II. CAPÍTULO 1: EM BUSCA DA CIÊNCIA: REFORMAS EDUCACIONAIS E SOCIOLOGIA NOS ANOS
1.3. Reformas educacionais nos anos
1.3.1. Reformas do ensino brasileiro na Primeira República
Ao iniciar esta subseção, devemos alertar o leitor acerca do escopo das leituras que faremos acerca das reformas educacionais. Embora o foco da tese seja a análise da Sociologia como disciplina e sua institucionalização no Brasil, entendemos que tal processo não pode ser
21 Uma das questões principais recaía sobre a realização do trabalho no mundo rural, até então associado ao escravo, mas agora tarefa de trabalhadores livres. Tomando como objeto central os escravos recém libertos, ou seja, os que habitavam o mais baixo degrau da hierarquia social eram exatamente os menos protegidos contra abusos e preconceitos de todo tipo que se manifestavam no atendimento dispensado pelo poder público (CARVALHO, 2000).
capturado ou pensado sem interface com as questões educacionais do período, afinal a disciplina e seus atores principais se relacionam amplamente com as questões da escola primária e secundária.
O segundo ponto que deve ser ressaltado é que analisaremos as reformas estaduais de ensino primário, notadamente as do Distrito Federal (à época o Rio de Janeiro) e de São Paulo, já que estas instituem a Sociologia como instrumento da formação de professores, além de sociólogos presente em suas formulações e implementações. Nossa intenção em recuperar rapidamente estas duas reformas é pensar o quanto a inserção da Sociologia neste processo, nos ajudam a identificar os pressupostos que orientaram a produção dos primeiros currículos da disciplina, em outras palavras, quanto o debate educacional dos anos 1920 nos ajuda a entender a dinâmica da disciplina, o que, de fato, se procurava responder com o advento da Sociologia.
É preciso, neste sentido, reconhecer a importância do Colégio Pedro II na educação básica nacional. Desde 1837, a partir de decreto imperial, a instituição se tornou o paradigma para o ensino secundário no país22. Com a criação do colégio, concluiu-se uma etapa de
implantação de instituições escolares voltadas para a formação dos filhos das classes dominantes, bem como daqueles que ocupariam posições junto à burocracia estatal e postos de direção na sociedade civil (imprensa, educação, postos eclesiásticos, entre outros).
Embora o Colégio Pedro II tenha sido criado para a formação dos filhos das oligarquias, o projeto de expandir suas unidades para o conjunto das províncias fracassa, devido à clientela escolar pouco numerosa, bem como à falta de professores habilitados a atender as exigências impostas pela organização do trabalho didático proposta para o ensino secundário.
Estas dificuldades determinaram a pouca acolhida para as iniciativas voltadas à criação de um ensino secundário público em algumas províncias, o que as leva a adoção de um sistema preparatório para os exames parcelados necessários para a entrada nos ainda incipientes cursos superiores23. Como destaca Haidar (2008) nos anos 1880, o próprio colégio seria atingido pela influência da sistemática de exames parcelados.
Desde modo, enquanto se mostravam numerosas as matrículas nos primeiros anos, rareavam nas últimas séries, visto que muitos alunos aptos a prestar os exames para o ensino
22 A história do ensino secundário no período imperial esteve intimamente relacionada ao Colégio de Pedro II, visto ser essa a instituição educativa que contou com o reconhecimento e a chancela do governo imperial, enquanto escola que serviria de referência para todo o país.
23 Durante o período imperial, qualquer estudante que pretendesse o certificado de conclusão do ensino secundário, condição necessária ao ingresso no ensino superior e a aprovação nos exames parcelados deveria requerê-lo ao Colégio Pedro II.
superior, abandonavam as instituições de ensino, voltando-se para os exames parcelados24. O gargalo entre ensino primário e secundário explica a dificuldade em definir o sentido que assumiria o ensino secundário e sua função25, já que este existia para pouquíssimos (HAIDAR, 2008).
