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CAPÍTULO I: Regalia ou das maneiras de apertar a corda sem deixar que

2. Regalias e tons locais

Fazer leis, cunhar moedas, impor tributos eram regalias que, como foi dito, cabiam apenas ao rei. Para a realização de um bom governo, o monarca deveria lançar mão de seus privilégios associando-os às virtudes régias, tais como a liberdade, a justiça e a prudência. Essa última, tida como ato de “impedir um dano, [mais do] que em o reparar”, estava dividida em três categorias: monástica, econômica e política. A prudência monástica deveria incidir sobre o bem do indivíduo, a econômica ao bem da família, já a prudência política tinha “por objeto o bem público por meio da observância das leis humanas e divinas”.93

De acordo com Rafael Bluteau, a imagem de uma mulher sentada em uma pedra, com os olhos vendados ou não, com o semblante severo, segurando uma balança em uma das mãos e, na outra, uma espada ou um molho de varas com um machado, foi uma das simbologias com que a justiça se fez representar no Antigo Regime. A um rei justo tocava “dar a cada um o que é seu, prêmio e honra ao bom e pena e castigo ao mau”.94 Isto é, cabia a ele aferir e repartir, com igualdade, a culpa e os serviços (justiça

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FURTADO, Júnia Ferreira. Diálogos oceânicos: Minas Gerais e as novas abordagens para o império marítimo português no século XVIII, p.107-108. In: O governo dos povos.

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BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino, v.6, p.811-812.

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distributiva) e arbitrar, com retidão, sobre os diversos tipos de contrato (justiça comutativa).95

A liberdade régia, por sua vez, era entendida “como o gesto de dar” ou conceder mercês. O rei deveria distribuir recursos para manter servidores. “Quanto mais fossem estes últimos, e mais ricos, maiores poderiam ser os domínios e os meios do príncipe”.96 Sobre essa virtude régia, Fernanda Olival adverte que “não era assim espontânea; devia obedecer a preceitos para ser adequada e politicamente geradora do amor dos vassalos, de coesão – um de seus objectivos centrais”.97

Na prática, como evidenciou a autora, o dar ou fazer mercê a alguém, em Portugal, no período que antecede a Restauração, possuía dois sentidos distintos. A mercê podia ser obtida por “via da graça”, sem intenção remuneratória ou por “via de justiça”, que “decorriam de situações geradoras de débitos”. No decorrer da segunda metade do século XVII e no XVIII, esses dois sentidos, paulatinamente, se fundiram. Com isso, a designação mercê passou a apresentar um caráter muito mais abrangente, abarcando “não apenas a graça (doações por mera liberdade, dispensa das leis, perdão, comutar as penas), quanto dádivas a troco de serviços”.98

Dessa fusão, surgiram várias consequências, sendo duas delas mais evidentes e complementares entre si. A primeira foi que os serviços, além de honoríficos, pois eram uma recompensa real, se converteram em “uma forma de investimento, ou seja, um capital susceptível a ser convertido em doações da Coroa, num tempo posterior”.99 A segunda, foi que esse “direito [à] remuneração” poderia “representar uma forma de limitar o poder do rei”,100 que passaria a ter a obrigação de remunerar os serviços recebidos.

A transposição dessa prática lusa de concessão de mercês, conhecida igualmente como “economia das mercês”101 ou “economia política de privilégios”,102 para a

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OLIVAL, Fernanda. Um rei e um reino que viviam da mercê, p.20.

96 OLIVAL, Fernanda. Um rei e um reino que viviam da mercê, p.17.

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OLIVAL, Fernanda. Um rei e um reino que viviam da mercê, p.22.

98

OLIVAL, Fernanda. Um rei e um reino que viviam da mercê, p.22.!

99

OLIVAL, Fernanda. Um rei e um reino que viviam da mercê, p.23.

100

OLIVAL, Fernanda. Um rei e um reino que viviam da mercê, p.23-25.

101

OLIVAL, Fernanda. Um rei e um reino que viviam da mercê, p.18.

102

FRAGOSO, João; BICALHO Maria Fernanda Baptista; e GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. Uma leitura do Brasil colonial. Bases da materialidade e da governabilidade no império. Penélope, Lisboa, n.23, p.67-88, 2000, p.67-79.

sociedade colonial, adquiriu tons locais. Um bom exemplo são as relações estabelecidas entre a Coroa portuguesa e os paulistas, na região das Minas, no final do século XVII e início do XVIII. Como apontou Adriana Romeiro, essas relações se aproximavam mais da noção contratualista encetada entre partes iguais e, em quase nada, lembravam as relações assimétricas que existiam em Portugal.103 A atitude dos paulistas de se comportarem mais como aliados do que como vassalos, pois esses últimos deveriam se comprometer a obedecer ao rei como pai, “engastava-se num imaginário político muito peculiar, incompreendido pelos contemporâneos”.104 Ou seja, na região das Minas, “as contradições inerentes à economia do dom se aguçavam e o colono afirmava suas particularidades”.105

Nesse sentido, o fragmento da proibição expedida por dom João IV, que abriu este capítulo, é significativo para a compreensão de como se caracterizou a política régia em relação à produção e comercialização das aguardentes derivadas das cana-de-açúcar, produzida nos engenhos espalhados pela América portuguesa após a Restauração. Essa proibição e aversão à bebida adentrou o período em que as Minas do ouro começavam a ser abertas, mas, aí, a política régia sofrerá algumas inflexões.

