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Reflexividade, autogestão e o culto da performance

PARTE II – OS GRANDES TEMAS DA SÉRIE

5.1 Reflexividade, autogestão e o culto da performance

Ao analisar as consequências da modernidade, Giddens (1993) defende que o principal traço da nossa época consiste no alto dinamismo da sociedade, pois a velocidade da mudança social supera a de qualquer sistema anterior. Além disso, a dimensão e a profundidade das transformações afetam as práticas sociais e modos de comportamento como nunca se processou em outra época. Como causas desse dinamismo, o sociólogo indica três aspectos: (I) a separação de tempo e espaço, como condição para interações sociais em longos intervalos de espaço-tempo, incluindo sistemas globais; (II) o desencaixe das relações sociais dos contextos locais pelo qual elas se dissociam dos seus lugares específicos; e (III) a

reflexividade indiscriminada, que extrapola a “monitoração reflexiva da ação” (GIDDENS, 1991, p. 47) das atividades humanas em geral para implicar numa reflexão e revisão infindáveis, que muito interessa na análise da série na qual o “eu” é construído e reconstruído reflexivamente a partir do surgimento de novos mecanismos de autoidentificação.

Com isso, o caráter reflexivo da modernidade ganha contornos próprios e incentiva o culto da especialização, principalmente no que diz respeito ao autoquestionamento e à descoberta de si.

Os novos especialistas são parte integrante da cultura terapêutica do narcisismo. Surgiu um “novo paternalismo” em que os especialistas de todos os tipos oficiam para as necessidades da população leiga. Muitas formas modernas de especialização não derivam do atendimento a necessidades genuinamente experimentadas; em boa parte os novos especialistas inventaram as necessidades que afirmam satisfazer. A dependência dos especialistas torna-se um modo de vida. (GIDDENS, 2002, p. 160-161). Como declara o sociólogo, o desenvolvimento da reflexividade como componente intrínseco da modernidade está nitidamente associado ao surgimento e ao crescimento de tipos de terapia e de orientações, como manuais de autoajuda, que buscam trazer para os indivíduos a segurança e o esclarecimento que muitos deles não encontram na religião e nas instituições, como acontecia em sociedades tradicionais.

Diante da vastidão de informações disponíveis e acessíveis por meio dos especialistas, o sujeito se interroga a todo momento em um processo reflexivo nunca finalizado, em permanente estado de construção. Assim, há uma busca em construir narrativas biográficas coerentes e organizadas, exigindo constantes interpretações e decisões acerca de como viver, como agir e sobre quem ser: “viver cada momento reflexivamente é uma questão de intensificar a consciência dos pensamentos, sentimentos e sensações corporais” (GIDDENS, 2002, p. 71).

Tal quadro se associa à promoção da ideia de gerenciamento, advinda da lógica de mercado, que ganha centralidade na economia contemporânea, invadindo todas as esferas sociais. Como esclarece Joel Birman (2010), na nova ordem neoliberal, o Estado perde posição de regulador do espaço social diante da fragilidade das instituições, e o mercado emerge como suporte adequado para apresentar modos de construção da individualidade a partir de “receitas” de bem viver.

Com isso, cada indivíduo precisa administrar a própria vida como gestor a fim de obter sucesso, que pode ser alcançado – única e exclusivamente – como resultado da atitude perseverante e engajada de cada sujeito. Difunde-se, dessa maneira, um imaginário que incentiva a superação contínua no culto da performance (EHRENBERG, 2010), pelo qual o

paradigma da eficácia, até então localizado na esfera do trabalho e do esporte, é transposto para a vida pessoal, incentivando a autossuperação. Trata-se de:

[...] uma doutrina ou de uma utopia de autorrealização que dinamiza o individualismo contemporâneo, dando alento moral a novas formas de concorrência e de diferenciação social. O desejo de ser mais – desafiando e superando, sem trégua, os próprios limites – cativa o imaginário contemporâneo, mobilizando energias psíquicas, anseios narcísicos de reconhecimento e fantasias de onipotência. (FREIRE FILHO, 2011, p. 37). Assim, assistimos à proliferação de aconselhamentos e orientações por meio de reportagens, programas de televisão, além de livros, treinamentos e cursos que, ancorados na reflexividade, estimulam a responsabilidade individual na condução da vida para alcançar as metas.

Conforme investiga José Luiz Aidar Prado (2013), a convocação à transformação de si se manifesta em um querer cultural e reverbera nos dispositivos comunicacionais por meio dos discursos modalizadores, isto é, aqueles que buscam promover uma atitude, incitada pelos verbos modais (poder, querer, fazer, dever, ser). Assim, “as modalizações biopolíticas se referem a projetos de boa vida a partir de modalizações dos analistas simbólicos, entre os quais jornalistas, médicos e psicólogos” (PRADO, 2013, p. 26), que correspondem aos especialistas analisados por Giddens (2002). Denominando a contemporaneidade de “era das convocações”, diante do vasto poder midiático e da força modalizadora do seu discurso, Prado (2013) destaca que os enunciadores das máquinas comunicacionais convocam os sujeitos à construção de uma vida esperada, com o apoio dos especialistas: “Os enunciadores mediáticos, do marketing e da publicidade são sujeitos-supostos-sabedores que convocam os receptores a uma experiência, fornecendo os saberes, na forma de mapas e receitas modalizadoras para as ações, homólogas aos livros de autoajuda” (PRADO, 2013, p. 30).

