Esquecidos pela mídia, sem voz, deslocados internos ou migrantes ambientais, como são chamadas as pessoas obrigadas a se deslocar internamente ou cruzando fronteiras devido aos efeitos das mudanças climáticas. Eles se somarão aos 163 milhões de pessoas que deixaram sua história para trás escapando de guerras, conflitos étnicos, furacões.
A questão das migrações ganha maior relevância no século XXI, pois, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), de 2000 a 2009, o número de migrantes globais aumentou cerca de 4,6 milhões por ano, mais que o dobro do aumento anual durante a década anterior (2 milhões). A Ásia registrou o maior aumento (1,7 milhão por ano), seguido pela Europa (1,3 milhão por ano) e América do Norte (1,1 milhão por ano). Entre os anos de 2010 e 2013, o aumento no número de migrantes internacionais desacelerou para cerca de 3,6 milhões por ano.109
Organizações internacionais tentam trazer a questão dos “refugiados ambientais” para a agenda das discussões sobre o clima, cujo foco durante muito tempo se concentrou nos esforços de mitigação, ou seja, ações que levariam a uma redução das emissões de gases de efeito estufa – GEE, na atmosfera. Se a migração será uma opção de adaptação dentre várias outras ou uma questão de sobrevivência devido à falência coletiva em oferecer alternativas adequadas de adaptação, só o tempo dirá.
Mas qual nomenclatura utilizar para denominar esta nova classe, desprotegida por todos os meios, e sem um lugar de destino que garanta seus mínimos direitos. Para
109 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Mundo tem 232 milhões de migrantes internacionais, calcula ONU. Disponível em: <http://www.onu.org.br/mundo-tem-232-milhoes-de-migrantes-internacionaiscalcula-
que se compreenda este novo fenômeno, estudar-se-á as diferenciações entre Refugiado, migrante e refugiados ambientais.
O ACNUR sempre se refere a “refugiados” e “migrantes” separadamente, para manter clareza acerca das causas e características dos movimentos de refúgio, e garante que apesar de ser cada vez mais comum os termos “refugiado” e “migrante” serem utilizados como sinônimos na mídia e em discussões públicas, há uma diferença legal crucial entre os dois. Confundi-los pode levar a problemas para refugiados e solicitantes de refúgio, assim como gerar entendimentos parciais em discussões sobre refúgio e migração.110
Refugiados são especificamente definidos e protegidos no direito internacional, são pessoas que estão fora de seus países de origem por fundados temores de perseguição, conflito, violência ou outras circunstâncias que perturbam seriamente a ordem pública e que, como resultado, necessitam de “proteção internacional”. As situações enfrentadas são frequentemente tão perigosas e intoleráveis que estas pessoas decidem cruzar as fronteiras nacionais para buscar segurança em outros países, sendo internacionalmente reconhecidos como “refugiados” e passando a ter acesso à assistência dos países, do ACNUR e de outras organizações relevantes. Eles são assim reconhecidos por ser extremamente perigoso retornar a seus países de origem e, portanto, precisam de refúgio em outro lugar. Essas são pessoas às quais a recusa de refúgio pode ter consequências potencialmente fatais à sua vida.111
A Convenção de 1951 relativa ao Estatuto dos Refugiados foi o primeiro acordo internacional a cobrir os mais importantes aspectos da vida de um refugiado. Por meio dela, reconheceu-se a necessidade de cooperação internacional para se enfrentar o problema do refúgio.
A definição de refugiado da Convenção é um produto e uma parte constituinte da história do século XX - uma história marcada, no que se refere à proteção dos indivíduos, pelo reconhecimento internacional de direitos humanos. A aproximação histórica, logo, não constitui mera coincidência. Sem dúvida, a configuração atual do regime dos refugiados constituiu-se como resultado e, ao mesmo tempo, como parte integrante da afirmação internacional de direitos humanos que ocorreu após a II Guerra
110 ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA OS REFUGIADOS. “Refugiados” e “Migrantes”:
Perguntas Frequentes. 22 mar. 2016. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/noticias/noticia/ refugiados-e-migrantes-perguntas-frequentes/>. Acesso em: 28 fev. 2018.
111 ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA OS REFUGIADOS. “Refugiados” e “Migrantes”:
Perguntas Frequentes. 22 mar. 2016. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/noticias/noticia/ refugiados-e-migrantes-perguntas-frequentes/>. Acesso em: 28 fev. 2018.