Em 1647, o rei ordenou ao governador do Brasil, Antônio Telles da Silva que, “com as penas que lhe parecesse fizesse extinguir de todo, na Bahia e em seu Recôncavo, a bebida de vinho de mel, aguardente e cachaça, que se havia introduzido em grande prejuízo de minha fazenda”. Dois anos depois, o monarca, informado de que nessa “execução se tem procedido com grande omissão e descuido”, reeditou a ordem. A partir desse momento, a proibição se expandiu para “todo o Estado do Brasil”. A única exceção foi o fato de “que esta proibição se não estendem [sic] por hora em Pernambuco”.106

O desfecho dessa regalia, de dom João IV, resultou no capítulo da história do Brasil que ficou conhecido como a Revolta da Cachaça.107 Nessa ocasião, em Portugal, os

103

C.F. XAVIER, Ângela Barreto e HESPANHA, Antônio Manuel. Redes Clientelares, p.342.

104 ROMEIRO, Adriana. Paulistas e emboabas no coração das minas, p.238.

105

FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio, p.86.

106

PROVISÃO Régia pela qual se proibiu o uso de vinho de mel, da aguardente de açúcar e cachaça em todo o Estado do Brasil, com exceção da capitania de Pernambuco. Anais da Biblioteca Nacional, São Paulo, v. XXXIX, p.79, 1917. Sobre esta provisão ver: ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos

viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul século XVI e XVII. São Paulo Companhia das Letras, 2000,

p.315-316.

107

Sobre a Revolta da Cachaça ver: ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes, p.316-322; BOXER, Charles R. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686. São Paulo: Editora Nacional/

“grupos ligados ao comércio na América portuguesa sentiam [os efeitos d]as invasões holandesas na Bahia e em Pernambuco”; as colônias ultramarinas na Índias, África e América eram “atacadas por ingleses, franceses e holandeses”, em virtude da Guerra de Trinta anos (1618-1648); e, no âmbito interno, o país ainda se esgotava em batalhas contra a Espanha, para ter sua independência reconhecida.108 Foi esse contexto nevrálgico da Restauração portuguesa que serviu como pano de fundo para legitimar a prudência política do monarca, com a criação da Companhia Geral do Comércio em 08 de março de 1649 e, simultaneamente, fez com que a reedição da lei de 1647 pudesse ser vista como demonstração de zelo do monarca.

Contudo, no além mar, como bem demonstraram Luciano Raposo de Almeida Figueiredo e Antônio Filipe Pereira Caetano, essa virtude régia de preservar os ganhos provenientes da distribuição do vinho pela Companhia e, consequentemente, aumentar a arrecadação da Fazenda Real teve um significado diverso. Ela serviu como combustível para indispor os grupos econômicos locais da cidade do Rio de Janeiro, o que acabou por resultar em cinco meses de levante entre novembro de 1660 e abril de 1661. Não se pode deixar de destacar com o intuito de compreender essa reação, que nesse contexto a capitania do Rio de Janeiro era umas das principais regiões produtoras de aguardente de cana e desempenhava importante papel no comércio do Atlântico Sul.109

Com relação a levantes provocados pelas regalias que incidiam sobre a aguardente, no caso da capitania de Minas Gerais, tem-se notícia de que explodiu, na Vila de Pitangui, em janeiro de 1720, um levante contra “o brigadeiro João Lobo de Macedo, que “quis por em estanco, ou em contrato o comércio da aguardente de cana”.

“O povo em motim” expulsou o brigadeiro, “sob pena de ser morto”. O governador, o conde de Assumar, sabendo do acontecido, agiu rapidamente e enviou para a região o tenente José Morais de Cabral, então no cargo de ouvidor da comarca do Rio Universidade de São Paulo, 1973; FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Revoltas, fiscalidade e

identidade colonial na América portuguesa: Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais, 1640-1761, v.1. São

Paulo: USP, 1996. (História, Tese de doutorado); e CAETANO, Antônio Filipe Pereira. Entre a sombra e o

sol: a Revolta da Cachaça, a freguesia de são Gonçalo de Amarante e a crise política fluminense (Rio de

Janeiro, 1640-1667). Niterói, UFF, 2003. (História, dissertação de Mestrado) 108

MONTEIRO, Rodrigo Bentes. In: O rei no espelho, especialmente o capítulo 2, Contra a tirania, p.73-

106.

