PARTE III: O S M ECANISMOS S OCIAIS DA R EFLEXIVIDADE I NDIVIDUAL
8.3. Reflexividade funcional
Pessoas entrevistadas que integram o perfil funcional
Miguel, 28 anos, licenciatura, técnico superior da administração pública na área da construção civil Lourenço, 45 anos, doutoramento, professor universitário
Nuno, 37 anos, ensino secundário, vigilante
João, 60 anos, 3º ciclo do ensino básico, técnico de recursos humanos Diogo, 35 anos, ensino secundário, designer
A reflexividade funcional é uma forma de pensar sobre si no mundo orientada para a resolução de problemas e para a tomada de decisão. É exercida com fins específicos e bem definidos, assumindo a função de ponderação e preparação da prática. Em termos gerais, todos os entrevistados exercem, de alguma forma, as suas competências reflexivas quando enfrentam a necessidade de fazerem escolhas ou de resolverem um dilema. Mas as pessoas que integram o perfil de reflexividade funcional não encontram razão para exercerem a sua reflexividade fora do contexto do processo de tomada de decisão. Contrariamente aos indivíduos com um estilo reflexivo pragmático, são mais ponderados e consideram fulcral dedicar tempo e esforço ao planeamento e à ponderação, sempre que se justifique. Contudo, e por contraste com os entrevistados com uma reflexividade auto-referencial, não têm por hábito reflectir sobre um leque tão alargado de acontecimentos e momentos dos seus quotidianos, nem sobre questões existenciais. Trata-se de uma reflexividade mais focada e orientada, activada face à necessidade de fazer escolhas, em diferentes esferas de vida.
Este perfil reflexivo traduz-se, para todas as pessoas que integram este grupo, numa visão mais estratégica dos seus percursos biográficos. O que significa que, relativamente aos restantes entrevistados, orientam, de modo mais evidente, os seus trajectos por objectivos de vida bem definidos, delineiam estratégias para concretizá-los e persistem até conseguirem realizá-los. Aceitam tranquilamente os problemas e obstáculos com que se vão deparando, sem dramatizarem ou lamentarem a sua situação, e sem sentirem necessidade de reflectirem muito sobre as suas circunstâncias. Consideram que é necessário ter algum “espírito de sacrifício”, desde que consigam atingir aquilo que pretendem. Assumem uma postura determinada, recorrendo frequentemente a expressões como: “faço aquilo que for necessário”, “se é para fazer, faz-se”, “é preciso lutar por aquilo que se quer”.
Esta atitude deve ser compreendida por referência aos seus contextos de origem familiar. Os cinco entrevistados com um perfil de reflexividade funcional, todos homens, com idades que oscilam entre os 28 e os 60 anos, provêm de inserções socioeconómicas diversas e ocupam actualmente diferentes posicionamentos no espaço social, com qualificações e profissões mais e menos qualificadas. Mas partilham um elemento central da sua socialização familiar: o estímulo da autonomia pessoal. De facto, desde muito novos que assumiram alguma independência, sobretudo económica, face aos pais, apesar de o terem feito por razões distintas.
Iniciaram a sua vida profissional antes dos 20 anos, nalguns casos em simultâneo com os estudos, seja para apoiar financeiramente a família, seja para criarem recursos de auto-sustento. A independência económica que procuraram alcançar desta forma manifestou-se também nalgum afastamento espacial da família de origem, através da autonomização residencial, que ocorreu quase em simultâneo, em muitos casos, com a inserção no mercado de trabalho. A partir do momento em que deixaram de depender exclusivamente dos pais em termos financeiros, fomentaram proactivamente a sua autonomia, não só em termos monetários e residenciais, mas também no que diz respeito às decisões que passaram a tomar na orientação dos seus percursos. Esta emancipação acarretou o desenvolvimento e a assunção de um forte sentido de responsabilidade, que os fez tomarem para si mesmos o rumo das suas vidas, no âmbito daquilo que entendiam ser as suas possibilidades e oportunidades, mesmo que isso implicasse confrontarem a vontade e os interesses familiares.