O debate sobre a reconstrução da nação via escola primária e a leitura da “decadência” do ensino público foram recorrentes nos anos posteriores à Proclamação da República e a crítica mais contundente dirigia-se ao que considerava excessos do regime federativo implantado. A situação do ensino primário teria se agravado ainda mais, pois, sob a forma da federação, foi concedida a cada estado plena liberdade para gerir os negócios da instrução pública.
Epitácio Pessoa promoveu, em 1901, uma reforma do ensino que propiciaria a concretização do idealismo de Benjamin Constant, corrigindo e adaptando a reforma deste às realidades regionais. Na proposta de Pessoa, a educação nacional deveria priorizar a formação secundária, visando a consolidar a estrutura seriada do modelo educacional. Até aquele momento, o ensino era desvinculado da frequência obrigatória, prevalecendo na prática os exames preparatórios, que davam aos alunos a oportunidade de acesso ao conhecimento pela via seriada ou através de estudos individualizados e orientados fora das escolas.
Tal proposição criava uma contraditória possibilidade de aquisição de conhecimento, com ou sem escola, o que acabou enfraquecendo o próprio espírito reformador proposto, ora afirmando o valor da instituição escolar, ora o negando pelo mesmo princípio. Estendeu também o privilégio da equiparação ao Ginásio Nacional não mais apenas aos liceus, mas a qualquer instituição de ensino secundário, estadual, municipal ou privado.
A Reforma Rivadavia Correia (Lei Orgânica do Ensino Superior e Fundamental, decreto n° 8.659-1911) revogou formalmente a reforma anterior, eliminando a equiparação dos estabelecimentos de ensino secundário ao Colégio Pedro II. Ficou estabelecido um ensino completamente livre, e foi abolido o reconhecimento oficial de certificados dos cursos secundários das escolas equiparadas. Foram também abolidos os certificados de conclusão do Colégio Pedro II, expedidos por quase um século, e extintos os exames preparatórios parcelados
24 Ainda segundo Haidar (2008), essa discussão vai atravessar todo o final do século XIX, estando presente nas reformas Paulino de Souza, de 1870; Leôncio de Carvalho, de 1878; e na reforma encabeçada por João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe que, em 1888, aboliu as matrículas avulsas, os exames vagos e a frequência livre no Imperial Colégio de Pedro II
25 Lembramos que o sistema educacional do período estava assentado sob o pacto federativo que fundamentava a determinação de que cabia aos estados e municípios a tarefa de criar e desenvolver o ensino primário e secundário e à união a responsabilidade pelo ensino superior, além do ensino primário e secundário na capital do país, atribuição que repartiria, em regime de colaboração e concorrência, com o poder municipal.
feitos junto às faculdades, que de certa maneira atestavam os estudos secundários. Dali em diante, não seria mais preciso comprovar estudos secundários. As faculdades interessadas em receber alunos promoveriam seu o exame de admissão. A Reforma ficou marcada como aquela que resultou em desregulamentação excessiva, propiciando o caos na educação nacional com a omissão completa do Estado em sua condução.
Já a Reforma Carlos Maximiliano (decreto nº 11.530-1915), revogou algumas decisões tomadas pela Reforma Rivadavia Correia e estabeleceu outros tantos encaminhamentos. Os pontos mais importantes desta podem ser assim sintetizados: foram restaurados os certificados de conclusão do curso secundário expedidos pelo Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, reconhecidos pelo governo federal; foi reinstituída a possível equiparação de outros estabelecimentos de ensino ao Pedro II, desde que fossem estabelecimentos públicos estaduais; foram reinstituídos os exames preparatórios parcelados, pelos quais os estudantes não matriculados em escolas oficiais poderiam obter certificados de estudos secundários reconhecidos pela União; e foi mantida da reforma anterior apenas a eliminação dos privilégios escolares. A Reforma Carlos Maximiliano, portanto, reestabeleceu a interferência do Estado eliminada pela reforma anterior26.
