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Regime de Previdência Complementar ou Previdência Privada

3.4 REGIMES PREVIDENCIÁRIOS BRASILEIROS

3.4.3 Regime de Previdência Complementar ou Previdência Privada

Conforme já demonstrado, existem três tipos de regimes previdenciários, dois deles são de filiação obrigatória, são eles: o Regime Geral de Previdência Social (RGPS) e os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS). Em contrapartida, tem-se o regime de Previdência Complementar, de caráter facultativo.

“A previdência privada compõe o terceiro pilar da previdência e tem como finalidade precípua a instituição de planos de benefícios que visem à complementação dos benefícios previdenciários do regime geral.” (HORVATH JÚNIOR, 2020, p. 220).

O art. 202 da Constituição Federal de 1988, enuncia que “o regime de previdência privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de Previdência Social, será facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o benefício contratado, e regulado por lei complementar.” Ainda, os parágrafos 14 a 16 do art. 40 da CRFB/88, discorrem sobre a Previdência Complementar Pública. (BRASIL, CRFB, 2021).

Além da previsão constitucional, as Leis Complementares n. 108 e 109, ambas de 29 de maio de 2001, também dispõem sobre o Regime de Previdência Complementar.

Acerca da Previdência Privada, Horvath Júnior (2011, p. 15) relata que “as características marcantes da previdência privada são: caráter facultativo, autonomia em relação ao regime geral, funcionamento calcado na constituição de reservas financeiras e caráter contratual privado.”

Nesse sentido, conferir à Previdência Complementar caráter facultativo, significa dizer que:

Ao contrário dos regimes públicos, de filiação obrigatória para todos os que exercem atividade econômica, a previdência privada tem caráter facultativo, em que a manifestação de vontade é a principal característica. A natureza contratual lhes dá caráter eminentemente privado. (SANTOS, 2021, p. 311).

Portanto, na Previdência Privada não existe obrigatoriedade em aderir ao regime, o que por sua vez, revela seu caráter contratual e voluntário.

A autonomia da Previdência Privada em relação ao Regime Geral de Previdência Social (RGPS) se justifica da seguinte forma:

A inscrição de participante em plano de previdência complementar não o dispensa da inscrição como segurado obrigatório do RGPS. A concessão de benefício pela previdência complementar não depende da concessão de benefício pelo RGPS.1 Não existe relação entre os valores pagos por cada um destes regimes, embora possa ser estabelecida contratualmente uma relação. (GOES, 2020, p. 571).

Na continuidade, prega-se que, para que haja o devido funcionamento da Previdência Privada deverão ser constituídas reservas financeiras. A autora Marisa Ferreira dos Santos (2021, p. 312) completa o raciocínio exposto, ao observar:

Os planos privados de previdência devem constituir reservas técnicas que lhes garantam a solvência, isto é, o pagamento dos benefícios contratados. O equilíbrio financeiro e atuarial deve estar garantido. A constituição dessas reservas técnicas, provisões e fundos é feita em conformidade com as diretrizes do Conselho Monetário Nacional.

Também é relevante destacar que as entidades de previdência complementar podem ser classificadas em abertas ou fechadas, conforme definido no art. 4º da Lei Complementar n. 109, de 29 de maio de 2001. “Entendem-se por entidades de previdência privada as ‘que têm por objetivo principal instituir e executar planos de benefícios de caráter previdenciário’ (art. 2º).” (LAZZARI; CASTRO, 2021, p. 100).

Quanto as entidades de previdência complementar abertas, Castro e Lazzari (2020, p. 84) esclarecem:

São instituições financeiras que exploram economicamente o ramo de infortúnios do trabalho, cujo objetivo é a instituição e operação de planos de benefícios de caráter previdenciário em forma de renda continuada ou pagamento único, constituídas unicamente sob a forma de sociedades anônimas, podendo as seguradoras que atuem exclusivamente no ramo de seguro de vida virem a ser autorizadas a operar também planos de previdência complementar (Lei Complementar n. 109, art. 36 e seu parágrafo único).

Por outro lado, os Regimes de Previdência Complementar Fechados dependem de certas condições para que possam ocorrer. Ribeiro (2020, p. 102), destaca uma das hipóteses de cenário onde costuma existir a formação e a oferta de adesão a um regime previdenciário complementar privado, a saber:

A previdência complementar fechada vale-se da identidade de grupos organizados, por meio do vínculo empregatício ou associativo, para tornar acessível aos empregados de empresa patrocinadora, ou a membros e associados de entidade classista ou setorial instituidora, planos de benefícios de caráter previdenciário. Os planos de benefícios, patrocinados ou instituídos, são administrados por Entidades Fechadas de Previdência Complementar, pessoas jurídicas de direito privado, sem finalidade lucrativa. A entidade é autorizada pelo Ministério da Previdência e Assistência Social e fiscalizada pela Secretaria de Previdência Complementar (SPC).

Como último ponto a abordar, têm-se a Previdência Privada dos Servidores Públicos, que se revelou através das alterações trazidas pela Emenda Constitucional n. 20/1998 no regime de previdência dos servidores públicos, e tem previsão nos parágrafos 14, 15 e 16 do art. 40 da Constituição Federal de 1988. “A EC n. 20/1998 previu a possibilidade da instituição do Regime Complementar (RPC) aos servidores públicos ocupantes de cargo efetivo, ressalvado o disposto no § 16, do art. 40, da CF/1988.” (HORVATH JÚNIOR, 2020, p. 212).

