O objetivo desta seção é distinguir evidências que sinalizam o ideário de ‘concepção da evolução científica’ e o ‘conceito ontológico e epistemológico aderente’. Nesse percurso, os elementos constitutivos de pontes de sinergias entre os atores foram salientados. Um breve apanhado mnemônico antecede e prepara para a análise subsequente.
As abordagens sobre experts e expertise nos ESC ganham diferentes enfoques. De um ponto de vista macroanalítico, a presença de cientistas em aconselhamento para a tomada de decisão política não era vista como problemática, o que caracteriza a primeira onda de ESCT. A ótica é realista-objetivista. Esse período coincide temporalmente à concepção linear do avanço científico, resultando em inovação, denominado Modo 1.
Esse aconselhamento científico chamou a atenção de alguns estudiosos da ciência por perceberem que a democracia não poderia privar o cidadão de decisões no espaço público, mesmo as relativas a componentes técnicos. Esse entendimento gerou o problema da legitimidade, que assinalou a segunda onda dos ESCT. Ou seja, o sentido questionado é o da supremacia da decisão científica sobre as outras formas de conhecimento, e o adotado é de ‘epistemologia cívica’, que entende ter qualquer cidadão o direito de participar, opinar e contribuir para a decisão técnica ou política, pois na prática a distinção não faz muito sentido
(JASANOFF, 2003). A ciência é vista como muito importante para ser deixada exclusivamente aos cientistas, a tese da participação na ciência começa a ganhar corpo. A ótica é relativista-subjetivista. O período de emergência está próximo ao dos modelos interativos de inovação.
Por outro lado, a perspectiva microanalítica visa entender quem pode contribuir para a produção de conhecimento e de política, gerando o problema da extensão. Esta perspectiva entende que o território do expert (especialista) não equivale em todos os casos àqueles possuidores de certificados formais ou que detêm experiência. Partem da premissa de que existem experts em todas as atividades humanas. Essa perspectiva quer ouvir “quem sabe do que está falando” (COLLINS, H.; EVANS, 2010 [2007]) nos dois grupos citados. A assertiva se refere a terceira onda dos ESCT. A ótica é realista substantiva-objetivista. A descrição das novas abordagens de produção de conhecimento e da terceira onda ocorreu em períodos similares, meados da década de 1990 e início da primeira década de 2000.
Cumpre destacar que embora sejam observados dois movimentos realistas- “objetivistas”, o que equivale à primeira onda (da política ofertista linear) e à terceira onda (expertise substantiva mais próxima à distribuição social do conhecimento) há uma gama de diferenças entre eles quanto ao nível de cientificismo envolvido.
A solicitação para nominar especialistas em segurança pública compôs uma das perguntas abertas do questionário desta pesquisa. Vários respondentes informavam locais onde a pesquisadora poderia localizar experts, aparentemente pela compreensão de que se empregava a estratégia conhecida por “bola de neve”, onde um respondente aponta outro. Buscou-se, com a questão, compreender quais domínios de conhecimento estavam sendo “reconhecidos” como fonte do status expert, considerando para a análise as limitações impostas pelo recorte amostral. Além dessa questão, muitos comentários em outras questões e artigos da RBSP forneceram importantes elementos para a análise.
Foi observado certo embate sobre quem é “expert” ou “especialista” em segurança pública. Conforme vários respondentes, ‘segurança pública’ é um campo em construção no Brasil, por esse motivo, não surpreende que ocorra disputa epistemológica (JASANOFF, 2004). As respostam variaram de “Não vejo alguém que goze desse status no Brasil” (“Osório”, profissional de segurança pública, na 1ª década de carreira) até “Há muitos” (“Roberto”, professor universitário, na 2ª década de carreira). Chama a atenção à ocupação
profissional dos dois respondentes, um do universo das práticas e outro do da teoria, e o completo antagonismo entre as respostas. A partir dessa observação, pode-se compreender o ponto de vista do entrevistado, ex-gestor de segurança pública, na 3ª década de carreira, quando ele reflete que: “existe hoje uma dicotomia entre saber dos operadores x pesquisadores” (“Antônio”).
Para Jasanoff (2003) o prestígio que provém da expertise é relativo ao contexto, um critério sociopolítico. Nesse sentido, o exemplo clássico é o convite das mídias para pronunciamentos sobre situações que envolvam algum conhecimento ‘técnico’ em uma área. Os grupos epistemológicos elegem seus experts, assim considerados para aquele contexto. De outra forma, para Collins e Evans (2002) a expertise substantiva não é dada tão somente pela certificação formal ou pela experiência, é um componente substantivo. Considerando a incomensurabilidade dos conceitos ontológico-epistemológicos ‘relativista-subjetivista’ e ‘realista-objetivista’, ambas as óticas estão sugeridas nas respostas obtidas evidenciando comunidades epistêmicas heterogêneas, ambiente que apresenta condições ideais para a instalação de inúmeras controvérsias.
