CAPÍTULO 4 – ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR
4.2 Reflexões sobre a interdisciplinaridade e sua importância
As visões e interpretações sobre interdisciplinaridade são inúmeras, constituindo diversas concepções sobre o assunto (FAZENDA, 1994). Consideramos que a interdisciplinaridade não está estritamente relacionada a uma única vertente de estudo, mas as diversas contribuições podem enriquecer a prática na escola.
No Brasil, a primeira publicação relacionada ao assunto foi do autor Japiassú. Em seus estudos, o autor concluiu que a interdisciplinaridade está relacionada com uma ação frente ao conhecimento, de busca de esclarecimento e insatisfação com a fragmentação do saber (JAPIASSÚ, 1976).
A atitude interdisciplinar pressupõe do professor uma modificação em seus padrões tradicionais de visualizar o conhecimento. Percebê-lo de forma global e menos pontual requer, inicialmente, um perceber-se interdisciplinar (FAZENDA, 1994). Para que se execute uma prática com estas características, essa atitude é necessária:
É, as vezes, na perseverança de alguém em tentar recorrer a outras fontes do conhecimento para compreender a complexidade de um texto teórico ou de um problema surgido na prática, que o indivíduo consegue perceber-se interdisciplinar. É no grau de envolvimento que o problema conduz, na forma aberta como se dispõe a discuti-lo ou na paciência da espera para compreender facetas insuspeitadas de ângulos ainda por conhecer que o indivíduo consegue perceber-se interdisciplinar. (FAZENDA, 1994, p.78) Perceber-se interdisciplinar é admitir que nenhuma disciplina ou ciência consegue, na maioria das vezes, trazer explicações completas sobre determinada questão. Num projeto interdisciplinar existem múltiplas barreiras, entre elas
institucionais e pessoais, que podem dificultar sua implementação. Porém, o que é fundamental na atitude interdisciplinar é a ousadia na busca, na pesquisa, substituindo a insegurança num exercício de construção através de um desejo de criar, inovar, de ir além (FAZENDA, 2005). Como bem aponta Ferreira (2011, p. 128), “na vivência de um espírito investigador e na procura por um saber fazer, percebo a atitude interdisciplinar como busca de alternativas para conhecer mais e melhor, como procura do saber fazer [...].“
Não se defende aqui que a interdisciplinaridade deve ser encarada apenas como uma atitude isolada, sem interação com os especialistas das diversas áreas do conhecimento que atuam na escola. Trata-se de começar um “fazer interdisciplinar” e, para isso, é necessária essa mudança de atitude individual que ocorre em diversos tempos para cada docente. Consideramos, como já salientado, que existem inúmeras obstáculos que fazem da escola um lugar onde a mudança é vista como algo negativo, já que abala estruturas tradicionais e que “funcionam” muito bem.
Colabora nessa ideia de atitude interdisciplinar frente ao conhecimento, Furlanetto (2000), considerando que a interdisciplinaridade em sua forma inicial está centrada na atitude individual que pode seguir com uma maior abrangência advinda das trocas:
Quando a interdisciplinaridade assume seu caráter de atitude que o sujeito assume frente ao conhecimento, estamos falando de uma flexibilização das fronteiras internas dos indivíduos. Através de uma consciência maior de suas múltiplas facetas, podem interagir de mais maneira mais criativa com o mundo que os cerca. Dessa forma, a interdisciplinaridade, que implica em tentativas de encontro, troca, parceria e diálogo, como também em vivência criativa da solidão, não abre mão do rigor, mas ousa e busca o novo através da ampliação e constante revisão de seus princípios e pressupostos. (FURLANETTO, 2000, p.89, grifo nosso)
A tentativa de buscar parcerias, no diálogo com os colegas nem sempre se efetiva em trocas e na construção de trabalhos onde a interação entre especialistas ocorre efetivamente. Dificuldades como falta de tempo, acomodação, divergências de horários, falta de vontade em mudar, entre outros, fazem com que muitas vezes o educador não tenha um apoio e motivação institucionais. A mudança na escola, muitas vezes, se inicia aos poucos, quando individualmente ou em pequenos grupos, professores começam a realizar atividades diferenciadas, motivadoras, que acabam por inspirar os colegas ao novo, às mudanças. Neste sentido, muitas vezes o professor não consegue obter a colaboração e participação dos demais. Contudo,
Capítulo 4 – Abordagem Interdisciplinar 65 ele possui um profundo desejo de mudança, de criar, de inovar em seu fazer pedagógico. Daí suas intervenções e explicações da realidade passam a ser embasadas não mais apenas na sua especialidade, mas a partir do conhecimento produzido sobre determinado assunto, abrangendo uma visão ampla e global, e não apenas pontual, fragmentada e reduzida a sua disciplina ou campo de estudo. A interdisciplinaridade se mostra com uma alternativa para a superação da fragmentação do saber, onde as peças não apresentam encaixes ou relações (TROST, 2001).
