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Fernandes et al. (2012) argumentam que o Brasil agrário é marcado pela concentração, paradoxos e conflitos, sendo tais situações exemplificadas, dentre outras, pelas diferenças marcantes nas condições de existência entre o campesinato e o agronegócio, relacionadas, por exemplo, à quantidade de pessoas empregadas, destino da produção, terras ocupadas, acesso à crédito, etc. Como consequência, ter-se-iam posturas distintas em torno de dois paradigmas geradores de políticas de desenvolvimento para a agropecuária, a saber, capitalismo agrário e questão agrária. No caso deste último, objetiva-se reparar aquelas distorções históricas pela implementação, dentre outras, da reforma agrária (FERNANDES et al., 2012).

A reforma agrária seria importante, portanto, não apenas para viabilizar e melhorar as condições de vida de agricultores e trabalhadores rurais pobres a partir do acesso à terra, mas, em âmbito maior, para o desenvolvimento rural e do país (MDA, 2000). Apesar deste discurso abrangente, Le Tourneau e Bursztyn (2010) afirmam que foi somente a partir do final dos anos 50 que as discussões em torno da reforma agrária ganharam impulso em nível nacional, sendo que a partir da década de 70, ações práticas seriam mais visíveis via INCRA. Porém, afirmam que se por um lado haveria uma ação mais efetiva sobre focos de tensão fundiária, de outro se encaminharia um processo de deslocamento populacional para áreas pouco habitadas (em vez de reforma agrária) (LE TOURNEAU; BURSZTYN, 2010).

Fica evidente assim o destaque da Amazônia, e mais especificamente da Rodovia Transamazônica, no plano das políticas fundiárias realizadas pelo Estado a partir dos anos 70. O fracasso desta política pode estar relacionado ao abordado por Santos et al. (2011) quando argumentam que além dos projetos de colonização, outros empreendimentos acabaram por atrair migrantes, sobretudo, agricultores familiares, que atrelado à posterior ausência de assistência pelo Estado, diversos migrantes (num ambiente desconhecido) acabaram tanto exaurindo seus recursos próprios quanto enfrentando uma deterioração dos recursos naturais existentes, concorrendo assim para um quadro cada vez maior de incertezas e conflitos.

Nesta perspectiva de degradação dos recursos naturais os colonos passariam também a contribuir na redução da cobertura florestal da Amazônia, pois, como afirmam Brandão Junior e Souza Junior (2006), apesar da grande importância dos assentamentos rurais para a distribuição de terras, as atividades desenvolvidas pelas famílias como agricultura e extração de madeira têm grande potencial na geração de desmatamento e degradação florestal na região. Neste mesmo estudo, verificaram que assentamentos criados entre 1970 e 2002 contribuíram com 15% do desmatamento da Amazônia em 2004 e relatam que como resposta aos impactos ambientais gerados pelos assentamentos, o Estado tem tomado algumas ações, como por exemplo, a criação de Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS) (BRANDÃO JUNIOR; SOUZA JUNIOR, 2006).

A situação de desflorestamento citada envolve, em geral, modalidades convencionais de assentamento (Projetos de Assentamento, PA). Entretanto, os desdobramentos das experiências de colonização na Amazônia induziram o INCRA a se inserir num contexto de demandas ambientais dos seus projetos como as novas modalidades de assentamento (LE TORNEUAU; BURSZTYN, 2010).

Esta nova tendência é contemplada em INCRA (2015) ao reforçar que “O que se busca com a reforma agrária atualmente desenvolvida no País é a implantação de um novo modelo de assentamento, baseado na viabilidade econômica, na sustentabilidade ambiental e no desenvolvimento territorial [...]”. Desse modo, destaca-se uma nova postura nas políticas fundiárias, pois, “Apesar dos alertas sobre o desmatamento na Amazônia terem começado já nos anos 1970, foi só a partir dos anos 1990 que a atuação do INCRA passou a ser identificada como importante fator de degradação do meio ambiente” (LE TORNEAU; BURSZTYN, 2010, p. 119).

A partir de então ganha destaque uma política fundiária que visa conciliar reforma agrária e preservação ambiental com a criação de algumas modalidades de assentamento tidas como ambientalmente diferenciadas como: Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE), Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), Projeto de Assentamento Florestal (PAF), dentre outros.

Este fato demonstra uma política fundiária inovadora que almeja algo ainda incipiente na região amazônica, ou seja, a conciliação entre atividades produtivas e preservação ambiental. Consequentemente, os PDSs refletem uma inovação de assentamento de reforma agrária no Brasil, na medida em que estão imersos em fortes princípios e regras ambientais

caracterizando também um novo salto de preocupações ambientais na política e na prática (BRATMAN, 2011).

Bratman (2011) afirma ainda que com o surgimento desta modalidade de reforma agrária, há uma nítida ênfase em questões ambientais atreladas a um quadro predominante de correções de desigualdades sociais. Tais propósitos seriam atingidos via prática de atividades produtivas ecologicamente corretas que em geral envolvem o uso do recurso natural floresta e a agricultura. Em relação à agricultura, os PDSs estabelecidos na Amazônia comportam basicamente a chamada agricultura familiar de pequena escala, que é a atividade predominante dentre os assentados e viabiliza a subsistência de muitas famílias, não somente dentro destes assentamentos, mas também em nível regional.

No caso da área de estudo - PDS-VJ (criado em 2002) - a autonomia referente à produção agrícola das famílias é abordada por Mendes (2012, p. 132) que afirma:

Essa quantidade de bens a serem produzidos depende essencialmente da composição da família, do número de membros da família aptos para o trabalho e da produtividade da unidade de trabalho familiar. A interdependência desses fatores deve ter como resultado a garantia a autonomia econômica da família.

Salienta-se que no assentamento, tal atividade possui uma área limitada, pois cada família teria o direito de uso em 20 ha e o restante (maioria) da área do PDS-VJ corresponderia a área de Reserva Legal (destinado à manutenção e/ou uso sustentável da floresta). Nesse caso, uma importante atividade produtiva a ser incentivada tanto para o uso sustentável desta área quanto para geração de renda (recurso da venda da madeira) seria o manejo florestal. Por outro lado, haveria uma forte expectativa por uma agricultura que fosse incrementada sem demandar novas terras, ou seja, uma intensificação agrícola com práticas sustentáveis que possibilite uma melhora na qualidade de vida dos assentados. Além disso, espera-se que haja uma produção que permita tanto o consumo quanto um excedente comercializável para a geração de renda para compra de outros produtos necessários no cotidiano.