109

C.F. ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes; CURTO, José C. Álcool e escravos; e SCHWARTZ, Stuart B. Segredos Internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo Companhia das Letras, 1988.

das Velhas, acompanhado da Companhia Soldados Dragões e de mais quinhentos homens auxiliares armados e municiados. “Depois de rijo combate, em que a mortandade cresceu de lado a lado, os rebeldes cederam ao número, e se retiraram vencidos [...] para o sul do rio Pará, aonde se fortificaram no lugar da capela, hoje arraial da Conceição”. Posteriormente a uma rigorosa devassa, o ouvidor anunciou que o principal cabeça do motim era o paulista Domingos Rodrigues Prado, “pelo que mandou levantar no lugar mais público uma forca, e nela fez executar em esfinge o dito rebelde”. Esse, desafiador, que por sua vez se encontrava no arraial da Conceição, também lá levantou uma forca e nela fez executar uma esfinge do ouvidor, isto tudo “no meio de estrondosas gargalhadas dos companheiros”.110

Percebe-se que, de forma semelhante ao que ocorreu no Rio de Janeiro, na região das Minas a aguardente foi alvo de intervenções metropolitanas. Contudo, o Levante de Pitangui, distanciou-se bastante da Revolta da Cachaça carioca. A começar pela proporção. Por um lado, no que diz respeito ao levante mineiro, embora a versão hegemônica possa ter superinflacionado o número dos combatentes – a “Companhia Soldados Dragões”, e mais “500 homens auxiliares armados e municiados” –, e exagerado na “mortandade [que] cresceu de lado a lado”, ao que parece, entre o envio das forças repressoras e o enforcamento das esfinges, não se passou mais que algumas semanas. Por outro lado, a revolta carioca, como aludiu Antônio Filipe, se fez sentir por quase duas décadas, da deposição temporária do governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá e Benavides, ocorrida em 1743, até o momento do seu afastamento definitivo do governo da capitania do Rio de Janeiro, em abril de 1761.111

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VASCONCELOS, Diogo de. História antiga das Minas Gerais. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial, 1948, v.2. p.256-258. C.F. com RACIOPPI, Vicente. Algumas efemérides da capitania de Minas Gerais. Belo Horizonte, Revista do Instituto Histórico de Minas Gerais (RIHMG), n.14, f.262, 1970; e Julgado do Jacuí. In: Belo Horizonte, Revista do Arquivo Público Mineiros (RAPM), ano 2, fascículo 3º, p.476-477, 1737.

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Salvador Correia de Sá e Benavides teve três passagens à frente do governo da capitania do Rio Janeiro. Sua primeira passagem como governador e capitão-mor iniciou em 1637 em substituição a Rodrigo de Miranda e durou até 1642, quando teve que deixar o cargo para se defender das acusações de: sequestro de navio, desvio de bens e impostos régios, uso inadequado dos recursos da coroa, nepotismo, criação de impostos sem a autorização régia e utilização de material de péssima qualidade nas construções da capitania. Assumiu novamente o governo em 1648 e, logo em seguida, partiu para guerra de reconquista de Angola aos holandeses onde se tornou uma figura central. Depois disso, voltou tomar posse do governo fluminense em 1659, mas devido ao fim trágico que ele efetivou na Revolta da Cachaça com o enforcamento em praça pública de Jerônimo Barbalho de Azevedo e a prisão de Lucas da Silva, Jorge Ferreira Bulhão e Diogo Lobo Pereira, a rainha-regente dona Luísa de Gusmão o depôs e o substituiu em

Em comum, os dois levantes tiveram como estopim o estabelecimento de um contrato que limitaria a oferta de aguardente da terra. O carioca fora assinado diretamente pelo monarca, enquanto o das Minas, pela câmara local. No desfecho da Revolta da Cachaça, o peso do poder repressivo do rei, o sol na metáfora do padre Vieira,112 se fez sentir de maneira mais direta, do que no Levante de Pitangui, onde, a sombra do sol, o governador dom Pedro de Almeida, foi o agente fundamental para sossegar os povos.

Todavia, esses episódios de violência contrapondo os súditos à política régia sobre a aguardente só servem para delinear, em linhas gerais, as intervenções metropolitanas na colônia. Para uma reflexão sobre regalias pertinentes às aguardentes, na capitania de Minas, ainda é necessário levar em consideração as peculiaridades da região no interior do mundo colonial português. Para isso é importante analisar alguns dos elementos que constituíram experiências concretas para aqueles homens. A legislação, a administração da fazenda e as funções sociais relacionadas à aguardente são alguns desses elementos. A partir de agora, é nessa direção que este trabalho procura seguir.