Antes de iniciarmos essa breve reflexão acerca da reforma educacional em contexto de renovação conservadora, se faz necessário apontarmos de onde partimos para pensar essa perspectiva da renovação que trazemos como um conceito central do nosso Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
Coutinho (2012) dentro dos fundamentos Gramsciano, aponta que a renovação pode ser entendida quando algumas demandas das classes populares são satisfeitas pelo alto, através de consentimentos das classes hegemônicas. E o movimento de restauração seria a tentativa dessa classe de evitar qualquer transformação social advinda da luta de classe e portanto, das classes trabalhadoras e populares.
Então, a partir desse argumento, se pensarmos historicamente os processos políticos e societários constituídos no Brasil ao longo dos anos, podemos observar que vivenciamos formas diferentes desse processo de renovação. Por exemplo, nos governos da ditadura militar, estávamos sob uma renovação modernizadora e conservadora, com mudanças nas estruturas políticas, sociais, culturais, ideológicas, que implicavam de forma incisiva na população, sobretudo, nas classes populares e classe trabalhadora, que tiveram seus direitos cerceados através de reformas justificadas como formas de desenvolver o país.
Nos anos de 1990 com os governos de Fernando Collor de Mello (PROS) 10 e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), podemos pensar que também se caracterizaram como de renovação com bases neoliberais, que justificou nas reformas, caminhos para superar a crise que se arrastava e que tinha como centralidade o próprio desequilíbrio do sistema capitalista, que é o próprio produtor e reprodutor da renovação conservadora.
Assim concordamos com Boschetti (2015) quando reflete que, o conservadorismo é, e sempre será, alimento da reprodução do capital, e por isso nunca sai de cena. Isso quer dizer que é um alimento centralizador para garantir a conservação da sociabilidade capitalista.
Já os governos dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff (PT) compreendidos entre os anos de 2002 a 2016, entendemos como um período de renovação com bases progressistas. Tendo em vista que, apesar da articulação com os capitais, foi o momento
10 Foi eleito presidente do Brasil pelo Partido da Reconstrução Nacional (PRN) e atualmente é filiado ao Partido Repúblicano da Ordem Nacional (PROS)
em que as classes trabalhadoras e populares tiveram avanços e puderam acessar direitos sociais, mas ainda sim essas mesmas classes foram atingidas de forma rigorosa por reformas seguindo as orientações do mercado internacional.
As reformas estiveram presentes nos centros dos debates durante todos os governos desde os anos de 1990 e as classes populares e trabalhadoras foram sempre as mais afetadas, de forma mais dura com os governos tanto de caráter renovador modernizador e neoliberal, quanto com os de caráter progressistas.
Assim a palavra “reforma” que de acordo com Coutinho (2012) esteve ligada às lutas dos subalternos para transformar a sociedade, foi apropriada por diversos grupos políticos progressistas, da esquerda, da direita como algo positivo, usado atualmente pelos neoliberais como uma ideia de mudança com conotação construtiva.
Sendo assim, podemos entender que esse processo de deslocamento do significado da palavra reforma, estando ligada dentro dos ideais neoliberais, e fundamentados pela ideologia conservadora.
Nesse sentido, esse processo de acordo com Barroco (2015) reproduz um modo fundado em valores historicamente preservados pela tradição e pelo costumes de cunho moralizantes para manter os privilégios das elites – pensando o caso brasileiro – como sendo um movimento contrário a justiça social, a igualdade e equidade de classes, através do que denominam como reformas, em que estaria ligada a uma contrarreforma,
É por isso que as medidas por ele propostas e implementadas são mistificatoriamente apresentadas como “reformas”, isto é, como algo progressista em face do “estatismo”, que, tanto em sua versão comunista como naquela social-democrata, seria algo inevitavelmente condenado a lixeira da história. Estamos assim diante da tentativa de modificar o significado da palavra “reforma”: o que antes da onda neoliberal queria dizer ampliação dos direitos , proteção social, controle e limitação de mercado etc., significa agora cortes, restrições, supressão desses direitos e desse controle. Estamos diante de uma operação de mistificação ideológica que, infelizmente, tem sido em grande medida bem sucedida. (COUTINHO, 2012, p. 122)
“O rapto ideológico" das noções, dos conceitos que são reinterpretados do seu significado original, passam a constituir outros sentidos que são colocados como válidos e só ganham centralidade para os que têm interesse em se favorecer “encobrindo as desigualdades fundamentais produzidas”. (IAMAMOTO, 2013, p. 2)
Destarte, concordamos com Barroco (2011) ao refletir que o pensamento dominante no capitalismo contemporâneo — a ideologia neoliberal e seu subproduto, a
ideologia pós-moderna —, desempenha uma função social de explicação das transformações usadas na vida social pela investida do capital.