Apesar de Collins e Evans terem sido acusados de um retorno ao realismo, eles escalonam o apego ao ideário “científico” distinguindo diversos patamares. Como discutido, entre os ideários de cientificismo está a ‘superioridade da ciência’ sobre outras formas de conhecimento ou um excessivo apego ao método científico (COLLINS, H.; EVANS, 2010 [2007]) próprios da primeira onda dos ESCT. Dessa forma, o padrão de cientificismo evidenciado no enunciado que segue, se coaduna à primeira onda de ESC em aproximação à ótica linear.
As contribuições vindas de não policiais ainda são preconceituosas quanto a supor que a classe policial seja uma categoria inferior de pensamento (“José”, profissional de Segurança Pública, na 3ª década de carreira).
Cumpre salientar que essa perspectiva cientificista é severamente criticada tanto pelo relativismo quanto pelo realismo adotado por Collins e Evans, que quer agregar as expertises sem importar-se com a origem da contribuição desde que sejam substantivas.
Situação semelhante à exemplificada entre os fazendeiros de ovelhas de Cúmbria e os cientistas, trazido na subseção 2.4.1, em que esses não reconhecem a expertise daqueles
também foi indicada:
Escassez de policiais [...] com Doutorado em Ciências Sociais. Tal situação prejudica a situação vigente, em que os possuídores desse título acadêmico e não pertencedores à profissão policial [...] têm dificuldades de reconhecer a existência de saberes consistentes entre os profissionais da Polícia [...] (“José”, profissional de Segurança Pública, na 3ª década de carreira).
A compreensão de que o conhecimento que não vem de uma fonte científica não deve ser considerado está em um nível de cientificismo típico da concepção linear vista no Modo 1 na vertente realista-objetivista.
A disputa sobre ‘quem determina a política’ se adere à ótica cientificista que alavancou os debates originários da segunda onda. A segunda onda não apoia a substituição da epistemologia cívica pela epistemologia científica, mesmo quando há elementos considerados técnicos na decisão. Aqui se encaixam os tipos IV e V da classificação de experts de Turner, ou seja, tanto funcionários públicos quanto consultores e participantes de comitês técnicos para aconselhamento político. Seria fundamental a participação popular.
A figura do sociólogo era mal vista pelos operadores [...]. Parecia que havia algo estranho querendo entrar no Sistema de Segurança Pública e ditar normas (“Antônio”, ex-gestor de segurança pública, na 3ª década de carreira).
As ciências sociais, especialmente a sociologia, ganham força nesse novo arranjo, entretanto, são citados operadores de segurança pública que apresentam grau acadêmico equivalente à graduação ou pós-graduação como especialistas em segurança pública.
Eu não tenho mestrado nem doutorado e eles [pesquisadores] me ouvem (“Antônio”, ex-gestor de segurança pública, na 3ª década de carreira).
Em uma perspectiva relativista, própria da segunda onda de ESCT, o padrão expert-expertise é composto por um forte componente sociopolítico. Desse ponto de vista, profissionais de segurança pública citaram majoritariamente profissionais de segurança pública, e por vezes citaram outros profissionais que compõem a carreira acadêmica. No último caso, quando em entrevistas, pôde-se perceber certa relação de amizade entre o respondente e o “outro”. O achado corrobora a propriedade ‘relacionamentos pessoais’,
conforme discutidos por Caplan (1979) na teoria das duas comunidades e o uso de conhecimento. Entretanto, não emerge o realismo substantivo-objetivista na maioria das vezes, e sim a ótica circular relativista-subjetivista.
Sim, no Brasil, todos os oficiais superiores das polícias militares são, formalmente, especialistas em segurança pública, neste contexto, posso dizer que sou especialista em segurança pública (“Sérgio”, profissional de segurança pública, 3ª décadas de carreira).
Os especialistas citados que correspondem aos experts contributivos formais estão, em sua grande maioria, entre os associados plenos (mais antigos) do Fórum, sugerindo abranger o core set, se não do conjunto completo de expertise requerida em segurança pública, ao menos de parte da expertise em ciências sociais notadamente sociologia e ciência política, considerando as limitações da amostra desta pesquisa. O que o expert contributivo, muito mais amplamente citado, e o baseado na experiência, que apareceu timidamente, têm em comum é a presença na sala de aula, ministrando cursos e palestras.
A construção de um campo científico é palco de disputas quanto à autoridade de quem pode falar sobre determinado assunto. Há vozes que denotam as tensões, entre os distintos pontos de vista de alguns acadêmicos / pesquisadores e operadores de segurança pública, sobre a estabilização do reconhecimento de sua expertise. O quadro é agravado ou atenuado pela ‘confiança mútua’, elemento que viabiliza as trocas de conhecimento (FARIA; COSTA, 2006).
