Capítulo I Apontamentos teóricos
1.2 Reflexões sobre a exclusão social
A questão da exclusão social não é nova e a antropologia tem mostrado, desde seu início, como as diversas sociedades elaboram sua forma de existir, essa existência configurada em espaços sociais distintos, a elaborar formas de exclusão social que não se confundem com o problema da exclusão em sociedades da contemporaneidade. Pode- se mesmo afirmar que há uma constante antropológica quando o problema é a exclusão.
Evans-Pritchard (2002), em sua descrição e análise sobre a sociedade Nuer, nos mostra como clãs e linhagens têm nomes diferentes e possuem símbolos rituais variados, que servem para identificar e excluir, para organizar o corpo social e lhe
oferecer viabilidade. Todo universo social deve dividir-se em conjuntos etários ou de gênero, por exemplo, para funcionar. Esse processo cria a exclusão e a interdição de certos membros do grupo em relação aos outros. Neste caso não há, necessariamente, um aspecto negativo direto, é então o modo como os humanos estabelecem a sociedade, a organizam e observam certas cerimônias e rituais centrais às suas tradições.
Mead (2000), ao estudar três sociedades, procurando esclarecer questões sobre as diferenças sexuais, oferece-nos os modos como os Arapesh, os Tchambuli e os Mundugumor trabalham a questão da exclusão social. Analisando a sociedade Arapesh, diz que “se as mulheres são excluídas das cerimônias, é por causa delas próprias” (:41), é que no contexto dessa sociedade, os homens se esforçam para guardar segredos perigosos que tornariam suas esposas doentes e deformaria seus filhos recém-nascidos.
Os exemplos se multiplicam, o que vem a corroborar com a premissa de que a exclusão social é uma constante antropológica. Não há mundo social que não esteja fundado em algum tipo de divisão, forjando a exclusão necessária a sua reprodução social e cultural. A questão central aqui é que tal exclusão, recorrente em toda e qualquer sociedade, não cria diretamente a injustiça, a desigualdade econômica ou a pobreza material, antes ela encerra a ordem geral do sistema, definindo seus pilares por onde a vida diária pode ser vivida de maneira a não perturbar a solidez de suas instituições mais centrais e caras.
Para Zaluar (1997), a exclusão social, além do caráter vinculante do econômico ao político e ao social, tem por referências as fronteiras entre grupos e a lógica classificatória. Desse modo, qualquer sistema classificatório ou qualquer comunidade cria a exclusão. O que levaria então a indicar que a exclusão não é, diretamente, injustiça.
Pertencer ou não a um grupo étnico, a um grupo religioso, não desdobra-se em uma situação de injustiça, de falta material ou de carência relativamente aos outros grupos. A questão é que a exclusão como injustiça revela-se quando as pessoas são sistematicamente excluídas das benesses garantidos pelo Estado, como os direitos de cidadania.
A história do Brasil Colonial mostrou que nossos excluídos não se confundiam com os pobres, mas com os “outros” não reconhecidos como semelhantes: os índios e os escravos. As mulheres estiveram excluídas da vida pública grega, consideradas cidadãs de segunda classe. Foucault (1995) demonstrou bem os processos de sua criação e legitimação na Europa do século XVII.
Na Europa medieval, eram os judeus, os heréticos e os leprosos os principais objetos do processo de exclusão social (Geremek, 1987). Ricos ou pobres, eram sempre excluídos (daí a proximidade do conceito, com outro, o de estigma). A exclusão social, de uso tão corrente nos meios mediáticos, chegou a tomar conta de diversos debates no meio acadêmico brasileiro na década de 1990.
A exclusão social tornou-se moeda corrente para designar toda e qualquer forma de marginalização, discriminação, desqualificação, estigmatização ou mesmo a pobreza (Nascimento, 2000). Como categoria analítica vinda da França (Bourget & Nogues, 1992) foi utilizada inicialmente por Buarque (1993) em sua discussão sobre a apartação, que vem a ser um apartheid de feições bem conhecidas da imensa massa de excluídos do Brasil.
