CAPÍTULO II O CONTEXTO HISTÓRICO RELATIVO À CRIAÇÃO
2.2 A legislação educacional
2.2.2 A legislação que regulamentou a educação geral
2.2.2.3 Reforma do Ensino Superior – Lei nº 5.540/68
O contexto em que a reforma universitária foi gerada é de intensas mobilizações e pressões com o objetivo de que o Estado ampliasse o número de vagas nas instituições de ensino superior – para resolver a questão dos excedentes – e destinasse mais verbas para a educação.
Esta trazia as seguintes determinações: 1. Fim do sistema de cátedra.
A admissão de profissionais passa a ser por meio da análise de seus currículos e a contratação dos mesmos pela legislação trabalhista, que possibilita a dispensa caso não correspondam às necessidades e exigências da instituição.
O fim da cátedra representou um fator positivo e uma democratização do processo de contratação de professores, uma vez que essa era vitalícia, ou seja, o professor universitário “dono” da disciplina, além de permanecer no cargo por toda a vida, ao final desta, indicava o seu sucessor, o que tornava o acesso ao cargo totalmente restrito às pessoas de seu convívio; 2. A carreira do magistério iniciava-se no primeiro grau – auxiliar de ensino – com
estudantes de pós-graduação e os demais níveis – professores assistentes, associados e plenos – eram obtidos a partir de comprovado merecimento;
3. Organização departamental em substituição à cátedra;
4. Os professores e estudantes residiam nas unidades acadêmicas e dedicavam-se exclusivamente ao ensino e à pesquisa, o que deu a esta um incentivo formal;
5. Os professores dedicavam parte do seu tempo ao atendimento de alunos, fora do período de aula;
6. O currículo era flexível, de forma a atender aos “interesses individuais dos alunos pela presença de disciplinas obrigatórias e optativas e pela matrícula por disciplina”119;
7. O curso de cinco anos foi dividido em duas partes: a primeira, fundamental (dois anos) e a segunda, profissionalizante (três anos);
8. Promoção do autogoverno e da autodisciplina;
9. Estímulo à investigação e à pesquisa, principalmente nos cursos de pós-graduação120. As mudanças no campo educacional giraram, todas elas, em torno da necessidade de controle das forças subversivas que seus membros representavam. Assim, os professores mais críticos que motivavam uma reflexão e uma prática da cidadania em seus alunos foram afastados de seus cargos, seja por exílio ou aposentadoria compulsória. Estes, na maioria das vezes, por serem figuras importantes e conhecidas no cenário nacional tiveram suas vidas poupadas, o que não aconteceu com centenas de estudantes, que foram mortos pelo sistema de repressão.
Com isso, o projeto de uma universidade crítica e democrática caiu por terra, pois os professores que permaneceram tiveram um restrito acesso a obras e autores e o conteúdo de suas aulas não podiam promover a crítica, levando o espaço acadêmico a uma crescente despolitização. Hoje, sentimos claramente a consequência dessa política quando olhamos para a maioria de nossas salas de aulas e vemos alunos apáticos, sem capacidade crítica e argumentativa, alheios aos acontecimentos sociais como se esses não lhes atingissem.
As universidades passaram a ter uma organização departamental, as matrículas feitas em disciplinas isoladas, adoção do sistema de crédito e período letivo semestral. Isso impedia o convívio e a troca de ideias entre estudantes de cursos diferentes e mesmo dentro dos próprios cursos, dispersando os grupos e fazendo-os perder força para mobilizações.
As disciplinas perderam o caráter crítico-reflexivo e as que tinham preponderantemente esse cunho, como a Filosofia e Sociologia, foram eliminadas do currículo. Em contrapartida, foram acrescidas as disciplinas obrigatórias de EPB (Estudo dos Problemas Brasileiros), no Ensino Superior, e OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e Educação Moral e Cívica, que eram mecanismos de divulgação da ideologia do regime.
Essas disciplinas, que foram introduzidas no currículo com o objetivo de justificar o Estado Militar, vão discutir a organização política institucional da sociedade brasileira,
119 ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da Educação no Brasil. 31. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 229. 120 Cf. GERMANO, José Willington. Estado militar e educação no Brasil (1964-1985). 4. ed. São Paulo: Cortez,
compondo uma discussão de enaltecimento nacional, disseminando a ideia de grandiosidade e desenvolvimento do Brasil.
Nesse sentido, a disciplina de Educação Moral e Cívica refere-se à ordem instituída, vivenciada pelos cidadãos que, vivendo sob sua égide, a aceita sem questioná-la, uma vez que é tida como em favor do bem comum. Já a OSPB vai observar a estrutura hierárquica dos poderes no Brasil, trabalhando com outros valores e instituições e definindo, por exemplo, o papel da família, da igreja, da escola e do Estado. A inter-relação dessas instituições cria um campo legal que avança pelo campo pedagógico. É neste período que, pela primeira vez, se vê tal acontecimento na legislação brasileira. O currículo que até então era estabelecido com um processo de discussão, mesmo que mínimo, é agora obrigatoriamente incorporado às escolas.
E é, também, nesse aspecto do currículo que as escolas Polivalentes vão se destacar. De um lado atendendo à política de disciplinarização das mentes e inculcação dos ideários nacionais e, de outro, visando à profissionalização de pessoas para suprir a carência de mão de obra num país que, em busca de sua grandiosidade, vivenciava o promissor desenvolvimento econômico por meio da implantação e expansão industrial.
Além dessas mudanças curriculares, os cursos ganharam um caráter mais prático, voltados para as necessidades do mercado de trabalho. Assim, cursos como as licenciaturas, engenharias e administração tiveram um grande impulso. E muitos deles foram divididos em uma parte básica ou comum e outra, profissionalizante. Portanto, a universidade perde a razão de ser a grande produtora de conhecimento e se torna formadora de mão de obra.