A educação científica, abordada no Capítulo 1, é um pressuposto que norteou o desenvolvimento da intervenção proposta. Além dela, a interdisciplinaridade como processo de atitude do professor frente ao vasto campo de conhecimentos e informações que ele tem a seu dispor, são embasamentos teóricos que utilizamos. Neste sentido, os assuntos abordados em sala de aula devem servir de ferramenta para o entendimento de situações reais do aluno. É necessário levar o saber científico ao alcance do público escolar, com práticas adequadas ao seu contexto (DELIZOICOV et al, 2007). A partir das experiências nas disciplinas das Ciências os alunos poderão desenvolver conhecimentos sobre Ciência e Tecnologia. Além disso, deve-se ressaltar que o trabalho docente deve ser direcionado a fim de facilitar a visão crítica dos alunos, de modo que estes conhecimentos científicos se constituam também como cultura.
A interdisciplinaridade no ensino pode ser uma importante ferramenta para dar maior significado à Educação em Ciências. A aprendizagem deve ser mediada de modo a relacionar os assuntos, explorando e facilitando a compreensão do mundo e suas interações. Salientamos a importância da contextualização quando se desenvolve os conceitos de Biologia, Física e Química de modo inter-relacionado, refletindo sobre o contexto social e cultural (MORAES, 2008). Além disso, ser interdisciplinar significa dialogar na busca de compreensões mais adequadas das situações (BOFF et al, 2008).
As diversas disciplinas, nesse sentido, deveriam facilitar a compreensão dos fenômenos presentes no cotidiano dos alunos (MORIN, 1999; 2002), tornando-se ferramentas que devem relacionar os diversos conceitos pertinentes a uma temática. Os professores que buscam esta perspectiva interdisciplinar devem considerar que os conhecimentos não devem ser vistos isoladamente, mas a partir de um tema
estruturador. A Interdisciplinaridade é caracterizada pela colaboração e trocas intensas entre diversas disciplinas visando a compreensão (FAZENDA, 1979).
Os conteúdos vistos disciplinarmente tornam o conhecimento mais complexo pois carecem de uma visão ampla e como já salientado anteriormente uma única disciplina não consegue explicar adequadamente determinada situação. Um conhecimento parcelado, isto é, visto em disciplinas isoladas, tem mais chances de ser apenas memorizado do que utilizado para compreender o nosso mundo. A interdisciplinaridade tem potencialidade para ligar os conceitos e auxiliar em sua compreensão, sem destruir as especificidades de cada ciência (ETGES, 1995; SALVADOR, 2006). Devemos realizar as devidas interconexões conceituais e se tomarmos, como exemplo, a Química ela pode ser facilmente relacionada com o contexto de conhecimentos de outras áreas, começando a diluir as fronteiras disciplinares (SILVA, 2008).
O professor com uma atitude interdisciplinar (GASPARIAN, 2006) pode fazer com que seu aluno reflita, critique e tome consciência de que o conhecimento aprendido serve como instrumento de mudança, de aquisição de cultura global e não meramente acadêmico. Ser um professor interdisciplinar pressupõe sair de seus esquemas já estabelecidos, não ter uma atitude de acomodação e lutar por uma educação de melhor qualidade (MARQUES, 2005).
A interdisciplinaridade no ensino, no entanto, de modo prático ainda não é tão efetiva na realidade escolar (GARCIA, 2006). A atitude interdisciplinar requer uma mudança conceitual e na prática docente, pois os alunos jamais conseguirão pensar interdisciplinarmente se o professor e a escola lhe oferecer um saber fragmentado e descontextualizado (SILVA, 2005).
Para concluir, reforçamos a concepção sobre interdisciplinaridade como atitude: as disciplinas são vistas como instrumentos que se utilizam para desenvolver a capacidade de pensar e compreender, manejando adequadamente o mundo que nos rodeia (BUSQUETS et al, 1998).