Mundial, essencialmente influenciada pelos acontecimentos ocorridos durante esse período de conflito e buscando evitar que situações de amplo desrespeito à dignidade do ser humano viessem a se repetir.112
Jackson, destaca que o espírito existente durante a formulação da Convenção de 1951 era verdadeiramente humanitário. Esse autor nota que existia um desejo genuíno de criar-se um mundo melhor no qual os horrores da II Guerra Mundial não pudessem ocorrer novamente. Logo, já que o mundo permanecia imperfeito, devia ser assegurado, ao menos, que as vítimas de opressão e perseguição obrigadas a deixar seu país como refugiadas fossem decentemente tratadas pela comunidade internacional.113
Segundo Carlos Augusto Fernandes:
[…] o asilo é uma resultante da liberdade do homem e da necessidade de protegê-lo contra o arbítrio e a violência: nasce da revolta, da vingança ou do crime; é o companheiro da infelicidade, da expiação e da piedade, coevo do primeiro agregado humano.114
Tal tema, apresenta peculiaridades que se relacionam com a própria natureza do refúgio. Essas peculiaridades são: (1) o fato de o instituto do refúgio somente ser aplicado quando se verificam fortes violações dos direitos humanos, conflitos armados ou guerras e (2) o fato de as situações geradoras de refugiados normalmente ocorrerem em Estados sem grande expressão no cenário internacional.115
Ainda, segundo a autora, outra característica do refúgio vem a ser o fato de ele, e consequentemente os refugiados, ser um tema amplamente estudado nos países desenvolvidos e pouco discutido em países em desenvolvimento ou de menor desenvolvimento relativo. Tal situação é digna de nota, pois são esses últimos os mais abertos para a acolhida aos refugiados e ao mesmo tempo os que mais geram refugiados, enquanto aqueles se mostram cada vez mais favoráveis a limitar o número de refugiados que recebem.116
112 STEINBOCK, D.J. Interpreting the Refugee Definition. UCLA Law Review, 45. 1998. p. 733-816.
113 JACKSON, I. The 1951 Convention Relating to the Status of Refugees: A universal basis for protection. International Journal of Refugee Law, v. 3, n. 3, p. 403-413, 1991. Disponível em:
<https://academic.oup.com/ijrl/article-abstract/3/3/403/1549365?redirectedFrom=PDF>. Acesso em: 28 março 2018.
114 FERNANDES, C. A. apud CAHALI, Y. S. Estatuto do estrangeiro. São Paulo: Saraiva, 1983. p. 147.
115 JUBILUT, Liliana Lyra. O direito internacional dos refugiados e a sua aplicação no ordenamento jurídico brasileiro. São Paulo: Método, 2007. p. 31.
116 JUBILUT, Liliana Lyra. O direito internacional dos refugiados e a sua aplicação no ordenamento jurídico brasileiro. São Paulo: Método, 2007. p. 32.
A diminuição do crescimento econômico nos Estados ricos é apontada como o motivo principal para a restrição desses em receber novos refugiados, uma vez que, ao entrarem no Estado de acolhida e serem reconhecidos como refugiados, se assemelham a migrantes criando uma nova força de pressão em suas economias. Existem, obviamente, exceções como, por exemplo, o Canadá, que é um Estado engajado na causa dos refugiados.
Atualmente os Estados que mais acolhem refugiados são o Paquistão, o Irã e a Alemanha.117
Partindo para o termo migrante, o ACNUR afirma que uma definição legal uniforme para tal termo não existe em nível internacional. Alguns formuladores de políticas, organizações internacionais e meios de comunicação compreendem e utilizam o termo “migrante” como um termo generalista que abarca migrantes e refugiados. Por exemplo, estatísticas globais em migrações internacionais normalmente utilizam uma definição de “migração internacional” que inclui os movimentos de solicitantes de refúgio e de refugiados.118
Para Bakewell, migração é a contínua interação de grupos e instituições humanas, observados por meio de seus efeitos na vida social, política, cultural etc; devendo-se levar em consideração os diferentes aspectos do processo de migração, como condições estruturais no local de origem, tomada de decisões (quando e para onde ir), viagens (rotas) e integração no país de acolhimento. Nesse sentido, o autor esclarece que as justificativas para a migração se referem às causas imediatas, que podem ser diferenciadas entre a migração pela economia (migração do trabalho), migração social (migração de aposentadoria, reagrupamento familiar), migração de capital humano (migração de estudante) ou migração por motivos políticos (requerentes de asilo, refugiados).119
Para Castles, “as definições de migração põem em relevo o fato de se tratarem de resultados de políticas estatais, visando objetivos políticos e econômicos, em
117 UNITED NATIONS HIGH COMMISSIONER FOR REFUGEES. Global Refugees Trends. Disponível em:
<http://www.unhcr.org/statistics/STATISTICS/4486ceb12.pdf>. Acesso em: 28 fevereiro 2018.
