E CONSTITUIÇÃO
DA MAGISTRATURA
Rr!cvem, os 11ossos amigos a uota te1ucl'idadc cm a 111gc1rnidadc com q:ie nos abalançamos a desenhar, para al91111s roro.r leitorL'S, a idC:a, a fúrma e OJ complrmcnlos da graHdc mrdida f>olilica que p-eoccupa a ·nação.
De{cudemos uma causa q"e desde 1861 ad-::ogamcs, e que 111mm desistimos de apoiar: a uccessidade da clcicJo dirccta.
NJo é is/o ludo) já o disseJJ:os algures; 111as é o prill!ciro passo para se desarmar o poder monstruoso q11e s1ibju9011 e comprimc a uaçiio.
Entrcta11to, si uão fôr decisiva e completa a n:forma parlmuc11iar, mui amarga será o decepção; pois a simples 1;n1daJ1ça do voto Jircclo, eia si mesiml tão 11til como l!l°!JL'lllC, uüo basta i,1feli~me11lc para ittli11girmos ao ulvo defiiiilh:o dos nossos esforços; a. li/;.Jrdade e sii,ceridadc cin eleição, a iudrprndc11cia do parlame11lo, o comedimcllto do g<rvcrno pessoal, o cquifibrio dos f'odcres politicos, a fundação de um '.Jerdodciro sj•ste111a 1·e/,re,m1tativo.
Isto explica a ·dcsn9rada.,ocl extensão deste trubal/10.
As 11m!tipliccs comViuaçiies c.dgidas por bern do voto livre e da .mpre111acia do parla111c11to cl~.;jm ás dimensões de codigo o que se Jcscjára circw1scripto cm uma dida di artigos.
Demais, 11ão é 1tma lei IJl'C cslawos cffcctivrrnwlle propm1Jo; apeuas coordc11ri111os, pai'(, fadlitar o c.rame do nssumf,lo, as provide11cias (J!IC rep1,ra111as mais necessarias, aj1111Ja11do-lhcs as indicações aprovcitavcis de -ide11ticos trabalhos.
170 A. C. Tava·rts Bastos
Nada. obsta, porém, q11c medidns desta 11al11rc.::a sejam itiicindas uns eamaras, q11a11do dó."'Vnm sei.o. umas nt,ôs outras, gradual e .wcccssivn111c11tc, .rcywulo a ordem lcgica das walerins e a Slfa importa11cia rdnt:".:a: qucstiio de tactirn J,arln111c11!ar, que !ião de ,·csolvcr as co11vc11icncias do 1Jl01JICJl(O,
Julho de 1873.
INTRODUÇÃO
Thcy who opposc i111provcmc11t lu-causc it is i1111ovafio11, 1110)' 011c day havc to subwit to im1ovation '..ultich is nol
J1;1,,-provcmç11t.
CANNING
Espirito e alcance da reforma
No modo de considerar alguns elos pontos capitaes do systcma eleitoral, reina tão notavcl incerteza e ha tanta divcrsid::Hle de apreciações, que nos p:ircccu util co1H.lc11sar cm um esboço de lei as combinações mais adequadas ao cxito de unia reforma cíficaz. Esboço de lei, dizemos, porque cm ma terias tacs a forma ê muito: 1 cstructura da lei, as suas articulnçõcs, o jogo do seu mecanismo dcs-t:u:am-sc melhor e mais precisamente do que o consegui-riam enfadonhas dissertações.
Accrcscc que, graças aos brilhantes debates do senado, a reforma eleitoral passou bem depressa elo pcrioc.lo de propaganda pma a pkisc das medidas praticas, a despeito
<lo louco proposito de pcrpctu:ir·SC o execrado processo c.lc eleições, vergonha do Ilrasil.
E', com effeito, um ponto já. resolvido na conseicncia publica. a nccessida<lc <lo suifragio <lirccto.
172 A. C. Tava;-es Bastos
Cotn as pomposas apparcncias cle comicios .elo povo soberano, repete-se pcriodicamenlc no Brasil a mais gros-seira e mais odiosa <las ficções.
