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CAPÍTULO 5 – PERFORMANCES

5.3 Reflexões e análise sobre as práticas musicais da CMOL

Através de nossa observação participante tanto nos ensaios quanto nas performances e pelo material histórico e documentação, vimos que a Corporação Musical Operária da Lapa, ao longo de sua existência, sempre se apresentou tanto em ambientes fechados como em ambientes ao ar livre (coretos, praças, festas de rua, procissões, blocos carnavalescos, etc.). Performances em ambientes ao ar livre se definem, fundamentalmente, como contextos públicos e participativos onde o grupo se apresenta de pé e parado, ou, mais frequentemente, caminhando. Os músicos tocam “de memória” ou com auxílio de uma lira64

acoplada ao instrumento. Executam dobrados, marchas, música religiosa e marchinhas. Já os contextos em ambientes fechados (teatros, escolas, salas, centros culturais, shoppings, igrejas, etc.) são normalmente performances apresentacionais65 ou apresentacionais

com dimensões participativas66. Em algumas dessas ocasiões a banda se apresenta com traje formal, (uma jaqueta branca com epaulet azul e gravata) e toca sentada, utilizando estante e partitura. Por outras vezes, utiliza o seu característico quepe, que lhe dá um aspecto mais militarizado. Habitualmente, também nestas performances, o repertório contém dobrados, além de arranjos de outras músicas como música pop, música “erudita” e música brasileira.

Sobre essa questão, do repertório, é necessário destacar que a flexibilidade na circulação de diferentes repertórios vem permitindo que a banda continue sendo convidada a atender contextos e coletividades que a consideram apta para tal objetivo. Esse papel com o público, formato definido e até certo ponto imutável, Trevor Herbert (2013, p. 33-34) chamou de “Domínios da Performance”. Segundo o autor, um domínio da performance existe quando uma tradição de fazer musical é estabelecida (2013, p. 46). Para ele, as bandas britânicas (British brass bands), e aqui as bandas de música brasileiras, ao longo de suas trajetórias, ocuparam, ou aprenderam a ocupar, um espaço determinado, definido principalmente, pela sua forma de execução e, consequentemente pela sonoridade. Além desses conjuntos manterem uma continuidade de suas atividades, tornaram-se impermeáveis à mudança idiomática. Isso

64 Cf. Nota de rodapé p. 41. 65 TURINO, 2008.

significa também que a forma básica da banda de música, ou, como o autor prefere expressar, sua musical make-up, é perdurável ou constante.

O autor complementa ainda que, de alguma forma, um domínio de performance deriva de um legado e é capaz de, por exemplo, manter sua identidade enquanto passa por momentos de mudança ou absorção de novo repertório. É justamente por causa de repertórios novos que, o grupo, mesmo com formato fechado, se mantém “novo” ou relevante para a vida contemporânea.

Uma banda de música detém um domínio de performance, quando tem basicamente três características: sonoridade definida que é o produto histórico delegado; um respeito compartilhado pela formalidade musical e um nível de valores autossuficientes (exclusividade na qual ações particulares e processos culturais e musicais prevalecem) [...] (HERBERT, 2013, p. 49-50, tradução nossa).

O autor reconhece ainda, que a prática de banda (banding) é uma atividade exclusiva e autossuficiente, capaz de influenciar modelos diferentes manifestados em várias regiões do mundo. Essa característica notável, está presente na Corporação Musical Operária da Lapa. O grupo, como percebemos, atravessou os anos desempenhando “serviço” às suas comunidades. Seu formato básico com instrumentos de sopro (metais e madeiras) e percussão, o som característico desses instrumentos, o repertório à base de marchas e dobrados, ou o repertório adaptado à sua instrumentação, o traje que imita o uniforme militar, ou ainda o traje social, a montagem (disposição) dos instrumentos e a sua própria aparência, são praticamente as mesmas desde seus primórdios.