118 ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA OS REFUGIADOS. Refugiados” e “Migrantes”:
Perguntas Frequentes. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/noticias/noticia/refugiados-e-migrantes- perguntas-frequentes/>. Acesso em: 28 fev. 2018.
119 BAKEWELL, Oliver. Conceptualising displacement and migration: Processes, conditions, and categories. In:
KOSER, K.; MARTIN, S. (eds.). The Migration-Displacement Nexus: Patterns, Processes, and Policies. Oxford: Berghahn Books, 2011. p. 19.
respostas as reações públicas”. Por isso, os Estados tendem a adotar categorias para diferenciar as migrações internacionais.120
Nesse sentido, Jubilut, diferencia migrações voluntárias de migrações forçadas; sendo a primeira aplicada às pessoas e aos seus membros familiares, que se mudam para outro país em busca de melhores condições sociais e materiais de vida para si e seus familiares e em que a decisão de migrar é tomada livremente pelo indivíduo, por razões de conveniência pessoal e sem a intervenção de um fator externo. Já as forçadas, ocorrem quando o elemento volitivo do deslocamento é inexistente ou minimizado e abrangem uma vasta gama de situações, geralmente de vulnerabilidade do migrante.121
Segundo o ACNUR, em discussões públicas, no entanto, essa prática pode facilmente gerar confusão e pode também ter sérias consequências para a vida e segurança de refugiados.
“Migração” é comumente compreendida implicando um processo voluntário; por exemplo, alguém que cruza uma fronteira em busca de melhores oportunidades econômicas. Este não é o caso de refugiados, que não podem retornar às suas casas em segurança e, consequentemente, têm direito a proteções específicas no escopo do direito internacional. Desfocar os termos “refugiados” e “migrantes” tira atenção da proteção legal específica que os refugiados necessitam, como proteção contra o refoulement e contra ser penalizado por cruzar fronteiras para buscar segurança sem autorização. Não há nada ilegal em procurar refúgio – pelo contrário, é um direito humano universal. Portanto, misturar os conceitos de “refugiados” e “migrantes” pode enfraquecer o apoio a refugiados e ao refúgio institucionalizado em um momento em que mais refugiados precisam de tal proteção.122
As razões pelas quais um migrante pode deixar seu país são muitas vezes convincentes, e encontrar meios de atender suas necessidades e proteger seus direitos humanos é importante. Migrantes são protegidos pela lei internacional dos direitos humanos. Essa proteção deriva de sua dignidade fundamental enquanto seres humanos. Certas vezes, o fracasso em conceder-lhes proteção dos direitos humanos pode ter consequências sérias. Isso pode resultar em violações de direitos humanos, como sérias discriminações; prisão arbitrária ou detenção; ou trabalho forçado, servidão, ou condições de trabalho altamente exploratórias.
120 CASTLES, Stephen. Globalização, transnacionalismo e novos fluxos migratórios: dostrabalhadores
convidados às migrações globais. Lisboa: Fim de Século, 2005. p. 17.
121 JUBILUT, Liliana Lyra; APOLINÁRIO, Silvia Menicucci de Oliveira Selmi. A necessidade de proteção
internacional no âmbito da migração. Revista Direito GV, São Paulo, n. 6, p. 275-294, jan./jun. 2010.
122 ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA OS REFUGIADOS. “Refugiados” e “Migrantes”:
Perguntas Frequentes. 22 mar. 2016. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/noticias/noticia/ refugiados-e-migrantes-perguntas-frequentes/>. Acesso em: 28 fev. 2018.
Ainda, alguns migrantes, como vítimas de tráfico ou menores separados ou desacompanhados, podem ter necessidades particulares de proteção e assistência, e têm o direito de ter essas necessidades atendidas. O ACNUR apoia plenamente abordagens para a gestão de migrações que respeitem os direitos humanos de todas as pessoas em deslocamento.
