Sessão de 29/4/1879
O SR. JOAQUIM NABUCO – Senhores, os debates tão brilhantemente iniciados neste Parlamento pelo meu honrado amigo, representante do Rio de Janeiro, o Sr. Pedro Luís, são os mais solenes que nele se têm travado, desde o dia em que aqui se discutiu e venceu a emancipação dos escravos. Não que eu queira comparar os direitos da liberdade aos direitos eleitorais, não que eu não saiba que o primeiro problema deste país é a emancipação dos escravos, mas porque, seguramente, depois de todos esses direitos, que completam e garantem a dignidade hu-mana, não há nenhum igual ao direito, que tem todo cidadão, de tomar parte no governo do seu país, na marcha da sociedade a que pertence.
Mas, senhores, ao contrário do Partido Conservador, que convocava o Parlamento para garantir a liberdade àqueles que ainda iam nascer do ventre escravo, o Partido Liberal, depois de dez anos de oposição, con-voca o seu Parlamento, não para alargar o direito de sufrágio àqueles que ainda não se acham na posse dele, mas para tirá-lo a um grande número daqueles mesmos que nos mandaram a esta Casa.
O Sr. Zama – É preciso dizer a verdade como ela é.
O Sr. Lourenço de Albuquerque – É assim que se escreve a história.
O SR. JOAQUIM NABUCO – Começo lamentando não ver nenhum dos nobres ministros sentados naquelas cadeiras (apontando para as ca-deiras dos ministros) depois do debate de ontem.
Vozes – Estão no Senado.
O SR. JOAQUIM NABUCO – E ainda que o nobre deputado pelo Maranhão tenha defendido o projeto sob novos pontos de vista, que o devem sin-gularmente comprometer perante aqueles que o assinaram por espí-rito de liberalismo, pode-se dizer que o discurso do honrado Sr. José Bonifácio reclamava uma resposta da parte do governo. O governo não pode desconhecer que esse discurso foi um acontecimento importan-te, não somente pela profunda impressão que produziu neste recin-to, mas pelas ovações que o acolheram de todas as partes, ovações da
parte do povo ontem, e da imprensa esta manhã. O governo não pode desconhecer que este discurso foi um acontecimento político da maior importância, e que, pelo menos, ele deve ter uma resposta.
Uma voz – Pode ter ainda.
O Sr. Zama – O povo fez o seu dever aplaudindo o grande talento do orador; agora a resposta será dada convenientemente.
O SR. JOAQUIM NABUCO – A conveniência das respostas é serem dadas a tempo.
Ainda que perante o país tenhamos a obrigação de trazer o nosso pen-samento a esta tribuna, nós já podemos, senhores, considerar a nossa causa moralmente ganha.
Senhores, eu não quisera nem de longe enfraquecer o brilho daquela eloquência esplêndida, de que vós ontem fostes espectadores como-vidos. Quando vi levantar-se naquele lugar um homem ilustre, que trazia o nome e a responsabilidade da glória dos Andradas, como que me passaram pela imaginação todas essas grandes aristocracias do talento; todas essas famílias populares que constituíram o legítimo orgulho dos outros países.
Lembrava-me de Cimon, o filho ilustre do vencedor de Maratona, grande bastante para depois de morto fazer a sua frota, protegida tão somente por seu nome, passar ilesa entre os navios inimigos.
Parecia-me ver a família dos Cipiões, cuja história é a melhor parte da história romana; Pitt, aparecendo na tribuna onde tinha resplande-cido o gênio de Chatam e testemunha dessa transmissão de um grande passado a um brilhante futuro, vendo intato e aumentado esse patri-mônio nacional: eu sentia orgulho como brasileiro ao ver levantar-se do meio de nós um contemporâneo, digno de prender a geração de hoje à da Independência, e que honra o nome de José Bonifácio.
Mas, senhores, grande como foi essa palavra, magníficos como foram os acentos dessa invocação de uma eloquência inspirada, da qual hoje o nobre deputado pelo Maranhão quis fazer a paródia, eu senti que a sua força não vinha tanto do talento, do nome tradicional do orador, dos recursos que ele aqui desenvolveu, como da ideia que ele defendia, da causa popular que tinha a peito, porque essa mesma palavra, esse
mesmo homem, sustentando outras ideias, achar-se-ia impotente diante da opinião, tentaria um esforço tão inútil como o das vozes que, junto ao mar, quisessem dominar o barulho das ondas.