Assim, a ideologia neoliberal, anuncia o insucesso dos projetos emancipatórios, das direções éticas relacionadas a valores universais, rejeita a razão moderna, a ideia de progresso histórico e de totalidade. Esse contexto, segundo a autora,
Trata-se, pois, de condições favoráveis à desqualificação da política, condições facilitadas por inúmeros fatores históricos, especialmente das determinações que incidiram sobre as possibilidades concretas de organização política das classes trabalhadoras. Não podemos ignorar, nesse cenário, os desdobramentos do fim das experiências do socialismo. (BARROCO, 2011, p. 207)
A ideologia dominante desempenha um papel ativo no enfrentamento das tensões sociais segundo Barroco (2011), e isso acontece para manter a ordem social em momentos de explicitação das contradições sociais e das lutas de classe. Ou seja, a renovação imposta vai de algum modo conceder por alto algumas demandas para as classes populares e trabalhadoras, mas com a autorização das classes hegemônicas, sem contudo, nenhuma perspectiva de transformação social.
A difusão desses valores ideopolíticos conservadores, pautadas em bases moralizantes e religiosas é facilitada de acordo com Barroco (2015) pela reificação, que no capitalismo tardio, invade as esferas da vida social, ocultando as determinações societárias, por um processo em que denomina de irracionalismo, difundindo o
“pessimismo, o anti-humanismo, o individualismo e desvaloriza a verdade objetiva, dissimulando as contradições sociais e naturalizando suas consequências” (BARROCO, 2015, p. 624)
Ainda pensando nessa perspectiva das bases fundantes do conservadorismo, em que nos permite refletir acerca do contexto brasileiro, Souza (2016) apresenta uma construção crítica de produção das tendências conservadoras. Aponta assim, como as mesmas se reproduzem a partir de concepções tradicionais, moralizadoras, totalitárias e modernizantes, que inseridas num mundo globalizante, estaria suscetível a construir outras sociabilidades que se afastassem da análise histórica. Buscando a apreensão de uma realidade imediata, em que a mudança e as transformações estariam postas para que cada um dentro de um processo de individualização buscasse a superação.
Esse engodo, tem sido reforçado com as ideias de meritocracia, em que serve, como forma de responsabilizar o sujeitos – em que entendemos como seres históricos, sociais, políticos - pelas situações de agravamento social, pelos quais são submetidos
em virtude do processo desumanizante do capitalismo. Nesse sentido, esse conservadorismo brasileiro,
como discurso ideológico que reproduziu (na origem) e reproduz (atualmente) a consciência de classe imediata das classes dominantes (autoritarismo, desprezo pelas camadas populares, hierarquia, meritocracia, anticomunismo, "elitismo", aristocratismo, entre outros), consciência essa que emerge como uma espécie de "espelhamento"
ideológico das condições objetivas nas quais decorrem a dominação de classe tupiniquim, mas sobretudo como prática política unificadora, emerge em condições socioeconômicas muito diversas daquelas que deram origem ao conservadorismo clássico. (SOUZA, 2016, p. 230) Esse conservadorismo brasileiro, se reatualiza e fortalece nesses discursos ideológicos que reproduzem o ethos burguês das classes dominantes. Na perceptiva de Souza (2016) ao invés de representar uma classe social enfraquecida, com valores e tradições, também em enfraquecimento. Assim, ao invés de expurgar suas expressões que aprofundam as desigualdades, a alternativa surgida é um esforço para a retirada de direitos das classes populares e trabalhadoras. Para justificar tais barbaridades cometidas, usam
“intelectuais” liberais para argumentar o ódio de classe.