É, no entanto, a Reforma Rocha Vaz (Decreto 16.782- 1925) a primeira a tentar ampliar a abrangência da educação brasileira, tendo como foco a ampliação do atendimento do ensino secundário público. Institui, por exemplo, o Departamento Nacional do Ensino, órgão precursor do Ministério da Educação. O objetivo da reforma foi fazer a transição entre uma educação preparatória para o ensino superior (de um número reduzido de discentes) rumo a uma estrutura organizacional que permitisse o atendimento a um número significativo de estudantes – além de formá-los satisfatoriamente para o mercado de trabalho (ROMANELLI, 2005; SAVIANI, 2006).
Esta reforma foi a última a afetar o ensino secundário na Primeira República. Suas marcas foram, além da criação da disciplina de educação moral e cívica, a efetivação da Sociologia no currículo, a continuidade do Colégio Pedro II como modelo e sua equiparação apenas aos estabelecimentos de ensino secundário estaduais.
Ademais, foram instituídas juntas examinadoras nos colégios particulares para exames de validade igual aos do Colégio Pedro II ou de estabelecimentos equiparados, sendo assim, abolidos os exames preparatórios parcelados. Em seu lugar, foi instituída a
26 Além de possuir um certificado de conclusão reconhecido pela União ou um certificado de aprovação nos exames preparatórios, para entrar no curso superior o aluno teria que prestar também um exame vestibular.
obrigatoriedade de um curso ginasial de seis anos de duração, seriado, e de frequência obrigatória com o intuito de promover uma seriação racional das disciplinas e organizar o ensino com programas e horários mais convenientes. Deste modo, a frequência a uma série dependeria da aprovação na série anterior.
A intenção foi realçar o aspecto formativo do ensino secundário, o que foi neutralizado por um conjunto de medidas tomadas pelo Congresso Nacional. Consequentemente, a reforma não foi totalmente aplicada. Em 1929, ainda existiam escolas com exames preparatórios, sem currículo definido. Seu efeito mais forte foi tentativa de moralização do ensino (ROMANELLI, 2005)27.
Os primeiros anos da República foram marcados por uma intensa influência da ideologia positivista associada à manutenção dos privilégios das classes dominantes. No entanto, a partir da entrada no século XX o ideário liberal começa, mesmo que timidamente, a mexer com o status quo vigente. A principal tentativa das reformas é fazer com que a educação passasse a ser entendida como direito e instrumento primordial para rompimento do país com seu atraso, há um ajuste do campo educacional ao projeto de nação e ideologia vigentes.
Tomemos, como exemplo, a própria Reforma Rocha Vaz (1925), nesta o secundário era entendido como prolongamento do ensino primário, para fornecer a cultura média geral do país, compreendendo um conjunto de estudos com a duração de seis anos. No sexto ano, de acordo com esta reforma, era oferecida a disciplina Sociologia.
Ao estudante que fizesse o curso do sexto ano e fosse aprovado em todas as matérias que o constituem, era conferido o grau de Bacharel em Ciências e Letras. O candidato ao vestibular devia apresentar certificado de aprovação nas matérias do quinto ano do curso secundário emitido pelo Colégio Pedro II ou institutos equiparados, mas aquele que cursasse o sexto ano tinha preferência na matrícula, independente da ordem de classificação. Portanto, o sexto ano do ensino secundário, no qual a Sociologia foi inserida, conferia um privilégio aos alunos que o concluíssem.
Sendo assim, a perspectiva moralizante que orienta a reforma de 1925 se conecta com a necessidade de repensar (e modificar) os padrões e metodologias de ensino e a própria
27 Lembramos que esta concepção educacional está assentada e tem como influência acontecimentos posteriores à primeira guerra mundial como a realização da Semana de Arte Moderna, a fundação do Partido Comunista Brasileiro, o tenentismo, a industrialização e urbanização crescentes e o florescimento de novos grupos sociais, tais como burguesia industrial, classe média e operariado urbano. Grupos que vão reivindicar maior participação política e direitos sociais, onde se encaixam as questões educacionais. Ressaltamos ainda, que na conjuntura internacional, entre 1870 e 1930, a 2a Revolução Industrial se consolidava nos países centrais, e atingiria a fase sua fase taylorista/fordista nos EUA: automóvel, eletricidade, rádio, cinema e telefone promovem intensas e importantes transformações.
cultura escolar dentro das instituições de diversos níveis, de modo acelerar a formação e atacar os entraves ao processo modernizador brasileiro para a inserção do país na esfera internacional capitalista.