Nas maiores cidades, na propria capit.r.1 do impcrio, a força congrega dos mais reconditos escon<lcri jos os c11tcs mais repugnantes. O vota11Lc 0:, ahi mesmo, muita vez um ma\foitor, um scclcrado. A cidade fica, nc5scs dias luctuo-so:;, á mercê da plebe mais rmk e de sica: ias notorios, que podcrla!ll saquc..'ll-a, si, por cumulo ele vcrgoaha, não fos-sem quasi fos-sempre co111ma11<laclos ou ampa·,ndos pela polícia, que os arregimenta e com dlcs nm<:aça, intimiüa, e:sp,mca e afugenta a opposição. Assirn, u.1s lll«iorcs cicladcs1 é a eleição, sinão o estaclo de sitio, um inlcrrcgno da ordem, um sacudimento 1'evolucionario.
No interior, pon:m, é cousa mais su\llmaria1 muito menos perigosa e mais di\'ertida. i\5.o ha. ou não ousa app;uecer a opposição: na igreja, onde ilcampa a força publica, ha só a ge1ve da policia, que
"º':i.
por si e pelos ausentes, que pôde nté dispensar as formulas exteriores da vot.:1ção, redigindo aclos de eleição fantastica, ce\cllrada sem maioria, sem minoria, sem votantes, sem nadn.Em cnda parochia ou mltnicipio, crê.'1 o prcsidc!lte da provincia um i11ilucntc, entrcganclo-\hc a policia e um destacamento. O inílucmc despacha os eleitores; e assim, por intetmedio de meia dmiia clc agentes seus, designa o governo os deputa.elos de cada distri~to. Um deputado ela nação é a escolha. do presidente, ratificada por alguns delegados de policiíl..
l'ara quem appella o governo, qi.iando dissolve a camara? pnra quem appella o dcputadci CJ.Ue se rcbel\a contra o governo? Ao appcllo do governo responde a unanimidatlc <la policia; á rehcldin, a pena de exclusão.
Eis o nosso parlamctno ! O ministerio, que o fabrica, não ,·ivc d,1 sua confiança.; conta coin o seu sen·ilismo. O mi·
nislcrio unicamente clepcndc da. corô.t, que assim como o tira <lo nadai assim pódc devolvei-o á poeira da terra.
Reforma eleitoral e par/arnc11iar \73 Deve entfto maravilhar que, descridos, intimidados, ou saciados de forç:l tão repi1gn::mte, desde algum tempo graude numero de cic.lad5.os se abstenham systcmaticamcnte
<.lc intervir nas c\cições, e que dcllas se apo<lerasscm os m.iis perigosos e os mais torpes camlilhos das \ocalidaclcs?
que desertassem da polilica ou :i evitem cautelos:imcntc homens illustrcs e prestimosos, cujo elevado cntenclitnento e nobre :iltivcz se não compadecem cor:, essa triste per·
versão do nosso systcma de governo?
Por esse en(raqticcimcnto do espirita publico, por essa indi f
r
crença geral, por essa abslenç5.o chroniea, nossa!.instituições corrompcram_sc, transformaram-se; de go·
,·erno representativo pas~amos a ter go,,erno pessoal do Imperante; e esta ml1tla11çn. da fórmn. cle g:o\·crno operou-se lent:'tm<:nte, logic.imcntc. digamos ;:i:.sim, e se está con-summanclo sem outro embaraço mais que os impotentes protestos de uma op110siçflo, que del>;th\c appdlarã para o povo C.'i.cluic.lo de \'Otar e indiffcre11te aos n!'gocios publicas.
Por isso mesmo, igualmente, a clccadencia das altas corporações do Estado, cio parlamento, do mi:1istcrio, de c1:a crn dia. se fa1. sentir incla mais. A politica esti quasi intcrdicta aos cidadãos de 111erito, aos homens de l>en1. A ,•icla publica não é 111ais o estad;o da honra e da gloria, a.bcno ás nobres ,11nbiç(ies; é mcrcanein ele gros~o trato.
Todos es~es males não os curaria certo a simples su-pressão do primeiro gráu cL1; cle:ção, mas removeria grande parte <lcllcs, attcnuanclo os rcstant-.:s. Não teria a mais bencfica e cl<!cisiva influencia na política um corpo eleitor;1l permanente, cxisti:1do j11rc proprio, Clll vez <les~es raros eleitores .imoviveis periodicamente, í\ capricho cln potes-tade de aldê.i 011 do presidente que a 111antêm? Em con-tacto com o paiz real, diante da n;;içfio, não cresceriam os brios do clcpurndo, o sentimento cla rcspo11s:1bilidade, o cs·
timulo pam o bcrn publico? E o go\·crno <lo Estado, então, guiar-sc-i.:\ súmf.:ntc pelas inspirações pcssoaes do Im-perante?