É essa, senhores, a significação, é essa a importância do discurso que ontem foi pronunciado nesta tribuna. É que pela primeira vez todos os sentimentos de que nos achamos possuídos com relação à lei, em uma palavra, a emoção que está nascendo contra o projeto, nas massas que ele vai afastar das urnas, achou uma voz digna de interpretá-la.
Ainda que sejamos poucos nesta Casa a combatê-lo, ainda que ele es-teja coberto de numerosas assinaturas que garantem a votação, antes mesmo de ser discutido, nós podemos dizer que somos poucos, mas, que assim como certas conchas guardam em seu seio os ruídos do mar, nós trazemos para esta tribuna, uns a grande repercussão, outros, o eco enfraquecido da indignação pública.
Senhores, ouvi classificar alguns argumentos do meu nobre amigo, de imaginação, de declamação, como alguma coisa que não merecesse ser trazida para este Parlamento, nem prender a atenção da Casa.
Assim foi, para tomar um exemplo, que, quando ele nos falava da re-lação que deve haver entre o direito de voto e o direito de morrer pelo país, pareceu-me que este argumento não calava em muitos espíritos, que muitos não lhe sentiam a força, nem viam a evidência da solidarie-dade íntima que há entre os direitos e os deveres do cidadão.
Mas, senhores, em todos os países em que eu estive, ainda que nunca em tempo de guerra, mas, quando se falava em guerra, quando via passar diante de mim os regimentos disciplinados, muitas vezes pen-sei que a sociedade seria uma especulação, uma exploração odiosa, se esses que vão morrer pela pátria deixando a um aceno tudo que lhes é caro, sem perguntar por quê, só servissem para dar a vida por in-teresses, ainda que superiores, em cuja direção não tivessem parte;
se fossem associados à causa pública somente pela morte, se no mais fossem estrangeiros em sua pátria. Por isso a relação estreita, íntima, indissolúvel que há entre esses dois direitos do cidadão, de ser elei-tor e de ser soldado, para mim não era uma imagem, uma declama-ção; era alguma coisa que eu tinha sentido de um modo vivo, cuja força eu compreendia; e assim a eloquência do nobre deputado, quaisquer
que sejam os qualificativos que lhe queiram dar, para elevá-la às nu-vens e ao mesmo tempo diminuir-lhe o efeito, não era para mim, que a escutava, simplesmente magnífica, era profundamente verdadeira.
Senhores, o projeto que hoje se discute aparece neste recinto debaixo dos mais tristes auspícios.
É um projeto que foi debatido em Conselho de Ministros, resolvido em conferência ministerial, razão pela qual eu disse, e o nobre depu-tado por Piauí [o Sr. Dória] levantou a minha expressão, que o auto do corpo de delito da iniciativa parlamentar estava em cima da mesa por letra do ministro da Justiça. É um projeto que foi discutido com audiência do imperador, que foi objeto de transações entre o Minis-tério, que determinou mesmo a retirada de dois dos mais ilustres dos seus membros, e que somente depois de ter passado por todos estes trâmites e depurações, chegou a esta Casa, onde foi no mesmo dia coberto pelas assinaturas de uma grande maioria.
O Sr. Freitas Coutinho – Os chefes do seu partido declararam terminan-temente que a reforma eleitoral era um projeto do Governo.
O SR. JOAQUIM NABUCO – O nobre deputado diz o “seu partido”: é para excluir-se dele?
O Sr. Freitas Coutinho – Eu sou republicano, não sou liberal.
O SR. JOAQUIM NABUCO – Nós sabíamos, senhores, que, o projeto fora debatido em conferência ministerial. No relatório do Sr. Ministro do Império, S.Exa. nos prometeu um projeto de reforma eleitoral e disse--nos que em tempo ele seria presente ao Parlamento. De que projeto tratava-se, pergunto eu? Tem porventura o Governo ideia de apre-sentar outro projeto, ou é deste mesmo que S.Exa. ocupa-se no seu relatório?
O Sr. Lourenço de Albuquerque – Trata deste mesmo. O que a Consti-tuição diz é que o projeto terá origem na Câmara dos Deputados.
O SR. JOAQUIM NABUCO – O nobre deputado toma a questão debaixo de um novo ponto de vista. V.Exa. entende que este projeto podia ter sido iniciado pelo Governo, tendo origem na Câmara dos Deputados, mas eu entendo que a Constituição não deve ser interpretada desta
forma e que quando a Constituição diz – terá origem na Câmara dos Deputados – quer dizer – será da iniciativa da Câmara dos Deputados.