Nesse sentido, ainda de acordo com Silva (2016), esse conservadorismo na perspectiva brasileira assume duas tendências, a saber: com bases no presente, no imediato, ou seja em elogios aos “presentismo”, argumentando-se nos fundamentos neoliberais de “faça você mesmo”, “se esforce", muito baseada em méritos. E a outra tendência suscitada pelo autor, seria o retorno ao passado, onde se alimentam de concepções reacionárias, fascistas, patrimonialistas em que buscam negar direitos sociais e dignidade à classe trabalhadora.
Essa é uma das realidades em que estamos inseridos nos últimos anos desde 2016, com o golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff. Contexto agravado com o governo do Jair Bolsonaro (PL) que tem demonstrado todo um esforço para retirar direitos.
Contribuindo com isso, para o aprofundamento das desigualdades sociais com uma política de Estado que se desresponsabiliza da sua função de garantir direitos, e isso vai ser observado em diversos setores e na educação não foi, nem está sendo diferente.
Assim, no nosso próximo ponto vamos abordar a política de educação no contexto neoliberal e neoconservador em que nos situamos hodiernamente, entretanto, se faz necessário, entender que essa perspectiva neoliberal não é recente, mas que tem sido agravada nos últimos anos.
2.1. A política de educação no contexto neoliberal e neoconservador: um caminho de mudanças e enfrentamentos.
Bianchetti (1997) apontava em seu livro “Modelo neoliberal e as Políticas educacionais” que, para quem fosse analisar os processos históricos e políticos num futuro, consideraria as últimas décadas do século XX, como períodos da hegemonia neoliberal.
Podemos assim, reiterar que os anos de 1970, 1980 e 1990 foram momentos decisivos para o estabelecimento e fortalecimento dessa, que se tornou um dos guias norteadores ideopolíticos, das estruturas da sociedade capitalista desde sua criação.
A perspectiva neoliberal tem promovido um desmantelamento dos modelos de bem estar social, da imagem do Estado como garantidor de direitos. E isso é demonstrado pela não superação da crise na qual argumenta sua formulação e criação. Mas, se olharmos sob outra perspectiva analítica, funcionou e muito bem, se o objetivo era aprofundar as desigualdades, retirar direitos dos trabalhadores e manter privilégios de poucos.
Nesse ínterim, se faz necessário apontarmos o que estamos entendendo por neoliberalismo e as bases que nos fundamenta para pensar essa concepção ideopolítica.
Ao pensar o ideário neoliberal, tomamos como uma das referências o Anderson (1995) que faz um panorama histórico de como surge e como os países europeus vão aderindo a esse modelo político, econômico e ideológico, assim como, o próprio Bianchetti (1997) que também faz essa análise histórica de surgimento.
Assim, a primeira movimentação deste modelo surge após a segunda guerra mundial como uma reação teórica e política contra o Estado de bem-estar social, tendo como precursor o Friedrich Hayek, em um texto denominado “Caminho da Servidão”, em 1944, em que afirmavam que esse modelo em que o Estado estaria se responsabilizando pelas questões sociais, destruiria a liberdade de todos os cidadãos, assim como, da livre concorrências.
Essas idéias ficaram apenas na teoria de acordo com Anderson (1995) e com a crise do pós-guerra em 1973, começam a ganhar terrenos profícuos. Um dos argumentos utilizados para a crise, de acordo com Hayek, Milton Friedman e seus seguidores era o poder dos sindicatos e do movimento operário que acabavam com a acumulação do capitalismo com as suas reivindicações, fosse de melhores salários, ou melhores
condições de trabalho. Portanto, seria necessário lutar para criar uma ideologia anticomunismo contra esse Estado benfeitor que destroem as bases do capitalismo.
Anderson (1995) afirma que, com essa conjuntura política e econômica os governos de direita começam a se fortalecer e essas experiências hegemonizam o neoliberalismo enquanto ideologia, e que inicialmente apenas governos de direita radical que colocavam em prática essas bases. Mas posteriormente, qualquer governo e até mesmo aqueles ditos de esquerda, disputaram essa perspectiva.
Nesse sentido, em princípio o neoliberalismo tinha a social-democracia como opositora em países de capitalismo avançado, de acordo com Anderson (1995).
Posteriormente passam a flertar “possibilidades” de predominância do modelo a partir de formas menos desumanizantes, o que na nossa compreensão não se coloca como alternativa possível, uma vez que, o neoliberalismo se mantém e se reproduz com base no capitalismo e portanto, na desigualdade, na exploração e na retirada de direitos dos trabalhadores e classes populares.