Outro termo a ser estudado é “migração forçada”, que por vezes é utilizado por sociólogos e outros indivíduos como um termo generalista e aberto que cobre diversos tipos de deslocamentos ou movimentos involuntários – tanto os que cruzam fronteiras internacionais quanto os que se deslocam dentro do mesmo país.
Por exemplo, o termo tem sido utilizado para se referir às pessoas que têm sido deslocadas em decorrência de desastres ambientais, conflitos, fome, razões econômicas imperiosas, pobreza, violação de direitos, ou projetos de desenvolvimento em larga escala. Não resta dúvida, nestas circunstâncias, que se configura a condição do migrante forçado, ainda que não se verifiquem os elementos conceituais do refúgio, nem sejam acolhidos estes migrantes ao amparo dos instrumentos internacionais sob os quais se abriga o refugiado.
Segundo o ACNUR, “Migração forçada” não é um conceito legal, e similar ao conceito de “migração”, não existe uma definição universalmente aceita. Ele abarca uma ampla gama de fenômenos. Refugiados, por outro lado, são claramente definidos pelo direito internacional e regional dos refugiados, e os Estados concordaram com um específico e bem definido conjunto de obrigações legais em relação a eles. Referir-se a refugiados como “migrantes forçados” tira atenção das necessidades específicas dos refugiados e das obrigações legais que a comunidade internacional concordou em direcionar a eles. Para evitar confusão, o ACNUR evita o uso do termo “migração forçada” ao se referir aos movimentos de refugiados e outras formas de deslocamento.123
Ainda sobre a diferença entre migração forçada e voluntária, Koppenberg, destaca que, à primeira vista, a distinção entre migração voluntária e forçada parece ser clara, desenhando uma linha entre a decisão voluntária de uma pessoa migrar por vários motivos e outra pessoa que está sendo forçada a migrar em virtude de sua segurança pessoal e motivada por diferentes tipos de força. Esta diferença é especialmente notada
123 ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA OS REFUGIADOS. “Refugiados” e “Migrantes”:
Perguntas Frequentes. 22 mar. 2016. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/noticias/noticia/ refugiados-e-migrantes-perguntas-frequentes/>. Acesso em: 28 fev. 2018.
entre aqueles que estão à procura de emprego ou oportunidades educacionais e aqueles que estão fugindo de perseguição e da violência.124
Os refugiados ambientais, se movem devido a degradação ambiental não estão definidos nem protegidos em leis internacionais, podendo ser reconhecidos como uma nova categoria, os chamados “refugiados ambientais”.
Para Myers, em 1995, já se via uma crescente no sentido da necessidade do reconhecimento desse fenômeno como uma questão de segurança:
[...] a questão dos refugiados ambientais promete estar entre uma das maiores crises da humanidade dos nossos tempos. Até o momento, no entanto, ela tem sido vista como uma preocupação periférica, uma espécie de aberração da ordem normal das coisas - mesmo que seja uma manifestação externa de profunda privação e desespero. Enquanto deriva principalmente de problemas ambientais, gera inúmeros problemas de tipo político, econômico e social. Como tal, ele poderia facilmente se tornar uma causa de tumulto e confronto, levando a conflitos e violência. No entanto, como o problema se torna ainda mais premente, as nossas respostas políticas de curto-prazo são insuficientes para o tamanho do desafio. Para repetir um ponto-chave: refugiados ambientais ainda têm de ser oficialmente reconhecidos como um problema de todos.125
Para o PNUMA (Programa das Nações Unidas e Meio Ambiente) o termo refugiado ambiental pode ser definido da seguinte maneira: “refugiados ambientais são pessoas que foram obrigadas a abandonar temporária ou definitivamente a zona tradicional onde vivem, devido ao visível declínio do ambiente (por razões naturais ou humanas) perturbando a sua existência e/ou a qualidade da mesma de tal maneira que a subsistência dessas pessoas entra em perigo.”126
Essam El-Hinnawi, em relatório para o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), alertou para o crescente número de migrantes motivados por catástrofes ambientais. Ele chamou de refugiados ambientais essa categoria de migrantes, definindo-os como “aquelas pessoas que foram forçadas a deixar seu habitat
124 KOPPENBERG, Saskia. Where Do Forced Migrants Stand in the Migration and Development Debate. Oxford Monitor of Forced Migration, v. 2, n.1, 2012. p. 77-90.
