• Nenhum resultado encontrado

Reflexão sobre o estágio em Neonatologia

Reflexão sobre o estágio na Neonatologia

No âmbito do Estágio com Relatório decorrido entre 25 de Novembro e 19 de Dezembro de 2013, surge o presente documento de síntese reflexiva sobre as atividades desenvolvidas em contexto de Neonatologia.

Como início de reflexão partilho a sensação algo claustrofóbica, que tive quando iniciei o estágio no espaço desta unidade neonatologia. É um local pequeno, cujos cuidados, em open space se confinam a uma única divisão, onde estão vários RN, pais, enfermeiros, assistente operacional, médicos e, por momentos, juntam-se assistente técnico, técnico de exames auxiliares de diagnóstico e avós. É um sentimento referido de modo geral por toda a equipa, que se vai adaptando de modo a não intervir negativamente nos cuidados de enfermagem, isto é, salvaguardando a privacidade, a confidencialidade e a individualidade nas intervenções de enfermagem e dos restantes profissionais. Durante a passagem de turno de enfermagem, é frequentemente necessário que os pais se ausentem do serviço, porque não é possível garantir de outra forma a confidencialidade das informações, assim como quando há necessidade de falar com algum pai com privacidade acrescida, ter que sair da unidade para um gabinete ao lado, sem a presença também do RN, porque faria alarmar a pulseira de segurança existente, mas que é a opção possível.

A missão deste serviço enquadra-se nos valores do hospital que incluem o respeito pela dignidade e bem-estar da pessoa, desenvolvimento humano, competência, inovação e responsabilidade, e preconiza os cuidados centrados na família, segundo o modelo de parceria de cuidados de Anne Casey. Neste sentido, integrei a equipa multidisciplinar, observando e participando ativamente nas intervenções de enfermagem ao nível do, muito valorizado empowerment familiar, contribuindo para o meu objetivo específico de aquisição de competências de planeamento e intervenção face ao RN e pais com necessidades específicas de saúde.

A relação que procurei estabelecer com os pais e RN, baseou-se na valoração da comunicação e interação com os pais, promovendo o desenvolvimento

da parentalidade e da vinculação entre pais e RN, através da orientação, apoio, demonstração, e supervisão nos cuidados ao RN. As necessidades individuais entre pais foram diversas e diferentes, quer pela situação clínica de cada RN, quer pelas capacidades individuais de cada um, e neste sentido procurei adequar as minhas intervenções de modo individualizado e nem tanto em grupo, embora, por exemplo, quando estou a demonstrar a algum pai o funcionamento da cadeira de retenção do bebé, efetuando os cuidados antecipatórios na questão da segurança, o faça de modo a todos poderem participar, observando e questionando.

Ao nível dos cuidados ao RN, desenvolvi competências de atuação, no âmbito da sua especificidade, por exemplo, cuidar o RN no berço ou na incubadora, orientar os momentos para a menor manipulação possível, valorizando os períodos de descanso, e avaliando e intervindo com base na sua resposta comportamental.

Algumas experiências revelaram-se bastante positivas, do ponto de vista da utilização de estratégias para promover o contato físico entre pais e RN, por exemplo, encontrar o melhor momento, mais adequado e não prejudicial, para que o RN que se encontra dentro da incubadora, poder sair por momentos e “aninhar-se” no colo do pai, pela primeira vez; sendo um processo refletido, de tomada de decisão, autónoma, no momento certo, em benefício daquela família.

Um dos momentos que considerei de crucial importância nos cuidados e ao mesmo tempo de grande sensibilidade, foi o do acolhimento aos pais na unidade que, infelizmente, nem sempre verifiquei ser possível o acompanhamento na primeira visita. A primeira imagem do seu filho na incubadora e na unidade, é sem dúvida assustadora e este é um momento crucial para a elucidação sobre a situação do bebé, mesmo antes de o verem, assim para o apoio emocional e promoção da esperança, num momento em que as expetativas anteriores de um RN saudável ficaram perdidas.

As atividades de enfermagem nesta unidade articulam-se com as atividades de outros profissionais. Pela posição central que ocupa, o enfermeiro é o elo dinamizador entre todos no sentido de identificar, intervir e avaliar as redes de suporte das famílias e encaminhá-las para outros profissionais que as possam

ajudar. Um exemplo de atividades que efetuei neste sentido foi numa situação em que o RN internado tinha nascido no domicílio. Tratava-se de uma mãe que apresentava sinais de depressão, que não procurou assistência médica para o parto. Para além de prestar cuidados de enfermagem específicos ao RN, avaliar e promover as capacidades da mãe para os cuidados ao RN e vinculação entre eles, articular com o serviço social e de psicologia, confirmando a sinalização do caso, e identificar a rede de suporte familiar, que neste caso eram os avós maternos, foi efetuada a referenciação para o centro de saúde, e marcada a consulta de saúde infantil precocemente.

No domínio das competências comuns do enfermeiro especialista, e na promoção da qualidade dos cuidados de enfermagem, elaborei em colaboração com a enfermeira de referência, uma “instrução de trabalho” sobre a avaliação, alívio, controlo não farmacológico da dor no RN. Esta opção deveu-se à identificação de esta necessidade da equipa de enfermagem, para a normalização dos procedimentos, que observei serem frequentemente efetuados (refiro-me às intervenções não farmacológicas na dor), mas de forma heterogénea, e neste sentido, permitir uniformizar procedimentos, identificar e justificar critérios e modos de atuação segundo as mais recentes orientações da DGS.

No que respeita ao segundo objetivo do meu projeto, direcionado ao atendimento aos pais adolescentes, optei por questionar os enfermeiros do serviço sobre as diferenças e especificidades no atendimento aos mesmos em relação a pais mais velhos, uma vez que durante o decorrer do estágio, nenhum dos pais era adolescente. As respostas incluíram aspetos como maior necessidade de atenção, maior expressão das emoções (pelo choro, verbalização de sentimentos), necessidade de reforço nos “ensinos” e também mais orientação no comportamento a adotar dentro da unidade, confirmando que o atendimento ao adolescente não pode ser desvalorizado.

31 de Dezembro de 2013 Maria Inês Pereira Serrão