Alguns músicos, como vimos pelos depoimentos, queixaram-se dessa “falta de mudança”. No entanto, isso vem a sugerir que, se a Corporação sair desse formato, que é definido/fechado como destacou Trevor Herbert (2013) em relação a todas as brass bands, pode ser que deixe de existir. Se, por exemplo, instrumentos que originalmente não pertençam à formação original de uma banda de música, como guitarra elétrica ou teclado elétrico, forem inseridos, ela se altera, ou perde seu “formato definido”. Não é possível imaginar, por exemplo, um dobrado com sons sintéticos. E as igrejas e paróquias que convidam a Corporação para preencher e conduzir suas procissões, necessitam da sonoridade autêntica de banda de música. Isso, em especial, conecta-se com uma prática estabelecida; entretanto, é exatamente sua instrumentação acústica que a habilita para contextos e manifestações públicas ao ar livre. Não há necessidade de caixas de som, nem eletricidade. Mas este é apenas um exemplo de que a banda de música pode ser o grupo musical ideal para contextos ao ar livre: “bandas se

apresentam em espaços públicos e sempre se apresentarão. Uma das características que as distingue de outras formas de fazer musical é que elas começam e continuam a prosperar como formas públicas de fazer musical” (HERBERT, 2013, p. 53, tradução nossa). Ora, com isso queremos argumentar que, para a banda da Lapa, a performance em uma procissão, por exemplo, que é um contexto público, funciona tão positivamente, exatamente devido ao seu formato.

Percebemos com tudo isso, que a banda de música funciona como uma instituição de transferência. Transferência de gêneros, estilos, ritmos, etc. É aí que a diferença entre o popular e o “erudito” fica mais diluída. Esse formato também nos remete ao outro lado das práticas da Corporação: a definição de que o conjunto é uma comunidade de prática. Como mostramos nos tópicos “3.2 Perfil dos músicos” e “4.2/4.4 Dinâmicas/Temas dos ensaios”, a banda tem um papel e um significado para seus membros. A questão da velhice que abordamos na introdução é o ponto a ser destacado, visto que a maioria dos músicos estão em uma fase de suas vidas onde o contato e o vínculo com outras pessoas e “o algo para se fazer” são importantes para o processo de envelhecimento de cada um. Perguntamos ao Sr. Haroldo Aleixo67, eufonista da Corporação há mais de quinze anos, se ele se lembrava de alguma história

ou “causo” que tinha vivido na banda. Seu Haroldo respondeu sem jeito, timidamente: “não... O legal é estar aqui! Às vezes a esposa pergunta, “ganha alguma coisa”? Não... Mas é a amizade.... O ambiente... E a gente acostuma também, se habitua... E quando chega no dia do ensaio...”.

Bernard Lehmann (apud CASTRO, 2009) ao descrever os “estilhaços” da orquestra, apontou que muitos instrumentistas de orquestra sinfônica fazem atividades musicais paralelas (formam conjuntos de câmara, tocam em grupos de jazz, se apresentam com músicos populares, etc.), não só pela necessidade de complementar a renda, evidentemente, mas para escapar de um trabalho hierarquizado, rotinizado, isto é, fazer uma atividade musical descompromissada, desinteressada. Ora, podemos indagar: o quanto tem valor essa atividade desinteressada, na banda da Lapa? A maioria das “lembranças” e relatos dos recordadores mostraram que as atividades na banda, ensaiar e se apresentar, são o que cada músico considera de mais importante, juntamente com suas famílias, em suas vidas. O ritual de ir à Lapa, ver os colegas, conversar com os colegas, montar o instrumento, tocar o instrumento, fazer novas leituras de músicas desconhecidas, além de se arrumar para um concerto, tocar e ser aplaudido por um público, denotam que os interesses estão compartilhados e os vínculos estão

estabelecidos. Ou seja, a prática musical na banda é o que traz lucro. Não lucro material, mas lucro em estar vivo, lucro em realizar algo agradável, lucro em sentir-se bem; ou seja, é uma necessidade, contudo, descompromissada.