À vista disso, verifica-se a seguir, de forma simplificada, como ocorre o funcionamento da previdência complementar do servidor público:

A dinâmica da previdência complementar do servidor público será a seguinte: o servidor público que voluntariamente aderir ao plano de previdência complementar terá sua aposentadoria básica, a cargo do regime próprio (RPPS) a que estiver vinculado, limitada ao máximo do regime geral de previdência (RGPS) e o que estiver acima deste teto ficará sob a responsabilidade da entidade que administra o RPC, em valores não definidos. (HORVATH JÚNIOR, 2020, p. 185).

Após a presente abordagem, sobre os regimes de previdência complementar ou previdência privada no Brasil, conclui-se que o principal objetivo dos planos de previdência privada “é o de complementar ou suplementar os benefícios e serviços do Seguro Social Básico. Trata-se, consequentemente, de uma escolha individual exercida a partir das escalas de preferência dos segurados e sujeita às restrições de seu poder aquisitivo.” (OLIVEIRA et al, 2016, p. 2).

4 O BENEFÍCIO AUXÍLIO-RECLUSÃO

Desde a sua instituição, o auxílio-reclusão tornou-se alvo da desconfiança popular, e ainda nos dias de hoje, encontra barreiras para consolidar-se como benefício legítimo entre a população. Parte disso, deve-se as errôneas crenças que circulam sem pudor, entre usuários da internet e de redes sociais, que disseminam falsas informações sobre os critérios e objetivos do auxílio-reclusão, revelando assim o quão mal compreendido o benefício é.

No entanto, existem inúmeras circunstâncias importantes referentes ao benefício auxílio-reclusão, que não são destacadas, a exemplo: os requisitos de concessão específicos do benefício, quem poderá usufruir do auxílio, e inexistência de cunho assistencial ligado a este. No decorrer do trabalho, serão abordados estas e outras informações relevantes.

Cumpre ainda destacar antecipadamente que, eventualmente, a pessoa que foi reclusa poderia ser a provedora principal de seu lar, ou até mesmo a única provedora, e que sua reclusão poderia significar uma alteração drástica na organização financeira de todo núcleo familiar. Essa preocupação também foi externada por Ribeiro (2020, p. 294), ao declarar:

A falta de uma dessas remunerações enseja prejuízos inestimáveis, principalmente os de ordem alimentar. A prisão, mesmo que provisória, de um segurado, certamente implicará a suspensão ou o cancelamento de seu contrato de trabalho ou, se autônomo ou profissional liberal, na perda do valor recebido pela prestação do serviço. Visando proteger os dependentes do segurado recolhido ao cárcere privado, foi instituído o benefício denominado auxílio-reclusão.

A autora ainda completa que, o auxílio-reclusão “é um amparo, de caráter alimentar, destinado aos dependentes do segurado de baixa renda, que por algum motivo teve sua liberdade cerceada através dos limites da legislação nacional e que não se encontra beneficiado por aposentadoria ou auxílio-doença.” (RIBEIRO, 2020, p. 294).

O Instituto Nacional do Seguro Nacional – INSS (2020, p. 1) conceitua o auxílio-reclusão como “benefício devido apenas aos dependentes do segurado de baixa renda do INSSpreso em regime fechado, durante o período de reclusão ou detenção.”

Na mesma direção, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região, pondera a respeito da conceituação desse benefício previdenciário:

EMENTA PREVIDENCIÁRIO. AUXÍLIO-RECLUSÃO. REQUISITOS PREENCHIDOS. AUXÍLIO-RECLUSÃO.

Conforme a Lei nº 8.213/91, o Auxílio-Reclusão será devido nas mesmas condições da Pensão Por Morte, aos dependentes do segurado recolhido à prisão, desde que este não esteja: a) recebendo remuneração da empresa; b) em gozo de auxílio-doença e c) em gozo do benefício de aposentadoria ou de abono de permanência em serviço (art. 80); o referido benefício independe de carência (art. 26, inciso I); por fim, mantém-se a qualidade de segurado até doze meses após o livramento, o segurado retido ou recluso, independentemente de contribuições (art. 15). DEPENDENTES. A figura dos

cônjuges e filhos menores de 21 anos e ainda não emancipados integram o rol de dependentes descritos no art. 16, I, da Lei de Benefícios da Previdência Social, cuja dependência econômica com relação ao segurado é presumida. PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS. Preenchidos os requisitos com a demonstração do recolhimento do Segurado à prisão, da qualidade de Segurado e da Dependência Econômica do (a) Beneficiário (a), há de ser deferido o Benefício de Auxílio-Reclusão. JUROS DE MORA E CORREÇÃO MONETÁRIA. A Correção Monetária, em se tratando de Benefício Previdenciário, se dará pelo INPC e os Juros de Mora pela remuneração da Caderneta de Poupança, nos termos do Manual de Cálculos da Justiça Federal observando-se o que decido pelo Supremo Tribunal Federal, conforme precedente desta egrégia Primeira Turma e em atenção ao que foi decidido em julgamento ampliado da 1ª e 3ª Turmas do TRF 5ª Região. VERBA HONORÁRIA. SÚMULA 111-STJ. Verba Honorária fixada em 10% sobre o valor da Condenação observando os termos da Súmula nº 111-STJ Desprovimento da Apelação. (BRASIL, TRF-4, 2021a).

Desta forma superada a conceituação do benefício previdenciário intitulado auxílio-reclusão, serão analisados adiante, os demais aspetos do auxílio.