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Reforma Trabalhista Aplica se aos Contratos de Trabalho

No documento AReferêncianosetor (páginas 96-98)

Anteriores a Vigência da Lei

Artigo de Marcelo Fonseca Boaventura*

Com mais de 100 itens modificados na legis- lação, a reforma trabalhista (Lei 13.476/2017) trouxe algumas dúvidas. Dentre elas, destaca-se a aplicação imediata da lei aos contratos de trabalho anteriores a sua vigência. Essa dúvida surgiu, em especial, diante da divulgação de algumas matérias pelos meios de comunicação e pelas informações desconexas trazidas pelo Ministério do Trabalho.

Esse órgão administrativo do Governo Federal, que tem por finalidade regulamentar e fiscalizar todos os aspectos referentes às relações de trab- alho no Brasil, divulgou nota onde informava que só seriam atingidos pela reforma novos contratos de trabalho. Logo em seguida, em outra nota, o Ministério do Trabalho descreveu que a lei valeria para todos os contratos de trabalho, com exceção daqueles com condições já estabelecidas em docu- mentos ou convenção coletiva em vigor.

Não existe dúvida sobre aplicação imediata da lei aos contratos novos. De outra parte, a nova legislação trabalhista, de maneira geral, se apli- ca também aos contratos de trabalhos anteriores a sua vigência.

Praticamente todas as regras trazidas pela re- forma poderão ser aplicadas tanto para os contra- tos de trabalho anteriores, quanto aos posteriores a sua vigência. Ressalvadas poucas exceções, não há que se falar em direito adquirido do empregado que vede a aplicação da nova lei aos contratos an- tigos. Destacam-se dentre os dispositivos da legis- lação autoaplicáveis, ou seja, que valem para todos

os contratos de trabalho: a regra de responsabi- lidade do sócio que deixou a empresa, o parcela- mento das férias, o banco de horas, o teletrabalho, as novas modalidades de demissão, dentre outros.

Em relação a responsabilidade pelo pagamento de valores em ação trabalhista do sócio que deixa a empresa, a nova legislação determina que primeiro sejam executados os bens da empresa e dos atuais sócios. Não existindo bens passíveis de penhora, o ex-sócio responderá pelo período de até dois anos. O benefício neste caso será a segurança do ex-sócio que não responderá por obrigações trabalhistas de negócios dos quais já não faz mais parte.

Outro ponto autoaplicável da reforma é a possibilidade de parcelamento das férias. Com a reforma as férias poderão ser parceladas em até três vezes, sendo assegurado ao menos um período de quatorze dias consecutivos. Supondo que o empregado tenha trinta dias de férias, os dezesseis dias restantes passam a ser divisíveis por dois períodos, onde a combinação do resul- tado não pode ser inferior a cinco dias. Assim, o trabalhador com direito a dezoito dias de férias não poderá dividi-lo, pois os quatro dias restan- tes não cabem nas exigências legais. A lei proibiu a divisão das férias de adolescentes e de pessoas com mais de cinquenta anos, bem como deter- mina que nenhuma das três etapas de férias do empregado poderá começar em véspera e ante- véspera de domingo e de feriado.

Também autoaplicável, o banco de horas passa a ser negociado individualmente. Não existe mais a necessidade de acordo coletivo. Na modalidade individual a compensação deverá ocorrer no prazo máximo de seis meses. Na modalidade coletiva este prazo pode chegar a um ano. Do mesmo modo, o intervalo para refeição e descanso entre a jornada de trabalho, poderá ser negociado em acordo indi- vidual. Terá o mínimo de trinta minutos nas jorna- das maiores do que seis horas. O tempo mínimo da lei anterior era de uma hora.

O trabalho em Home Office, chamado de “tele- trabalho” pela legislação, passa a ser regulamenta- do. As questões como fornecimento de equipamen- tos e pagamento de despesas, desde que conste em contrato, passam a não integrar a remuneração. A reforma descreve também que nessa modalidade de trabalho, não haverá direito as horas extras.

Foi criada uma nova modalidade de demissão, onde a empresa e o empregado, podem juntos

rescindir o contrato de trabalho. Na modalidade de rescisão por comum acordo a empresa pagará metade do aviso-prévio indenizado e da multa de 40% do fundo de garantia. Essa modalidade de rescisão assegura ao empregado o direito de sacar 80% dos depósitos do fundo de garantia, mas não assegura o direito ao acesso ao seguro- desemprego. Do mesmo modo, a realização da rescisão do contrato de trabalho não precisa mais ser acompanhada pelo sindicato da categoria, o que desburocratizará o processo de desligamento.

Alguns dispositivos da nova lei não são au- toaplicáveis, ou seja, valem apenas para os contra- tos realizados após a entrada em vigor da reforma. É o caso do contrato de trabalho intermitente. Nes- sa nova modalidade de trabalho a legislação prevê a prestação de serviços por hora, dias ou meses, sem continuidade. A empresa poderá pagar ao fun- cionário apenas pelo tempo efetivamente trabalha- do. Essa modalidade não se aplica aos contratos de trabalho antigos, pois teria que haver a conversão do regime de contratação e existem várias incom- patibilidades. Assim, esse regime, necessariamente, deve ser feito mediante contrato novo.

Outro obstáculo à auto aplicabilidade da refor- ma trabalhista reside na redução salarial. O con- ceito geral da irredutibilidade salarial delineado pela Constituição Federal, torna-se um obstáculo instransponível para a nova legislação. Qualquer norma que reduza o salário dos empregados nos contratos vigentes, estará fadada a inconstituciona- lidade e não poderá ser aplicada.

A nova lei traz profundas modificações nas rela- ções de trabalho. Contudo, na sua aplicação ainda pairam muitas dúvidas. Assim, é imprescindível que as modificações nos contratos de trabalho anteriores a vigência da reforma sejam acompanhadas por um profissional especializado, com o objetivo de evitar eventuais demandas desnecessárias.

*Marcelo Fonseca Boaventura, Advogado, Sócio do Escritório Fonseca Boaventura Advo- gados, Mestre em Direito Pela PUC/SP, Professor Universitário, Coordenador do Comitê de Direito Processual do Trabalho da - OAB/SP gestão 2012 a 2013, Membro da Comissão de Direito Mate- rial do Trabalho da OAB/SP, Juiz Conselheiro do Conselho Municipal de Tributos do Município de São Paulo 2010/2014, Possui Trabalhos Publica- dos pela Editora Revista dos Tribunais e Diversas Matérias Publicadas em Revistas Especializadas.

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No documento AReferêncianosetor (páginas 96-98)

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