• Nenhum resultado encontrado

Em 1986, o sociólogo Ulrich Beck sustentou em sua obra intitulada “Sociedade de Risco: rumo a uma outra modernidade” que se vive um momento de ruptura no interior da própria modernidade que reconfigura a sociedade moderna e que a transforma na sociedade “industrial” de risco. Nesta perspectiva, operam-se mudanças radicais na política, na economia e no comportamento. Isto porque, a produção de riquezas se faz acompanhar, cada vez mais, de uma produção social de riscos, desde a instabilidade dos mercados às catástrofes ambientais. (BECK, 2011; BRASIL, 2008; PARAGUASSÚ, 2013)

Neste sentido, o “conceito de sociedade de risco expressa a acumulação de

riscos - ecológicos, financeiros, militares, terroristas, bioquímicos, informacionais –

que tem uma presença esmagadora hoje em nosso mundo”. (BECK, 2011, p. 361). Esses riscos onipresentes admitem três reações: a negação relacionada à cultura moderna; a apatia associada ao niilismo pós-moderno; e a transformação alusiva à

sociedade de risco, litteris:

[...] a questão levantada por minha teoria sobre a sociedade de risco: de que modo a antecipação de uma multiplicidade de futuros produzidos pelo homem, e de suas consequências, afeta e transforma as percepções, as condições de vida e as instituições das sociedades modernas? [...] É crucial manter em vista a irrevogável indeterminação do futuro e a demanda especificamente moderna de racionalização. Minha hipótese é que a demanda de racionalização aumenta a incerteza. [...] a incerteza produzida pela sociedade industrial não resulta inevitavelmente no caos ou na catástrofe; pelo contrário, a incerteza também pode ser uma fonte de criatividade, uma razão para permitir o inesperado e experimentar o novo.[...] (BECK, 2011, p. 54)

O fundamento da sociedade de risco desenvolvida em Beck (2011) busca verificar de que modo o conhecimento antecipado de futuros produzidos pela ação humana pode afetar as suas consequências, transformar para melhor as percepções, as condições de vida e as instituições. Neste passo, apesar da busca moderna pela racionalização, sustenta-se que a incerteza também pode ser fonte de criatividade ao propiciar a experiência com o novo e com o inesperado.

Aqui, a incerteza oriunda de fenômenos naturais e que sempre fizeram parte da existência humana, desde os seus primórdios, pertencem à categoria das ameaças, e não, ao conceito moderno de risco. Desse modo, os desastres naturais são conceituados como ameaças, vêm de fora do processo decisório humano, são atribuíveis a Deus ou à natureza, como aquelas que prevaleceram no período

pré-moderno. Não obstante, o conceito moderno de risco pressupõe decisões humanas, futuros humanamente produzidos, pertencendo ao grupo de incertezas calculáveis específicas que podem ser determinadas com uma precisão atuarial, em termos de cálculo probabilístico amparado por seguro e compensação monetária. (BECK, 2011)

Assim, a sociedade de risco é concebida na perspectiva de que riscos são incertezas calculáveis específicas que podem ser determinadas, com precisão, em termos de um cálculo probabilístico. Ao distinguir risco de catástrofe, Beck (2011) exara que o risco admite a antecipação da catástrofe. Os riscos permitem encenar o futuro no presente. No centro da sociedade de risco existem incertezas calculáveis que dependem de decisões humanas, são criadas pela sociedade, impostas coletivamente e inevitáveis individualmente, tais quais as geradas pela acumulação de agroquímicos e presença de OGM na alimentação.

No contexto da sociedade de risco, o uso de agroquímicos e OGM é justicado pela antecipação de uma suposta demanda por alimentos que só poderia ser suprida com o uso de tais insumos, e assim, seria garantida a libertação da precariedade material alimentícia. Por isso, argumenta-se pela defesa da necessidade do agrotóxico para garantir a “revolução verde” que, apoiada pelas nações industrializadas, aumentou, nos últimos anos, a produção de gêneros alimentícios em 30%; e, em alguns países da Ásia e da América Latina, em até 40%. (BECK, 2011) A que custo? De que sejam pulverizadas sobre pomares e campos de algodão, arroz, soja e milho várias centenas de milhares de toneladas de pesticidas, fato ofuscado pelo êxito financeiro imediato.

Cabe ressaltar que o Brasil é uma das maiores potências agrícolas do planeta, se destaca por ser um dos maiores consumidores de agrotóxicos e o 7º consumidor por área cultivada. A venda desses produtos no país movimenta em torno de US$ 10 bilhões por ano, o que representa 20% do mercado global, estimado em US$ 50 bilhões. Em 2017, os agricultores brasileiros usaram 540 mil toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos, cerca de 50% a mais do que em 2010, com uma média de mais de 5 kg para cada brasileiro, por ano, de acordo

com o “Dossiê Abrasco: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde”,

organizado pela ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

(CARNEIRO, 2015) Esse cenário ratifica o consumo de agrotóxicos, em dólares,

Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), conforme segue. (VASCONCELOS, 2018)

Figura 24 – Maiores Consumidores de Agrotóxicos

Cabe destacar que a sociedade de risco se caracteriza pela reflexividade. Portanto, o esforço de que um risco não retorne para quem o criou é inócuo. Nesse sentido, evidencia-se que as grandes multinacionais do ramo dos agroquímicos fabricados no Brasil têm sede na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos, conforme quadro a seguir.

