III. CASAMENTO
3.6 REGIME DE BENS
Como decorrência natural da comunhão de vida entre marido e mulher, surge também uma comunhão de interesses econômicos, tais como propriedade dos bens, administração patrimonial, gozo e disponibilidade dos direitos patrimoniais e a responsabilidade por dívidas. Não há, portanto, casamento sem regime de bens.
De acordo com Orlando Gomes o regime matrimonial é o conjunto de regras aplicáveis a sociedade conjugal considerada sob o aspecto dos seus interesses patrimoniais. Em síntese, o estatuto patrimonial dos cônjuges. Esse estatuto compreende as relações patrimoniais entre os cônjuges e entre a sociedade conjugal e terceiros.78
Como lembram Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, o regime de bens não contempla todas as relações econômicas oriundas do matrimônio, portanto, trata-se de “um estatuto econômico-base ou um estatuto mínimo das relações patrimoniais que decorrem do casamento, ressalvados determinados efeitos econômicos.” Citam a título ilustrativo das ressalvas a obrigação alimentícia, o usufruto e a administração de bens de filhos menores e a sucessão hereditária.79
Submetem-se essas relações econômicas a três princípios básicos: variedade de regimes; liberdade de estipulação por pacto antenupcial; mutabilidade motivada condicionada à chancela judicial.80
77 Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, Direito das Famílias, p. 194
78 Orlando Gomes, Direito de Família, p. 165.
79 Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, Famílias, p. 212
80 Art. 1.639 CC. É lícito aos nubentes, antes de celebrado o casamento, estipular, quanto aos seus bens, o que lhes aprouver.
§ 1o O regime de bens entre os cônjuges começa a vigorar desde a data do casamento.
O CC 2002 disponibiliza aos futuros cônjuges quatro regimes de bens:
comunhão universal, comunhão parcial, separação e comunhão de aquestos. Os aquestos são os bens adquiridos pelo casal, a título oneroso, na constância do casamento.
A escolha se dá por um pacto antenupcial, é livre e assentada na autonomia privada. Logo, podem ser misturadas disposições de espécies diversas, sempre respeitando a boa fé, mas não é permitido regular relações pessoais entre os cônjuges.
Trata-se de um negócio jurídico formal, e com a sua execução temporal bem definida: durante o procedimento de habilitação para o casamento.
Pode ser alterada, a teor do art. 1.639 § 2º CC, contudo, mediante processo judicial provocado por pedido motivado do casal.
A ausência do referido pacto, ou seja, o silêncio das partes enseja a incidência supletiva legal do regime de comunhão parcial, como expresso no art.
1640 CC.
Há casos, entretanto, que a lei obriga a aplicação do regime de separação de bens. Esses casos estão arrolados no art. 1.641 do CC: casamento de pessoa com causa suspensiva da celebração; casamento de maior de sessenta anos e casamento de pessoa mediante suprimento judicial. Disso resulta uma subdivisão do regime de separação de bens em separação obrigatória e separação convencional.
Na comunhão universal, os bens passados, presentes e futuros se comunicam. Há um único acervo patrimonial, o comum, esse absolutismo é mitigado por conta do art. 1.668 do CC. Em sentido diametralmente oposto, na separação, os bens passados, presentes e futuros não se comunicam, o que se evidencia são as relações de afeto. Há dois patrimônios: o do marido, e o da esposa. O que é comum ao casal, diz respeito à divisão das despesas com a manutenção da família. 81
Na comunhão parcial formam-se três patrimônios: um do marido, outro da esposa, e o terceiro comum. Comunicam-se os bens adquiridos, a título oneroso, na constância do casamento (art. 1.658 do CC). Compõem os patrimônios individuais os bens arrolados pelo art. 1.659 do CC, com destaque ao inciso I: os bens
§ 2o É admissível alteração do regime de bens, mediante autorização judicial em pedido motivado de ambos os cônjuges, apurada a procedência das razões invocadas e ressalvados os direitos de terceiros.
Art. 1.653 CC. É nulo o pacto antenupcial se não for feito por escritura pública, e ineficaz se não lhe seguir o casamento.
anteriores ao enlace, e os posteriores, na constância do casamento, por doação ou herança, e os sub-rogados em seu lugar. Importante informar que a boa prática aconselha quando da elaboração das minutas contratuais deixar expressa a condição de bem sub-rogado pela disposição de outro particular.82
A administração do patrimônio comum compete ao casal, em homenagem ao princípio constitucional da igualdade e por força dos artigos 1.663 e 1.670 do CC 2002, não apenas ao varão como apontava o CC 1916.
O regime de participação final nos aquestos configura uma combinação da separação convencional e da comunhão parcial dos bens. Como está claro no art.
1.672 do CC, durante a constância do casamento cada consorte possui patrimônio próprio, entretanto, quando da dissolução da sociedade conjugal, surgem os aquestos que serão divididos ao meio pelo casal.
É bom destacar que a jurisprudência, Súmula 377 do STF, considera comuns os bens adquiridos na constância do casamento sob a égide do regime de separação obrigatória.
Portanto, a comunhão dos aquestos, em qualquer regime de bens exceto a separação convencional, é automática, não exige prova. Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald delimitam bem a situação ao reconhecerem “uma presunção absoluta (juris et de jure) de colaboração conjunta pela aquisição onerosa de bens (decorrentes de compra e venda, por exemplo) na constância do casamento. Ou seja, presume-se que, durante a convivência, um esposo auxilia o outro na aquisição de bens, ainda que psicológica ou moralmente, não apenas economicamente.
Assim, todos os bens adquiridos durante o matrimônio são frutos de ajuda mútua, não comportando a alegação de falta de esforço comum.”83
Dessarte, quando da dissolução da sociedade conjugal, e em decorrência da existência de um acervo patrimonial comum, surgirá aos cônjuges o direito à
81 Luiz Edson Fachin, Direito de Família ..., pp. 184-194.
82Art. 1.659. Excluem-se da comunhão:
I - os bens que cada cônjuge possuir ao casar, e os que lhe sobrevierem, na constância do casamento, por doação ou sucessão, e os sub-rogados em seu lugar;
II - os bens adquiridos com valores exclusivamente pertencentes a um dos cônjuges em sub-rogação dos bens particulares;
III - as obrigações anteriores ao casamento;
IV - as obrigações provenientes de atos ilícitos, salvo reversão em proveito do casal;
V - os bens de uso pessoal, os livros e instrumentos de profissão;
VI - os proventos do trabalho pessoal de cada cônjuge;
VII - as pensões, meios-soldos, montepios e outras rendas semelhantes.
83 Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, Direito das Famílias, p. 257.
meação, este assegurado pelos artigos 1.658, 1.667, 1.671, 1.672 do CC e pela Súmula 377 do STF. Por óbvio, não surge no regime de separação convencional.
De tudo o exposto quanto ao casamento, observa-se que sua formalidade é fator importante como meio probatório. No outro sentido, esse formalismo é prejudicial quando da dissolução do matrimônio, acarretando em várias separações de fato como será visto no capítulo seguinte.
IV. SEPARAÇÃO E DIVÓRCIO