O Sr. Zama – Terá origem – quer dizer que começará aqui e não no Senado.
O SR. JOAQUIM NABUCO – Durante 10 anos o Partido Liberal clamou pela eleição direta. O nosso sistema eleitoral, e realmente não podia ser qualificado melhor, é uma comédia cheia de episódios trágicos, como disse o honrado Visconde Inhomirim, ou é uma tragédia cheia de incidentes cômicos. O Partido Liberal entendeu sempre que a eleição direta seria uma grande conquista, mas entendeu que seria uma grande conquista porque havia de simplificar o processo eleitoral, porque viria quebrar esse molde desacreditado dos dois graus e eli-minar o intermediário, chamado eleitor, entre o candidato e o votante.
A eleição direta parecia a todos os liberais, e foi essa a razão por que tanto assentimento ganhou no país, um grande melhoramento, porque ela ia pôr em contato imediato o deputado com o eleitor. Mas, senhores, nunca o Partido Liberal pediu a eleição direta porque achasse que era necessário que a nossa eleição fosse censitária; nunca o Partido Liberal pediu a eleição direta porque pensasse que o vício da nossa eleição era a concorrência das massas ativas do país, porque descon-fiasse delas, porque as desprezasse, ou entendesse que era preciso restringir o direito de voto para fundar o regime representativo.
Quando se organizou o atual ministério, tinha ou não o nosso partido o direito de esperar que a reforma, que lhe fosse presente, estivesse à altura das suas aspirações democráticas? A organização ministerial porventura não foi assinalada por um cunho extremamente demo-crático? Não vimos entrar para os conselhos da coroa um republi-cano, liberais de opiniões as mais avançadas, como o nobre ministro do Império, cujo programa chegava até à limitação do direito que a coroa tem de dissolver a Câmara? Entretanto, esses homens liberais, que tinham manifestado as suas ideias na tribuna e na imprensa, não acharam para propor à mocidade brilhante desta Câmara, para propor às aspirações de todos nós senão uma reforma conservadora, uma reforma censitária, uma reforma que nós não podemos aceitar sem renegar todos os nossos princípios.
Que ação estranha foi esta que fez que esses homens, liberais como são, liberais como sempre foram, viessem apresentar-nos um projeto que não se pode deixar de supor um compromisso e que parece uma transação?
O Sr. Zama – O projeto é a tradução das aspirações que tínhamos em oposição.
O SR. JOAQUIM NABUCO – Senhores, tem havido duas interpretações do modo por que o problema da eleição direta foi resolvido em Con-selho de Ministros ou, antes, no momento em que o Partido Liberal subiu ao poder.
Uma interpretação é que o imperador recebeu do primeiro-ministro o conselho de fazer a eleição direta por meio da Constituinte; outra interpretação, e que se funda na opinião pública, é que a Constituinte foi condição sine qua non da ascensão do Partido Liberal. (Apartes.) Senhores, o honrado Sr. Presidente do Conselho, quando chegou de Nova Friburgo, chamado pelo imperador, depois de terem sido o pre-sidente da Câmara e o prepre-sidente do Senado ouvidos a respeito das disposições das duas câmaras com relação à eleição direta, fez a al-guns de seus amigos a honra de consultá-los. S.Exa. disse que formulou esta pergunta: se a Constituinte for uma condição, devemos aceitar o poder? e que lhe responderam – sem que S.Exa. tenha dito quem lhe respondeu – “que seria inépcia recusá-lo”.
Senhores, podia o nobre presidente do Conselho, antes de ir a São Cristóvão, consultar alguns de seus amigos, mas como podiam eles aconselhar não sabendo S.Exa. do que se ia tratar em São Cristóvão, não sabendo que condições o imperador apresentaria, nem se o impe-rador ia apresentar condições?
O Sr. Lima Duarte – Preveniram-se todas as hipóteses em casa do Sr. Senador Nabuco. (Há outros apartes.)
O SR. JOAQUIM NABUCO – Felizmente, o nobre presidente do Conselho parou neste ponto, do histórico que fez das conferências. S.Exa. não disse que, em São Cristóvão, o imperador lhe impôs a condição da Cons-tituinte; ao contrário, disse que chegou a São Cristóvão e aconselhou o imperador que a reforma se fizesse por meio da Constituinte.