125 “All in all, the issue of environmental refugees promises to rank as one of the foremost human crises of our times.
So far, however, it has been viewed as a peripheral concern, a kind of aberration from the normal order of things — even though it is an outward manifestation of profound deprivation and despair. Although it derives primarily from environmental problems, it generates problems of political, social and economic sorts. As such, it could readily become a cause of turmoil and confrontation, leading to conflict and violence. Yet as the problem becomes more pressing, our policy responses fall further short of measuring up to the challenge. To repeat a key point: environmental refugees have still to be officially recognized as a problem at all.” 13TH OSCE ECONOMIC FORUM, SESSION III. Environment and Migration. Prague: 23-27 May 2005. MYERS, Norman. Environmental refugees: a growing phenomenon of the 21st century. Disponível em: <https://nicholas.duke.edu/people/faculty/myers/myers2001.pdf>. Acesso em: 11 jan. 2016.
126 UNITED NATIONS ENVIROMENT PROGRAMME. Climate Change Refugees: A catastrophe of our own
creation. Disponível em: <https://www.unenvironment.org/news-and-stories/story/climate-change-refugees- catastrophe-our-own-creation>. Acesso em: 3 março 2018.
natural, temporária ou permanentemente, em razão de uma determinada ruptura ambiental (natural ou ocasionada pelo homem), que ameaçou sua existência ou seriamente afetou sua qualidade de vida”.127
A expressão refugiados ambientais já havia sido cunhada por Lester na década de 1970, quando o autor alertava para o crescente número de migrantes advindos da desertificação, das enchentes, das tempestades intensas, da escassez de recursos hídricos e do excesso de poluentes no meio ambiente.128
Segundo ele, no futuro, os migrantes motivados pelo aumento no nível dos oceanos, deveriam dominar o fluxo de refugiados ambientais no mundo, como no caso dos pequenos Estados insulares de baixa topografia e das regiões costeiras degradadas que concentram grande densidade populacional.129
Segal afirma que os refugiados ambientais refletem a profunda destruição do planeta; esses refugiados, ela aponta, não são vítimas de perseguição política, religiosa, racial, de nacionalidade ou de pertencimento a um grupo social: eles são vítimas de mudanças causadas no meio ambiente e, por não conseguirem sustentar-se em locais ambientalmente degradados, eventualmente têm que migrar internamente ao seu país ou para o exterior.130
Myers, de uma forma mais ampla, define refugiado ambiental como sendo:
Pessoas que já não conseguem ter uma vida segura em seus países em razão de seca, erosão do solo, desertificação, desflorestamento e outros problemas ambientais associados à pressão populacional e extrema pobreza. Em seu desespero, essas pessoas não encontram alternativa que não buscar refúgio em outro lugar, mesmo que a tentativa seja perigosa. Nem todos deixam seus países; muitos se deslocam internamente. Mas todos abandonam suas casas temporária ou permanentemente, com pouca esperança de retorno.131
O que há de comum entre estes e tantos outros autores e organizações, mesmo que discordem da nomenclatura aqui utilizada é que todos indicam que causas ambientais podem motivar a migração involuntária (ou forçada) de seres humanos para outros locais que não aquele de sua morada habitual.
Os refugiados ambientais podem ser classificados em três grupos distintos:
127 EL-HINNAWI, Essam. Environmental Refugees. Nairobi: UNEP, 1985. p. 04.
128 BROWN, Lester. Plan 4.0 B: mobilizing to save civilization. New York: Norton & Company, 2009.
129 BROWN, Lester. World on the Edge: how to prevent environmental and economic collapse. New York: Norton
& Company; Earth Policy Institute, 2011.
130 SEGAL, Heather. Environmental Refugees: a new world catastrophe. In: CARON, David D. Les aspects internationaux des catastrophes naturelles et industrielles. The Hague: Nijhoff, 2001.
131 MYERS, Norman. Environmental Refugees: an emergent security issue. 13th OSCE Economic Forum, Prague,
(i) refugiados ambientais lato sensu, correspondente a todo e qualquer migrante influenciado não exclusiva, mas majoritariamente por alterações ambientais de vulto (EL-HINNAWI, 1985); (ii) refugiados do clima, para aqueles migrantes forçados exclusivamente em decorrência da mudança e variabilidade climática abruptas (COLLECTIF ARGOS, 2010); e (iii) refugiados da conservação, relativo àquelas pessoas que foram forçadas a