A procura de autonomia a diferentes níveis por parte dos entrevistados com um perfil reflexivo funcional decorre directamente daquilo que foram as suas vivências no seio da família, na infância e adolescência. O estímulo dessa independência não ocorreu necessariamente de forma directa e explícita, como no caso dos indivíduos com um perfil de reflexividade auto-referencial, cujos pais fizeram um esforço consciente para incutirem essa atitude. Pelo contrário, a autonomização resultou geralmente de problemas familiares, como sejam desentendimentos, desacordo com princípios e práticas dos pais, dificuldades económicas, toxicodependência de um irmão, situação de divórcio dos pais ou dificuldades na partilha de vida com um irmão gémeo. Os entrevistados sentiram necessidade de se afastarem, pelo menos parcialmente, de certos aspectos das suas vivências familiares, como estratégia de salvaguarda pessoal. No fundo, a relação entre autonomia e família assume aqui um duplo sentido: o contexto familiar possibilitou o desenvolvimento da autonomia pessoal, na definição de objectivos e projectos de vida individuais, mas essa autonomização foi simultaneamente mobilizada como resposta proactiva de afastamento desse enquadramento familiar, que, muitas vezes, se constituía mais como obstáculo do que como facilitador na concretização desses objectivos.
A identificação de algo que os desagradava ou incomodava no contexto familiar de origem actuou, no fundo, como estímulo indirecto das suas competências reflexivas. A tomada de consciência de aspectos com que não se identificavam e dos quais se queriam distanciar levou-os a pensar e ponderar estratégias para ultrapassarem essas contrariedades.
Convém, no entanto, realçar que não se operou nenhuma ruptura entre este grupo de entrevistados e os seus pais. O processo de autonomização teve, de facto, algum impacto na relação que os sujeitos estabelecem ainda hoje com a família, mas isso não significa que não mantenham um relacionamento de alguma proximidade e afectividade com os pais, que continuam a ser referências importantes, sobretudo do ponto de vista emocional, nas suas vidas.
O relativo afastamento face aos pais foi, em termos gerais, acompanhado de uma aproximação a outros familiares, que assumiram o papel de modelo a seguir. Irmãos, tios e padrinhos, geralmente com um estilo de vida distinto do dos pais, são assumidos como referências na definição daquilo que os entrevistados querem ser e fazer. Referem-se, em particular ao facto de estas pessoas viajarem muito, viverem em Lisboa, terem preocupações culturais, terem um diploma do ensino superior, ou terem uma inserção profissional estável. Foi a partir destas figuras centrais que definiram os seus grupos de referência positiva e os seus projectos de vida.
As origens sociais deste grupo de entrevistados são, como já referido, relativamente diversificadas. Alguns provêm de famílias com tradição na transmissão de bens e recursos económicos entre gerações, outros são oriundos de contextos familiares mais modestos, ligados à agricultura ou a profissões menos qualificadas na área dos serviços. Quanto às qualificações dos pais, oscilam entre o 1º ciclo do ensino básico e o ensino secundário. As oportunidades e constrangimentos associados a estes diferentes contextos socioeconómicos traduzem-se directamente quer na configuração dos seus projectos de futuro, quer naquilo que conseguiram concretizar. Todos eles tinham por objectivo alcançar ou manter um determinado estilo de vida, ajustado aos seus campos objectivos de possibilidade. Independentemente de o foco ser a mobilidade ascendente ou a reprodução social, procuraram, através do investimento na esfera profissional, nalguns casos em conjunção com os estudos e com deslocações residenciais para Lisboa, delinear uma estratégia nesse sentido.
As suas preocupações principais têm, portanto, gravitado em torno da concretização de projectos profissionais e académicos. A família não adquire a mesma centralidade, particularmente para três dos cinco indivíduos, que são solteiros e os únicos homens, do total de entrevistados, que não têm filhos (com excepção de Gil, do perfil auto-referencial). O investimento na profissão não assume, contudo, os mesmos contornos que adquire para os entrevistados com uma reflexividade pragmática. O trabalho não é aqui entendido numa lógica central de identificação pessoal ou de construção identitária. Por outro lado, não evidenciam também, como os sujeitos com um estilo reflexivo auto-referencial, uma preocupação com a ideia mais abstracta de realização pessoal na esfera profissional. Mesmo que apreciem a actividade que desenvolvem, não se definem na sua individualidade por aquilo que fazem e sentem-se capazes de trabalhar num leque diversificado de profissões. E quando manifestam insatisfação com a sua actividade laboral, isso não gera mal-estar pessoal. Isto porque o trabalho assume uma lógica instrumental: é um meio de acesso ao estilo de vida que consideram poder alcançar e manter. O investimento na esfera laboral é o que, no fundo, lhes permite concretizarem objectivos que vão desde a compra de uma casa, à possibilidade de prosseguirem os estudos, à oportunidade de viverem em Lisboa ou à viabilização de certos consumos culturais e práticas de lazer.
