Ao analisarmos os dados das escolas rurais, constatamos que o surgimento do Movimento Por uma Educação no Campo, na década de 1990, e a criação da Coordenação-Geral de Educação do Campo, no Ministério da Educação, há cerca de 10 anos, destinada ao desenvolvimento das políticas de ‹‹educação do campo››, foram inócuos. Considerando que as políticas públicas educacionais continuaram a privilegiar o ‹‹treinamento profissional rural››, não verificamos nenhuma política pública consistente de investimentos e valorização da educação rural, e nem atestamos nenhuma iniciativa capaz de barrar ou interferir no processo de extinção das escolas rurais. O resultado foi que o processo de extinção das escolas rurais manteve o seu curso, pois constatamos que entre os anos de 1996 e 2014), ou seja 18 anos, 206.358 escolas rurais foram extintas, o que corresponde a 75% das que existiam no ano de 1996. Após 15 anos de existência do Programa Escola Ativa (1997 até 2012), o Ministério da Educação decidiu extingui-lo, negligenciando todas as avaliações das entidades internacionais e sem ouvir os prefeitos, os secretários estaduais e municipais de educação, as coordenadoras, as professoras e as comunidades rurais envolvidas. Eles não consideraram que naquele ano existiam 74.112 escolas rurais e 93.493 turmas multisseriadas (INEP, 2012), e que o Programa Escola Ativa era a única política pública educacional destinada ao atendimento destas escolas; e que ele foi uma das poucas políticas que já existiram sem estar em consonância com os paradigmas hegemônicos do ‹‹treinamento profissional rural›› (Bordenave & Werthein, 1981).
No ‹‹contexto de influência›› nacional no processo de extinção do Programa Escola Ativa, realizamos uma entrevista aberta com o Diretor de Políticas de Educação do Campo, Indígena e para as Relações Étnico-Raciais, o qual afirmou que, quando assumiu o cargo, no ano de 2013, o Ministério da Educação já estava migrando para o programa que ainda estava em processo de criação, denominado de Escola da Terra. Ele disse que o informaram que a decisão para o encerramento das atividades do Programa Escola Ativa visou atender as reivindicações dos movimentos sociais.
Esta informação do diretor do Ministério da Educação foi confirmada durante a análise das Notas Técnicas n.º 2 e nº 93, de 2012, do Ministério da Educação, que estabeleceram o encerramento das atividades do Programa Escola Ativa. Elas salientaram que esta decisão foi fundamentada em reuniões técnicas, ocorridas no ano de 2011, destinadas a instituir a política de educação do campo. Verificamos que o manual ‘Educação do Campo: Guia de Livros Didáticos PNLD Campo 2013 – Ensino Fundamental - Anos Iniciais’, do Ministério da Educação, definiu que o
Movimento da Educação do Campo é uma ação protagonizada por “suas organizações sociais e sindicais e das organizações criadas no contexto da luta pela Educação do Campo destaca-se o Fórum Nacional da Educação do Campo - FONEC” (MEC, 2012d, p. 10).
Assim, optamos por analisar a Nota técnica sobre o Programa Escola Ativa: uma análise crítica, do Fórum Nacional de Educação do Campo - FONEC, de 2011. Observamos que esta Nota demostrou sérias deficiências na fundamentação teórica; criticou o Programa Escola Ativa por possuir uma metodologia fundamentada “no ambiente pedagógico favorável à aprendizagem, centrado no aluno e na não-diretividade pedagógica. O professor é um facilitador da aprendizagem. O conteúdo é flexível e deve ser priorizado o estudo da realidade em que os alunos estão inseridos” (FONEC, 2011, p. 6). Em contrapartida, ele defendeu explicitamente os paradigmas das escolas tradicionais, ao afirmar que tais ideias têm como consequência “o esvaziamento do conteúdo clássico na escola e a não-elevação do pensamento científico dos alunos” (FONEC, 2011, p. 6).
A nota técnica do FONEC criticou o Programa Escola Ativa por ferir a autonomia universitária e a “não presença dos Movimentos de Luta Social do Campo” (FONEC, 2011, p. 10). No entanto, ele desconsiderou que a Constituição Federal atribuiu aos “municípios a atuação prioritária no ensino fundamental e na educação infantil” (Constituição Federal, 1988, Artigo 211). O FONEC reivindicou que a questão das lutas sociais pela reforma agrária passasse a ser conteúdo obrigatório nas escolas rurais, ignorando o princípio do “pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas” (Constituição Federal, 1988, Artigo 206). Um dos autores, que fundamentou esta nota técnica do FONEC, reverenciou ‹‹a guerra e o terrorismo›› e sugeriu que o hino do MST fosse ensinado nas escolas rurais. Paulo Freire alertava sobre este tipo de discurso, salientando que:
O que está superado não é o discurso ideológico, mas o ‹‹fanático››, o discurso inconsequente, repetidor de clichês que jamais deveria ter sido pronunciado. O que está ficando cada vez mais inviável, felizmente, é a incontinência verbal, o discurso que se perde numa retórica cansativa que sequer possui sonoridade e ritmo. (Freire, 2001, p. 94)
Verificamos que a Nota Técnica do FONEC ressaltou que, no ano de 2008, existiam 51 mil escolas com classes multisseriadas e 3.106 municípios brasileiros sendo atendidos pelo Programa Escola Ativa, e que, no ano de 2010, “o atendimento passou para 39.732 escolas e 1.321.833 alunos de classes multisseriadas situadas em todo território brasileiro” (MEC, 2010, p. 17). Negligenciando esses dados e sem ouvir os dirigentes municipais e educacionais, as coordenadoras, as professoras, as crianças e as comunidades rurais, o FONEC reivindicou o encerramento das atividades Programa Escola Ativa, sem se preocupar que as escolas rurais iriam ficar sem as migalhas que recebiam do Ministério da Educação.
A entrevista como o Diretor do Ministério da Educação, com os prefeitos, com a Secretária da Educação de Goiás, com as coordenadoras, com as professoras e a análise do Relatório de encerramento do Programa Escola Ativa (SEE, 2012) nos levou a concluirque: o Ministério da Educação extinguiu a única política pública educacional, que já existiu destinada ao atendimento de mais de 74 mil escolas rurais multisseriadas (INEP, 2012), sem ter outra política pública educacional para substituí-la. Dessa maneira, estas escolas e as pequenas comunidades rurais foram condenadas ao total estado de precariedade, abandono e constante ameaça de iminente extinção.
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