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2 A ARTICULAÇÃO NO SEMIÁRIDO BRASILEIRO (ASA) E SUAS

2.2 A Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) e suas estratégias de

2.2.2 A proposta de comunicação da ASA e a criação do Candeeiro

2.2.2.1 Reflexões sobre o Comunicador Popular da ASA

A Articulação no Semiárido Brasileiro conta, atualmente, com um coletivo de pessoas que atuam em todos os estados do Semiárido denominadas, pela articulação, de comunicadores e comunicadoras populares. Esse termo foi empregado no final da segunda metade do século XX por alguns pesquisadores, como Oliveira (1994), e o educador social Paulo Freire (1985). No entanto, nesse início de século, pouco tem sido discutido sobre o assunto. Contudo, tentaremos aprofundar o termo, neste trabalho, a partir do entendimento da ASA, bem como de atores distintos que, de alguma forma, vivenciaram e ainda vivenciam essa experiência.

Oliveira (1994) discute o comunicador popular como ser social, comprometido com a realidade em que vive e que, entre outras provocações, apela para o empenho com a transformação. Pelo que aponta a pesquisadora, são pessoas envolvidas na comunidade, em seus acontecimentos e na luta pela garantia de seus direitos. Os estudos de Freire (1985) também apresentam essas perspectivas.

Sobre a pessoa diretamente envolvida nesses processos e que, nesse trabalho, a partir das discussões dos atores, chamamos de comunicador popular, Oliveira (1994) aponta o seguinte:

A cada experiência que acompanhamos, percebemos o modelo particular com que os atores sociais vivenciam as propostas de comunicação popular, a partir do seu modo de vida e de suas representações. Nesse sentido, é importante considerar os agentes mediadores e o cruzamento das culturas que envolvem a ação comunicativa (OLIVEIRA, 1994, p. 77).

Oliveira (1994) traz questões pertinentes que fortalecem a ideia do comunicador ou comunicadora popular como sujeito inserido na realidade e atento aos apelos que os contextos impõem. As práticas e dinâmicas desenvolvidas e vivenciadas por esses atores, seja em rádios, na construção de informativos ou em outras atividades comunitárias, são ações de lutas, fundamentais, e que os colocam como sujeitos transformadores. Essas características podem estabelecer a figura do comunicador popular, conforme Oliveira (1994), embora a autora não tenha definido essa denominação de forma explícita.

Muito além da forma comunicacional, os atores sociais dos quais fala Oliveira (1994) têm uma preocupação em dialogar com os acontecimentos locais, tanto é que, nos programas de rádio descritos nos estudos da pesquisadora, o conteúdo é voltado para as questões comunitárias, os acontecimentos relevantes, como, por exemplo, no programa em que destaca as manifestações pelo “fora, Collor” e a reivindicação por melhor educação para a comunidade.

A ASA discute o comunicador popular nessa perspectiva apontada pelos autores mencionados, no entanto, há uma diferenciação. No caso específico da ASA, é o profissional contratado pela instituição que faz um trabalho de mediação. Ele não precisa necessariamente ser da comunidade, nem formado em comunicação, mas busca interagir, de uma forma capaz de visibilizar e fortalecer as ações desenvolvidas pelo público atendido pela ASA. Esse público, na sua maioria, são agricultores e agricultoras familiares.

[...] a figura do ‘comunicador popular’ denomina a pessoa que contribui para que a mobilização popular para acesso a políticas se efetive e se visibilize no Semiárido... É a pessoa de referência em comunicação das organizações que fazem parte da ASA (seja ele/ela formado na área ou não) e que ajudam a partilhar as experiências exitosas das famílias agricultoras do Semiárido, fortalecendo, assim, as ações de convivência e a cultura do povo que habita as zonas rurais da região. O seu trabalho se baseia em ser uma espécie de “ponte” entre a base (agricultoras/es familiares) e a sociedade (Elka Macedo, informações enviadas pelo aplicativo WhatsApp, 2017) 25.

Como a assessora de comunicação da ASA, Elka Macedo (informações enviadas pelo aplicativo WhatsApp, 2017), esclarece, os comunicadores e comunicadoras populares da

articulação devem se inserir na realidade camponesa de forma sensível e comprometida, para, assim, poder transmitir o que há de mais bonito no campo, como a luta e a resistência em se manter vivo e resguardar a cultura local, bem como os saberes, tornando-os conhecidos e fortalecidos.

É possível perceber ainda nas discussões de Elka Macedo (informações enviadas pelo aplicativo WhatsApp, 2017) que a ASA propõe outras características ao comunicador popular diferentes daquelas apresentadas por Oliveira (1994). Para Elka Macedo, o comunicador popular representa uma ponte entre agricultores familiares e a sociedade. Isso partindo do pressuposto de que o comunicador/comunicadora pode fazer essa mediação de informação. Uma forma de estabelecer essa relação é a produção do Candeeiro, embora não seja esse o único meio de comunicação utilizado pela ASA. Outras atividades junto às famílias perpassam essa forma de comunicar.

