2. GALGANDO OS PASSOS DA IDENTIDADE DA
2.5 Regime de Visibilidade
A descontinuidade e a construção cultural que são impingidas ao corpo-
calçado pela marca Christian Louboutin, seja em termos biológicos (a
forma do pé), seja em termos sociológicos (características socioculturais e financeiras) fornece as bases para a construção da sua visibilidade. Landowski (2012) postula em Presenças do Outro, que independentemente da estratégia adotada para a conservação de uma
identidade de um grupo, o importante é a integridade do mesmo, ou seja, a manutenção da “pureza original”, nas palavras do autor, seja por uma ação centrípeta assimiladora, seja por uma fúria exclusiva”:
[...]as duas atitudes correspondem respectivamente, em profundidade, a cada uma das duas partes complementares de uma única e mesma operação: padronização e ingestão do “mesmo”, e correlativamente, triagem e eliminação do “outro”.
Ao estabelecer uma fronteira não geográfica, mas natural (anatômica) e social (sociocultural e financeira), entre o nós, o conjunto de eus
integrantes do grupo, e o outros, os demais eus ou grupos segregados que
não se encaixam na categoria anterior, o destinador-marca vai delineando, no conjunto de estratégias de manipulação e prescrição de uso derivados da configuração do corpo-calçado, os contornos de sua visibilidade no mundo. Pois, se até este momento da investigação, fomos apresentados a um corpo submisso e controlado em sua atuação, que possui certa instabilidade e tensão em seus movimentos, que é regulado por um gosto estético construído e culturalizado dentro de uma programação do agir e cujas formas sugerem um corpo-objeto a ser contemplado, ou seja, praticamente estático em seus modos de ser e estar no mundo, podemos assumir que se trata de um corpo que veste-se para o outro (o nós) no social, buscando seu reconhecimento e aprovação como partícipe de um dado grupo. Podemos também inferir que a marca Christian Louboutin vai estabelecendo, nas articulações dos sentidos, um diálogo que sincretiza a esfera do consumo e da sociabilidade, firmando junto à usuária um modo de presença, de identidade e de estilo de vida.
Oliveira (2007) pontua que os usos prescritivos da moda investem as usuárias de uma promessa de aceitação social. Aquilo que reveste o corpo, seja uma roupa ou um calçado, passa a funcionar como um traço identificador de seu pertencimento no mundo, uma vez que erige demarcações que são percebidas ou não pelo grupo de referência.
Tomando as observações obtidas até este momento da análise, nos baseamos nos postulados de Landowski (1992) acerca da visibilidade, a fim de esquematizarmos as relações que se apresentam. O primeiro ponto que o autor chama nossa atenção é que a busca pelas estruturas elementares se dá a partir da sintaxe do ver, que implica a presença de uma relação recíproca entre um que vê e um outro que é visto:
De um lado, todo “sujeito visto” é, se assim podemos dizer, logicamente responsável se não como pela maneira com que é percebido, ao menos pelo próprio fato de sê-lo. Com todo rigor, o simples fato de “existir” por acaso não equivale a colocar-se, na ordem da manifestação, como sujeito visível e, por extensão, a tornar-se seu próprio cenógrafo? (p. 89)
Dessa equação semiótica, temos, portanto, um sujeito modalizado por um querer que articula seu fazer harmonicamente com a visibilidade da marca, enunciando uma imagem de si com o objeto, ou seja, do corpo vestido com um sapato Louboutin. Marca e consumidor vão conferindo cor, forma e matéria à identidade que começa a se apresentar no social e no ato de consumo.
A partir dessa acepção, é crível admitir que na relação em ato do corpo-
calçado, é instaurada uma modalização pautada no querer ser visto, de
Os eleitos são aqueles que por meio de uma performance construída na programação do corpo-calçado, fazem parte do grupo cujo estatuto prevê a contemplação, a qual, como vimos anteriormente, está ligada à noção de cosmético proposta por Landowski, que pressupõe o gosto social de agradar ao outro, em que o consumo de um produto torna-se o meio para estabelecer uma relação entre o eu e aqueles que o circundam. O modo de apresentação do corpo-calçado no social é dotado de ares de espetacularização, em que um nós coletivo se apresenta publicamente, como o intérprete que se encontra no momento de sua representação no palco, para a plateia que o aguarda. O modo de presença desse corpo-
vitrine conforma o próprio estatuto identitário da consumidora.