174 A. C Tavares Bastos Seja pcrnrnncntc e inamo\'ivel o corpo eleitoral, seja Jirccta a eleição, e m:'lrcharemo:; para a c:--tincção dos abusos, para ns rcforÍlw.s que dc,·crn avigorar o elemento dcmocratico da constituição, ckmclo á 110:.sa fónnn de go-verno o caracter rcrrc:;culati\10 CJl!C apenas tem na ap-parc11cia.
In(e!i.::mc11tc, cnid:l o actual gO\'Crno illudir esta grande ncccssidndc - corpo eleitoral cstavcl e 115.o subscr·
viente, expedindo uovos rcgt1l,1mc11tos (>é'lra o processo da qunli ficnç.:i.o dos \'Otantcs. Mas, para julgnr da fragilidade dos cxpcdicntc5 propostos, basta dizer que, preso ;i. idêa.
fixn c\a renda liquida, qne aliás não conseguiu definir, o projccto ministcri,il ;i.inda 11crmitte provar que a não possuem ach'ogados, cirurgiões, prof es:.orcs, clerigos, nego-ciantes matriculados, corretores, proprictarios, isto é, pl'O·
fissõcs que trazem cm si mt.=snrns a prova da sua capacitlatlc constitucional. Ainda nmis, clcdara o projc.cto (}liC o cida·
d:io pódc ser inscripto no .-1.list:uncnto ou tlcllc excluido por meio de justificações dadas perante qualquer juiz 11111·
nicipal, e bem se concebe a imparcialidade com que estes commissaríos cio govcnio m.lmiuirão ou recasarão os ini·
migos do governo. Confiança cm comb:11,1çõcs tão g.astas, e a qlle justamente se attril.mem muitos dos abusos actuacs, patcntêa o intuito real do governo: eYitur a ek:ição dircct.i, mysti{icamto o povo CQHl mais um rcgu\amc!HO, onde se tlcixam sufíicientcs abcrt:is para a fraude ~ a violcncia, que entretanto se finge desejar c.xpc\Vir dos con1icios.
Diffcrir a clciç5o tlin::cta ou rcjcit~l-a sob prcte.xto de inconstitucionalidade, quest5o prévia e5~otnda por emi-nentes oradores, é o rcclucto em que ora se conccntr::1111 os ::1imigos clo systcma p.,,rlamcntar.
Fa1.cndo ela Consti tuiçiio cabeça de i\fodusn, clles tcn·
1.ani fC\)Cllir o prrJgrcsso ncccssario d.is insí.ituic;õcs e desa·
kntar os reformadores pacificas.
N5.o vêem esses espiritos tcmerarios que insuflam
;:ssim a revolução, que a st1scitam, que a justificam?
Reforma eleitoral e parfa111c,11ar 175
A Constituição obsta! mas esse mesmo escudo não cobriu a pcrfidia tlos que desde 1840 cktretaram tantas rne.didas hostis á liberdade? Deve só ob5tar ao be.m o que não tem obstatlo ao mal? E agor.i mesmo, invertidos os vcrcl.ideiros principias constitucion.ies, ni10 está fm,ccio-nando o governo ab-:,oluto do poder modcr.1clor, que só poderemos cohibir em.ineipando o voto, elevando e puri{i-Cc1.n<lo o parln.mento?
O machinismo do governo de um pO\'O nfio pótlc ter, nem deve ter, sob pena de decac.ltnein. e corrupção, o co.-n,cter de perpetuidade: as t!Voluções do tempo e a acçf10 inccss.1ntc dos acontecimentos o gastom e estragam, exi-gintlo reparos constantes, succcssivas substitu;ções parciaes, que. evitem a ruina total ou funestas cxplc;::;ões.
Algumas das peças do nosso syste111a hão mister trans-formadas porque não sejam supprimidas.
