magem 14 e 15 – Oficina e reunião da UFFS na Escola Iraci Salete
3. OS PRESSUPOSTOS INTERDISCIPLINARES DA AGROECOLOGIA:
3.6 REFORMA AGRÁRIA POPULAR E SOBERANIA ALIMENTAR
As pessoas foram observando as plantas de seu interesse, selecionando e utilizando aquelas que lhes davam mais rendimento. Assim, as plantas que produziam frutos e sementes comestíveis foram as primeiras a serem aproveitadas na alimentação (Via Campesina. 2003, p.7)
O ressurgimento no campo de diversas lutas de resistências pela democratização da terra, no bojo das lutas contra a ditadura militar-empresarial de
1964, atualizou a bandeira da Reforma Agrária, como uma necessidade de enfrentamento ao grave problema da concentração fundiária e da expropriação dos camponeses Sem Terra em todo o país. É nesse contexto que se dá a formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) com sua organicidade e territorialização nas diferentes regiões do Brasil, no decorrer de mais de 30 anos.
Essas resistências e lutas se dirigiram ao combate a este novo paradigma no desenvolvimento do capitalismo no campo, agora o Estado era “obrigado” a fazer mediação dos conflitos, e “conceder” em meio às pressões e reivindicações dos camponeses. O sonho da conquista de um pedaço de terra, sempre esteve no imaginário do povo Sem Terra, que através da organização política, e da estratégia da ocupação de latifúndios improdutivos, vai concretizando seu sonho. Para os Sem Terra, isso acontece na prática, quando um latifúndio antes improdutivo, agora por suas mãos realiza a função social da terra, através da produção de alimentos para a mesa dos brasileiros.
Segundo Borsatto e Carmo (2014), o MST em sua caminhada realizou um permanente debate acerca das matrizes da agricultura no Brasil e, segundo os autores, superou uma visão de viés produtivista, em direção à visão agroecológica incorporando ao centro de seu ideário os valores do respeito e resgate da agricultura camponesa, bem como dos princípios da agroecologia. Ainda conforme os autores citados, esse processo teve início nos anos 2000, e decorre de várias questões que envolveram relações políticas institucionais, reformulação de demandas por políticas públicas, e o debate acerca da “organização dos assentamentos”, tema de confluência durante o IV Congresso Nacional do MST, em 2000. Nas resoluções do Congresso, aparece o conteúdo programático que corrobora essa tese, como uma denúncia ao modelo do agronegócio, e o anúncio da Reforma Agrária que se pretende:
Combater o modelo das elites, que defende os produtos transgênicos, as importações de alimentos, os monopólios e as multinacionais. Projetar na sociedade a reforma agrária que queremos para resolver os problemas de:
trabalho, moradia, educação, saúde e produção de alimentos para todo povo brasileiro (MST, 2000).
No mesmo documento a orientação é no sentido de compreender os desafios para a nova conjuntura dos anos 2000: “desenvolver linhas políticas e
ações concretas na construção de um novo modelo tecnológico, que seja sustentável do ponto de vista ambiental, que garanta a produtividade, a viabilidade econômica e o bem estar social”. Portanto naquele momento, na entrada do século XXI, o MST tinha claro em sua análise, a ofensiva e o avanço do modelo do agronegócio, através do pacto entre o latifúndio e as transnacionais que passaram a dominar a agropecuária brasileira através de oligopólios dos setores de tecnologias de produção, processamento e comércio agroalimentar.
Nesse sentido, no MST se intensificam as relações com a sociedade, no sentido de enraizar o debate sobre a Reforma que queremos no Brasil, enfatizando a necessidade de lutar por melhor qualidade de vida no campo e na cidade, ampliando também a discussão sobre o papel das empresas dos agroquímicos, comprometendo a qualidade nutricional dos alimentos e o bem estar do povo trabalhador e da sociedade em geral. É o que se observa nas campanhas de denúncia contra os agrotóxicos, assim como outras formas de diálogo com a sociedade, como na campanha Sementes Patrimônio dos Povos a Serviço da Humanidade, tratando da valorização dos saberes tradicionais e do reconhecimento do valor histórico cultural das sementes nas mãos dos camponeses e em especial das mulheres camponesas. Tal campanha é lançada no III Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, no ano de 2003, por iniciativa da Via Campesina Internacional19.
