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Reforma do clero secular e regular Movimento da observância

No documento Maria Isabel Pessoa Castro Pina (páginas 50-59)

Quem foram afinal os mentores e os protagonistas mais activos destas iniciativas de reforma nos séculos XIV e XV? Em que palcos e cenários se desenvolveram?

Os reformadores foram muitos. Actuaram um pouco por toda a parte: a hierarquia, em especial alguns bispos nas suas dioceses; os religiosos, primeiro nos seus conventos e depois em toda a ordem; os reis e os príncipes na sua corte; os senhores nos seus palácios, nas suas capelas e nas comunidades que protegiam; grupos de cristãos que seguiam opções religiosas mais radicais e criavam os seus círculos devotos. Sucederam-se experiências a um ritmo muito rápido e por vezes com um carácter efémero30, as quais, no entanto, não ficaram confinadas aos espaços particulares onde nasceram e se desenvolveram, mas tiveram consequências amplas que afectaram a vida religiosa e as práticas devocionais dos séculos seguintes31.

A reforma do clero secular não foi tão eficaz como seria de desejar. Por estarem mais próximos do povo fiel, a ignorância, negligência, os hábitos dissolutos e os privilégios dos párocos eram especialmente notórios. O número de clérigos foi aumentando sempre, o que tornava ainda mais difícil a tarefa dos reformadores. O sistema de dispensas e benefícios permitia a ascensão de clérigos ambiciosos que depois de alcançarem os lugares mais proveitosos eram também nomeados para as funções clericais, desde as mais altas e vantajosas até às mais modestas. Foi este o grande obstáculo à reforma que se manteve sem alterações até ao concílio de Trento.

28Cfr. André Vauchez, “L’idée d’Eglise dans l’Occident latin”, in Histoire du Christianisme des origines

à nos jours, vol. VI, Un temps d’épreuves (1274-1449), p. 297.

29 Cfr. Adeline Rucquoi, “La réforme monastique en Castille au XVe siècle: une affaire sociale”, Horizons

marins. Itinéraires spirituels (Ve – XVIIIe siècles) vol. I, Mentalités et sociétés, Paris, Publicatións de la

Sorbonne, 1987, pp. 239-253.

30 Cfr. Maria de Lurdes Rosa, “A religião no século: vivências e devoções dos leigos”, in História

Religiosa de Portugal, vol. 1, Formação e limites da Cristandade, p. 494.

31 Cfr. Maria de Lurdes Correia Fernandes, “Da reforma da Igreja à reforma dos cristãos: reformas,

pastoral e espiritualidade”, in História Religiosa de Portugal, dir. Carlos Moreira Azevedo, vol. 2, Humanismos e reformas, coord. João Francisco Marques e António Camões Gouveia, pp. 16-20.

Os bispos não conseguiam dar conta da sua missão. Da tripla função que corresponde ao poder episcopal – santificar, ensinar e governar –, os prelados ficavam- se por esta última. Na impossibilidade de reformar as almas, procuravam, ao menos, administrar eficazmente o que lhes fora confiado. Nalgumas dioceses realizaram-se sínodos e visitas periódicas e, embora o efeito corrector tenha sido reduzido, interessa destacar a sua coincidência cronológica aproximada com as reformas do clero regular32. Esta simultaneidade manifesta uma consciência da necessidade de reforma, mesmo no clero secular, que não existia anteriormente. Outra manifestação da mesma preocupação foi o aparecimento dos primeiros catecismos. No século XVI, apesar do apoio do papado e da força de Trento, a reforma do clero secular foi difícil e morosa. Compreende-se portanto que estas primeiras tentativas dispersas, empreendidas timidamente aqui e além, não tenham alcançado os efeitos desejados33.

Em relação ao clero regular, a situação evoluiu de outra forma e teve melhores resultados. De facto, a efectiva reforma da Igreja parece ter começado pela dos religiosos. Apesar dos abusos disciplinares e da “má fama” de um considerável número de casos, o ideal regular não enfraquecera ao longo do século XV, antes pelo contrário; estudos recentes mostram como a centúria de Quatrocentos registou por toda a Europa um surto do ideal e da espiritualidade monástica34. Apesar disso – ou talvez por isso mesmo – também aqui se fazia sentir a necessidade de reforma. Aliás, dentro da Igreja, o ambiente monástico fora desde sempre o mais propício à reflexão sobre a ideia de reforma. No século XV não havia outro sítio onde se discutisse tanto a reformatio ou a renovatio como nos mosteiros e conventos35.