Parte <lesse trabalho de substituição, a que cntendC com attribuiçõcs dos poderes politicos ou direitos tlos cicJacJãos, demanda lei 1.:onstituinte. Di~pensam-na de certo, á vista do preciso texto elo art. 178 da Constituição, os regulamentos para o exercicio dessas attrihuições e desses direitos.
Neste ultimo c..1so est.i o processo das eleições. Ele~
vai-o â altura de questão íumlamcntal é conf11ncJir a defi-nição do direito com o modo pratico do seu excrcicio. As constituições tlcfi11c·111 o primeiro; as leis oq;anic.is ordeimm o segundo.
E', em verdade, essencial que o processo não restrinja o direito, dês que não é constituinte a assemblé.a que o decreta: lllas a isto nos compromcttcmos os l;bcrucs, a isto seremos fieis. Para uma bôa reforma eleitoral, com effeito, mio carecemos tomar base divcr:;a da noção constitucional de direito de voto.
1fas, embora circunscripta a esse programma, importa muito que a refonna seja prnfuuda e conlenha todas as
176 A. C. Tavares Bastos providencias acccssorins, .ao cnvcz dessas segundas edições das leis rcacC:onarias que os ministros estão a cxliilJir cavi•
losa111cntc sob um nome u:.urp:J.do.
Ao elaborar tii.o importante medida, cumpre relembrar o estado do paiz e consult::r os org:ãos cla opmião. O que pretendem, o que rcd;rnmm, não :.ómc11te por íl.lllOr da li~crdaclc, m,1s pai.\ salrnç5o elas instituições, os mais il·
lustres oradores do p:i.rhm:!nto, sem distincção de partidos, e a imprensa politicn de lo<las as côrcs?
Qucrc_m todos rcstalx:kccr o cquilibrio dos poderes, que i: o eixo da Constilniçüo, e impcd1r q11c, a despeito dclla, se consol:de a mudança opcr.uia ém noss1s institui-ções pelo incontrastavc\ domin:o do Imperador; querem mui p:ltrioticamcntc evitar a so:uç;io rc\·ulucionari.i da re-publica, ,1 q11c aliás nos i.t arrilstar L1tal111c11tc u parodia dn icléa napoleonicn no 13r;izi\; qtiercm e esperam asscn·
tar o go\·crno rcprcscnt;,t:vo ('Rl base mais solida que as boas intc:1çõcs do Pri:lcipe, a saber: a liberdade do suf-fragio, a influencia e popularidade elo paríamento.
Ardua cmprcs:l, de certo; !ll.'.lS muito ma:s o foi a c]os immortaes brasile'ros que so11hara111, p:-cparam e cffe-cll\,1ram a indcpendcncia, e:;:igiram e .i.Jc;rnçar.im uma constituição, combateram e dcpuzcram o principe que trnhiu a patria. El!cs aniscar:1111 a vicJ:1, e muitos com clla pílga·
ram ,1 sua lcmcrid,1clc: nós não carccc1nos nem aventurar aS' honras e vantage:is obt'.das. Dentro <lo curto periodo de dez annos const:wiram e!lcs o Brasil e o libertaram do principc estrnngciro; nós cm n1cnos tempo, com um 1nilc·
sim o dos seus sí\cri fkios ( e basta fé com~ um gr:'io de mostarda e .t perseverança dos home11s de bó1 vontade), nós poderemos repnrar o cd:ficio que e\!cs nos lcg.lr,1lll, e que por nossa. pusil;in;mitlaclc 3mcaça esboro,1r-sc.
No est;,i<lo cmllryonílrio cJc nossa socicclaclc h:i, C certo, altos problem.is moraes e sociacs que .interessam igual-mente, ou muito mais, á sorte do povo: a i11str11cção, o trnbnlho livre, a. libcrcJa.dc dos cultos, por exemplo; mas
Reforma eleitoral e pal'famcntar 177 todos dependem da solução cla<la á {órma de governo, questão pré\'ia q11c domina as outra~.
Ahontcmoki., pois, com resolução e coragem, essa obra preliminar.
