7.3. ALTERNATIVAS PARA VENCER A DESINFORMAÇÃO
7.3.1. Reflexão como meio de construir conhecimento
A velocidade com que a informação circula na Internet a torna um dos principais meios potenciais de informação e desinformação. Porém, como dito anteriormente, informação não é conhecimento. Sua construção exige o envolvimento de quem recebe a informação. Todavia, nota-se que há ausência de reflexão sobre o que se lê.
Se antes não se contava com liberdade de escolha devido a impossibilidade de acesso à informação, hoje o excesso de informação tem aprisionado a sociedade na obrigação de saber sobre tudo. Tal imposição força as pessoas a estarem conectadas o tempo todo e as impedem de realizar uma análise reflexiva sobre o que é transmitido. Dizer que cair em notícias falsas é comum apenas em pessoas de pouca formação é um tanto quanto preconceituoso. A verificação de informações não é uma tarefa fácil: exige habilidades como conhecer fontes confiáveis e saber realizar pesquisas, além de, claro, ter tempo suficiente para isso.
A grande quantidade de informação e o acesso a elas não é capaz de causar transformações se não houver reflexão. Ortega y Gasset chega a dizer que:
Já há livros em demasia. Mesmo reduzindo bastante o número de temas a que cada homem dedica sua atenção, a quantidade de livros que ele precisa absorver é tão gigantesca que supera os limites de seu tempo e sua capacidade de assimilação. (ORTEGA Y GASSET, 2006, p. 40).
Karnal (2016) observa que a quantidade de informações aumentou, mas o período de aprendizagem continua sendo o mesmo. Segundo ele, a internet, erroneamente, criou a ideia de que não é preciso se esforçar para aprender. O acesso à informação não significa formação. A assimilação e construção do conhecimento exige tempo. Cortella (2015) chega a defender o ócio, uma vez que a falta dele impede a reflexão. Ortega y Gasset, por sua vez, defende que por ter que ler muito, se lê as pressas e se lê mal, gerando no individuo uma sensação de impotência e fracasso (2006, p. 400):
[...] (os livros) são produzidos de modo constante e em abundância torrencial. Muitos deles são inúteis ou estúpidos, e sua existência e conservação constituem um lastro a mais para a humanidade, que já anda excessivamente curvada sob o peso de outras cargas. Ao mesmo tempo, em todas as disciplinas, com frequência, é sentida a falta de certos livros cuja ausência prejudica o avanço das pesquisas.
[...] É incalculável quantas soluções importantes sobre as questões mais diversas não chegam a amadurecer porque tropeçam com lacunas em pesquisas anteriores. (ORTEGA Y GASSET, 2006, p. 43).
Apesar do tom de controle sobre a informação produzida, Gasset demostra que sua preocupação se deve aos problemas enfrentados pela sociedade, a qual deveria podar tudo o que não tivesse mais utilidade para se superar da angústia cultural.
Gasset também acredita que não demoraria muito para que se visse a necessidade de gerir tanta informação. Ao escrever sobre a missão que o bibliotecário deveria cumprir, o filósofo espanhol acredita que chegaria um momento de regular a produção do livro:
Será demasiadamente utópico imaginar que em futuro não longínquo vossa profissão (bibliotecário) será incumbida pela sociedade de regular a produção do livro, a fim de evitar que se publiquem os que forem desnecessários, e que, em compensação, não faltem aqueles que são exigidos pelo conjunto de problemas vivos de cada época?
[...] Parece-me [sic] que chegou a hora de organizar coletivamente a produção do livro. Para o próprio livro, como modo humano, é uma questão de vida ou morte. (ORTEGA Y GASSET, 2006, p. 43-44).
Apesar da referência constante a livros, essa ideia pode ser aplicada perfeitamente a todo meio que contenha informação. Seria radicalista o pensamento de Gasset ou a sociedade está vivendo também na era do relativismo? Não cabe a este trabalho dissertar no campo filosófico sobre o que é a verdade, mas a relativização acabou com o certo e o errado e leva a pensar se a liberdade de expressão deve ter seu espaço ainda que atente contra o intelecto e as ideias já dominantes. Ortega y Gasset pensa que não e defende a reflexão sobre o que lemos:
A liberdade não surgiu no planeta para garrotar o senso comum.
Porque alguns quiseram empregá-la com essa finalidade, porque pretenderam dela fazer o grande instrumento da insensatez, é que a liberdade está atravessando no mundo um mau momento. [...] Hoje em dia, lê-se demais: a comodidade de poder receber com pouco ou nenhum esforço inumeráveis ideias armazenadas nos livros e periódicos vai habituando o homem, já acostumou o homem comum, a não pensar por sua conta e a não repensar o que lê, única maneira de se apropriar verdadeiramente do que leu. (ORTEGA Y GASSET, 2006, p. 44-45).
A ausência de reflexão se aplica perfeitamente quanto a leitura de informações pela Internet. São muitas notícias e postagens intermináveis nas timelines. A angústia de não ter conhecimento sobre os fatos é constante e a correria do dia a dia impede que haja tempo para o senso crítico.
Boa parte dos terríveis problemas públicos hoje existentes procede do fato de a cabeça do homem comum estar abarrotada de ideias recebidas por inércia, compreendidas pela metade, desvirtualizadas – abarrotada, portanto, de pseudo-ideias. (ORTEGA Y GASSET, 2006, p. 46).
Em sua época, Ortega y Gasset (2006, p. 52) observou que a produção do livro estava buscando fins comerciais e status social e então “começou a fabricação do falso livro, de objetos impressos que se aproveitam do fato de terem uma aparência que se parece com a do verdadeiro livro.” Hoje isso acontece com a construção de páginas e blogs. Com o advento dos nômades digitais produtores de conteúdo, informações que pouco agregam e com intuito apenas de remunerar o autor por meio do Google Adsense podem aumentar ainda mais essa explosão informacional. A impressão é que todos devem ter uma página na Internet. Como a própria Wix.com afirma: “todo mundo precisa ter um site”. Mas será que todos estão letrados para filtrar o que importa? Para pessoas vulneráveis informacionalmente, a frase “se está na Internet, então é verdade” faz todo o sentido. E o que ainda é pior, sem refletir sobre as informações as quais tem acesso, poderão ser porta-vozes de mentiras ao compartilhar seus pseudoconhecimentos nas redes sociais. Ortega y Gasset ao citar Platão, notou o quanto tal pensamento se mantem atual:
Quando não se faz isso, quando se lê muito e se pensa pouco, o livro é um instrumento terrivelmente eficaz para a falsificação da vida humana: ‘confiando os homens no escrito, acreditarão compreender as ideias, e assim as tomam por sua aparência, graças a indícios exteriores, e não a partir de dentro, por si mesmos [...] Abarrotados de supostos conhecimentos, que não adquiriram de verdade, julgar-se-ão aptos para julgar tudo, quando, a rigor, nada sabem e, ademais, ficarão insuportáveis porque, ao invés de sábios, como se imaginam, serão apenas carregamentos de frases’. Assim falava Platão há vinte e três séculos.” (ORTEGA Y GASSET, 2006, p. 56).
Devido a falta de credibilidade das informações publicadas em livros, jornais e pela mídia, a aura de importância dos fatos se perdeu. A desinformação é tamanha que exige de todos um maior empenho na busca pela verdade. Foi com esse intuito que a busca pela qualidade da informação, os múltiplos letramentos e a checagem de informação por meio do fact-checking, tem buscado maneiras de construir uma sociedade capaz de buscar e identificar informações confiáveis.
7.3.2. Letramentos: o papel do letramento informacional, midiático e científico