6. CASa Aberta: contexto, estrutura e análise
6.5 Reflexos da Comunidade de Cooperação e Aprendizagem Significativa em sua
Uma das questões subjetivas do questionário aplicado aos docentes do CASa arguia por uma reflexão crítica do projeto. Com as respostas, montou-se uma classificação em níveis: positivas; negativas; e positivas, mas com melhorias a serem pensadas. Assim, estratificou-se ainda essa qualificação por ano de ingresso, obtendo os seguintes gráficos:
Gráfico 17: Avaliação Projeto CASa: geral e por ano de ingresso
TOTAL: 71
Os dados expostos permitem avaliar que a quantidade de anos como participante do projeto é diretamente proporcional a visão positiva da proposta. Em porcentagens, no ano de 2011 cerca de metade da amostra tem críticas positivas ao projeto, nos ingressantes em 2010 esse valor sobe para pouco mais da metade, atingindo mais de 2/3 nos de 2009. Quanto mais tempo se está incluso nas vivências ofertadas pelo CASa, maior é o grau de entendimento da nova proposta adotada pela Pró-Reitoria de Graduação da UFC.
Cruzando-se os dados dessa aceitação crítica com a escuta do CASa Aberta, notou-se que em nenhum dos casos de professores que ouviam o programa houve uma avaliação negativa do CASa.
As avaliações negativas se distribuíram da seguinte forma nos campi:
TOTAL: 6 TOTAL: 37
Gráfico 18: Índice de Avaliações negativas sobre o Projeto CASa
Logo, o foco dos campi da UFC no interior mostram que essas regiões sentem-se deslocadas dentro da iniciativa, respondendo por mais de 2/5 das insatisfações. O CASa Aberta seria então o modo de aproximar essas realizações do CASa com as realidades desses espaços universitários extra-Fortaleza.
É com essa perspectiva que se estudou os podcasts do CASa Aberta do intervalo de outubro a dezembro de 2010 para avaliar até que ponto o programa radiofônico estava alinhado a perspectiva do CASa e difundia seus conceitos embasadores.
A título de revisão dos conceitos basilares do projeto trabalhados em capítulos anteriores, tem-se que o projeto alicerçasse em: comunidade, com todas as características de um ambiente democrático, livre para expressão, onde os membros sentem-se protegidos e colaboradores de sua construção; cooperação, quando o resultado final é fruto das interações entre as partes numa ajuda mútua engrandecedora; aprendizagem significativa, onde as experiências partilhadas geram um aprendizado pautado no vivido e no que foi significativo para cada um; além do de imprevisibilidade, onde não se há um resultado final, mas um processo a se construir coletivamente. Foram estes os parâmetros buscados nos 11(onze) programas analisados e que agora são identificados.
À medida que forem sendo expostas as características do programa que se alinham ao pensamento do CASa, serão utilizados trechos dos podcasts que exemplifiquem a situação narrada.
O espaço compartilhado pelos convidados e apresentador nos estúdios da Rádio
Universitária FM pode ser representativo de um caráter ―comunitário‖. Este posicionamento
pode ser comprovado pelas características citadas no parágrafo anterior que são visualizáveis nos debates transmitidos.
Todos os presentes têm igual força de diálogo e expressão de seu parecer acerca do tema desenvolvido. O respeito ao pensamento do outro não inibe, entretanto, a forma de pensar o assunto que cada um acrescenta a discussão. Em várias de situações, Ismael Furtado foge a pauta elaborada para o tema por ter sido instigado pela fala dos colegas, esse fato demonstra a liberdade presente e necessária para o fluir da emissão. No programa sobre Jogos na Aprendizagem, o apresentador usa do pensamento desenvolvido pelos debatedores para instigar a continuidade da reflexão:
Eu vou pinçar um trecho da fala de vocês quando se referem que um jogo educativo não deve ser chato, deve ser divertido. Mas aí eu queria formular a seguinte questão: também não há o risco de criarmos a ideia de que aprender é fácil bastando se usar um jogo? (Ismael Furtado, Programa CASa Aberta 43‘09‘‘, 12 de novembro de 2010).
Algo que se tornou claro ao longo da análise foi a desinibição dos outros debatedores quando alguém iniciava com exemplificações de momentos vividos por ele. Em todos os programas em que isso ocorreu, gerou-se um espírito de partilha de experiências. Não havia mais o receio inicial de que os outros julgassem a fala de cada um, normal na posição de um primeiro contato. Depois da percepção da segurança e do apoio democrático que o ambiente propiciava, típicos de uma comunidade, o docente se sentia à vontade para conversar sobre momentos experienciados, elevando a significação do debate pelo deixar-se envolver dos debatedores.