Discutindo a Soberania Alimentar, uma análise da Via Campesina Brasil afirma: “um povo que não produz sua própria comida é um povo escravo, pois depende de outros povos para se alimentar”. E conclui de modo profético, dizendo
“nenhuma nação será soberana se não tiver o domínio da produção de suas sementes” (Via Campesina, 2003, p.8). A intencionalidade das multinacionais que controlam o mercado mundial de sementes é reduzir drasticamente sua diversidade, para tornar o camponês dependente da aquisição de cultivares impostos pelo pacote tecnológico do capital. Hoje as sementes industrializadas pelos grandes monopólios, para garantir seu ciclo produtivo, seguem o receituário controlado pelas mesmas empresas, acarretando a vulnerabilidade das culturas.
19 A Via Campesina é um movimento internacional que coordena organizações camponesas de pequenos e médios agricultores, trabalhadores agrícolas, mulheres rurais e comunidades indígenas e negras da Ásia, África, América e Europa.
As multinacionais controlam a produção e o comércio de sementes que são
“melhoradas”, eliminando as resistências naturais e aumentando a vulnerabilidade das culturas. Criando-se assim, a dependência dos agrotóxicos. As multinacionais que fabricam os agrotóxicos são as mesmas que controlam o “melhoramento”, a produção e a comercialização de sementes. A uniformidade genética leva à perda de variedades e à vulnerabilidade das plantas às pragas e doenças. (VIA CAMPESINA, 2003, p.10)
Com o monopólio da produção das sementes e o desaparecimento da diversidade genética, o futuro da humanidade está em risco. A expansão dessas multinacionais no controle da produção e comércio das sementes, significa que, quem controla as sementes, controla todo o sistema alimentar. De acordo com a Via Campesina (2003, p.10), os povos pré-históricos alimentavam-se de mais de 1.500 espécies de plantas e pelo menos 500 dessas espécies e variedades têm sido cultivadas ao longo da história. Hoje alimentamo-nos basicamente com apenas 30 vegetais cultivados e, desses, trigo, arroz, milho e soja representam mais de 85% do consumo de grãos. Existe uma armadilha, quando se extinguem variedades tradicionais de sementes, as comunidades perdem uma parte de sua história e de sua cultura. As espécies vegetais perdem uma parte de sua diversidade genética.
Acerca da crescente centralização dos mercados, Ribeiro (2003), afirma que na entrada do século XXI, das 100 maiores economias do mundo, 51 são empresas e 49 são países. As fusões e aquisições corporativas se aceleraram na década passada e atualmente representam mais de 12% do produto global. As vendas das 500 maiores transnacionais equivalem a 47% do produto do planeta, empregando apenas 1,59% da força de trabalho mundial (Ribeiro, 2003, p.17)
Há 20 anos, existiam milhares de empresas produtoras de sementes e nenhuma atingiu 1% do mercado. Hoje, dez empresas controlam 30% do mercado mundial. Na mesma época existiam 65 empresas de insumos agrícolas. Hoje, uma dezena de empresas controla 90% do mercado. Há 15 anos, as dez maiores indústrias farmacêuticas controlavam 29% do mercado; hoje, controlam 58,4% (RIBEIRO, 2003, p.18)
Desde 2008, se intensifica no MST a luta contra as grandes empresas dos agrotóxicos, como se percebe na Campanha difundida junto à sociedade sobre o uso dos agrotóxicos na agricultura brasileira. O Brasil tornou-se o maior consumidor mundial de agrotóxicos, e um alentado volume de pesquisa mapeiam em várias regiões do país a incidência de doenças cancerígenas provocada pelo veneno dos alimentos. A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida produziu o
documentário “O veneno está na mesa” como meio de ampliar o debate sobre a gravidade do uso dos agrotóxicos, como meio de sensibilizar a sociedade brasileira para os riscos que os agrotóxicos representam, e anunciar um novo modelo de produção de alimentos baseado na Agroecologia20. Analisando as ações que MST vem construindo com a sociedade civil organizada, percebe-se que o diálogo pode ser ampliado, e como exemplo temos as várias iniciativas de realização das feiras de alimentos da Reforma Agrária, que ao mesmo tempo constituem um modo de aproximação entre o campo e a cidade e difundem a perspectiva da agroecologia. .