Felizmente não houve condição imposta na opinião de S.Exa., e o país estimaria muito saber que não houve condição aceita. Mas devo dizer que é possível que alguns desses amigos que tiveram a honra de ser consultados por S.Exa. dissessem ao Sr. Presidente do Conselho que seria inépcia não tomar o poder, se fosse preciso fazer uma transação quanto à forma da decretação da lei, mas, entenda-se bem, uma tran-sação com a Câmara conservadora ou com o Senado.
Não era possível, senhores, que qualquer desses homens tivesse dito a S.Exa. que aceitasse condições da parte da coroa, porque não estaria na dignidade política de um chefe de partido nem dar nem receber esse conselho; seria, aos olhos da Inglaterra, um fenômeno de um mundo desconhecido entrar um partido para o poder aceitando condições que desde logo o condenassem à impotência e esterilidade. (Apartes.) Tive ontem perante os olhos um número da Revista de Edimburgo e li, nesse grande expositor das ideias liberais inglesas, que Jorge III uma vez quis exigir de seus ministros que se comprometessem por certas medidas com referência à emancipação dos católicos, mas que eles, imediatamente, demitiram-se, acrescentando o escritor: não há inglês, não há grupo de estadistas ingleses que aceitassem o poder sob condições. (Apartes.)
Prefiro, pois...
O Sr. Zama – É preciso lembrar-se de que estamos no Brasil.
O SR. JOAQUIM NABUCO – ... prefiro, pois, acreditar que não hou-ve transação, que não houhou-ve condição; preciso mesmo acreditar que o Partido Liberal não assinou nenhum pacto de São Cristóvão; que o Partido Liberal está no poder com inteira liberdade de ação para mu-dar sua marcha conforme a indicação dos seus chefes, conforme o voto do Parlamento.
Vozes – Não há questão.
O SR. JOAQUIM NABUCO – Senhores, o honrado Sr. Presidente do Con-selho, referindo-se a esta matéria no Senado, e vejo que opiniões se-melhantes estão-se espalhando rapidamente entre os liberais, disse que a coroa tinha o direito constitucional de intervir efetivamente na marcha política do país, que pela nossa Constituição o imperador
não era isso que se pinta diversamente, com metáforas expressivas, que no fundo quer dizer – um poder de funções meramente latentes, na frase do Sr. Bagehot, um fator limitado na direção política do país;
e trouxe-nos, para exemplo, alguns casos da história da Inglaterra.
Devo dizer, quanto à história da Inglaterra tão citada e comentada, que o direito constitucional da Inglaterra, no tempo da Rainha Vitória, não é o do reinado dos seus tios, como não é o da época dos Stuarts.
Os progressos da Inglaterra, em matéria de Constituição, são muito rápidos; os precedentes únicos que se podem citar são os precedentes do atual reinado.
No atual reinado, é preciso dizer, referindo-me ainda ao artigo da Revista de Edimburgo, se no atual reinado o país se convencesse de que a coroa tem ação real e decisiva na direção de seus negócios, a Monarquia ficaria comprometida.
O Sr. Freitas Coutinho – E as cartas escritas pela Rainha Vitória? Um escritor francês dizia que se a Rainha Vitória fosse substituída por Jorge III as instituições inglesas serviriam para o despotismo.
O SR. JOAQUIM NABUCO – O nobre deputado há de lembrar-se que, quando falou nesta Casa, não aceitou a minha colaboração no seu discurso, recusando os meus apartes. S.Exa. há de permitir-me que também não aceite a sua colaboração para o meu.
O Sr. Feitas Coutinho – Não recusei os apartes; ao contrário, talvez não falasse cinco minutos com certa liberdade; fui constantemente interrompido e não me queixei.
Vozes – Ouçamos o orador.
O SR. JOAQUIM NABUCO – Mas, se não houve transação com a coroa, se o partido está governando com plena liberdade de ação, não é menos certo que o atual projeto revela uma transação que eu quero supor que é feita com a opinião conservadora do Senado.
Senhores, por falar no Senado...
O Sr. Manuel Pedro – Apoiado; estamos entregues ao Senado.
O SR. JOAQUIM NABUCO – ... devo dizer que os adversários da vitali-ciedade do Senado, os quais devem ser muito numerosos porque é as-piração consignada no programa do partido, não qualificaram ainda
aquela instituição, como o nobre deputado que, hoje, constituiu-se seu defensor, de instituição híbrida, de verdadeiro sarcasmo. O nobre deputado pelo Maranhão foi muito irônico em todo o seu discurso:
para S.Exa. a escravidão é um sarcasmo inevitável, por isso quer con-servá-la; para S.Exa. o Senado é outro sarcasmo, por isso não quer que se lhe toque, quer deixá-lo como está.