Assim, a partir dessa compreensão, localizando de onde estamos partindo para refletir acerca das políticas de educação no contexto neoliberal e neoconservador, temos os anos de 1990 como substancial para conduzir a educação nesse direcionamento ideopolítico e portanto, fomentado por organismos multilaterais voltados para perspectivas mercadológicas e financista.
A perspectiva neoliberal encontrou na educação um terreno fecundo para acumulação de capitais, que buscam sua afirmação social, cristalização e enraizamento em narrativas e raptos ideológicos, como afirma Iamamoto (2013) ao criar uma falsa verdade de que o setor privado é positivo, seria sinônimo de qualidade e o setor público seria o lado negativo. Dessa forma,
É obviamente importante nesse processo de construção da hegemonia do discurso liberal/empresarial/capitalista a criação de novas expressões e termos e a redefinição do velho slogan e palavras e sua vinculação respectivamente positiva ou negativa ou campo bom (capitalismo, livre iniciativa, os empresários, e suas inerentes virtudes) ou ao campo mau ( intervenção estatal, os movimentos sociais, os funcionários públicos, os políticos e seus essenciais defeitos). (SILVA, 2015, p. 12)
Silva (2015) esclarece que o projeto neoconservador e neoliberal envolve, centralmente, a criação de um espaço em que se torne impossível pensar o econômico, o político e o social fora das categorias que justificam o arranjo social capitalista.
Nesse sentido, noções como justiça social, igualdade, equidade, retrocedem no espaço público de discussões e são substituídas por qualidade, eficiência, produtividade, protagonismo, utilizadas como alcance de aproximação da modernidade, sendo este segundo Silva (2015), outro termo muito difundido e redefinido pelo projeto neoliberal e neoconservador.
As políticas de educação tem se constituído com base estruturante nessas premissas neoliberais de forma mais agudizada desde a década de 1990, e tem sido fomentadas pela lógica e pelo interesse do capital, orientadas por grupos internacionais como Banco Mundial que argumentam ter uma posição de “gerenciador e protetor dos interesses dos grandes credores internacionais” (MORAIS; PAIVA; RODRIGUES, 2021, p. 6), como uma forma de assegurar que os países endividados pagassem a dívida externa, garantindo assim, a reestruturação desses economias, “adequando-os às novas exigências do capital globalizado” (SOARES, 2009)
Então, um dos primeiros movimentos de estruturação da política educacional foi a reorganização da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n° 9.394/1996, inaugurando essa tentativa de atualização das diretrizes educacionais – fossem dos currículos da educação básica e educação superior -, buscando uma certa ruptura com os modelos tradicionais e conservadores anteriormente preconizados com a Lei n° 5.692 de 11 de agosto de 197111.
Esses modelos, fomentaram uma educação para a formação de capital humano, para o desenvolvimento industrial, estavam, portanto, em consonância com a reforma universitária de 1968, ambas em contexto de ditadura militar, que conduzia uma formação para o desenvolvimento econômico, com bases tecnicista e anti-intelectualista.
Esse conjuntura sócio-histórica, foi marcado por disputas de classes, assim o processo de renovação crítica do serviço social, segundo Iamamoto (2009), foi fruto de um amplo movimento de lutas pela democratização do Estado e da sociedade brasileira, tendo uma forte presença das lutas operárias que fomentaram a crise da ditadura militar.
Os cursos de Serviço Social nesse contexto de autocracia burguesa, estiveram em processo de transformações e mudanças no que tange o seu processo formativo e do próprio estatuto profissional, refletindo sobre suas competências, sobre suas atribuições, e quais os caminhos teórico e metodológico assumiram a partir desse contexto que se reverberava na sociedade.
11 Essa lei fixou as Diretrizes para o ensino de 1° e 2° grau, em 1971.
A princípio houve uma tentativa de rompimento com a perspectiva positivista, sendo esta uma das bases teóricas tradicionais que favorecia - e favorece ainda, tendo em vista que, o tradicionalismo, o conservadorismo estão presentes na profissão do assistente social com outras aparências - a manutenção de uma formação racionalizada, tecnicista, alienante e acrítica.
