Pretendo, aqui, abandonar as referências bibliográficas e os principais elementos de uma escrita dita acadêmica”, para trazer algumas reflexões sobre o racismo ambiental, partindo do meu lugar no mundo, das minhas escolhas em relação ao meu direcionamento de saberes, e aos recortes que, em um cis-tema tão perverso, influenciam na definição da vida – ou morte, simbólica e/ou física – de quem, de alguma forma, se encaixa em dissidências.
Para quem teve a oportunidade de trilhar uma vida acadêmica – sobretudo nas ciências naturais – não é necessário muito esforço para, ao revisitar o passado, perceber que as bases que orientaram e ainda orientam a maioria dos cursos de nível superior são fundamentadas em uma ciência europeia, repleta de determinantes, jogos de poder e julgamentos de cosmovisões que sequer podem ser analisadas sob as mesmas perspectivas que orientam o mundo ocidental. Nos últimos anos, tenho percebido movimentos de fissura nesta ciência colonial, que revelam, de forma muito profunda, a reprodução de uma série de preconceitos, silenciamentos e egos que me fazem questionar: ciência para quê(m)?
Não questiono, aqui, avanços que contribuíram para o aumento e melhoria da qualidade de vida e reconheço, obviamente, a importância de estudos orientados aos mais diversos campos do conhecimento. A minha questão é sobre o quanto um processo histórico de apagamento e silenciamento de alguns corpos contribuiu para o não reconhecimento de algumas culturas; para o desdém relacionado às tecnologias ancestrais – que se mantêm vivas até os dias atuais; e para a ausência de discussões que questionam a posição social, o lugar e os impactos que um sistema colonial produziu e produz sobre corpos dissidentes. Não é à toa que, no Brasil, apenas há alguns poucos anos temos ouvido falar em termos como racismo ambiental;
necropolítica; justiça climática, entre outros.
Eu não vi nenhum desses conteúdos quando estive na graduação. Não ouvi falar sobre racismo. Em minhas aulas de educação ambiental, ouvia, apenas, que os impactos humanos causavam a degradação do meio ambiente, mas nunca discutimos sobre a relação que as populações tradicionais e originárias possuíam com a natureza, por exemplo. Cursei muitas disciplinas na área da botânica, mas pouco ouvi falar sobre quem eram os verdadeiros “guardiões” da floresta e das matas.
Ouvi falar sobre a desigualdade em relação ao saneamento básico, mas também ouvi falar que alguns grupos populacionais eram cruéis com a natureza porque se estabeleciam em locais como encostas e margens de rios. Hoje, me pergunto: será, mesmo, que foi/é uma escolha? Quem tem o poder de escolha neste mundo?
Sabemos a resposta.
Escrevo este texto em primeira pessoa – algo que a academia também me ensinou, durante muito tempo, que era errado – porque aqui eu escolhi abri mão de referências bibliográficas rebuscadas e validações
“científicas” para dialogar sobre o quanto o meu “eu”, que coincide com outros “eus”, está imerso em uma ciência com a qual eu brigo, todos os dias, para demonstrar que, sim, eu não sou imparcial, e, mais do que isso, o meu percurso de troca de saberes inclui, de forma íntima, o papel social que desempenho no mundo, e as cargas que o mundo lança sobre as minhas costas diariamente.
Diferente da branquitude cisheteronormativa, que não necessita reforçar a sua identidade, já que ela é amplamente validada mundo afora, eu sou atravessado por alguns marcadores sociais: remanescente quilombola, a minha mãe e os meus tios nasceram no quilombo de Boitaraca, situado no interior da Bahia, onde eu passei grande parte da minha infância e adolescência. Negro, percebi as nuances do racismo antes mesmo de saber que assim eram denominadas. O sentimento de não-encaixe nas rodas de socialização e a escassez de afeto eram permanentes em todos os lugares por onde eu trilhava, e, como muitos e muitas dos meus e
minhas, a gente cresceu com a certeza de que precisaria se destacar três vezes mais que as outras pessoas, para que pudéssemos, talvez – e nem sempre – ter o mínimo de reconhecimento. Periférico, percebi o quanto a escassez de recursos e equipamentos necessários à uma vida digna foram presentes em minha trajetória.