Guilherme Barreto, discutindo o tema de Tecnologias na Educação, lembra um exemplo recente que havia acontecido nos Encontros Universitários da semana anterior ao debate, dividido por uma colega. A colega fora testada por um aluno que possuía acesso a internet em sala e tinha entrado em contato com uma metodologia diferente de se trabalhar o conteúdo abordado pela docente, indagando se a maneira usada por ela estaria correta ou não. Esse exemplo percorreu toda a discussão da transmissão. Os outros professores buscaram suas experiências particulares com uso de tecnologias em sala de aula e buscaram metodologias que poderiam ter sido usadas para contornar a situação desagradável vivida pela colega. José Aires de Castro Filho comenta, por exemplo, que havia feito uso de uma ferramenta tecnológica, um fórum, para reunir estudantes de turnos diferentes em torno de uma discussão acadêmica que ele estava lecionando. Guilherme Barreto não havia pensado nessa possibilidade e fica ansioso por tentar usar dessa metodologia entre seus alunos.
Nesse ínterim, há ainda uma soma entre saberes acadêmicos e saberes vivenciados. Ao mesmo tempo em que se citam autores, citam-se momentos vividos.
A experiência dividida pelos professores ora se pauta nas suas vivências particulares que lhes foram significativas, ou seja, foram responsáveis por uma reflexão que gerou uma nova visão, um aprendizado, sobre algo. Outras vezes, a vivência acadêmica assume o palco de discussão e se dividem pensamentos de autores. O que não deixa de ser uma experiência dividida, pois da mesma forma, implica em uma nova reflexão e postura frente ao que se detinha anteriormente.
No segundo programa de outubro de 2010, o professor Assis de Sousa Filho cita um pensamento de Einstein que julgou relevante para a discussão acerca das formas como os
alunos aprendem: ―o que você sabe é aquilo que fica depois que você esqueceu tudo‖. Autores
como Paulo Freire e sua pedagogia libertadora são sempre lembrados pelos debatedores que buscam refletir sobre a nova perspectiva de se trabalhar em sala de aula. Idelvaldo Bodião, docente da Faculdade de Educação da UFC, no programa de estreia do CASa Aberta, já trazia
o pensamento freiriano para a pauta da discussão. ―Uma outra vertente que eu gosto muito, do
Paulo Freire, que o professor precisa ser essencialmente o sujeito da amorosidade. E eu penso
que a gente pode conversar um pouco mais sobre isso ao longo do nosso bate papo‖.
A cooperação é presente quando o programa assume o formato de painel. Os docentes completam o pensamento dos colegas a partir de sua visão do tema, ampliando uma ideia inicial e seguindo uma linha menos conflitante de posicionamentos. Usando uma passagem de Idelvaldo Bodião, ainda no programa de estreia do CASa Aberta, pode-se exemplificar isso. Os debatedores conversavam sobre o que significava para eles ser professor, Custódio
Almeida comentava que era ―ser contemporâneo‖ assim como seus alunos, ou seja, manter-se atualizado; Bernadete Porto indicava o caminho do docente se conhecer como ―ser humano‖,
ou seja, carregar consigo a humanidade, o trato entre iguais e não o afastamento em relação ao discente. Bodião acrescenta:
Eu vou pegar um caminho parecido com o que o Custódio tem defendido aqui e a Bernadete, acho que o grande desafio do ser professor hoje, século XXI [...] o professor é em princípio um mensageiro da cultura. Então ele tem um pé no que foi feito no passado, [...] mas de qualquer maneira, eu quero pinçar uma expressão da Bernadete que, acho que, ser professor hoje significa ser o mensageiro, portanto ter o pé na cultura do passado, mas tem que ter os olhos no futuro. Eu acho que essa é a contemporaneidade do Custódio. (Idelvaldo Bodião. Programa CASa Aberta 10‘10‘‘, 15 de outubro de 2010).
O professor traz a perspectiva cultural aos pensamentos de Custódio e Bernadete, sem contradizer os colegas, mas ampliando a reflexão com base em seus depoimentos anteriores.
Robson Carlos, no programa sobre Tecnologias na Educação, também deixa claro essa cooperação pensante proporcionada pela discussão radiofônica: ―Bom, na medida em que vocês vão falando, eu também estou tentando pensar. E a ideia que vem brotando assim em mim é exatamente o aspecto da necessidade da gente entender, vamos dizer assim, as
mudanças de contexto que vem ocorrendo...‖ A construção coletiva da reflexão se torna nítida
em suas palavras.