Ainda no eixo dos contrários, na relação de contrariedade, localizamos os
excluídos, que em oposição aos eleitos, querem não ser vistos. Para eles,
o corpo-calçado é baseado em valores subjetais, pautados no sentir individual. A relação traçada é do eu privado e anônimo consigo mesmo, na sua intimidade. É um corpo que deseja sentir as sensações advindas da construção do corpo-calçado sem se importar com as imposições sociais, por isso sua percepção de excluído. É uma posição que se encontra vazia, uma vez que não pertence à marca.
No eixo dos subcontrários, os aspirantes referem-se aqueles que não
querem não ser vistos. Este grupo constitui o de nós individuais, que
anseiam ser admitidos no grupo dominante para que possam assumir sua posição de objetos contemplativos. Aqui, a marca/sapato integram o estatuto identitário da usuária. É um corpo que imita o outro, procurando destacar sua presença pelos elementos do sapato e do corpo-
calçado, pois busca fazer parte do pertencimento e do estatuto social ao
qual anseia. Para tal, armam-se dos efeitos de sentido ligados à sedução, sensualidade, feminilidade e erotização obtidos na reconfiguração do
corpo-calçado para se armar para a conquista de seu passaporte de
Por fim, o grupo dos segregados, é o que não quer ser visto. Estes corpos-
calçados constituem a massa de eus presentes na coletividade que são
considerados como os outros. Eles anseiam fazer parte do gosto cultural construído, mas ainda estão em processo de ajustamento, visto que não estão ainda competencializadas totalmente para entrar em conjunção com seu objeto de valor. Nesta fase de adequação do estatuto identitário, marca e usuário ou calçado e corpo estão se possuem ainda as competências indispensáveis para tal, por isso buscam o ajustamento necessário, seja a partir de uma readequação financeira ou natural, à semelhança das chinesas que optam por procedimentos estéticos para se adequar ao tamanho dos calçados Louboutin.
No decorrer desta investigação acerca da identidade e da visibilidade da marca francesa de sapatos femininos Christian Louboutin, nos deparamos com uma série de traços distintivos na composição dos mesmos, os quais, articulados em sua rede de sentidos, levaram à construção de um enunciado que evoca valores de pertencimento e distinção. A análise confirmou a hipótese inicial deste projeto de dissertação, que era a de que por meio dos sentidos sentidos na configuração do corpo-calçado, a identidade construída pela marca evoca um modo de ser e estar no mundo pautado no pertencimento social e na distinção do corpo, cuja postura reconfigurada objetal cosmética confere às usuárias sensações eufóricas de fruição das benesses de um seleto e importante grupo culturalmente dominante. Em suas estratégias manipulatórias, o enunciador seduz o enunciatário a querer fazer parte desta “confraria”, competencializando-o a realizar sua performance no social por meio dos calçados.
Nessa dinâmica de sensações, a marca Christian Louboutin vai sustentando, em caráter durativo – uma vez que falamos dos sentidos produzidos pelo corpo-calçado, em ato – seu enunciado, instaurando modos de ser e de se fazer ver por meio da visibilidade do consumo dos pares de sapatos Louboutin. Estruturada entre práticas regulatórias e a conformação, a empresa vai fincando sua presença no social por meio de uma performance de afirmação do consumo, que atualiza o sentido de eternização, no sentido de permanência, verificado na análise plástica. O percurso da marca Christian Louboutin é gerido por seu programa de base pautado no saber-fazer, que alimenta não só as prescrições de uso, como também confere suporte para a configuração de sua identidade.
Ao estabelecer o discurso pautado na distinção, a marca alça seus produtos a um patamar de excelência, ao atualizar, a cada temporada, sua narrativa enraizada em um saber-fazer de qualidade ancestral e em um poder-fazer nobre-aristocrático, os quais atribuem a seus sapatos e,
por associação, aos corpos que os vestem, um status de objeto de arte, que merece e deve ser apreciado.
A estratégia de manipulação por sedução implementada na enunciação também nos leva a observar a presença de uma intencionalidade do destinador-marca, ao instaurar em seu discurso sentidos de controle e aprisionamento, os quais estão diretamente ligados à percepção de eternização depreendida no plano da expressão, no que se refere à permanência de uma imagem de um gosto dominante íntegro e homogêneo, como padrão cultural. Não deixa de ser, portanto, uma representação estereotipada a que se esquematiza, uma vez que as relações entre sujeitos, e sujeitos e objetos, são traçadas em pontos de apoio muito bem definidos, com transformações limitadas e delimitadas previamente com vias à simples atualização dos valores, não os desconfigurando de sua identidade inicial.
