CAPÍTULO 3 - FUNDAMENTOS DA NEGOCIAÇÃO COLETIVA
4.4 REFORMA TRABALHISTA E RESPONSABILIDADE DOS SINDICATOS
Conforme analisado anteriormente, a Constituição reconheceu as convenções e acordos coletivos como instrumentos legítimos e prioritários para a resolução de conflitos trabalhistas397. Eis a razão pela qual são louváveis as
395 MANNRICH, Nelson. Reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho. In:
MARTINEZ, Luciano; TEIXEIRA FILHO, João de Lima (Coord.). Comentários à Constituição de 1988 em matéria de direitos sociais trabalhistas (arts. 6º a 11): uma homenagem aos 30 anos da Constituição da República e aos 40 anos da Academia Brasileira de direito do trabalho. São Paulo: LTr, 2019, p. 314.
396 BULGUERONI, Renata Orsi. Negociação coletiva e fontes do Direito do Trabalho: propostas para a prevalência do negociado sobre o legislado nas relações de emprego. São Paulo: USP, 2014, p. 104.
397Conquanto a Constituição, nesse particular, não preveja, de forma direta, o direito à negociação coletiva, como analisado na seção 1.4, é possível extrair da interpretação do conjunto
iniciativas normativas que se direcionam para a valorização da negociação coletiva.
Ao abordar os inúmeros projetos legislativos que buscaram consagrar a prevalência do negociado coletivamente sobre o legislado, Romita398 afirma que o desejável seria que primeiro ocorresse uma reforma completa na estrutura sindical, para que depois fossem ampliadas, via legislação, as possibilidades de negociação. Todavia, não se podem desvalorizar as iniciativas legislativas nesse sentido, porquanto deixam evidente o atraso nas bases da organização sindical.
É salutar que a legislação trabalhista incentive e promova a contratação coletiva. A reforma trabalhista, mesmo que seja merecedora de algumas críticas, buscou cumprir este intento, ao estabelecer possibilidades e limites à negociação coletiva. Embora a ideia de flexibilização não tenha sido inaugurada pela Lei nº 13.467/2017, a modificação legislativa representa um marco importante, uma vez que buscou, de forma expressa, promover uma compatibilização entre fontes heterônomas e autônomas, o que, de fato, sinaliza um objetivo de conferir maior destaque às soluções pela via negocial.
Santos399 observa que a Reforma Trabalhista acentuou o chamado caráter bifronte da CLT, uma vez que a esta pode ser enxergada sob duas óticas:
uma lente intervencionista no âmbito do Direito Individual do Trabalho, marcada por uma forte intervenção do Estado, que estabelece normas de ordem pública de caráter cogente e que funcionam como os parâmetros mínimos para os contratos de trabalho; e outra lente para as relações coletivas de trabalho, marcada por uma incidência bem mais intensa da autonomia da vontade, de modo que os próprios destinatários da norma (trabalhadores e empregadores), por meio da atuação dos sindicatos, ganham um considerável espaço para regulamentar as condições de trabalho.
Nesse particular, o fato de se verificar uma intervenção do Estado nas relações de trabalho não eliminou a função da autonomia privada coletiva,
dos dispositivos constitucionais que tratam das relações coletivas de trabalho a conclusão no sentido de que a negociação coletiva é direito fundamental.
398ROMITA, Arion Sayão. O princípio da proteção em xeque: e outros ensaios. São Paulo: LTr, 2003, p. 35.
399SANTOS, Enoque Ribeiro dos. Negociação coletiva de trabalho. Rio de Janeiro: Forense, 2018.
porquanto o Poder Público não dispõe de meios para disciplinar, de forma detalhada, as condições de trabalho em cada segmento de atividade400.
Eis a razão pela qual o Estado abdica, em parte, de seu papel de disciplinar as relações de trabalho, conferindo margem de atuação aos sindicatos, no exercício da autonomia privada coletiva, que poderão instituir condições capazes, inclusive, de prevalecer sobre as fontes heterônomas.
Assim, combina-se a ação estatal com a atuação dos particulares, que são protagonistas na elaboração das fontes que formam o conjunto normativo laboral401.
Com efeito, a valorização da negociação coletiva não instaura uma competição entre as fontes autônomas e as heterônomas do Direito do Trabalho, haja vista que cada uma delas ocupa um espaço importante na regulação das relações laborais402.
Conforme salientado alhures, em um contexto no qual a flexibilização ganha cada vez mais espaço, a função negocial assume o papel de mais importante do sindicato. Nesse sentido, por trás de uma legislação que busca incentivar a solução das questões trabalhistas por meio da negociação, existe uma carga de responsabilidade dos partícipes do processo negocial. Os poderes carregam, em seu “pacote”, uma gama de responsabilidades.
O que se espera, segundo João403, nas relações coletivas, é que os atores sociais atuem com responsabilidade, sem a expectativa de que posteriormente o Judiciário vá dirimir as dúvidas. Assim, a atividade negocial não criará campos propícios a uma litigiosidade futura.
Nesse sentido, deve haver, por parte dos sujeitos, um cuidado considerável com a forma e com o conteúdo das normas coletivas, que devem
400 SILVA, Walküre Ribeiro da. Autonomia privada coletiva. Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo v. 102, p. 135-159, jan./dez., 2007, p. 144.
401Süssekind (SÜSSEKIND, Arnaldo. Instituições de Direito do Trabalho. 21. ed. São Paulo: LTr, 2003, p. 1177) identifica, há, algum tempo, que é cada vez mais difícil sustentar a existência de modelos estanques, ou que são puramente legislados ou puramente negociados. A distância que separa os modelos está em franco processo de redução.
402AGUIAR, Antonio Carlos. Negociação coletiva de trabalho. 2. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018, p. 172.
403 JOÃO, Paulo Sergio. Democracia, pluralidade e representatividade sindical: qual é o modelo de organização que mais se adequa aos fundamentos constitucionais brasileiros? In:
BELMONTE, Alexandre Agra; MARTINEZ, Luciano; NAHAS, Thereza. (Coord.). Liberdade sindical: uma proposta para o Brasil. Campinar: Lacier Editora, 2021, p. 109.
obedecer aos elementos essenciais do negócio jurídico, previstos no artigo 104 do Código Civil.
Columbu e Massoni404 asseveram, com precisão, que, a partir do momento em que os sindicatos se fortalecem, aumenta, também, a importância da contratação coletiva, o que provoca, automaticamente, uma diminuição do protagonismo da legislação nas relações laborais. É necessário romper o antagonismo entre lei e normas coletivas, pois não são fontes excludentes, e sim complementares. Mas, para que esta relação se dê de forma harmônica, é necessário que os sindicatos, trabalhadores e empresas tenham a dimensão da importância da função que lhes é delegada.
A reforma trabalhista coloca, à disposição dos sujeitos coletivos, uma
“máquina” que, em funcionamento, tem a capacidade de propiciar o desenvolvimento da negociação coletiva. Todavia, para que esta estrutura funcione, não são suficientes os impulsos legislativos. Não por outro motivo, é necessário perquirir os entraves ao progresso da negociação coletiva no Brasil.
404 COLUMBU, Francesca; MASSONI, Túlio de Oliveira. Sindicatos, autonomia privada coletiva e ordem democrática: análise da decisão do STF no ARE 1.121.633. In: MARTINS, Juliane Caravieri; MONTAL, Zélia Maria Cardoso; NUNES, Cicília Araújo (Org.). O Supremo Tribunal Federal e o esvanecer dos direitos sociais: leading cases sobre trabalho regulado e seguridade social. Londrina: Thoth, 2021, p. 313.