A aprendizagem significativa é um dos pontos de maior destaque no projeto e se encontra assídua em vastos momentos do CASa Aberta. As metodologias compartilhadas, o próprio espaço que reúne áreas e formas de pensar distintas, o que foi presenciado por um e dividido para o grupo, todos são fatores de relevância para o aprendizado de ser professor universitário.
Os presentes refletem sob uma ótica diferente, da que poderiam se guiar, através do ponto levantado por outrem. Novamente usando as palavras do professor Bodião como parâmetros, tem-se um comentário realizado através de contato telefônico onde se questiona a importância dos conteúdos frente à amorosidade destinada aos discentes, comentada pelos debatedores. O docente responde:
Na verdade não é uma resposta. É uma interlocução. É uma conversa que eu
continuo. Quando você fazia sua intervenção e falava a respeito do que eu posso fazer tendo me apropriado de um conteúdo. Se eu domino a fissão nuclear, ela pode servir para que eu faça bombardeamento muscular e cure um câncer, mas ela também pode servir para eu construir a bomba atômica e matar 200 mil pessoas. Acho que era disso que você falava. Era dessa preocupação. E eu fiquei me
perguntando quando, naturalmente, quando a gente objetiva se apropriar do
conteúdo, a pergunta a se fazer é: mas dominar o conteúdo para quê? Se apropriar de um conteúdo ou dos conteúdos para quê? (Idelvaldo Bodião. Programa CASa Aberta 31‘, 15 de outubro de 2010, grifo nosso).
Pelos destaques que foram dados à fala percebem-se as reflexões que o comentário realizado pela participação telefonada pode instigar.
Quando o tema foi acessibilidade, no dia 5 de novembro de 2010, e Ricardo Reis convidado, as situações problemáticas partilhadas pelo docente, que possui uma deficiência em sua capacidade visual, foram engrandecedoras para os demais debatedores repensarem práticas de sala de aula e como, em muitos casos, estão despreparados para lidar com essas necessidades. Aos 19 minutos, Ricardo usa uma frase que demonstra a partilha que realizou
durante todo o programa: ―Estou tentando captar situações em que eu vivi‖.
O depoimento dele trouxe participações inclusive por telefone de colegas que conheciam profissionais excelentes no que faziam, mesmo não possuindo a integralidade de
um sentido. Foi o caso do professor Renato, da Faculdade de Medicina, que contou a história de um colega, o qual por conta da visão diminuta desenvolveu uma audição extraordinária, sendo referência para a ausculta cardiológica.
Em 10 de dezembro do mesmo ano, Francisca Mendes, docente do curso de Estilismo e Moda, comenta sobre um pensamento que ouviu durante o Mentores de Docência do qual participou e que foi marcante para ela, fez-la pensar sobre a relação entre alunos e
professores. ―Eu vou começar falando de uma palavra que eu ouvi lá no Mentores, da
professora Terezinha, e que eu achei muito importante, que é a flexibilidade. Eu acho que pensar essa relação professor-aluno tem que passar por aí‖.
E frases externas não foram as únicas que provocaram os debatedores, a mesma
professora retoma um pensamento de Manoel Andrade, também debatedor do tema ―Sucessos e Fracassos Acadêmicos‖, quando diz: ―eu lembro do que o professor Manoel estava falando
que as pessoas dão certo ‗apesar‘ de alguns professores...‖. A referência feita foi à primeira
fala do coordenador do programa de Aprendizagem Cooperativa: ―Há estudantes que conseguem ter sucesso com professor, sem professor e apesar de certos professores‖.
Passagem que instigou a reflexão sobre essa relação discente-docente e como pode ser conflituosa ou harmoniosa.
O caráter de imprevisibilidade que o projeto carrega, em função da construção colaborativa de seus participantes, é obviamente seguido pelo CASa Aberta, tendo em vista que o fruto final do debate é incerto, depende apenas das relações consecutivamente construídas ao longo de sua transmissão.
Depois de todas as exemplificações alcança-se um parâmetro que permite identificar o programa em sintonia com o que se objetiva com o projeto. A cobertura dos demais campi da UFC, no interior, inclusive com participações de professores desses locais como debatedores, foi alcançada, mesmo que ainda possa ser ampliada. O reflexo do CASa e suas bases conceituais se faz presente na difusão radiofônica.
