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As crises fiscais e de financiamento educacional dos últimos 20 anos (CUNHA, 2003; HERBST, 2004; AMARAL, 2008; STEINBROOK, 2008) solicitaram uma reavaliação dos contratos sociais originais e novos arranjos organizacionais estão sendo elaborados e testados. Os atuais modos de financiamento ou de orçamento apresentam indícios de serem politicamente motivados e tem uma ressonância muito maior em países caracterizados por um papel governamental dominante na orientação do ensino superior.

O ensino superior brasileiro enfrentou mudança significativa nas últimas décadas, sendo uma das principais características desta mudança a expansão das universidades. Essa abertura tem sido cada vez mais ligada a motivações e propósitos político-econômicos (ESTHER, 2012; FERREIRA, 2012; ROSA, 2013), moldada pela necessidade dominante dos últimos governos do incremento da mão de obra qualificada como fator-chave na promoção do crescimento econômico e desenvolvimento do país.

O discurso econômico tem priorizado a criação de um contexto institucional favorável ao desenvolvimento da inovação e do empreendedorismo e este por sua vez reforçou a visão que a acumulação de capital humano pode melhorar as perspectivas econômicas locais. Assim, as mudanças nas motivações individuais e sociais em matéria de educação superior têm tido um grande impacto na regulação externa e interna das instituições de ensino superior, nomeadamente, salientando a dimensão econômica e o potencial dessas instituições para contribuir com os objetivos individuais e sócio econômicos (GRUBB; LAZERSON, 2009, p.155).

Regulamentos desenvolvidos pelos Ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação encorajaram a reorganização da formação e pesquisa nas universidades, oferecendo vários mecanismos para incitar o fortalecimento de suas relações com o setor econômico e dimensionar suas missões baseadas em vantagens e limitações locais, junto ao objetivo de racionalizar a formação e a pesquisa, diminuindo os custos e aumentando a eficiência.

Essa eficiência demanda supervisão, resultados máximos para investimentos mínimos, exatamente como nas grandes empresas (MACDONALD; KAM, 2007). Como efeito, as universidades tornaram-se, em grande parte, uma espécie de administradoras da educação como serviço, e os acadêmicos, funcionários que precisam ser geridos e medidos.

Mais do que a responsabilização das instituições de ensino superior pelos fundos públicos que recebem, o risco é a universidade pública substituir o estatuto da autonomia pelo

da heteronomia.

É neste contexto que se exacerba a necessidade de garantia pública de qualidade dos títulos – credenciais competitivas, quando avança o desemprego estrutural e, no caso europeu, a disputa hegemônica pelo mercado, inclusive estudantil, com os EUA – e se solidificam os mecanismos nacionais e supranacionais de regulação e controle, na forma de “sistemas” de avaliação. A qualidade dos títulos, a avaliação como regulação e controle tornam-se razões de Estado, do Estado Avaliador (SGUISSARDI, 2006, p.65).

As universidades se tornaram alvos de uma mudança de paradigma que substitui a gestão direta por diretrizes orientadas por fórmulas vinculadas a indicadores de resultados ou de desempenho. Macdonald e Kam (2007) indicam que os acadêmicos respondem fazendo o que é contado e evitando o que não é, especialmente no que diz respeito à publicação de seus resultados de pesquisa. A publicação em revistas de qualidade tornou-se o carro-chefe das medidas de produtividade acadêmica.

Conceição e Mota Júnior (2007) acreditam que a produtividade passou a ser um fator determinante nas avaliações oficiais e os investimentos devem ser aplicados onde o seu retorno se mostra mais eficiente e instantâneo. De alguma forma, as políticas de avaliação parecem estar mais preocupadas com a distribuição dos recursos financeiros do que o progresso científico.

Os resultados das avaliações aplicadas ditam o futuro da Instituição, pois tornam-se capazes de justificar a diferenciação de competência de cada IES, ou até mesmo, classificar e ranquear dentro de uma mesma IES as áreas consideradas de maior potência, para as quais deverão ser destinados mais recursos, deixando as demais instituições e cursos que ficaram para traz no ranking, a tarefa de disputarem entre si as verbas restantes. (CONCEIÇÃO; MOTA JÚNIOR, 2007)

No que diz respeito às suas missões, as universidades foram transformadas de centros de formação qualificada de agentes públicos – engenheiros, médicos, advogados – para centros de gestação da economia do conhecimento. Dessa maneira, a ênfase passou da pesquisa que é orientada pela curiosidade, para a pesquisa que é relevante economicamente.

Com o foco das políticas de ensino superior sustentando a competitividade das economias nacionais e regionais, ocorreu uma reavaliação e uma mudança no prestígio de certas disciplinas, em certos casos em detrimento de alguma delas. No Brasil e no mundo os governos desempenharam um papel ativo no alinhamento das missões das universidades ao seu contexto econômico.

6 O SISTEMA DE AVALIAÇÃO DA PÓS-GRADUAÇÃO NO BRASIL

Os sistemas de avaliação da pós-graduação e da pesquisa científica só podem ser compreendidos dentro dos contextos em que foram implantados. Em primeira análise, o modelo adotado no Brasil resulta das transformações concernentes à própria governança universitária no âmbito do Estado e na busca por serviços públicos de qualidade, através de mecanismos mais rígidos de regulação e controle. Em segunda análise, os modelos de avaliação são reflexos da política nacional de educação ao longo das últimas décadas, com o governo desempenhando um papel ativo no alinhamento das missões das universidades à conjuntura econômica do país.

Sguissardi (2006) indica que instrumentos de garantia pública de qualidade são adotados de modo sistemático, buscando, numa combinação de fórmulas próprias e importadas de experiência estrangeiras, informações atualizadas para o público interessado, para autoridades e para a própria instituição avaliada. A adoção centralizada de mecanismos de avaliação e credenciamento em geral é justificada pela necessidade de, em face da crescente expansão das instituições e cursos, garantir-se o controle e a qualidade da universidade.

Na educação superior, os instrumentos chamados de avaliação usualmente assumiram funções políticas de classificação que legitimam e estimulam instituições, programas, indivíduos e também consolidam mentalidades e estilos.

A experiência de avaliação e credenciamento nos países da América Latina, incluindo o Brasil, é marcada por duas orientações, que às vezes se associam e às vezes se contrapõem: a) avaliação com função educativo-reflexiva, sob a lógica acadêmica e visando à melhoria da aprendizagem ou do fazer acadêmico-científico; e b) avaliação como controle, sob a lógica burocrático- formal da administração pública. Embora exista a preocupação de legitimar a primeira orientação, em certos casos tem prevalecido a segunda (SGUISSARDI, 2006, p.8).

A natureza das atuais políticas de avaliação proporciona um cenário fértil para a análise de seus efeitos na universidade cada vez mais caracterizada como uma instituição heterônoma e competitiva.