Um dos atos mais significativos, portanto, da Reforma Rocha Vaz foi, como supracitado, a tentativa de redirecionar o escopo de atuação do Colégio Pedro II - até então voltada para atuação como espécie preparatório do ensino superior – propondo o reestabelecimento do curso de bacharelado em ciências e letras e a instituição de uma escola normal superior federal, para a formação de professores secundários.
Essa formulação na prática, apesar das proposições legais, teve dificuldade para ser implementada, uma vez que o Estado pouco expandiu a rede educacional pública estadual (não havia nem mesmo sistema nacional de educação, somente poucas e isoladas instituições primárias, secundárias e superiores, com os excluídos das vagas novamente apelando à iniciativa privada); não fez avançar a reforma do currículo escolar (disciplinas excessivamente teóricas e de pouco apelo prático foram mantidas); além de sucumbir ao projeto oligárquico brasileiro que manteve a educação como seu privilégio excluindo a maior parte da população deste processo – o que foi percebido pelos que ansiavam por melhores condições de inserção profissional.
O governo federal a partir de 1926, na prática, controlava, regulamentava e se preocupava com o acesso ao ensino superior, levando aos estabelecimentos secundários a se adequarem as suas exigências. Aqueles estabelecimentos que seguissem as exigências federais se equiparariam ao Colégio Pedro II – isto é, aqueles que estudassem nesses colégios poderiam ir direto ao curso superior, sem passar por novos exames. O ensino secundário, assim, era visto como etapa preparatória, alavanca e passagem para o ensino superior. No entanto, o ensino superior continuava isolado e incipiente, com poucas faculdades, subordinadas à legislação federal.
Uma das tentativas de corrigir estas distorções da Reforma foi o Decreto 18.564/1929 que modificou a seriação do ensino secundário e instituiu o “Curso Complementar”, visando a adaptação do ensino recebido na escola secundária com algum tipo de “função social” prática. Nesta etapa complementar de ensino em que a disciplina de Sociologia será inserida e efetivamente aplicada. Sendo assim, os anos 1920 experimentaram significativas reformas estaduais de ensino que traduziram as iniciativas e preocupações com a educação, e o Ensino de Sociologia, como aponta Nagle (2001), teve papel fundamental neste processo:
A presença da Sociologia, no currículo, constitui inovação muito significativa. (...) [assim] a década de 1920, no domínio do “pensamento brasileiro”, caracterizou se pela forte impregnação de preocupações de natureza “sociológica”. No mesmo sentido deve ser interpretada a inclusão da sociologia nos estudos secundários (...). A utilização e o desenvolvimento do pensamento social, na década, foram cada vez maiores nos meios intelectuais, entre jornalistas, escritores, políticos ou estudiosos. Por isso, nesse período, a sociologia poderia ser considerada a “arte de salvar rapidamente o Brasil”, de acordo com a afirmação de Mário de Andrade (NAGLE, 2001, p. 197).
Cabe, pois, ressaltar que tais iniciativas estaduais se anteciparam, em muitos casos, em relação às iniciativas do poder central, já que as reformas que analisamos nesse subitem são federais e como não existia de fato uma rede federal de ensino ou mesmo de escolas federais espalhadas igualmente pelo país, tais reformas tiveram cunho meramente organizacional. No entanto, a força que aponta Nagle (2001) da Sociologia no “desenvolvimento do pensamento social” na década, é evidente quando analisamos as reformas educacionais estaduais no período.