Apesar de os seus projectos estarem bem definidos e se manterem estáveis há já algum tempo, os entrevistados com uma reflexividade funcional não têm por hábito dedicar muito espaço mental à reflexão sobre o futuro ou à antecipação de cenários. Por exemplo, se pretendem alcançar um determinado patamar na sua carreira profissional, sabem que precisam de qualificações adicionais, mas não pensam em pormenor nos parâmetros da sua concretização e não imaginam onde isso os colocará no espaço de alguns anos. Não só projectam apenas aquilo que consideram poder controlar, como revelam também flexibilidade e capacidade de adaptação. Têm noção de que as suas circunstâncias podem mudar e que não conseguem prever todos os elementos potencialmente interferentes nos seus objectivos. Os projectos individuais vão, assim, sendo adaptados às suas circunstâncias, embora o foco central se tenda a manter relativamente inalterável: o fim permanece o mesmo, mas os meios para atingi-lo podem ser devidamente ajustados.
Este grupo de entrevistados revela uma enorme satisfação e orgulho na sua vida, principalmente por assumir plena responsabilidade por aquilo que conseguiu alcançar. Consideram que o rumo que os seus percursos tomaram dependeu exclusivamente de si e das suas capacidades de perseverança e determinação. A confiança que revelam em si mesmos e nas suas competências é ainda exponenciada pelos sacrifícios que muitos deles tiveram de levar a cabo para atingirem determinado objectivo. É comum referirem-se às dificuldades de conciliação entre trabalho, estudos e outras dimensões das suas vidas, que conduzem a grandes níveis de cansaço, escassas horas de sono, renúncia frequente a actividades de lazer ou a convívio com amigos, desentendimentos familiares, ou mesmo adiamento do projecto de constituição de família.
Os obstáculos por que têm de passar para concretizarem os seus objectivos são proporcionais aos contextos socioeconómicos de origem e actuais. Para quem tem condições de partida mais desfavoráveis e não pode contar com o apoio financeiro e logístico dos pais, os sacrifícios tendem a ser maiores. Contudo, todos eles partilham uma atitude similar de perseverança e determinação face às dificuldades com que se vão deparando, precisamente por considerarem que a sua superação é parte integrante e necessária à concretização dos seus projectos.
Independentemente das suas origens sociais e do seu posicionamento social presente, todos eles evidenciam, ou revelaram ter no passado, muita confiança naquilo em que se poderiam vir a tornar e a ter. São pessoas ponderadas e prudentes, que não procuram o que não conseguem alcançar, precisamente por terem uma noção muito clara e concreta das suas capacidades, dos seus recursos, dos seus constrangimentos e das suas possibilidades. Por outro lado, também não se assustam com os obstáculos que possam entretanto surgir e com os esforços que têm de empreender. Desenvolveram uma capacidade particular de resiliência, de adaptação a novos contextos residenciais e profissionais e têm bastante facilidade de inserção nas redes de relacionamento desses enquadramentos.
Há uma forte componente de racionalidade, mas também de auto-disciplina nas suas condutas e percepções. O facto de mobilizarem as suas competências reflexivas para prepararem a
acção e, assim, agirem sobre as suas condições sociais com os recursos que têm à sua disposição, nos contextos por onde se movem, atribui à reflexividade uma função de potenciação da sua capacidade agencial. Mais uma vez, importa realçar que esta noção não implica que a capacidade de transformação dos sujeitos seja infinita, mas antes que conseguem mobilizar os meios disponíveis nos seus enquadramentos sociais para concretizarem projectos, eles próprios sempre delimitados pelo seu espaço de possíveis.