32 Cfr. Francis Rapp, L’Eglise et la vie religieuse en Occident, pp. 212 e ss. 33 Ibidem, p. 216.

34 Cfr. para Espanha: Jose Garcia Oro “Spagna. III. Los siglos XV-XV (1380-1580)”, in Dizionario degli

istituti di perfezione, vol. 8, Roma, 1988, col. 1946-2007 e, do mesmo autor, “La reforma de la Iglesia y la monarquia española”, in Congreso Internacional de Historia. El tratado de Tordesillas y su época, vol. 2, Madrid, Sociedad “V Centenario del Tratado de Tordesillas” – Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses – Junta de Castilla y León, 1995, pp. 661-679 e Adeline Rucquoi, “La réforme monastique en Castille au XVe siècle: une affaire sociale”, in Horizons marins.

Itinéraires spirituels (Ve– XVIIIe siècles) vol. I, Mentalités et sociétés, pp. 239-253; para Itália: Charles

de la Roncière, “L’Eglise en Italie”, in Histoire du Christianisme des origines à nos jours, vol. VI, Un temps d’épreuves (1274-1449), pp. 744-754; para França: Arlette Jouanna, Philippe Hamon, Dominique Biloghi, Guy Le Thiec, La France de la Renaissance. Histoire et Dictionnaire, Paris, Robert Laffont, 2001, pp. 982-984 e 1036-1039; Philippe Racinet, Crises et renouveaux. Les monastères clunisiens à la fin du moyen âge (XIIIe-XVIe siècles). De la Flandre au Berry et comparaisons méridionales, Arras, Artois Presses Université, 1997; Jean-Marie Le Gall, Les moines au temps de réformes; sobre a Europa Central : Kaspar Elm, “Les ordres monastiques, canoniaux et militaires en Europe du Centre-Est au bas Moyen Age”, in L’Église et le peuple chrétien dans les pays de l’Europe du centre-est et du Nord (XIVe- XVe siècles), Rome, École Française de Rome, 1990, pp. 165-186.

O movimento da observância iniciado no século anterior deu o mote a essa reforma que progressivamente se estendeu a quase todas as ordens religiosas, à excepção dos cartuchos e de algumas outras ordens de instituição recente. Tratava-se de regressar ao cumprimento da regra e das normas prescritas, combatendo o relaxamento e a decadência que, por motivos vários de carácter externo e interno, se tinham introduzido na vida regular. As tendências essenciais da observância iam na linha de restaurar a vida comum em clausura e de fomentar a austeridade e pobreza real no estilo de vida pessoal e comunitário. A importância conferida à oração mental individual era outro traço específico da nova espiritualidade36.

A reforma desenvolveu-se em rede, numa rede dinâmica, sociologicamente aberta, em que não importava muito a obediência ou a ordem a que se pertencia, desde que fosse reformada37. Comunicavam-se pessoas, textos e benefícios espirituais. Os religiosos sentiam-se mais próximos de quem, como eles, se opunha ao laxismo do que dos não reformados da sua própria família religiosa38. De facto, foram eles, os religiosos reformados, que na maioria dos casos nem ocupavam cargos relevantes, aqueles que mais contribuíram para o êxito do empreendimento. O que mantinha e desenvolvia a reforma não eram os mandatos nem as prescrições, mas sim a convicção e o fervor dos que a tinham aceite e se empenhavam em levá-la à prática39.

A reforma das ordens monásticas foi alastrando lentamente a partir de alguns focos de irradiação. Um dos mais precoces poderá ter sido a comunidade de beneditinos observantes instaurada na cidade de Valladolid em 139040. Anteriormente, em 1313, três nobres haviam também fundado perto de Siena o mosteiro de Monte Oliveti que viria a ser o fulcro de uma congregação beneditina dinâmica e poderosamente reformadora41. Já na centúria de Quatrocentos, Subiaco e Santa Justina de Pádua foram outras experiências reformadoras da vida monástica que obtiveram sucesso em Itália e que, à semelhança dos Irmãos de Vida Comum e dos cónegos regrantes de Windesheim, na

36 Cfr. M. Fois, “Osservanza, congregazioni di osservanza”, in Dizionario degli istituti di perfezione, vol.

6, Roma, 1980, col. 1048-1052.

37 Cfr. Jean-Marie Le Gall, Les moines au temps de réformes, pp. 109 e ss.

38Francis Rapp, “Réformes et inerties”, in Histoire du Christianisme des origines à nos jours, vol. VII,

De la Réforme a la Réformation (1450-1530), p. 172.

