Capítulo 2: Sobre o campo controverso das células-tronco
2.4. Regimes de Verdade e Regimes de Esperança
Moreira & Palladino (2005) ressaltam que a biomedicina contemporânea é formada por duas lógicas organizacionais aparentemente incomensuráveis, o "regime de verdade" e o "regime de esperança". Essas lógicas, que estão a todo tempo em tensão, sendo que a predominância de uma sobre a outra dependerá do contexto e dos atores evocados. Para os autores, a justificativa para uma pesquisa em biomedicina contemporânea estaria centrada na esperança, isto é, nos desejos de desenvolvimento de curas e de tratamentos para muitas doenças humanas em um futuro próximo. Ao mesmo tempo, para ser aprovada, tal pesquisa necessitaria fornecer um nível de evidências, criar um solo firme necessário para legitimar uma técnica, ou seja, nesse outro lado da moeda, encontramos o regime de “verdade”. Podemos tomar como exemplo as células-tronco embrionárias. Embora se saiba muito pouco sobre seus mecanismos de diferenciação e sobre seus potenciais riscos, o interesse nesse tipo de pesquisa é motivado pela esperança de que a capacidade de se produzir células para autorregenerar o tecido disfuncional in situ, poderia ocasionar uma cura para doenças-chave nas sociedades ocidentais modernas. Por outro lado, para que sejam permitidas tais pesquisas, há a necessidade de se investir no que é conhecido de forma objetiva, levando em consideração a eficácia, o risco de dano e o custo; por exemplo, antes de realizar testes em humanos, muitas experimentações em animais devem ocorrer e deve haver um maior controle sobre possíveis variáveis que possam prejudicar a saúde humana. Em outras palavras, todos esses processos descritos e baseados em evidências compõem o regime de “verdade”.
Ao redor dessas duas lógicas, encontramos agrupamentos de diversos atores: no regime de esperança, estão reunidas as novas empresas de biotecnologia e seus investidores, que dependem das promessas de futuros tratamentos se efetuarem para obter o retorno dos investimentos feitos de capital empregados; profissionais do campo que investem grande parte de suas carreiras no desenvolvimento de novas técnicas; e instituições de caridade, que
mantêm todas as possibilidades de tratamento em aberto. O argumento central desse regime consiste em se “nós não sabemos a verdade: há esperança” (MOREIRA & PALLADINO, 2005, p. 67). No regime de verdade, encontramos compradores e seguradoras de serviços de saúde que estão convencidos de que os custos da abordagem e a falta de evidência no campo não compensam o investimento; empresas farmacêuticas, com medo da concorrência que poderia ser gerada devido a novas abordagens moleculares, se, por exemplo, os tratamentos com as células-tronco embrionárias progredirem, muitos medicamentos poderão ficar obsoletos. Nesse regime, o argumento central é “sabemos a verdade: não há esperança” (MOREIRA & PALLADINO, 2005, p. 67).
Os regimes também se diferenciam na forma como imaginam e modelam o paciente: na lógica da esperança, o paciente é compreendido como alguém que é investido em se tornar menos aprisionado pela sua condição física. Pode às vezes estar desesperado, mas sempre está à espera e pronto para testar novas e promissoras soluções para a sua situação, embora ainda não comprovadas. Na lógica da verdade, os pacientes são apresentados como consumidores de cuidados de saúde, preocupados em comprar os benefícios absolutamente reconhecidos relativos das abordagens alternativas, levando em consideração sua eficácia, seus riscos e seus custos (MOREIRA & PALLADINO, 2005).
Para melhor entendermos esses processos, precisamos compreender as remodelações ocorridas na medicina nos países industrializados decorrentes de sua intensa capitalização. De acordo com Rose (2007), é no século XIX que vemos nascer um tipo de medicina que irá se estender até a década de 1960, cujo foco se situa no corpo sistêmico. Essa medicina, denominada clínica, trabalha o corpo em um nível “molar”, ou seja, na escala dos “membros, órgãos, tecidos, fluxos de sangue, hormônios e assim por diante”; esse corpo, que influenciamos e buscamos aperfeiçoar com dietas, exercícios físicos, tatuagens e cirurgias plásticas, revelou-se ao olhar do médico na dissecação após a morte e no atlas anatômico. Foi também acessado em vida por aparelhos, como o estetoscópio, que ampliou a visão dos médicos e lhes permitiu perscrutar os órgãos e os sistemas do corpo vivo.