A exclusão social pode ser pensada como oposição à coesão social ou como sinal de ruptura do vínculo social, como trajetória de sucessivas e crescentes rupturas sem retorno. Diz respeito ao ato de excluir, de colocar à margem um determinado grupo social. É o processo social de não-reconhecimento do outro ou sua pura rejeição, como uma representação que tem dificuldades de reconhecer no outro direitos que lhes são próprios.
Para que se caracterize de fato uma exclusão social é preciso também que se estabeleça uma desnecessidade daquele que está em condições de inferioridade na hierarquia social (Nascimento, op. cit.). A desnecessidade no circuito econômico, porque geradora de custos com gastos em políticas públicas, e riscos, de segurança social, implica em ter os membros de certos estratos sociais como ligados às chamadas classes perigosas (Chevalier, 1984).
Uma interessante abordagem feita por Bursztyn (2000), chama a atenção para a questão da descartabilidade em processo no mundo globalizado. Para ele, o “sistema global produz pessoas descartáveis, que passam a viver do descarte do consumo” (:8). No contexto de cidades globais, estaríamos produzindo o descarte social, de maneira que o homem descartado, passa a viver na rua do descarte produzido pelo consumo, num imbricamento que certamente contribui para produzir contextos sociais onde a sobrevivência é conseguida a partir do que é o lixo (catadores de papel e lata, viradores, mendigos).
Tal imbricamento entre os rejeitos (físicos e humanos) é a face perversa de nossa sociedade, produzindo uma subumanidade que serve para reciclar o incremento produtivo de bens cada vez mais descartáveis, paralelamente ao aumento de pessoas sem emprego formal, vivendo de biscates e da reciclagem do lixo.
Não são vistos como nossos semelhantes, antes como homens e mulheres de qualidade inferior, uma subumanidade, ligeiramente bichos. A invasão dessas pessoas nas ruas nos incomoda justamente pela denúncia que sua condição miserável encerra. Para alguns, é preciso agir, limpar a cidade, escondê-los, trancafiá-los, exterminá-los. Certos setores retrógrados da sociedade, que mantém uma atitude xenófoba para com os moradores de rua, conspiram para que se forje uma atitude de enfrentamento, de limpeza, se necessário, e não raro ocorre, o extermínio.
Sem voz, sem dignidade, sem laços familiares; é o retrato da exclusão, em suas múltiplas dimensões. A segregação dos miseráveis que vivem na rua, estigmatizados e satanizados, produz então fraturas como o surgimento de grupos que saem pelas ruas para exterminar os indefesos que ali teimam em viver.
São os mendigos portadores de um defeito, à contagiar o corpo social, freiando o processo de acumulação, na medida em que ataca a ideologia que o sustenta, porque tornou-se, com sua prática subversiva de sobrevivência (antitrabalho e antiprodução), rebeldes contra a moral das “classes” dominantes.
A mendicância pode ser vista como produto de três formas de exclusão (Stoffels, Ibdem): a econômica, como resíduo descartado pela sua incapacidade de se atrelar ao sistema produtivo, uma esfera sócio-política, a configurar o pedido como desvio, passível de sansões e triagens pelos orgãos assistenciais ou repressivos, e a exclusão psico-social, que colocam os agentes da prática do pedido como doentes mentais, anormais e inúteis. Assim os mendigos “desintegram-se” do corpo social, vivendo parasitalmente em suas fronteiras.
Enfim, é a maneira perversa e desumana que os sistemas, inclusive os ditos democráticos, operam para manterem sua ordem interna, expurgando dele toda uma massa humana de homens e mulheres que não lhes serve para nada, a não ser como peso morto e incômodo, potencialmente vulneráveis. É um instrumento para encerrar a pobreza, para excluir os indesejáveis.