Ao estabelecer um simulacro de aparência do corpo-calçado com um Louboutin, podemos dizer que a marca chega até mesmo a demonstrar não ser necessário vestir o calçado, uma vez que o pertencimento do objeto sapato, por si só, já confere uma identificação social. Tal afirmação embasa-se nas diversas peças publicitárias construídas pela empresa em parceria com fotógrafos renomados, sendo um deles Peter Lippman, americano radicado em Paris há mais de 30 anos e conhecido por atuar em empresas como Cartier, Vogue, The New York Times, Marie Claire e Le
Figaro. A seguir, apresentamos algumas dessas peças, a fim de embasar
Figuras 53, 54 e 55: Nestes anúncios que compõem o lookbook outono-inverno 2011,
podemos observar a intencionalidade do destinador ao alçar suas criações, os sapatos da marca, a objetos de contemplação, que não precisam ser vestidos. Em nenhuma das três imagens o corpo feminino que se apresenta à tela veste o calçado.
Figuras 56 e 57: Da mesma forma, nestes dois anúncios que compõem o lookbook
da marca para a coleção outono-inverno 2012, o destinador Christian Louboutin reitera seu discurso no saber-fazer e no status ancestral célebre do continente europeu, ao posicionar os calçados como parte integrante da arquitetura de Paris, que podem ser contemplados em suas qualidades estéticas, como qualquer outra criação artística construída na cidade europeia.
Figuras 58 e 59: Nas figuras acima, as quais ilustram a arquitetura da loja
localizada no shopping JK Iguatemi, observamos novamente a demarcação do espaço europeu na narrativa, verificado principalmente pela estrutura metálica que remete à Torre Eiffel. A base que sustenta os calçados alude à sedução e feminilidade do cromatismo do vermelho, que realça a visualidade dos calçados, alçando-os em um patamar cosmético contemplativo.
Tal escolha por uma permanência discursiva nos conduz ao próprio paradoxo instaurado pelo sistema de moda, conhecido por organizar sazonalmente os padrões estéticos de gosto, roupas e acessórios. Oliveira (2007, 2) reflete que a moda trabalha com a imposição de comportamentos e mecanismos coercitivos, “que funcionam dissimulados nos desejos de pertencimento, de inclusão no grupo, que movem a volição do destinatário numa orientação definida”. Dando vazão a essa linha de pensamento, podemos dizer que somos continuamente (re)apresentados a padrões de gosto, estilo de vida e de beleza, estruturados em uma ordem temporal e espacial por meio das coleções por temporada, que se travestem de novidade, mas que são, no fundo, os mesmos valores coercitivos e aprisionantes, somente atualizados. Estes estruturam o fluir contínuo do processo volitivo de consumo, tão inerente à moda.
Outro ponto que merece reflexão diz respeito ao próprio papel feminino na sociedade. Após a análise plástica dos sapatos, verificamos que o simulacro de aparência feminino que é construído é de uma mulher dependente socialmente do outro e que para ser alguém no social, precisa dispor de armas de sedução que destaquem sua configuração estrutural feminina. Seu poder baseia-se na dominação pela sedução por meio da gestualidade do corpo-calçado e não por seus atributos intelectuais, o que seria esperado em nossa moderna sociedade.
Em tempos de uma aguerrida luta por direitos igualitários e de uma maior batalha feminina pelo reconhecimento profissional e social, não deixa de ser curioso verificar o desejo crescente de um tipo de consumidora a querer vestir e possuir um calçado Louboutin. Tal aspiração de pertencimento a uma sociabilidade distinta, cujo simulacro retira da mulher seu papel social de autonomia legítima, enquanto destinadora de si, torna-a uma destinadora do outro, daquele que a sustenta e a admira.
Com a preocupação de uma imagem focada mais no parecer do que no
ser, observamos que o discurso de identidade e visibilidade da marca
exacerba a limitação da capacidade feminina, ao restringir sua liberdade de atuação e possibilidade de ser, verdadeiramente, alguém no social. Presa às barreiras demarcadas pelas práticas de vida de uma determinada sociabilidade, a consumidora usuária vê-se acorrentada à uma pesada regulação no seu agir, que a impede de transcender seus próprios limites.
Acreditamos que tais questionamentos devem ser levantados constantemente no âmbito da indústria da moda, a fim de que o papel social feminino possa seguir uma direção ascendente, de exaltação das habilidades pessoais e profissionais e não a das curvas de sua estrutura anatômica, tirando-lhe todo o mérito de um sujeito que pode fazer fazer no social.
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