Ao analisar a expansão e difusão da psicologia positiva, modelo que pretende romper com o padrão da vitimologia pelo qual se atribui o sucesso ou insucesso a causas naturais ou de destino, João Freire Filho (2010) considera que “as novas ciências da felicidade nos ensinam que usufruir de um aumento sustentável em nosso bem-estar subjetivo é um projeto individual totalmente factível aqui e agora, desde que nos dediquemos, sem jamais esmorecer, a esse empreendimento vital” (FREIRE FILHO, 2010, p. 55). Com isso, ganha importância o comprometimento aliado à incorporação de práticas de gestão emocional e condicionamento mental como caminho para a felicidade.

No mesmo sentido, Francisco Rüdiger (2013) trata do racionalismo terapêutico, que associa o subjetivismo às exigências morais de equilíbrio e estabilidade da consciência. Investigando a literatura de autoajuda com ênfase na experiência amorosa, ele identifica os

traços de esforço e comprometimento que fazem parte dessas orientações a fim de conquistar o amor. Desde os anos 1960, “os relacionamentos se convertem em objeto que precisa ser investido por certas condutas específicas e devidamente administrado, se quiserem ter futuro” (RÜDIGER, 2013, p. 74). No entanto, ele pontua uma mudança de abordagem com o passar do tempo. Até os anos 1970, os manuais de autoajuda acerca de relacionamentos buscavam ensinar a desenvolver a capacidade de amar, contudo, a partir da década de 1980, o foco se transmuta para o combate aos problemas que vitimam os relacionamentos.

O pensamento terapêutico procura nos advertir para o fato de que o amor é algo que precisa ser trabalhado, cuidado, porque registra ou nota que o fundamento dos relacionamentos românticos é um subjetivismo virtualmente insustentável. As pessoas que sentem vontade de amar precisam se dar conta, segundo ele, de que isso depende de vontade e esforço, algo que, aliás, não é estranho ao romantismo. (RÜDIGER, 2013, p. 72).

Nessa perspectiva, considerando que os afetos se transformaram em objetos a serem pensados e trabalhados via tecnologias de manejo do eu, Eva Illouz (2011) denomina de “estilo afetivo terapêutico” o novo conjunto de práticas culturais surgidas a partir do avanço do interesse com a vida afetiva na cultura do século XX. A autora destaca que, tal como o cinema, a literatura de aconselhamento já emergia na década de 1920, vindo a se tornar um grande difusor de teses psicológicas e de criação de normas afetivas. Nesse contexto, as revistas femininas e o mercado editorial incorporaram e difundiram um vocabulário que reforçou a intelectualização dos laços íntimos, contemplando injunções infindáveis para a readequação da conduta e a consequente realização do indivíduo, em conformidade com o discurso modalizador analisado por Prado (2013) nas convocações midiáticas. Assim, a cultura de autoajuda, com pregação do estímulo ao autoaprimoramento, difundiu-se fortemente na sociedade dos Estados Unidos, porque os psicólogos apresentavam “uma linguagem – de pessoas, sentimentos e motivações – que pareceu corresponder e dar sentido às transformações em larga escala do trabalho norte-americano” (ILLOUZ, 2011, p. 28).

Conforme sua investigação, essa proliferação da autoajuda nos Estados Unidos contribuiu para a expansão do discurso feminista a partir da década de 1970, pois as mulheres se tornaram as principais consumidoras do aconselhamento terapêutico. A associação entre a psicologia e o feminismo, reforçando, por exemplo, a independência e a educação como valores comuns, concorreu amplamente para o processo de racionalização das relações íntimas. Com isso:

Os credos culturais da terapia, da produtividade econômica e do feminismo se entrelaçaram e se misturaram uns aos outros, fornecendo a lógica, os métodos e o impulso moral para retirar os sentimentos do campo da vida

íntima e colocá-los no centro da individualidade e da sociabilidade. (ILLOUZ, 2011, p. 56).

A tese principal da autora é que o desenvolvimento do capitalismo se fundiu fortemente a uma cultura afetiva intensamente especializada de forma a gerar uma mistura entre o econômico e o romântico, por ela denominado de “capitalismo afetivo”, que abrange uma associação entre os repertórios do mercado com as linguagens de construção do eu. Assim, “os afetos se tornaram entidades a ser avaliadas, inspecionadas, discutidas, negociadas, quantificadas e mercantilizadas”, em um contexto no qual “o imaginário cultural da psicologia tornou-se nosso ‘magma’ contemporâneo” (ILLOUZ, 2011, p. 153-154). Para ela, “a própria ideia de ‘autorrealização’ – que continha e ainda contém uma promessa psicológica e política de felicidade – foi central para o emprego da psicologia como um sistema de saber abalizado e para a penetração de repertórios de mercado na esfera privada” (ILLOUZ, 2011, p. 156).

Portanto, a reflexividade característica da modernidade ganha ancoragem e aparente solidez com os especialistas, “sujeitos-supostos-sabedores” (PRADO, 2013), a difundirem os saberes, por meio de recomendações e receitas, para a população leiga, que recebe orientações diversas sobre os mais variados temas – de estilo de vida à condução da carreira, da conquista amorosa ao desempenho sexual, da criação dos filhos à dieta que previne o envelhecimento, do investimento financeiro rentável ao roteiro turístico ideal para as próximas férias. Tudo passa a ser objeto de exame e reexame constante à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas, como argumenta Giddens (1991, 2002), difundidas pelos convocadores midiáticos com seus discursos modalizadores, na expressão de Prado (2013), a reforçarem o discurso circulante da necessidade do gerenciamento individual da vida pessoal e profissional como caminho para a autorrealização.

Com isso, o culto da performance (EHRENBERG, 2010) se espraia por esferas variadas da vida do sujeito, em um ciclo sem fim alimentado pelo sistema capitalista e suas estratégias de consumo, fazendo o sujeito desejar sempre um trabalho mais desafiante, um romance mais apaixonado, uma casa mais confortável, como condutores para a sonhada felicidade.