Quadro 11 - Ranking por Vendas de Agroquímicos no Brasil

Ranking (2017) Empresa 2016 (mn USD) 2017 (mn USD) Mudança% País da Multinacional Syngenta 1.817 1,587 -12,7 China Bayer 1.735 1,036 -40,3 Alemanha BASF 804 890 +10,7 Alemanha FMC 522 642 +23,0 EUA DuPont 608 579 -4,8 EUA Dow 622 571 -8,2 EUA Nufarm 474 504 +6,3 Austrália UPL 466 500 +7,3 Índia Adama 442 448 +1.4 Israel 10ª Monsanto 438 410 -6,4 EUA

Elaborado pela autora. Fonte: AENDA, 2018.

As indústrias químicas multinacionais estabelecidas localmente reforçam a impressão de independência na produção de gêneros alimentícios e da desnecessidade de importação dos agrotóxicos. Isto porque, o agronegócio brasileiro pode consumir o agrotóxico fabricado dentro do país e que tem garantido

as grandes safras nacionais. Destarte, a luta contra a fome e pela autonomia compõem o escudo atrás do qual os riscos, de todo modo imperceptíveis, são abafados, relativizados e devolvidos, minimizados, para os ricos países industriais onde estão as sedes das multinacionais agroquímicas: seja pela cadeia alimentar,

seja pela importação de commodities. (BECK, 2011) Até porque, no algodão, na

soja, no açúcar, no limão, na laranja, no café, no milho, no trigo, na maçã ou no arroz, resíduos dos inúmeros agrotóxicos autorizados no Brasil retornam para o consumo do mercado europeu, conforme quadro a seguir.

Quadro 12 - Agrotóxicos Autorizados por Cultura no Brasil e Exportações - 2016

Cultura Nº agrotóxicos

autorizados (Brasil)

Exportações para a Europa (ton)

Algodão 160 Algodão (bruto) 11.344

Fios de algodão 47

Soja 150 Soja em grãos e triturada 5.279.870

Óleo de soja 369 ton

Farelo de soja 7.975.607

Citros 116 Suco de laranja 1.590.495

Laranja 23.371

Limões 86.383

Café 121 Café cru em grão 980.340

Café solúvel 13.493

Café torrado 458

Extrato/essência/concentrado café 15

Milho 120 Milho em grãos 1.075.571

Óleo de milho 784

Trigo 101 Trigo em grãos 2

Arroz 100 Arroz em grãos 17.365

Maçã 96 Maçãs 16.709

Suco de maçã 2

Cana-de-açúcar

85 Açúcar de cana (bruto) 702.898

Açúcar refinado 80.307

Cachaça 4.420

Elaborado pela autora Fonte: Bombardi, 2017.

Resta ainda destacar que, na sociedade de risco, ainda que as ameaças e os riscos possam ser diferenciados em tipos ideais; na realidade, eles se entrecruzam e se misturam. Neste caso, se o agrotóxico (perigo) for pulverizado com a expectativa de atingir os cultivos e ocorrerem chuvas torrenciais inesperadas (ameça), no dia seguinte, há o risco de que grande parte do agrotóxico presente no solo chegue até os cursos d´água mais próximos que servem à população, causando também danos à saúde e ao ambiente.

Nesta seara, os processos decisórios que repercutem nos riscos dos processos alimentares são informados pelo modelo econômico prevalente que

conforma os processos de arranjos e rearranjos do poder, mantendo as forças políticas hegemônicas e, portanto, as condições sociais vigentes. Desse modo, são forjadas: a manutenção das exclusões sociais; o perfil periférico tecnológico e cultural; a subserviência econômica e financeira; a heteronomia na construção de identidade da nação; e a ausência da soberania alimentar quando se perde o direito de acessar alimentos nutritivos e culturalmente adequados, produzidos de forma sustentável e ecológica e de decidir o seu próprio sistema alimentar.

Entretanto, na sociedade de risco, o que se espera é que, no bojo do conjunto de incertezas, inclusive as relacionadas à alimentação; se o infortúnio, a catástrofe, a destruição, o desastre forem previstos, que haja uma pressão para a ação e construção social que se torne uma força política capaz de evitar ou amenizar a ocorrência do perigo e que, aos poucos, ajude a transformar o mundo para melhor. (BECK, 2011) Desse modo, uma vez que sejam previstos riscos oriundos do uso de agrotóxicos e OGM na agricultura, é esperado que haja uma construção social e uma pressão política para a adoção de tecnologias alternativas de produção em benefício da sociedade e do meio ambiente.