Mas quanto ao Senado, que seus acusadores não qualificam como o nobre deputado seu defensor o fez, devo dizer, tirando o que nessas palavras possa haver de associações e lembranças pessoais, que cada vez mais o país sente o vácuo deixado naquela tribuna por tantos dos nossos chefes.
Quando subimos ao poder, cheios, naquele tempo, do entusiasmo das grandes ilusões, quando não se sabia que nós havíamos de deixar a bagagem do triunfo no limiar do capitólio, carregados com os despojos das nossas vitórias passadas, seguidos dos nossos cativos, como os triunfadores romanos, entramos na cidade atravessando as estradas marginadas de túmulos, que eram os dos nossos chefes mais ilustres.
Se eles estivessem vivos, com a fé liberal que os inspirava, que operava neles essa grande transformação pela qual, de ano para ano, de dia para dia, os seus corações se alargavam, simpatizavam mais com as necessidades do povo e com as aspirações do país, de modo que eles, conservadores de origem, tinham chegado a ser mais liberais do que muitos que até se poderiam encontrar no campo dos republicanos; se eles estivessem vivos, é certo que a transação com o Senado, que este projeto revela, não teria sido feita nestes termos.
O que se venceu no Conselho de Ministros foi que, para obter o voto da maioria do Senado, para associar a maioria conservadora do Senado, os nossos adversários, à organização da nova lei, nós tivemos que abandonar princípios que devíamos colocar acima de tudo.
O Sr. França Carvalho – Pode afiançar que o Senado aceita a reforma?
O SR. JOAQUIM NABUCO – Não sei, mas sei que o projeto é uma tenta-tiva para que o Senado a aceite. (Trocam-se diversos apartes.)
Tivemos que abandonar muitos dos princípios que devíamos pôr acima de tudo, como o princípio da liberdade de consciência, e tivemos de
sujeitar-nos à dura necessidade de trazer para aqui, na próxima legis-latura, uma assembleia constituinte sem virilidade, sem forças, impo-tente e desde já condenada à dissolução, porquanto a lei de orçamento de 18 meses, que votastes, habilita o governo para dissolvê-la, se ela não se mostrar desde o princípio humilde, e à menor demonstração que faça para sair dos limites, que vós ides traçar no projeto, à sua consciência e à sua soberania.
A elegibilidade dos acatólicos foi o motivo pelo qual dois dos mais distintos dos nossos correligionários tiveram que abandonar o poder. Ministros liberais não podiam manter-se no poder por força e em virtude do princípio da liberdade de consciência! E, no entanto, referindo-me mais detidamente à menção que já fiz do congresso de Berlim, quando há pouco a Europa reuniu-se para constituir as novas nacionalidades do Oriente, e quando a França tomou a iniciativa de propor que todos os súditos dos novos Estados tivessem os mesmos direitos, quaisquer que fossem as suas crenças religiosas... os repre-sentantes da Turquia, os reprerepre-sentantes do sultão...
O Sr. Freitas Coutinho – Fizeram isso sob a pressão das nações estran-geiras. (Há outros apartes.)
O Sr. Presidente – Atenção!
O SR. JOAQUIM NABUCO – ... aqueles que representavam o estandar-te do crescenestandar-te disseram que semelhanestandar-te disposição era desnecessá-ria, porque a Turquia estava disposta a garantir a todos os seus súdi-tos de qualquer religião a mesma igualdade de direisúdi-tos! E, no entanto, no trabalho de Berlim, assinado pelas primeiras potências da Europa, o princípio da liberdade de consciência, isto é, da igualdade de todas as religiões perante a lei, perante os cargos públicos, foi sancionado de um modo vitorioso, passou do domínio do direito constitucional de cada país, para o domínio mais vasto do direito internacional, para o domínio da civilização moderna, para o número das conquistas libe-rais que fazem a honra do século XIX!
Entretanto, no Brasil, em uma monarquia liberal, o Ministério colo-ca o imperador na posição de ser mais tolerante do que o chefe dos crentes! Isto é, falando da elegibilidade dos acatólicos; mas, falando da Constituinte constituída, do censo elevado, não tenho senão que