A noção de projecto subjaz a grande parte do discurso destes cinco entrevistados. É aquilo que definiram como objectivo a alcançar que estrutura os seus quotidianos. Por outro lado, o passado não assume a mesma centralidade nas suas preocupações. Ao contrário dos sujeitos com uma reflexividade auto-referencial, não questionam permanentemente as suas opções, atitudes ou acções passadas. Têm o passado bem resolvido, no sentido em que não colocam em causa as motivações que os levaram a agir ou a reflectir de determinada forma, nem ficam a pensar no que poderiam ter feito diferente. Se no perfil auto-referencial se verifica uma reflexão demorada em todos os momentos do processo de tomada de decisão (antes, durante e depois), no estilo reflexivo funcional a reflexividade é mobilizada apenas com a finalidade de chegar a uma deliberação. Depois de fazerem uma escolha, estes cinco entrevistados não encontram razão para se debruçarem novamente sobre um processo que consideram estar terminado.
Reviver, analisar e questionar escolhas passadas significa, na perspectiva dos sujeitos com uma reflexividade funcional, complicar excessivamente e proactivamente a vida. Ao esforço que implica pensar em caminhos alternativos que poderiam ter tomado, ou remoer em determinados aspectos dos seus percursos, não correspondem ganhos acrescidos. Não quer dizer que nunca tomem como objecto de reflexão as suas condutas e percepções. Em maior ou menor grau, todos os 20 entrevistados o fazem. Mas não é, de facto, uma prática comum para este grupo de indivíduos. Fazê- lo geraria ansiedade desnecessária por pensarem em alterar o que sabem à partida não poder ser mudado.
Não chegam, portanto, a atingir o limite dos entrevistados com uma reflexividade auto- referencial, que consideram pensar em excesso sobre tudo aquilo que os rodeia, o que exponencia sentimentos de ansiedade, angústia e mesmo paralisia da acção. O exercício reflexivo é entendido no perfil funcional como um instrumento de apoio à prática, não de desorientação. Esta atitude é, aliás, fomentada pelos próprios, que consideram que depende apenas de si mesmos a forma como encaram o passado, o presente e o futuro. Cada acontecimento nas suas vidas é susceptível de ser interpretado e vivido de modo diferente: cabe a cada pessoa simplificar e optar pelo lado mais positivo e construtivo, que maior ganho traz em termos pessoais.
É neste sentido que encaram sem lamentações ou arrependimentos os seus quotidianos bastante preenchidos, organizados em torno do trabalho e, simultaneamente, para alguns dos
entrevistados, também dos estudos. Os sacrifícios feitos no presente são entendidos, como já referido, como condição necessária para concretizarem os seus projectos.
Para organizarem o seu dia-a-dia, muitos deles recorrem frequentemente a agendas ou calendários (físicos ou electrónicos), onde fazem anotações acerca dos seus compromissos profissionais, académicos, familiares e pessoais. Importa, contudo, referir que apesar de os sujeitos com uma reflexividade funcional fazerem uso de meios de objectivação do tempo, não os consideram objectos determinantes nos seus quotidianos. O mesmo se verifica para outro tipo de práticas de escrita reflexiva, a que apenas recorrem ocasionalmente, como sejam a elaboração de listas, lembretes, recados, registo de contas, planificação financeira ou itinerários de viagens.
No que diz respeito, por exemplo, à gestão de tarefas domésticas quotidianas, assumem algum desleixo da sua parte, seja porque essa organização, nos casos que vivem em conjugalidade, é levada a cabo pelo elemento feminino do casal, seja porque esse planeamento é secundarizado face às suas preocupações centrais e não surge como prioridade.
Quando comparados com os entrevistados com um perfil reflexivo auto-referencial, a sua atitude face à escrita planificadora, e até mesmo em relação à planificação do quotidiano em termos gerais, é diferente a dois níveis. Desde logo, apesar de terem quotidianos preenchidos, estes são mais rotinizados e não articulam tantas actividades e esferas de vida como os dos auto-referenciais, o que torna menos necessário o recurso a agendas ou a instrumentos similares. Os sujeitos com uma reflexividade funcional abdicam ou minimizam o tempo dedicado, por exemplo, à esfera do lazer ou às sociabilidades para um maior investimento no trabalho e nos estudos. Os auto-referenciais, por outro lado, procuram fazer tudo em simultâneo.