39 Ibidem, p. 170.

40 Cfr. Adeline Rucquoi, “La réforme monastique en Castille au XVe siècle: une affaire sociale”, p. 240. 41 Cfr. Charles de la Roncière, “L’Eglise en Italie”, in Histoire du Christianisme des origines à nos jours,

Suíça, introduziram na vida dos religiosos práticas de piedade próprias da corrente da devotio moderna.

A eficácia da reforma estava na associação e na vida comunitária42. Do ponto de vista institucional, a observância fomentou uma estrutura juridico-organizativa de carácter congregacional. Parecia ser esta a forma jurídica mais acertada para garantir e consolidar o desenvolvimento da observância, mas a sua aplicação tinha consequências diferentes conforme se tratasse de ordens monásticas ou mendicantes. Procurando o mesmo fim, monges, cónegos e frades empreenderam caminhos distintos por exigências do próprio carisma e forma de vida religiosa.

O ideal beneditino monástico exigia tradicionalmente a autonomia de cada casa e, por isso, a aplicação do modelo congregacional adoptado pelos mendicantes obrigava a uma viragem institucional. As comunidades reformadas viam-se na necessidade de se aproximar umas das outras, já que a melhor forma de consolidar a mudança parecia ser reunir numa associação de estruturas firmes todos os mosteiros que quisessem seguir o mesmo espírito. Um órgão superior, o capítulo, reuniria todos os superiores dos mosteiros reformados e aí se decidiriam aspectos importantes relativos ao conjunto da ordem, como a admissão de novos membros, a definição dos estatutos, a designação dos visitadores que controlavam a execução dessas decisões43. Também a rotatividade dos cargos nos mosteiros parecia ser uma garantia eficaz do espírito da reforma44. Medidas similares faziam parte do programa reformador do papa Bento XII desencadeado entre 1334-40 mas que mal passou de letra morta45.

Se bem que a congregação fosse a forma jurídica que melhor respondia a estas características organizativas, nem todos os promotores da observância no monaquismo a instituíram. Alguns, por razões de fidelidade à instituição beneditina ou por circunstâncias do lugar optaram por “uniões” de mosteiros em vez de congregações. Foi o caso da Reforma de Kastl na Baviera e da União de Melk no sul do Império46.

42 Cfr. Jean-Marie Le Gall, Les moines au temps de réformes, p. 422.

43 Cfr. Francis Rapp, L’Église et la vie religieuse en Occident, p. 219. A escolha dos visitadores era uma

peça essencial da reforma e a visitação o seu principal instrumento: ver também Jean-Marie Le Gall, Les moines au temps de réformes, p. 423.

44 Cfr., por exemplo, Jean-Marie Le Gall, Les moines au temps de réformes, p. 428.

45 Cfr. André Vauchez, “La sanctification dans l’Eglise latine”, in Histoire du Christianisme des origines

à nos jours, vol. VI, Un temps d’épreuves (1274-1449), p. 534.

46Cfr. M. Fois, “Osservanza, congregazioni di osservanza”, in Dizionario degli istituti di perfezione, vol.

Entre os defensores do modelo congregacional no meio monástico destacou-se Luís Barbo, membro da comunidade de cónegos reformados de S. Jorge de Alga em Veneza, que em 1408 foi nomeado abade do mosteiro beneditino de Santa Justina de Pádua. Luís Barbo reformou esta abadia e transformou-a em centro impulsionador do movimento observante. Inicialmente os mosteiros que desejavam seguir a observância praticada em Santa Justina estabeleceram-se como priorados filiados, à semelhança da estrutura cluniacense. Em 1419, constituiu-se uma congregação com casas em Bassano, Verona, Génova, Pavia, Milão, Florença, Veneza, depois Roma. A congregação de Santa Justina conheceu um grande desenvolvimento e serviu de modelo a outras congregações monásticas que surgiram posteriormente47.

Em todo o caso, mesmo sem querer procurar fórmulas novas e desejando sobretudo restaurar um passado monástico glorioso, algumas alterações foram introduzidas pelos reformadores, não só do ponto de vista institucional, como também na espiritualidade beneditina. Pôs-se o acento no silêncio e na meditação em detrimento da liturgia. O tempo dedicado à oração comunitária e às obrigações litúrgicas diminuiu em benefício da leitura e da meditação pessoal48.