De forma distinta, desde a década de 1960, a vida foi visualizada e posta em prática pela biomedicina em outro nível, o “molecular”. Aqui, o olhar clínico foi complementado, se não suplantado, por esse olhar molecular, que tem sido associado a todos os tipos de técnicas altamente sofisticadas de experimentação que intervêm sobre a vida nesse nível (ROSE, 2007). Dessa forma, pensar de forma molecular é pensar, por exemplo, que imagens cerebrais
obtidas de aparelhos de ressonância magnética ou Spect, possibilitam entender e explicar as atividades da vida cerebral em termos de pensamento, desejo, amor, medo, sentimentos de felicidade e de tristeza, e distinções entre normalidade e anormalidade. Pensar de forma molecular implica também pensar que nossas variações no humor, nossa capacidade de controlar os nossos impulsos, os tipos de doenças mentais a que estamos suscetíveis e nossa personalidade, podem ser interferidos pelas sequencias precisas de bases, em regiões cromossômicas específicas, mapeadas pela genômica. Outro exemplo de molecularização aparece quando pensamos sobre nossa tristeza como uma condição chamada "depressão", ou quando passamos a experimentar nossas preocupações em casa e no trabalho como "transtorno de ansiedade generalizada", causadas por um desequilíbrio químico no cérebro, propício a tratamento por drogas específicas que atuariam em locais específicos, com o intuito de "reequilibrar" tais processos químicos com o mínimo possível de efeitos indesejáveis. Essa recodificação do cotidiano, de pensarmos e explicarmos nossos sentimentos, humores e preocupações em termos de neuroquímica, genômica ou atividades cerebrais, são apenas alguns elementos de um modo de mutação generalizada, em que nós, ocidentais, passamos a compreender nossos selves (ROSE, 2004).
Para Rose (2007), o corpo foi fragmentado em tecidos transferíveis, que muitas vezes podem ser desprendidos de seu local de origem e reutilizados em outros órgãos. Essa fragmentação iniciou-se com sangue e produtos sanguíneos, atingindo posteriormente os elementos de reprodução – óvulos, espermatozoides, e embriões – que se tornaram também separáveis de qualquer organismo particular.
[...] agora, tecidos, células e fragmentos de DNA podem ser feitos visíveis, isolados, decompostos, estabilizados, armazenados em "biobancos," em forma de mercadorias, transportados entre os laboratórios e fábricas de re-engenharia e, pela manipulação molecular, transformar suas propriedades, os seus laços com um indivíduo em particular. [...] A molecularização desnuda os tecidos, as proteínas, as moléculas, e as drogas de suas afinidades específicas – de uma doença, de um órgão, de um indivíduo, de uma espécie – e permite-lhes ser considerados, em muitos aspectos, como elementos manipuláveis e transferíveis [...] que podem ser deslocados – mudando de lugar para lugar, de organismo para organismo, de doença para doença, de pessoa para pessoa. Quer se trate da transferência de genes [...] ou a transferência de tecidos, plasma do sangue, rins, células-tronco, molecularizar, é conferir uma nova mobilidade nos elementos da vida, que lhes permita entrar em novos circuitos – orgânicos, interpessoais, geográficos e financeiros. [...] Mas o que é fundamental, para presente proposta, é que ‘biopolítica molecular’ agora diz respeito a todas as formas em que tais elementos moleculares da vida podem ser mobilizados, controlados e que suas propriedades podem ser concedidas e combinadas em processos que anteriormente não existiam (ROSE, 2007, p. 14-15, grifo do autor).