O projeto se mostra à comunidade ouvinte, demonstrando a preocupação dos docentes da Universidade em refletir sua atuação, querer aprender novas formas de interagir com os discentes e crescer em sua profissão.
Ismael Furtado comenta sobre como enxerga a relação entre CASa Aberta e CASa, para o apresentador o alinhamento é claro e fecundo:
Eu acho que o CASa Aberta é a cara do Projeto CASa, se você quiser entender o que é o Projeto CASa assista duas ou três edições do CASa Aberta que você vai entender. Essa pluralidade, a abordagem de temas que não são estritamente do
universo da educação, que são subjetivos. A abordagem da subjetividade que envolve a atividade docente. [...] A gente espelha muito essa ideia do projeto. [...] Inclusive as suas contradições. (Ismael Furtado, em entrevista).
As contradições citadas são as críticas que são feitas ao modelo adotado. Há uma resistência a vertente humanista dos temas e metodologias usadas. Alguns docentes armam-se previamente para as iniciativas e as consideram perda de tempo. Em contrapartida, outros professores louvam a ideia e apóiam sua continuidade.
A partir do questionário aplicado aos docentes, retiraram-se comentários que ilustram essa dicotomia de percepções:
Acho grande, pesada e desnecessária a iniciativa. Acho que nós, professores, temos mais o que fazer do que ficar perdendo tempo com encontros, no mais das vezes, infantilizantes e, ainda por cima, obrigatórios, apesar de agora podermos, pelo menos, fazer nossa agenda. A concepção talvez seja interessante, mas a prática, leva-nos a deixar outras obrigações para estarmos em meio a dinâmicas chatas e que nada acrescentam. Universidade é lugar de criação e não de pedagogia de auto-ajuda ou feita para orientar crianças. Preferia, mil vezes, cursar Didática do Ensino Superior, tal como consta no edital do concurso pelo qual entrei na UFC. (QUESTIONÁRIO PESSOAL)
A visão negativa da experiência demonstra a incompreensão ou a não entrega a possibilidade intencionada pelo projeto. A dificuldade abertura à proposta pôde ser vista inclusive nas visitas de campo às Rodas de Conversa quando do levantamento de dados sobre as atividades ofertadas aos docentes. Os professores preferiam utilizar o tempo destinado à discussão de textos para corrigir provas ou criticar a utilidade prática de tudo aquilo. Entretanto, outros se permitem tentar e comentários como o seguinte comprova o lado positivo das críticas:
A abordagem de prover aos docentes uma formação pedagógica direcionada para o ensino superior, assim como promover uma integração entre os docentes tão segregados pela aberração departamental se constitui em uma iniciativa de grande relevância para a melhoria do nível de desempenho dos docentes recém-egressos, bem como dos veteranos que buscam uma reciclagem profissional. (QUESTIONÁRIO PESSOAL).
Para Ismael, os docentes que consideram o CASa como desnecessário acabam evitando ouvir o programa de rádio por acreditar que não encontrará relevância nas pautas desenvolvidas.
E eu acho assim um programa maravilhoso. As pessoas que não assistem não têm a noção da riqueza das discussões. Todos os debates que eu fui, particularmente, foram muito importantes para a minha formação porque essa história de ser ao vivo é muito importante para a gente avivar quais são mesmo os nossos ideais, não dá tempo de mascarar nada. Eu acho muito importante que ele seja ao vivo porque é inusitado e aquilo vira mesmo um debate mobilizador, porque eu estou mobilizada, eu mobilizo. E os que eu assisto, assisto a praticamente todos, trazem temas que eu vou te dizer, eu nunca pensaria naquelas coisas na minha vida. Quer dizer que são os nossos colegas que trazem as ideias que nisso eu me sinto contemplada sendo formada pelo CASa Aberta. Eu assisto aos programas, ―ah, eu não estou interessada nesse tema‖ e tal, assisto e sempre sou surpreendida com a riqueza das ideias que circulam aqui na Universidade, que não fosse o CASa Aberta eu não saberia que elas existiam. (Bernadete Porto, em entrevista).
O CASa Aberta é reflexo sim e expositor, mas suas discussões se fazem além dos muros cerrados da Universidade. Abre-se para a comunidade e se faz comunidade.
Como diz André Haguette, na edição especial de fim do fim do ano de 2010: ―A Universidade não existe. A Universidade se faz. A Universidade se transforma‖ e o papel do
docente é ser um ―amador profissional‖ em toda duplicidade que a expressão carrega. Ele