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3 REGIME JURÍDICO

4 PROPOSTA DE UMA VISÃO CONTEMPORÂNEA CONSTITUCIONALMENTE ADEQUADA SOBRE O TEMA DO DIREITO ADQUIRIDO A REGIME JURÍDICO:

4.1 A JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL DO BRASIL SOBRE O TEMA

4.1.1 Registro de decisões iniciais sobre o tema

Em estudo histórico sobre a atuação no Supremo Tribunal Federal do Ministro Epitácio Pessôa150, encontra-se registrado o seguinte:

Entre os votos de Epitacio Pessôa, há diversos casos envolvendo questões de direito intertemporal: a proteção a direitos adquiridos contra restrições ou mesmo perda dessas posições subjetivas em decorrência de legislação posterior. Com sua capacidade para a exposição clara da discussão em causa, Pessôa ensina a diferença entre direito adquirido e mera expectativa de direito; define o momento em que se dá a aquisição ou incorporação dos direitos ao patrimônio jurídico dos sujeitos; compara e distingue as relações jurídicas decorrentes de regimes contratuais e regimes estatutários; e, em caso específico que envolvia suposto direito a promoção de militar, vemos Epitacio afirmar a tese — hoje consagrada — de que não existe direito adquirido a regime jurídico. A quantidade expressiva desse tipo de questão revela também aspectos da instabilidade política e jurídica daqueles primeiros tempos, o que obrigava o Tribunal a tornar eficaz a cláusula constitucional da irretroatividade das leis em prejuízo de posições jurídicas consolidadas, segundo a norma então vigente.151

Os arestos referidos e selecionados datam de 1906 e 1907 e, já então, era afirmado na orientação do Supremo que não há direito à manutenção de regime jurídico. No caso ACi 1.297/Capital, Murtinho, 1907. União v. Tenente Astrogildo de Figueiredo, assim resumido pelo próprio Ministro Pessôa, na condição de relator:

O Segundo-Tenente Astrogildo Marques de Figueiredo alega que foi promovido a esse posto em 3 de novembro de 1894, ao tempo em que vigorava o Decreto 1.351, de 7 de fevereiro de 1891, segundo o qual (art. 5º, parágrafo único), enquanto existissem alferes de infantaria ou cavalaria sem o respectivo curso, as vagas de tenente seriam preenchidas por antiguidade, 2/3 por esses subalternos e 1/3 pelos que tivessem o curso; que a Lei 1.348, de 12 de julho de 1905, modificou essa proporção, estabelecendo que as promoções passariam a ser metade por antiguidade absoluta e metade por estudos, que por efeito desta lei já houve seis promoções por estudos e apenas quatro por antiguidade; que, sendo o quinto ao tempo em que se promulgou a Lei 1.348, teria sido promovido, se esta não houvesse revogado o Decreto 1.351, que, portanto, esta lei feriu

150 NOLETO, Mauro Almeida. Memória jurisprudencial – Ministro Epitácio Pessoa, Brasília : Supremo Tribunal

Federal, 2009. Disponível na

Internet:http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoPublicacaoInstitucionalMemoriaJurisprud/anexo/Epitacio_Pess oa.pdf, Acesso em 21/02/2012.

com (sic) seu direito adquirido, isto é, o direito de ser promovido segundo a lei vigente ao tempo em que fora promovido a alferes. Pede, à vista do exposto, que a União seja condenada a pagar-lhe a etapa e a gratificação de primeiro-tenente, desde a data em que pelo Decreto 1.351 lhe cabia a promoção, até ser efetivamente promovido.152

Comentando o caso, Mauro Noleto afirma que “pode-se perceber com muita clareza a longevidade de certos tópicos da jurisprudência do Supremo Tribunal”, em especial aquele que, “com base na doutrina da irretroatividade das leis, fixa a diferença entre direito adquirido e mera expectativa. Também a afirmação, hoje pacífica, de que não há direito adquirido à manutenção de regime jurídico pode ser extraída das razões deste voto de Epitacio Pessôa”.153

Bem evidenciando o caráter preconceituoso com que, desde sempre, o direito adquirido a regime jurídico foi visto no Brasil, confira-se a forma de argumentação do Ministro àquela época (a qual, infelizmente, não está deveras distante da posição atualmente empreendida):

A partir desse ponto, ou seja, firmada a premissa de que o regime jurídico do militar não tem natureza contratual, vemos um Epitacio irônico despejar toda a força de sua dedução lógica para demonstrar a tese, argumentando até pelo absurdo, de que não existe direito adquirido a regime jurídico.