Entre os mendicantes, os primeiros sinais de renovação também se tinham feito sentir no século XIV. Por estarem inseridos numa estrutura fortemente centralizada, a reforma teve de enveredar por outros caminhos. Neste sistema de governo, a mudança só poderia consolidar-se e singrar, se fosse aceite nos vários níveis, primeiro local, depois provincial e geral. Tratava-se, pois, de um movimento no sentido inverso do que se seguiu na reforma dos monges: à medida que as comunidades se reformavam, necessitavam de obter alguma autonomia para evitar que os capítulos provinciais lhes impusessem superiores não reformados, ou aprovassem medidas que as desviassem dos seus objectivos. Assim, pelo menos inicialmente, a congregação da observância mendicante foi uma estrutura institucional dentro da outra estrutura institucional já existente, que correspondia à ordem, obrigando a uma duplicação de governo. Esta dualidade punha em causa a unidade das grandes famílias religiosas. Os defensores da estrita observância lutavam contra as excepções e as dispensas que mitigavam a regra original, sobretudo no âmbito da pobreza e disposição dos bens.

47 Sobre a congregação de Santa Justina de Pádua veja-se, em síntese: R. Pepi, “Santa Giustina, di

Padova”, in Dizionario degli istituti di perfezione, vol. 8, Roma, 1988, col. 693-702 e M. Fois, “Osservanza, congregazioni di osservanza”, in Dizionario degli istituti di perfezione, vol. 6, Roma, 1980, col. 1040-46; Eduardo Nunes, Dom Frey Gomez, vol. I, p. 60 e ss.

Entre os franciscanos, a recusa dos conventuais em aceitar a reforma geral da ordem levou, em 1431, à constituição de dois ramos separados, cada um com a sua hierarquia, exceptuando o ministro geral que continuava a ser comum. Esta situação manteve-se por pouco tempo. Em 1443 consumou-se a ruptura e estabeleceram-se constituições específicas para a observância, que foram aprovadas em 1446. Apesar dos esforços realizados para preservar a unidade, as tentativas de reforma dos frades menores acabaram num cisma, e os observantes, mesmo constituindo a facção mais numerosa e dinâmica, só no século XVI conseguiram fazer prevalecer completamente as suas iniciativas49.

A corrente da observância afectou também os dominicanos mas não provocou antagonismos nem rupturas radicais. O movimento de reforma partiu da Itália e foi estimulado por Santa Catarina de Siena, estendendo-se rapidamente a toda a península e expandindo-se depois pela Alemanha. Não teve, no entanto, um sucesso total e não chegou a impor-se ao conjunto da ordem50.

A reforma do clero regular fez-se igualmente por meio de novas fundações, talvez não tão vigorosas como as dos séculos anteriores, mas com especificidades próprias desta época; nem sempre se integraram plenamente nas formas de vida religiosa já existentes. Já atrás nos referimos aos jesuatas de Jean Colombini e à ordem de Santa Brígida da Suécia. Outras, como a da Cartuxa, conheceram um extraordinário desenvolvimento e o número das suas casas multiplicou-se por toda a Europa. Por sua vez, as velhas ordens reformadas adquiriram novo vigor e a rede conventual intensificou-se51.

Os observantes, que haviam tomado as iniciativas renovadoras, puderam contar com o apoio das autoridades da Igreja, embora essa ajuda tenha sido prestada com algumas reservas. Com efeito, o concílio de Constança estabelecera normas para a reforma dos monges e aprovara o estatuto jurídico da observância franciscana. O concílio de Basileia ocupara-se também da reforma monástica, impondo aos monges a

49 Cfr. André Vauchez, “La sanctification dans l’Église latine”, in Histoire du Christianisme des origines

à nos jours, vol. VI, Un temps d’épreuves (1274-1449), p. 530.

50 Ibidem, pp. 530-32.

51 O despertar monástico em França e o surto de fundações religiosas sobretudo a partir de 1450 foi

recentemente estudado por Jean-Marie Le Gall em Les moines au temps de réformes. France (1480- 1560), s.l., Champ Vallon, 2001.

celebração do capítulo trienal e confiando as visitas ordinárias e extraordinárias a abades reformadores52.