Emancipemos o su{frag:o, e demos no corpo eleitoral a pe;-mancnciil ele q11c absolutamente carece. Tornemos o parlamento a cxpl·css5o, n5o cL1 m;1ioria són1cntc, ou ela minoria que é governo, não dos ministros e presidentes, mas cxprcss~o nacional de tocfa,s as 011iniõcs e crcnçils, e de todas as chsscs <lo povo; um parlamento ve1h::r::n·el, sem o peccaclo original <la violcncia e da fraude, inacccs-sivel ao nepotismo, invu\nern.vcl para a corrnpção. Rej1ri-111amos os habitu'.1cs excessos <lo polier, rcnul\c:c111os ás praticas e dt'roguc111os as leis q1:c cstrngaram os costumes e atrazaram nossa cwilisação, inaugurando outras prat:1.:as e promulgando outras leis que tenham nos costumes a mais sa1utar inHuencia. Abrguemos ·.i representação na-cional, eq11ilibremos as duas c.i.rnarns, sllppri111arnos o man-dato vitalicio, e, assim como respeitamos a diversidade elas crcnç:i.s politicas, elevemos até á igualciadc constitucional as minorias religiosas.
Tacs nos pareccin ser as questões proeminentes n:i.
reforma intcnta.cl.'."I por ambos os partidos, e .i que não satisfaz ou não attcncle o recente projccto do governo;
larga rcformn que se não timita ao processo prntico <las eleições, e que <lcmancl:i. por complcmc~to urn:i serie de actos conotcnados formando um sy:-trma inteiro ele me-didas organicas. Porqt1anto, como jã advcrt:n1os cm outro lugar, o prob\cnia Politico elos nossos dias não reside cm uma ql1cstão unica, no processo eleitoral mais ou menos apcrfeiçoa<lo: cn\'olve a transformação ou progresso ele nossn.s instituições no sentido dcmocratico.
Cirtumscrc,·arnos, porém, estas observações prclin11·
narcs aos pontos capitacs da reforma eleitoral e parla-mentar.
SUFFRAGIO D!RECTO E GENERALISADO
Quem é o eleitor? Eis a primeira questão a examinar.
Mas como trntamos de promulgar a rciorma por lei or•
dinaria, cuja compctcn ·ia já affinmimos, aquclla questão se con\"Crtc ncstn: A' ~i ordinaria pócJc e <leve prcsdnclir das condições cstatuid..s pekt. lei funda111c11tal como ele·
mentas cio dircilo de voto?
Propôr a questão é rcsolvck1. Restringir ou ampliar as com.lições elementares do cxcrcicio de um direito é alterar a substm1c:a do direito, e dcsclc que a Constituição declara sup~riores á. alçada da lei ordin:iria os _direitos politicos (o de voto C um, ou não lm 11cnlH1m que o seja), a mesma lei não pôde ficar aqucm nem transpór os limites do pensamento constitucionnl. J\di.:i.ntc diremos por que não deve.
Qual ê, 1Xlrém, no espirito da Constih1i~ão, que nos cumpre escrutar sem prevenções de partido, 11cm argucias de escola, a condição inhcrentc ao direito ele voto, a
con-<liç5o que a lei fondamcntal prefixou e ele que <lcpcnrlc o uso e goso desse direito? Evitando as controvcrsias thco-ricas sobre suffragio-clireilo natural, e suffragio-funcção publica, mantendo-nos estrictanicntc no terreno do direito pntrio, qual é, repetimos, a fórmula constitucional <lo di-reito de ,·oto?
Capacidade civil e politica, e certo ren<liff:cnto.
Reforma clcitornl e r,arlamcutar 179 Bôa ou má., elcfini<la ou incerta, precisa ou obscura, esta é a base legal, a base sobre que nos cumpre operar.
e ele que só póelc prescindir o !cgisla<lor constituinte.
Ora, llfta ha di\'crg:cncia, porqllC nisto foi expressa a Constituiçfm (art. 92 §§ 1.º a 4.''), qnanto ;is cansas de incapaci<lade civil ou politka. E' a i11telligc11cia do texto na parte rc\nth•a á renda, que tem suscitado <l1\\'ielas, é d'ahi que nascer.im o~ .i.busos d.i.s juntas qualificadoras e
<las assembléas primarias, e os ,·iclos que corromperam o processo eleitoral, desfigurando totalmente o typo consti-lucional.
