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UM OLHAR SOBRE MULHERES

1.1. Reflexões sobre Estado e Poder

A presença ou a ausência do Estado brasileiro e suas implicações nos processos sociais; as múltiplas conseqüências, positivas ou negativas, de sua atuação ou de sua omissão; o poder inquestionável do qual se reveste; a retórica de um parceiro potencial de organizações e entidades sem fins lucrativos tornam pertinente retroceder um pouco na construção do conceito de Estado.

Em primeiro lugar, deve-se pontuar que aqui se fala da instituição social Estado tal como conhecida na atualidade, ou seja, o denominado Estado Moderno ou contemporâneo. As definições de Estado são amplas e seus aspectos diferenciados. Alguns estudiosos apontam, inclusive, para a problemática em se definir conceitualmente Estado, levando-se em conta os aspectos envolvidos em suas relações (Bobbio, 1986; Miliband, 1988; Maluf, 199327).

Diversas vezes os discursos orais conferem aos termos Estado e governo um mesmo significado. Assim, é preciso frisar que, enquanto Estado é uma instituição social, governo são conjuntos de pessoas (em variadas instâncias governamentais), que se revezam com base na

forma de governo adotada por cada país (diferentemente do Estado), os quais ocupam posições de

autoridade dentro do Estado (Johnson, p. 91).

27 Conforme Maluf (autor do campo do Direito Civil), deve-se a Nicolau Maquiavel (séc. XV) a introdução da expressão Estado

na literatura científica (1993, p. 345). Maluf considera que esse “conceito vem evoluindo desde a antigüidade, a partir da Polis grega e da Civitas romana. A própria denominação de Estado, com a exata significação que lhe atribui o direito moderno, foi desconhecida até o limiar da Idade Média, quando as expressões empregadas eram rich, imperium, land, terra etc. Teria sido a Itália o primeiro país a empregar a palavra Stato, embora com uma significação muito vaga. A Inglaterra, no século XV, depois a França e a Alemanha, no século XVI, usaram o termo Estado como referência à ordem pública constituída. (1993, p. 19). E completa: “...não há nem pode haver uma definição de Estado que seja geralmente aceita. As definições são ponto de vista de cada doutrina, de cada autor. Em cada definição se espelha uma doutrina... No plano político onde se encara o Estado principalmente como fato social, (...) Uns o conceituam como objeto de direito (doutrinas monárquicas), outros como sujeito de direito, como pessoa jurídica (doutrinas democráticas). Outros ainda o consideram como a expressão mesma do direito, incluindo em uma só realidade Estado e Direito (teoria monista). (1993, p. 19-20).

Mas o que aqui cabe ver é o poder que lhe é inerente, bem como seus desdobramentos. Falar de Estado é falar automaticamente de poder.

No pensamento marxista, Estado é um conceito fundamental: é a instituição que tem por objetivo assegurar e conservar a dominação e a exploração de classe, é o instrumento da classe dominante (que detém a propriedade e o controle dos meios de produção), mas incapaz de garantir o interesse geral – ou seja, a realização da democracia (Miliband, 1988).

Engels afirma categoricamente que o Estado não é, de modo algum, um poder que se impôs (e se impõe) à sociedade de fora para dentro.

É antes um produto da sociedade, quando esta chega a um determinado grau de desenvolvimento; é a confissão de que essa sociedade se enredou numa irremediável contradição com ela própria e está dividida por antagonismos irreconciliáveis que não consegue conjurar. Mas para que esses antagonismos, essas classes com interesses econômicos colidentes não se devorem e não consumam a sociedade numa luta estéril, faz-se necessário um poder colocado aparentemente por cima da sociedade, chamado a amortecer o choque e a mantê-lo dentro dos limites da ‘ordem’. Este poder, nascido da sociedade, mas posto acima dela se distanciando cada vez mais, é o Estado. (1987, p. 191).

O Estado burguês, analisado por Marx, está centrado em promover a segurança mútua da classe burguesa contra os seus elementos isolados, contra a classe explorada “uma segurança que deve tornar-se cada vez mais dispendiosa e mais autônoma perante a sociedade burguesa, porque o exercício do domínio sobre a classe explorada se torna cada vez mais difícil.” Além disso, considera que o Estado “e a organização da sociedade não são, do ponto de vista político, duas coisas distintas. O Estado é a organização da sociedade28.”(1990 a, p. 143-44).