Assim como o comunicador popular do final do século XX, discutido por Oliveira (1994) como um agente do povo, que surge em um contexto social bem desafiador e que trabalha na perspectiva do coletivo e pelas melhorias locais, o comunicador e a comunicadora popular da ASA têm missão semelhante e nascem das discussões e do empenho por outra perspectiva de comunicação, conforme Fernanda Cruz (entrevista, 2018).

O comunicador surge a partir de uma necessidade concreta, que é essa história da sistematização dentro do projeto P1+2. A gente queria experimentar... Na época, não existia muita gente que tinha formação em comunicação e tal, e tinha pessoas muito interessantes que faziam comunicação sem necessariamente ter qualquer tipo de formação na área, e a gente disse: por que essas pessoas não ficam responsáveis pela sistematização? E aí depois a gente começou a perceber o potencial que tinha nesse grupo, e aí é que se começa a discutir processos de formação, de empoderamento... (Fernanda Cruz, entrevista, 2018).

Em sua fala, Fernanda Cruz (entrevista, 2018) faz uma reflexão dialógica da comunicação. Para a jornalista, esse fazer deve ser do povo, e não necessariamente de uma pessoa formada em comunicação. Essa compreensão da ASA, pelo que é colocado pela coordenadora de comunicação da rede, ganha força a partir dos comunicadores e das comunicadoras populares, que, segundo ela, são sujeitos comprometidos com a causa social, que surgem dispostos a fortalecer essa ideia de que a comunicação é muito mais do que a transmissão de informações. Fernanda Cruz (entrevista, 2018) traz uma questão interessante e relevante para a construção coletiva dos processos comunicacionais e que incide, de alguma forma, nas lutas sociais, que é o empoderamento como chave necessária para abrir os caminhos da transformação.

A fala de Fernanda Cruz (entrevista, 2018) em relação às incidências das ações como parte integrante na consolidação do empoderamento das pessoas dialoga com a fala de Cristina Nascimento, da coordenação da ASA pelo estado do Ceará (entrevista, 2018), quando ela enfatiza a necessidade de continuação dos processos comunicacionais na busca pela visibilidade, que tem sido desenvolvida pelos comunicadores.

Os comunicadores populares são sujeitos primordiais para a ação andar, evidenciar as experiências dos estados, gerar pautas e gerar falas dessas experiências de estar intercambiando. Então, a participação dos comunicadores dentro da ação da ASA tem um lugar muito importante, inclusive pra gente conseguir visibilizar cada vez mais a ação da rede ASA (Cistina Nascimento, entrevista, 2018).

Fernanda Cruz (entrevista, 2018) ressalta ainda que é a partir da figura desse agente social que a ASA passa a entender a comunicação como um meio necessário e de acesso de todos e de todas, independentemente da classe social. Dessa forma, entende-se que essa pauta na ASA se fortalece a partir das dinâmicas desenvolvidas pelo coletivo.

A ASA acaba discutindo mais de forma permanente a comunicação como direito... A democratização da comunicação... Tudo isso a partir da visão e da vivência dessas pessoas, né, então, eu acho que muito mais do que a própria rede, a coordenação ter pautado os comunicadores foram os próprios comunicadores que pautaram a rede sobre esse tema... Dizer: ‘Ó, a gente não quer só sistematizar; somos sujeitos políticos, e a gente tem uma pauta que é da comunicação e tal’, a ASA precisa discutir isso, assim como as mulheres têm feito, assim como os LGBTs tão fazendo. Então, acho que foi esse movimento que aconteceu (Fernanda Cruz, entrevista, 2018).

Partindo da compreensão de que a comunicação deve ser uma pauta recorrente das ações humanas em todos os espaços e circunstâncias, assim como outras tantas necessárias, a ASA fortalece a ideia da troca e da construção coletiva dos conhecimentos, bem como a universalização do acesso aos meios. Com isso, parece mais clara a ideia da ASA em trabalhar com o comunicador e a comunicadora popular e pensar por que essa rede tem trabalhado nessa perspectiva. É importante lembrar que a ASA (manual, 2012) se utiliza da expressão “comunicação popular” como uma forma de fortalecer as lutas do povo pela consolidação de seus direitos e a convivência com o Semiárido, para estabelecer o modo de pensar o comunicador popular, inclusive.

É importante observar que, em cada centro, tinha uma representação coletiva de comunicadores, ou seja, podia-se encontrar mais de um comunicador popular nas práticas de comunicação dos movimentos sociais populares na década de 80.

por Leonardo Sampaio (entrevista, 2016) não diferem das mesmas apresentadas pela pesquisadora Oliveira (1994). No entanto, para a experiência da ASA, percebe-se um distanciamento, pois a ASA contrata profissionais para exercer esse papel. Isso comprova que a ASA utiliza uma concepção de comunicação popular e comunicador popular, mas os organiza a partir de assessorias profissionais.

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