No VI Congresso Nacional do MST, realizado em Brasília em 2014, foi aprovado o seu Programa de Reforma Agrária Popular, com uma análise acerca do processo de desenvolvimento do capitalismo no campo, situando o contexto histórico das mudanças estruturais na produção e na propriedade da terra, e as classes sociais resultantes nesse processo. O Programa conclui o diagnóstico destacando as contradições geradas pelo atual modelo, exigindo lutas contra-hegemônicas. Nesse sentido, o documento analisa a natureza da Reforma Agrária Popular, e os mecanismos para sua conquista, e concluindo com o lema: Lutar, Construir Reforma Agrária Popular que vai dialogar e animar sua base social, em suas lutas, resistências e afirmação territorial.
Na natureza da Reforma Agrária Popular, a terra tem uma centralidade, ela e todos os bens da natureza, em nosso território nacional, devem estar sob controle social e destinados ao benefício de todo povo brasileiro e das gerações futuras (MST, 2014) e para isso, a luta para democratizá-la e impedir sua concentração e apropriação privada são fundamentais, assim como assegurar uma legislação que limite o tamanho máximo da propriedade, garantindo a função social e demarcação das áreas dos povos indígenas e comunidades quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e pescadores artesanais e tradicionais.
No Projeto de Reforma Agrária Popular a organização da produção deve desenvolver-se “com o controle dos trabalhadores sobre o resultado de seu trabalho.
As relações sociais de produção devem abolir a exploração, a opressão e a
20 Ver mais informações. http://contraosagrotoxicos.org/
alienação”. Nesse sentido, indica que os alimentos são um direito humano de todos os cidadãos e não podem estar submetidos à lógica do lucro.
Para tal, propõe a adoção de técnicas agroecológicas, abolindo o uso de agrotóxicos e sementes transgênicas, utilizando máquinas agrícolas apropriadas à sustentabilidade ambiental, produtividade, trabalho e renda, e em equilíbrio com a natureza. Nas relações sociais produtivas, a cooperação agrícola é central, assim, como a interiorização da agroindústria, e conseqüentemente o aprimoramento nas relações entre o campo e a cidade através do consumo de alimentos saudáveis e nutritivos.
Como parte da experiência no Ceará, na Escola de Ensino Médio Francisco Araújo Barros, situada no Assentamento Lagoa do Mineiro em Itarema, um coletivo de jovens do Ensino Médio participante do Programa Residência Agrária coordenado pela Universidade Federal do Ceará – UFC, desenvolveu uma ação dentro no contexto da Jornada Cultural, objetivando o resgate dos hábitos alimentares das comunidades da região, onde está sediada a Escola.
A cultura da mandioca, é uma das principais atividades econômicas do lugar e, neste sentido, a turma organizou um trabalho de pesquisa-ação dos hábitos alimentares em torno de tal produto; sendo o resultado apresentado em uma feira de degustação dos sabores da mandioca, quando a comunidade apreciou uma diversidade de pratos típicos da culinária tradicional, como por exemplo: tapioca, beiju seco, bolo de macaxeira, macaxeira cozida, bolo de carimã, caldo de caridade, doce de macaxeira com manga e gengibre, dentre outros.
Um dos propósitos desta ação é a conscientização da comunidade em geral, sobre os princípios de uma alimentação saudável e a valorização dos hábitos e costumes da cultura local. Neste sentido, como trabalho suplementar se organiza um inventario a ser publicado, de receitas da culinária da mandioca, para que a comunidade do Assentamento possa celebrar ainda mais seu modo de vida e o resgate de suas tradições alimentares. VER ANEXO I imagens do trabalho realizado.