Já Foucault afirma que as monarquias da Época Clássica não só desenvolveram grandes aparelhos de Estado  exército, polícia, administração local  mas instauraram o que “se poderia chamar uma nova ‘economia’ do poder, isto é, procedimentos que permitem fazer circular os efeitos de poder de forma ao mesmo tempo contínua, ininterrupta, adaptada e ‘individualizada’ em todo o corpo social.” (1998, p. 8). Para ele, o poder é considerado uma rede produtiva, que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir, não pesa como uma força que diz não. O que faz com que o poder se

28 Bottomore esclarece que, em Marx – bem como em outros sociólogos, conforme ele –, o termo sociedade tem três sentidos,

distintos contextualmente, mas referentes a fenômenos distintos e correlatos, a saber: 1) a sociedade humana ou “humanidade socializada”; 2) tipos de sociedade existentes na história (feudal, capitalista); 3) qualquer sociedade particular (como a Roma

mantenha, diz Foucault, é que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso (1998, p. 8).

Cabe olhar, no entanto, para o Estado brasileiro, que se pretende protetor de crianças, mulheres, idosos, marginalizados e oprimidos, o que impõe lembrar que sua construção se deu sob as bases de uma colonização portuguesa – machista, patriarcal e plena de discriminações – na qual o homem detentor do pequeno poder crê ser necessário exercitar-se, a fim de, algum dia, vir a encarnar plenamente a figura do macho todo-poderoso. “Mais do que isto, acredita capacitar-se para o exercício do grande poder tendo síndromes sucessivas do pequeno poder.”(Saffioti, 1989a, p. 19).

Diante disso, é oportuno lembrar que as relações estabelecidas entre as diferentes categorias de classe, gênero e etnia situam-se em dois processos:

1 ) o das relações interpessoais, no processo micro – ou na malha fina da sociedade –, relações estas estabelecidas pelo fato de o ser humano ser incapaz de viver isoladamente; considera-se aqui que o próprio desenvolvimento da cultura deve-se ao gregarismo; ainda neste processo, as relações não são consideradas contraditórias, “o conflito não faz parte da natureza da relação interpessoal, mas reside fora dela: nos sujeitos ou em circunstâncias por eles vividas”. No entanto, essa “malha fina” estabelecerá relações com agregados humanos portadores de interesses contraditórios.

2 ) o das relações entre as categorias de gênero, as diferentes etnias e as distintas classes sociais, estabelecidas na malha grossa da sociedade, ou seja, no processo macrossocial. São coletividades vinculadas por contradições – fundamentais da sociedade brasileira – e que tornam inseparáveis as partes dessa sociedade. No processo histórico, elas se realizam de forma enlaçada (Saffioti, 1992, p. 64; 1997 a, p. 149).

A contradição não é excludente, como é a oposição simples. Pelo processo de negação e de negação da negação, a relação contraditória resulta numa nova relação, ou seja, alcança sua própria superação. Antes de superar-se, contudo, a contradição leva à seguinte situação: a realização histórica dos interesses de uma classe, de uma etnia, de uma categoria de gênero impede a realização histórica dos interesses de outra classe, de outra etnia, de outra categoria de gênero. Deste modo, fica evidente que a contradição integra a própria natureza da relação entre as classes sociais, entre as categorias de gênero e entre as etnias. (Saffioti, 1992, p. 66).

Antiga). “... para Marx são o nível do desenvolvimento das forças produtivas materiais e as relações de produção a ele correspondentes que determinam o caráter dos distintos tipos de sociedade.” (1988, p. 342-43).

É relevante pontuar que, tanto na malha fina quanto na malha grossa da sociedade, estabelecem-se relações de poder. Saffioti considera que o poder é, por excelência, in flux, não detido pelo dominador, que o exerce, sem que isto implique o não exercício do poder por parte do dominado. O poder tem sempre a mesma natureza, seja ele exercido em processos micro ou macropolíticos – os quais não são passíveis de separação, pois não são níveis que se sobrepõem. Como relação de força, o poder traduz uma luta permanente entre partes (Saffioti, 1997a, p. 148).

As mulheres são treinadas no exercício do micropoder, mas, via de regra, ignoram seu alcance para minar as instituições sacralizadas (como a família). Diante desta conclusão, Saffioti analisa que:

A micropolítica é tão importante quanto a macropolítica. Posto de outra forma, o micropoder, apresentando um alto potencial de subversão, é capaz de solapar o macropoder. (...) o micropoder, adequadamente imiscuído no macropoder, pode inaugurar formas mais democráticas do exercício deste último. Isto equivale a dizer que a micropolítica não apenas está articulada com a macropolítica mas vive no seu interior, transformando-a incessantemente. Os processos micropolíticos são extremamente mutáveis, não se cristalizando tão facilmente em produtos, como ocorre nos processos macropolíticos. Não é raro, porém, que a micropolítica gere produtos na macropolítica. E isto deve ser levado em consideração quando se formulam estratégias de luta para abolir, ou pelo menos reduzir, as desigualdades de gênero, de raça/etnia, de classe. (1997a, p. 149).

Compreende-se que é nesse exercício de micropoder que se formaram as lideranças femininas, que mudaram e mudam o curso da vida de diversas mulheres, em diversos países, e entre as quais se encontram as mulheres sujeitos deste trabalho.