Homem trans, também percebo, diariamente, o quanto a sociedade me fez e ainda contribui para que eu pense que o meu corpo é errado ou que eu simplesmente não deveria existir.
Neste emaranhado de definições que constituem o meu eu, e depois de tantos percursos que não caberiam nestes caracteres, eu percebo o quão nós, corpos dissidentes, que possuímos conexões com os nossos próprios corpos e com o ambiente que nos cerca que se desviam dessas perspectivas normativas e padronizadas, somos afetados e empurrados para um limbo, uma margem, um lugar – físico e simbólico – que a sociedade reserva àqueles que constituem o principal alvo de uma política genocida e que exala necropolítica em todos os seus poros.
É por perceber todas essas nuances, que decido falar, partindo do meu lugar no mundo - da minha história e das experiências vividas pela minha família - sobre o racismo ambiental, que está conectado diretamente com os marcadores sociais que citei, e outros, nos quais eu não me encaixo, mas que pessoas que também são “empurradas” às margens estão colocadas, a partir deste jogo de poder que precisa ter, de forma muito bem definida, quais são os corpos que estão situados “da ponte pra cá”.
O racismo possui diversas nuances, mas o fato comum entre essas raízes é que elas convergem para a marginalização de pessoas apenas pelas suas características e pela noção que o ocidente criou de que há alguma superioridade em ser pertencente à branquitude. Essa marginalização é quem dita a dificuldade que temos em acessar os sistemas: seja o sistema educacional de qualidade; seja o sistema de moradias dignas;
capacitismo também limitam os acessos das pessoas a equipamentos e serviços de qualidade, e, como resultado, as estatísticas são nítidas: as favelas, periferias, calçadas e ocupações estão permeadas por essas populações, de quem os governantes e aqueles que ainda possuem o poder da decisão se esqueceram e se esquecem todos os dias.
Quem são as pessoas que moram em casas situadas sob rios? Quem são as pessoas expostas à altas probabilidades de doenças causadas por vetores de doença associados à má gestão de resíduos sólidos? Quem são os grupos populacionais responsáveis por grande parte da conservação e uso sustentável dos recursos naturais, mas que, em contraponto, são mortos e expulsos dos seus territórios diariamente? Deixo essa pergunta aqui para que você responda, e a resposta não é nem um pouco difícil de ser imaginada.
Essas reflexões eu não vivenciei na academia, mas, hoje, tenho encontrado força, junto às minhas irmãs e aos meus irmãos, para provocar um sistema que diz pensar o direito à cidade sem olhar para corpos dissidentes. Um cis-tema que atua de cima para baixo, definindo, todos os dias, quem deve morrer e quem deve viver. Um cis-tema que atua de forma silenciosa, suprimindo de muitas e muitos de nós o direito à alimentação saudável, à saúde, à vida. Um cis-tema que mata, mas que mata quem não se encaixam nele – ditos e ditas minorias, mas que representam a maioria, na realidade.
De onde vem a cura? Eu afirmo que a cura nunca virá do “centro”, ao menos que sejamos posicionados neste lugar. A cura vem das bordas. Das bordas da cidade, das margens e dos locais de onde eles temem se aproximar. A cura vem das matas e daquelas e daqueles que guardam os segredos mais profundos e entendem o real conceito de biodiversidade. Assim como uma ferida começa a ser cicatrizada a partir das suas bordas, a cura de um cis-tema que escolhe, como o seu principal mecanismo, a morte de quem está distante dele, vem do protagonismo de corpos que sempre foram postos em último plano.
A cura vem de nós.