a importância do diálogo entre os conteúdos de ensino, a cidade e o entorno da escola, como “forma de interação que favorece a construção da identidade cultural, tomando como referência as experiências nos diversos espaços que constituem a cidade, o bairro, a comunidade” (RECIFE, 2012, p. 124). No referido documento, o conceito de cidadania proposto refere-se a uma cidadania planetária, conectada com as questões globais e do meio ambiente, com ênfase na educação ambiental e na ecopedagogia, na formação humana voltada à emancipação das pessoas e na atenção integral ao cidadão e seu território.
Com a finalidade de identificar se as escolas participantes desta pesquisa encontram-se alinhadas a essas orientações, realizamos a análise dos documentos entregues pelas escolas como seu projeto político-pedagógico. Em uma das escolas, o documento é sucinto e não está concluído; na outra, é uma junção desconectada de diferentes documentos. Apesar disso, o exame de ambos permitiu também aprofundar o conhecimento acerca da identidade da escola e da formação que pretende e planeja garantir a seus estudantes, atentando, especialmente, para a presença em cada documento de práticas que promovam os direitos humanos.
O projeto político-pedagógico de 2015 da Escola da Comunidade traz em seu bojo princípios e valores consoantes à educação em direitos humanos. O documento faz referência à integração da escola com a comunidade, por meio do conhecimento acerca da realidade de seu entorno, participação das famílias nos eventos, e a consequente diminuição das pichações nas instalações físicas da instituição de ensino em virtude dessa maior integração. A gestão democrática é também um dos princípios norteadores mais valorizados no referido projeto,
23 Apesar de no documento se falar em “experiência de gestão democrática”, já transita na Câmara Municipal do
Recife, enviado pelo Executivo municipal, o Projeto de Lei n.º 42/2015, que prevê o fim das eleições diretas e a volta das indicações para os cargos de diretores de escolas municipais integrais e semi-integrais.
24 No âmbito da Secretaria de Educação, Esporte e Lazer do Recife, dois grupos foram criados para garantir que
o currículo trabalhe as temáticas das relações étnico-raciais, de gênero e orientação sexual: o Grupo de Trabalho em Orientação Sexual (GTOS), desde 1994, e o Grupo de Trabalho em Educação das Relações Étnico-Raciais (GTERÊ), criado em 2006 pela Portaria n.º 489.
citando-se o Conselho Escolar e a simulação de eleições entre os estudantes sobre a importância de votar por meio de critérios preestabelecidos. Mesmo assim, com a gestão democrática enfatizada no projeto político-pedagógico, no processo de elaboração do documento e na gestão em si, não são especificados os instrumentos que possibilitam a democratização da gestão em relação aos alunos, tais como participação individual ou em grupo, plenárias, fóruns, grêmio estudantil, etc. Por fim, o referido projeto contempla processos de autoavaliação periódicos.
A Escola da Avenida não dispõe de um projeto político-pedagógico sistematizado, no entanto, é possível identificar características e intenções da escola nas informações disponíveis nos documentos existentes.25 No documento, a unidade escolar valoriza a importância dos processos decisórios coletivos por acreditar que as decisões partilhadas contribuem para a formação de pessoas mais responsáveis e comprometidas. Todavia, não são detalhados os instrumentos que viabilizam a democratização da gestão e a forma de constituição da comissão de elaboração do projeto político-pedagógico. O diagnóstico chama a atenção para a existência de depredação de equipamentos e ambientes da escola apesar de ter 32 câmeras de vigilância instaladas, além de ressaltar que a participação dos pais nas atividades promovidas no ambiente escolar é insatisfatória.
Ambas as escolas têm previstos em seus cronogramas e planos de trabalho os conteúdos privilegiados pela política de ensino da rede municipal, a exemplo da diversidade cultural, de gênero e relações étnico-raciais.
De igual relevância, são as informações contidas nos documentos viabilizados pela ONG AdoleScER,26 em seus relatórios pedagógico e de avaliação social. O AdoleScER trabalha na comunidade desde 2000 com crianças entre 9 e 11 anos de idade, tendo a escolha dessa faixa etária sido orientada pelo fato de que, de acordo com teorias de desenvolvimento infantil, a criança começa a adquirir nessa fase maior independência de raciocínio e capacidade de se colocar no lugar do outro. Com o objetivo de promover a cultura de paz e reduzir a violação dos direitos da criança e do adolescente por meio do fortalecimento do protagonismo infanto-juvenil, o projeto da ONG denominado CriaPaz27 utiliza atividades lúdicas e artísticas envolvendo valores humanos e a questão da cooperação e afetividade para
25A solicitação do Projeto Político-Pedagógico à escola foi atendida por meio de um conjunto de documentos,
compostos por fragmento de um projeto Político-Pedagógico sem data, somado ao Plano de Gestão para o Triênio 2014-2015-2016.
26 As informações detalhadas acerca do AdoleScER são apresentadas pelo fato de a atuação dessa ONG referir-se
à educação não formal realizada em sua sede e no âmbito da Escola da Comunidade.
27 O Projeto CriaPaz é também realizado em outras três comunidades do Recife, e tem sedes comunitárias em
trabalhar módulos temáticos como meio ambiente, alimentação saudável, história das habitações, relações de gênero, bullying, direitos da criança e do adolescente (GRUPO ADOLESCER, 2014b).
Além dos componentes curriculares, o Projeto CriaPaz trabalha o cuidado com o ser, por meio de atividades organizadas em três eixos centrais: o cuidado consigo, com o outro e com o meio ambiente, possibilitando oportunidades de autoconhecimento e percepção do outro. No relatório pedagógico, enfatiza-se que as atividades de cuidar do ser atuaram sobre o comportamento das crianças no projeto, recordando que as crianças chegaram à instituição “agressivas, dispersas, agitadas, sem controle dos seus sentimento e emoções e, ao fim do projeto, se mostraram atenciosas, menos agressivas e exacerbadas” (GRUPO ADOLESCER, 2014b, n. p).
Conforme Relatório de Avaliação Social elaborado por consultoria externa (GRUPO ADOLESCER, 2015), as crianças disseram que a possibilidade de realizar aulas-passeios, atividades lúdicas, como banho de piscina e a curiosidade em relação a novas atividades funcionaram como motivadores para participarem do Projeto CriaPaz. Em seus relatos, a maioria das crianças afirmou que aprendeu “coisas diferentes”, passou a compreender a temática do trabalho infantil, demonstrou estar informada sobre o uso adequado das redes sociais, expressou o tema bullying como de grande importância na ressignificação das relações com colegas e vizinhos, e afirmou que os conteúdos abordados relacionavam-se com sua vivência cotidiana, detalhando que aprendizados como economizar água, separar e colocar o lixo nos locais adequados foram transmitidos ao núcleo familiar.
Ainda de acordo com relatório pedagógico (GRUPO ADOLESCER, 2014b), a parceria estabelecida com a Escola da Comunidade, por meio do Projeto CriaPaz, possibilitou que a ONG AdoleScER realizasse, ao final de cada módulo temático, atividade de multiplicação na escola , junto aos 4º e 5º anos do ensino fundamental, ressaltando-se que tanto a coordenação da escola quanto professores se mostraram abertos e interessados pelo projeto, sendo as crianças que participavam do CriaPaz positivamente reconhecidas pela comunidade escolar.