Num outro nível, está-se perante um perfil reflexivo masculinizado: os cinco entrevistados que integram este grupo são todos do sexo masculino. E é precisamente no domínio da organização e da planificação do tempo que se identificam algumas das diferenças mais expressivas relativamente ao perfil mais feminizado do modo de reflexividade auto-referencial. Apesar de os sujeitos de ambos os perfis partilharem um processo de autonomização económica e residencial relativamente precoce, os seus relatos não apontam na mesma direcção quanto às dinâmicas de socialização de género.
Os entrevistados com um perfil reflexivo funcional não viram recair sobre si as expectativas de apoio à família, de gestão dos tempos familiares e de investimento académico que foram relatadas pelas entrevistadas com uma reflexividade auto-referencial. A orientação para a organização e planificação, não tendo sido particularmente estimulada em contexto familiar, não encontrou também no enquadramento escolar condições muito favoráveis de desenvolvimento, até porque o perfil qualificacional da reflexividade funcional é globalmente mais baixo do que o da auto-referencial.
Um dos entrevistados completou o 3º ciclo do ensino básico, dois concluíram o secundário e dois prosseguiram para além do 1º ciclo do ensino superior. Apesar de se tratarem de qualificações intermédias e superiores, nenhum deles desenvolveu uma relação com a escola similar à dos sujeitos
com uma reflexividade auto-referencial. Os seus percursos escolares, marcados muitas vezes por múltiplos recuos e interrupções, não foram tão lineares e não se pautaram por um investimento tão acentuado, mesmo para quem tem um diploma de ensino superior. Não tiveram também o mesmo tipo de apoio e incentivo por parte do contexto familiar. Nalguns casos, a prossecução dos estudos significou inclusive contrariar as perspectivas dos pais quanto ao rumo dos seus futuros. O maior distanciamento com que viveram os seus percursos académicos não implicou, contudo, que não reconhecessem a importância que as qualificações formais poderiam vir a assumir nos seus futuros profissionais. Nesse sentido, investiram o esforço e os recursos que consideraram necessários, tendo em vista aquilo que procuravam alcançar na esfera laboral. A escola é, portanto, entendida, a par e em conjunção com o trabalho, como um meio de acesso e de concretização dos seus projectos pessoais.
Parece ser sobretudo a partir do patamar de ensino superior que as competências de planeamento são especialmente ampliadas. É nesse sentido que os dois entrevistados com um perfil reflexivo funcional, que têm um diploma de ensino superior, revelaram ter essas disposições mais incorporadas que os restantes sujeitos que integram esse grupo.
Estas considerações apontam para o facto de as disposições para a organização e para a planificação serem fortemente genderizadas e particularmente permeáveis a uma relação continuada com o sistema de ensino.
O exercício das competências reflexivas dos sujeitos com um perfil funcional, como sejam a planificação, mas também, por exemplo, a ponderação, tende a ser levado a cabo sobretudo na privacidade das suas mentes. Não desenvolveram hábitos de escrita autobiográfica, não recorrem numa base frequente a práticas de escrita planificadora e não gostam de partilhar a sua intimidade pessoal com outras pessoas. As conversas internas são, por isso, o meio preferencial de activação das suas competências reflexivas. Tal como os entrevistados com uma reflexividade auto-referencial, prezam bastante a sua privacidade e encaram-na como uma conquista individual, indissociável do seu sentido de autonomia. O processo de tomada de decisão geralmente ocorre sem que sintam necessidade de recorrer a familiares ou amigos, embora a situação se altere se outras pessoas estiverem envolvidas nas escolhas que fazem. Não apreciam expor a sua vida, pelo que são particularmente selectivos quanto às pessoas com quem partilham, ocasionalmente, as suas preocupações. Por exemplo, aqueles que criaram uma conta pessoal no Facebook resguardam aspectos da sua intimidade e o único entrevistado que criou um blog pessoal, restringiu o acesso ao mesmo a apenas duas pessoas que lhe são muito próximas.