O que este pretende é que, uma vez nomeado o alferes, as condições de acesso então existentes não possam mais ser alteradas até que ele chegue a marechal, é, em suma, paralisar a ação do Estado no tocante à força armada, isto é, no que diz respeito à segurança interna e externa da República. Levado às suas legítimas conseqüências, este princípio significa que o simples ato de verificar praça no Exército suspende desde logo a Constituição da República, na parte em que confere ao Congresso Nacional a atribuição de legislar sobre a organização da força armada (art. 34, 17), de suprimir empregos públicos (25) e de estatuir as condições de capacidade especial para o acesso às funções militares (art. 73); e como todos os dias há cidadãos que assentam praça no Exército, segue-se que a suspensão desses preceitos constitucionais é indefinida, vale por uma derrogação ou antes por um novo processo de reforma constitucional, não previsto no art. 90. Se a princípio não se atribui tamanho vigor, então teremos: hoje o Congresso estabelece certas condições de acesso: estas não se aplicarão aos oficiais existentes. Amanhã o interesse público exige que se modifique essa lei: já esta lei não atingirá aos oficiais protegidos pelas duas leis anteriores, e assim por diante. Ao cabo de algum tempo, teremos várias fornadas de direitos adquiridos, e o poder público se verá a braços com um cipoal tão emaranhado de direitos tais, que paralisará completamente a sua ação. Imagine-se agora que isso se estende a todas as repartições públicas, e digam-me se é possível assim a existência do Estado.154

O pensamento da inexistência de direito adquirido a regime jurídico já se mostrava firme na década de 50. 152 Idem, p. 86. 153 Idem, Ibidem, p. 86. 154 Idem, p. 88.

Em 1951 o STF afirmava que, por ser a relação estatutária, e por estar consagrada na Constituição da época (1946) apenas a irredutibilidade quanto aos magistrados, nada impedia que os demais servidores fossem alvo de redução dos seus estipêndios.155

Em lampejo de proteção, em 1953 o Supremo afirmara que “Ainda no regime constitucional que preceitua leis com efeito retroativo, para se lhes reconhecer tal efeito há de a lei o expressar inequivocamente”.156

Entretanto, em 1954, o argumento da “necessidade de serviço” autorizava a afirmação da inexistência de direito adquirido ao quadro estatutário, quase já axiomaticamente.157

Em 1959, o STF afirmava, com parcimônia, que “As leis que estruturam e aperfeiçoam o serviço público não ferem, em regra, direitos adquiridos dos servidores, dada a natureza estatutária das relações por esses mantidas com o poder público”.158

No ano de 1960, contudo, ao que parecia ser uma mudança de mentalidade sadia, o Supremo Tribunal passou a expressamente ressalvar os direitos adquiridos quando de mudanças normativas:

Revogação ou anulação pelo próprio Poder Legislativo de lei manifestante inconstitucional e violadora da ordem jurídica. O Legislativo ao invalidar ato vicioso por ela próprio editado, não interfere com a prerrogativa assegurada ao Judiciário de anular ou decretar a inconstitucionalidade de lei ou ato do poder público. Servidor público. Regime estatutário. A lei que regula, modifica ou extingue situações anteriormente desfrutadas por servidores públicos, aplica-se retroativamente, desde que não fira o direito adquirido, o ato jurídico perfeito ou a cousa julgada.159

155 “A situação do funcionário perante o Estado não é contratual mas estatutária. Se a mesma Constituição, que não

permite à lei prejudicar o direito adquirido, só não faculta a redução de vencimentos no tocante aos magistrados (arts. 95 n. III) para resguardo da independência de suas funções e consequente proteção dos seus jurisdicionados, deixou claro que, em regra, são redutíveis por lei os proventos dos demais funcionários públicos, e que, na garantia do direito adquirido, não se compreende a irredutibilidade de tais proventos.” – BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 15530/BA, rel. Min. Luiz Gallotti, 1ª Turma, DJU de 30/08/1951, p. 8104.

156 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 20960/DF, rel. Min. Mário Guimarães, 1ª

Turma, DJU de 01/10/1953.

157 “AUTARQUIA. REGIME DE ACESSO DE SERVIDORES. ALTERABILIDADE POR CONVENIÊNCIA DO

SERVIÇO. NÃO SE VERIFICA OFENSA A QUALQUER TEXTO LEGAL, COM O PROCLAMAR O ACÓRDÃO SUB-CENSURA O PRINCÍPIO DE QUE O FUNCIONÁRIO PÚBLICO NÃO TEM DIREITO ADQUIRIDO A MANUTENÇÃO DO REGIME ESTATUTÁRIO VIGORANTE AO TEMPO DE SUA

INVESTIDURA.” - BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 24362/DF, rel. Min. Ribeiro da Costa, 1ª Turma, DJU de 02/12/1954, p. 14907.

158 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Mandado de Segurança nº 4744/DF, rel. Min. Henrique D´Avila, Pleno,

DJU de 24/08/1959, p. 246.

159 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso em Mandado de Segurança nº 7288/CE, rel. Min. Henrique

O que parecia uma promissora mudança de orientação foi ceifada por conta do período de ditadura que se iniciou logo após.

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