São muitos [os especialistas em segurança pública], há os policiais que se dedicam a conhecer o fenômeno da violência e do crime, e há os acadêmicos alienados das realidades e os situados em bases desapaixonadas e credíveis (“Amaro”, profissional de segurança pública, na 3ª década de carreira).
É possível perceber, quase 10 anos depois, que a relutância em aceitar segurança pública e criminologia como assuntos legítimos foi em grande medida superada, mas não a desconfiança mútua entre universidade e polícia (RAMOS, 2012).
Algumas observações do ponto de vista realista–substantivo-objetivista, como delineadas por Collins e Evans, também puderam ser notadas. Por exemplo, na agregação do que se considera teórico (acadêmico) e do que se considera prático (atuação em segurança pública).
[...] campos teórico-prático de atuação acadêmica e profissional. E no campo de quem pensa Segurança Pública e desenvolve políticas [...] (“Patricia”, professora universitária, na 2ª década de carreira).
Interação, como discutido por Collins e Evans, é considerada uma habilidade pessoal. Porém, se a unirmos ao atributo ‘mecanismos que os vinculem’, como abordado por Caplan, percebe-se que existem múltiplas formas de favorecer a aproximação e interação.
No caso em análise, a formação é o mecanismo mais evidente. Entre as memórias da evolução dos temas e linhas de pesquisa entre as décadas de 1970 a 2000 está o depoimento de Cesar Barreira, que atuava no grupo de estudos da UFCE e passou a ser o coordenador da Academia de Formação de Policiais da Polícia Militar do Ceará:
Esta experiência, que assume uma modalidade única (um coordenador da Universidade dentro de uma Academia de Polícia e não policiais dentro da Universidade) acaba de ser iniciada e está sendo acompanhada com o máximo interesse por esse campo (RAMOS, 2012).
A relação orientando-orientador na pós-graduação stricto sensu, especialmente em nível doutorado, que pela maior duração acarreta maior proximidade é um efetivo mecanismo vinculador, muito superior à pós-graduação lato sensu. A ótica se ajusta às premissas das novas abordagens de produção de conhecimento em que o conhecimento está socialmente distribuído e não se vincula exclusivamente à universidade. A coautoria entre profissionais da segurança pública e das universidades pode ser utilizado como um indicador de interação. Há alta relação de confiança, em que o relacionamento profissional tende a se tornar mais pessoal. A fórmula ganha vazão para discernir entre várias das tipologias de Collins e Evans, além da expertise contributiva na área de doutoramento, ainda a meta-expertise referida, que é a habilidade de julgar o que significa contribuir para a ciência em áreas que não estão em sua esfera de contribuição. De acordo com Sumner (1906) o integrante de dois distintos grupos de ‘mores’ apresenta ‘neutralidade’.
Apesar de a quantidade e qualidade dos dados não permitirem uma generalização, porém ao considerar que a RBSP é orientada ao intercâmbio entre profissionais das diferentes áreas, o contexto sugere a hipótese de que o quadro geral não seria muito distinto do quadro abaixo notado: a maioria das publicações, como esperado, provém de (co) autoria entre professores e pesquisadores; grupo que vivencia o ‘ethos’ da ciência.
De outro lado, há artigos em (co) autoria somente com profissionais de segurança pública. A menor parcela corresponde à coautoria entre profissionais de segurança pública e professores / pesquisadores.
Quadro 13 - Artigos em coautoria de profissionais de segurança pública e professores e/ou pesquisadores em geral
Volume da RBSP Número de artigos
Artigo em (co) autoria com professores universitários e outros pesquisadores que não pertencem ao sistema de segurança pública Artigo em (co) autoria com profissionais do sistema de segurança pública Artigo em (co) autoria com professores universitários e pesquisadores que são profissionais do sistema de segurança pública Vol. 1, 2007 8 6 2 0 Vol. 2, 2007 10 5 5 0 Vol. 3, 2008 8 6 2 0 Vol. 4, 2009 9 3 6 0 Vol. 5, 2009 10 8 1 1 Vol. 6, 2010 8 7 1 0 Vol. 7, 2010 6 5 1 0 Vol. 8, 2011 11 11 0 0 Vol. 9, 2011 12 6 3 3 Vol. 10, 2012 10 8 1 1 Vol. 11, 2012 11 10 1 0 Vol. 12, 2013 10 8 2 0 Vol. 13, 2013 9 6 1 2 Vol. 14, 2014 7 7 0 0 Vol. 15, 2014 8 7 0 1 Total 137 103 26 8
Fonte: Organização própria, a partir das primeiras 15 edições da RBSP.
O artigo em coautoria (com profissional de segurança e da academia) intitulado “Além das técnicas de entrevista: características individuais em entrevista com testemunhas” (BALLARDIN; STEIN, 2013) aborda um tema central na prática policial investigativa, o interrogatório, que também ganha o nome audiência em ambientes da justiça criminal, termos