No campo da saúde, percebemos que, por intermédio de uma cidadania ativa, de pessoas engajadas, que buscam um papel ativo na configuração do curso da ciência, que estas adotam um constante monitoramento da saúde, em um trabalho constante de modulação, adaptação, aperfeiçoamento, em resposta às necessidades de mudança das práticas do seu modo de vida diária. Por meio das novas “tecnologias do self” são obrigadas a participar da constante gestão dos riscos, e atuar continuamente sobre si, minimizando os riscos pela reformulação da alimentação, do estilo de vida e, agora, por meio de fármacos (ROSE, 2004).
Na atualidade, há indivíduos que estão começando a recodificar seus modos e seus males em termos de funcionamento de produtos químicos do cérebro; ou seja, um “self neuroquímico”. E, ao agirem sobre si mesmos fundamentados nessa crença, tudo, desde o chocolate ao exercício físico, faz com que se sintam bem, devido ao “aumento dos níveis de serotonina” no cérebro. Outro fator também observado é que muitos clínicos gerais, psiquiatras e outros profissionais de saúde mental, estão começando a compreender os problemas e experiências de seus pacientes, em termos de distúrbios de neurotransmissores, isto é, uma desordem que reside no interior do cérebro individual, sendo que as drogas psiquiátricas se tornam uma intervenção de primeira linha, não apenas por aliviar os sintomas, mas por agirem de forma específica nessas anomalias neuroquímicas. Sendo assim, ao reformularmos nossa personalidade em termos de neuroquímica, trazemos profundas implicações sociais e éticas para o século XXI (ROSE, 2004).
Para Rabinow & Rose (2006), ainda não está evidente se as novas tecnologias genômica e molecular conseguiriam gerar os tipos de diagnóstico e ferramentas terapêuticas que os seus defensores esperavam. Porém havia muitas apostas, fossem econômicas, médicas ou éticas, que residiriam na suposta capacidade da genômica de formar uma nova prática que capacitaria a medicina a transformar sua lógica em termos de reengenharia molecular da própria vida.
A genômica promete identificar os processos-chave que controlam a produção de proteínas, e, ao fazer isso, abre estas proteínas para a intervenção precisa com a finalidade de produzir efeitos terapêuticos. Esta é uma economia da esperança, ou seja, a esperança dos indivíduos, dos organizadores de campanhas, dos cientistas, dos sistemas de cuidado com a saúde, dos gestores das políticas de saúde e das companhias farmacêuticas de que um novo tipo de ‘know-how’ da própria vida
emergirá e gerará cura, junto com seu biovalor correspondente (NOVAS & ROSE
apud RABINOW & ROSE, 2006, p. 24).
A identificação genômica da patologia funcional possibilitou a intervenção no nível molecular e atraiu o interesse de vários segmentos da sociedade, com governos criando bio- bancos e financiando pesquisas em medicina genômica básica e aplicada; companhias farmacêuticas e de biotecnologia também investindo um alto capital nas pesquisas; grupos de pacientes que investem além da esperança e do capital político, suas próprias amostras de tecido e dinheiro na busca por tratamentos genéticos; e grupos de ativistas que fazem lobby a favor e contrariamente a alguns ou todos esses desenvolvimentos, tendo por fundamento suas preocupações éticas (RABINOW & ROSE, 2006).
Nessa lógica, Moreira e Palladino (2005), ao trazerem os regimes de esperança e verdade, apontam que embora sejam distintos, encontram no self um ponto determinado e comum de referência. No mesmo processo, temos uma orientação em direção ao futuro, ou seja, a esperança na realização de tudo o que é prometido por essas novas técnicas, mas, necessariamente, há um direcionamento ao passado e aos erros. Isto é, para se começar a articular uma nova terapia alternativa, é necessário refazer o caminho e reavaliar o que é conhecido.
Tendo discutido sobre as lógicas da esperança e da verdade, apresentaremos a seguir os procedimentos da pesquisa, situando os pressupostos teóricos e metodológicos que sustentam esse estudo.