E' nssim que cm nc.issas eleições tê111 voto o . \'aga-bun<lo sc111 of Eicio ou meio de vidn, o indigl.!llte noto rio, os proprios criados de ~cn•ir transfigurat!os cm camaradas, e outras entidades de sombrias denomin.içõcs, as classes mais rudes da \1Dpubç5o, essas hordas barba.risadas que i;e desvivcm 110 vicio e no crime, e que a fo;ta ele estradas e de escóbs a0011do11ou incnnes ao cmhn1tecctlor f:matis1no
<los bom.os crr:\ntcs. E esse t.lircito ele \'Oto, qne t.lc,·C.ra l'rguel-ns e chamai-as :\ civilisaç5.o, mantcm-nas 110 ocio e na dcpc11<lcncin dos ricos ou poderoso:::., sujeita-as a toda a sorte de vcx3çõcs physicas e moracs; degrada-as em smnma ú condição do escravo pelo influxo cio dinheiro Oll pela ac:ção do terror.
Não! si tem de feitos a Carta de Pedro I, e gravissi111os os tem, n;io pmlcmos exprobrar-\he este; r.x.igindo dos proprios votanlcs Olt eleitores prirnarios os requisitas de capacidade e rcm..lime11lo, dln não te,·c cm nl"Ute proclamar o suffrngio uili\'crsat, que não tolera tae:; rc5tricções: não o procl.i.mou. A comtituinte, cujo projecto imitaram ou copiar;.un os recl,1ctores da carta, continha vcd.adciro5 elcpu-tados da nação, que a conhecian, e betn sal.liam que a não fe\icit;-ivam com esse bcllo id('a\ <las antigas democracias, para que tendem as 1nodcrn.is, mas Uc que estava r, ainda está distante n nossa patria, onde a ignorancia e o fana-tismo por toda a parte disputam o terreno
a
ci,·ilisação.ISO A. C. Tavaros Bastos
, Felizes aqucllcs que um dia puderem consagrar a 1g~aldadc politica de todos o~ .tm1silc:ros pelo suffrag:o universal! Mas acaso lhes faciillarcmos a tarefa, e aprcs·
saremos esse clin venturoso, perpetuando a fo!si(icaçfio do rcgin:cu parlamcutar pela to!crancia cio 11osso irrisorio suf-f rn.gio univt!rsal?
Mns, s: é nl.lu!;iva a intcq>rct.1ç5.o qllc amplia cxagc-radJmcnlc o direito de voto, <1t1al é cntfio o gcnui110 sca-tido da Constituição?
VC-sc aqui, como clll outros tnntos .t%11mptos, qttâú lentamente se desenvolvem uoss.is in~tiluiçõc'-, c1nanto as prcjudic,1.111 a negligencia, a pracrastinac;ii.o e n p11sillan1m'.-dadc do governo e <lo parfo.n1c11to. 1-fa meio scculo está por clcíinir o primeiro ponto do systcma rcprcscutntivo, primeiro por sua iinportancia. primeiro na ordem logica dessa. lei regulamentar dils elcii.;õcs que rccommcndára a Constitdc;ão {ilrt. 97) !
Não t! pcqucna n. difCiculdn.de: c.Jc accordo; mas não é ins•1pcr.:ivcl.
Dar :í. expressão - 1'c11da. liquida a11minl de cem mil reis a i11tclligcncia, rigorosamente cconomic.i, que alguns propõem e o governo co:isignou no seu recente projcclo, a sabei·: salclo dn renda bruta, c.Jccluzidas :is despesas c.Jc proclucção, ainda que fos5c cxacta cxprcss;io do texto, nad.i ildiautaria á qucsti.io; por(luc a questão é toda pra tio, e si1nilhante intclligcncin nos Jc\'aria. ainda n m:tior obscu·
ridi!.tlc. O que são vcrdacll!irnmcntc despesas de proclucç5o?
c...;:clucm ou comprchcmlcm o m.intimcnto <lo pro<luctor?
e, assentado isto, como nfícrir por medida cerl:t os gastos clc pro(lucç;io das varias in:lustrias e profi~sõcs, das gran·
dcs oíficiuas como <las temi.is popu!ilrcs, ..:.lo cinprcs,uio como do obreiro? Impossi,.·cl; a menos que a lei co111-mcttcs~c o mesmo erro, que inui justamente se exprobra ao aclua\ processo <las <\tlalilicai;ões, de cor.ferir ::i. alguc·11 a faculdade tyranuica ele dar ou tirar i:l, seu il'.Ycdrio o cli·
reito de valar.