Em seguida a formação, passou a se aproximar das bases fenomenológicas em que partiam da compreensão do sujeito como objeto de análise, da subjetividade, sem contudo, apreender a dinâmica social e as contradições da sociabilidade capitalista, caracterizando o que Netto (2007) apontou como reatualização do conservadorismo, em que conforma a identidade profissional num processo em que restaura a essencialidade da tradição ameaçada, buscando elaborar uma espécie de anticapitalismo romântico. De acordo com o autor,
Não é preciso dizer que o processo da ordem burguesa, também no Brasil, repõe, a cada passo, novas condições para o anticapitalismo romântico – donde, renovadamente, o espaço social, cultural e interventivo para revivescências do tradicionalismo profissional. Este todavia, tenderá sempre, na prática profissional institucional, uma existência progressivamente residual. (NETTO, 2007, p. 246)
Essa perspectiva romantizada do capitalismo, foi atravessada no interior da profissão e podemos refletir que, esse enveredamento teórico-metodológico e político- ideológico se mantêm hodiernamente em processos de tensionamento, a partir das disputas propostas pela pós-modernidade, que tendem a retirar do processo de análise a realidade social concreta e a historicidade, pontos que adensam o conservadorismo e o tradicionalismo na profissão.
O processo de reatualização do conservadorismo com outras características, que atravessaram o interior da profissão e de seu processo formativo no início dos anos de 1970, tiveram elementos de contradição e de enfrentamento dessa atualização, a partir das lutas da classe trabalhadora, da organização popular e sindical12 em que “O protagonismo operário opera uma viragem no processo político: arrastando consigo, e conferindo-lhe um sentido político anti-ditatorial” (NETTO, 2009, p. 25), que reprimia duramente a população, despertando assim, a sua participação nos processos políticos de reivindicação.
12 Para melhor compreensão ver texto: III CBAS: Algumas referências para a sua contextualização de Netto (2009).
Este era o cenário em que foi possível buscar formas de pensar – mesmo que de forma incipiente - a formação profissional dentro de uma perspectiva renovada.
Para isso, um dos caminhos propostos pelos profissionais, assistentes sociais que se colocavam em oposição à ditadura militar e as formas de opressão advindas da autocracia burguesa, para pensar o interior da profissão, as relações sociais no contexto de sociabilidade capitalista, as expressões da questão social, se daria pela aproximação ao marxismo, que a princípio foi feito de forma enviesada através de autores como Louis Althusser, com análises dos aparelhos ideológicos do Estado, que se davam sob um fundamento estruturalista, que caracterizava uma forma de manutenção conservadora, mas “O fato central é que a perspectiva de intenção de ruptura, em qualquer de suas formulações, possui sempre um ineliminável caráter de oposição em face a autocracia burguesa...” (NETTO, 2007, p. 248)
Assim, essa intenção de ruptura13 marcava uma visível divergência em duas vertentes, uma relacionada a perspectiva modernizadora e a outra em relação a reatualização do conservadorismo, em que as concepções teórico-metodológico se antagonizavam com tais vertentes, demarcando assim, uma postura política de crítica e de ruptura (NETTO, 2007).
Nesse sentido, de acordo com Cardoso (1997) o projeto político-profissional dos anos 1980, que vinha desse contexto de mudanças e continuidades, já reconhecia mesmo que de forma abreviada a realidade social brasileira, sendo esta, colocada como centro de debate na condução do seu currículo em 1982, caracterizando um avanço, apesar de influência conservadora.
Em 1994 iniciam-se os debates acerca das diretrizes curriculares dos cursos de serviço social que se substancializam no documento da ABESS/96, que busca uma avaliação do processo de formação a partir das demandas contemporâneas. Este foi um momento singular em que as diversas entidades representativas dos profissionais se congregaram para discutir e refletir a proposta, dentre elas tivemos a participação do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e a Executiva Nacional dos Estudantes de Serviço Social (ENESSO).
a flexibilidade e descentralização do ensino em Serviço Social, de modo a acompanhar as profundas transformações da ciência e da tecnologia na contemporaneidade. Os novos perfis assumidos pela questão social frente a reforma do Estado e as mudanças no âmbito da produção requerem novas demandas de qualificação do profissional, alteram o
13 Sobre essa denominação nota de rodapé em Netto (2017, p. 247)