Os papas participaram também na acção reformadora, sobretudo a partir de Martinho V (1417-1431). Nomearam directamente abades gerais adeptos do rigor disciplinar, impuseram a reforma a determinadas ordens e concederam amplas autonomias para favorecer o desenvolvimento de congregações observantes53. Estas medidas nem sempre tiveram a eficácia desejada. Na cúria romana, os protectores das ordens eram, aliás, mais sensíveis aos ataques à unidade das instituições que as correntes de reforma provocavam, do que aos sintomas de decadência diagnosticados pelos reformadores. No que diz respeito à autoridade episcopal, os bispos só podiam actuar, no âmbito da jurisdição da sua diocese, sobre os mosteiros não isentos, o que tornava a sua intervenção muito limitada. No geral, as medidas vindas “de cima” foram pontuais e não cortaram o mal pela raiz54.

Os observantes mantiveram boas relações com os meios universitários onde por vezes recrutavam novos membros, embora os apoios mais significativos tenham vindo dos poderes públicos, nem sempre totalmente desinteressados55. Jean-Marie Le Gall aponta três características para o bom êxito da reforma, do ponto de vista da sua articulação com a sociedade e o poder civil: existência de laços entre os reformados e o poder laico; instrumentalização do poder régio por parte dos agentes da reforma, acentuando-se mais a interpenetração do que a autonomia entre as instâncias políticas e religiosas; conjuntura económica próspera e poder temporal forte56. Verificou-se o mesmo fenómeno em toda a Europa: os reis participaram na reforma e apoiaram os reformadores que, longe de estarem isolados ou de serem incompreendidos, tinham muitos contactos com a corte e procuravam conseguir a intervenção régia. Esta

52 Cfr. M. Fois, “Osservanza, congregazioni di osservanza”, in Dizionario degli istituti di perfezione, vol.

6, Roma, 1980, col. 1038.

53 Ibidem.

54 Cfr. Francis Rapp, “Réformes et inerties”, in Histoire du Christianisme des origines à nos jours, vol.

VII, De la Réforme a la Réformation (1450-1530), p. 172 ; M. Fois, in “Osservanza, congregazioni di osservanza”, Dizionario degli istituti di perfezione, vol. 6, Roma, 1980, col. 1040.

55 Cfr. Francis Rapp, “Réformes et inerties”, in Histoire du Christianisme des origines à nos jours, vol.

VII, De la Réforme a la Réformation (1450-1530), p. 173.

56 Cfr. Jean-Marie Le Gall, Les moines au temps de réformes, pp. 129-130 e p. 591: “Les réformes

monastiques sont filles de la prospérité et non filles de la précarité que marque les ordres anciens au milieu du XVe siècle”.

intervenção era aliás admitida por todos: segundo os teólogos, o jus reformandi era um dever do rei, e segundo os juristas, um direito57.

Se os reformadores souberam utilizar o poder real, também os reis procuraram instrumentalizar a reforma. Este empenhamento jurídico, financeiro e de controlo fiscalizador dos soberanos na reforma monástica contribuiu, em parte, para a sacralização da monarquia, característica do período tardo-medieval.

Naturalmente que também houve resistências e entraves a este movimento. Nem todos os religiosos estavam dispostos a aceitar que o seu modo de viver fosse trocado por outro muito mais severo. Surgiram conflitos e por vezes foi necessária a intervenção do poder civil para resolver as contendas58.

Em qualquer caso, o balanço foi positivo. Embora a partir de 1450 os reformadores não tenham realizado progressos muito significativos, é certo que sem o seu contributo teria sido difícil levar a cabo as medidas propostas mais tarde pelo concílio de Trento59. Só nessa altura se efectuaria a generalização da reforma, mas em muitos domínios bastou sistematizar aquilo que até então se realizara de modo disperso e sem coordenação60. O movimento da observância conseguiu envolver de algum modo todos os sectores da Igreja, dos mais altos graus da hierarquia às autoridades civis e ao simples laicado61.

À semelhança do que se verificou no plano económico, também a crise religiosa do final da Idade Média não foi nem universal nem permanente; o quadro das instituições religiosas e da sua vitalidade não deve ser sistematicamente pintado de negro. Em muitas regiões a retoma foi assegurada por congregações novas ou reformadas que na centúria de Quatrocentos deram um certo brilho à profissão religiosa e constituíram mesmo uma via de acesso à santidade62. Recordemos novamente o papel decisivo que a congregação de Windesheim teve na difusão da devotio moderna.

Se bem que a reforma quatrocentista não tenha chegado a estruturar-se com a consistência de um pensamento orgânico, como aconteceria posteriormente com a

57 Ibidem, pp. 122-130.

58 Cfr. Francis Rapp, “Réformes et inerties”, in Histoire du Christianisme des origines à nos jours, vol.

No documento Maria Isabel Pessoa Castro Pina (páginas 50-59)