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123 vulnerabilidade de tais povos, apresentaram novas dificuldades para a garantia do acesso aos alimentos que estes buscavam, ainda que estivessem, de alguma forma, ajudando-os a fazer cumprir a própria política governamental. As instituições governamentais praticavam seu racismo institucional, fracassando na oferta de um serviço digno a tais sujeitos, minando as forças da organização e, pior, não acreditavam que a instituição conseguisse dar conta desta empreitada, apostavam no fracasso da organização como nos conta um dos entrevistados:

Mesmo a gente discutindo, levando a discussão dos terreiros, eles não acreditavam, diziam que não ia ter capilaridade pra tá ali, só Salvador. A gente não tinha condições, nessas reuniões do encontro eram mais de 60 pessoas, ficou com 10 organizações, dessas 10, 09 era tudo de branco, porque, com essas estratégias, eles iam esvaziando a participação do povo preto, e aí começou a ficar vazio. No dia da eleição, com ajuda de Lucimara, conseguimos essa vaga, aí, disseram assim que o movimento negro estava presente. Aí eu disse “não, o movimento negro não tá presente e sim o movimento negro religioso. A UNEGRO não está presente”, aí reivindicamos a presença da UNEGRO. Eles acham que tudo é uma coisa só, basta ser preto. Fazem de conta que não estão entendendo. “Eu sou do movimento do Candomblé, rapaz eu quero a minha vaga, eu sou religioso e não partidário”. Consegui uma vaga para a ACBANTU e conseguimos colocar outra organização do Movimento Negro, ficou como suplente. Aí entramos no Conselho Estadual (Taata Komannanjy, 2010).

O racismo não aparece só nos discursos subliminares, como também nas falas proferidas nos momentos de disputas políticas acirradas, como nos relata o interlocutor:

No Conselho Municipal foi um preconceito maior, o pessoal da igreja estrebuchou de tal forma quando eles viram que a ACBANTU ia ser eleita uma mulher da ACOPAMEC da Mata Escura gritou: “não reconheço voto para esses pretos, esse povo pobre nem sabe o que está fazendo aqui”. Meu Deus! aí tinha gente querendo bater nela, gente correu atrás dela, varias mães de Santo estavam lá - “não faça, não bata”. Ela pediu o microfone para pedir desculpas, então ela disse que os negros eram os que mais sofriam fome no país e que ela não tinha falado que nós éramos pobre por que éramos negros: “eu disse que são pobres não por ser negros, mas por ser de Candomblé não tem ética”. Esse já era o Fórum Café. O Comenda era estadual e o Café era municipal. Foi muito preconceito mesmo, pedindo desculpas, chorando e discriminando (Taata Komannanjy, 2010).

Depois de conquistar espaço nos conselhos locais, a ACBANTU partiu para os Fóruns nacionais onde as disputas não são menores:

Ai quando teve o Conselho Estadual tirou os delegados para a Conferencia Nacional; então eu fui representando, era a única representando, era a única na Conferencia Nacional da Bahia e de Terreiro. Participei, participei, tudo mais. Aí o presidente Lula resolveu instaurar o Conselho Nacional de Segurança Alimentar que tinha sido extinto em Fernando Henrique, aí cada estado tinha que indicar, então a Bahia indicou uma instituição chamada Movimento de Organização Comunitária MOCE, que faz um trabalho muito grande, muito bonito no entorno do semiárido, o SAZOPE, que tem um trabalho muito grande com agricultura agroecológica e precisava de uma indicação, tinha que indicar três, na hora da reunião, um terceiro poderia ser indicado, pôde ser a ACBANTU, pôde ser, então mandei o currículo da ACBANTU e o meu currículo para o Governo Federal e para a nossa surpresa o presidente escolheu três da Bahia

124 escolheu a do semiárido, a da agricultura agroecológica e a ACBANTU, que trabalhava com terreiros. Aí, quando a gente foi indicada, aí foi um susto na Bahia que a gente foi aceito foi o primeiro movimento negro, foi o primeiro movimento negro religioso. Aí lá tava cheio de vícios da Pastoral da Criança, agentes de Pastoral vários, vários eles são antigos nessa história (Ana Placidino, 2010).

Diante de tantos desafios, a estratégia de inserção dos terreiros de Candomblé nas políticas de Segurança Alimentar e Nutricional, também se deu através de várias lutas, a principal delas contra o racismo e a intolerância religiosa. Atualmente este é um trabalho reconhecido, que já consegue ter uma dinâmica própria. Causa muita polêmica ainda entre os próprios terreiros, mas conseguiu inserir a perspectiva e a colaboração deste segmento em todos os níveis das políticas de Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil: Municipal, Estadual e no âmbito Federal, colaborando para elaboração do texto final da atual Política de SAN e na construção do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional brasileiro. As estratégias foram e continuam sendo diversas, mas sem deixar a fé nos seus Deuses e Deusas de lado como nos conta Taata Komannanjy:

Aí, em nossas plenárias, a gente foi chamando o povo do Ministério pra participar pra trazer algum assunto. O que foi histórico foi o que a gente fez aqui no Museu Eugenio Teixeira Leal com o Ministro Patrus Ananias que é quase tão católico quanto o Bispo, quanto o Papa, acho que o Papa é menos, que ele é igual ao Bispo Dom Elder Câmara, ali era um homem de fé. Aí, Patrus Ananias veio, já a gente caprichou como o povo de Santo faz, muito bem vestidos pra receber o ministro, ele já tinha feito uma agenda corrida e ficou um pouco pra ir para o aeroporto, aí, quando chegou, tomou aquela surpresa. Teve uma mesa com a doutora Rose Pondé, Tata Komannanjy, Makota Valdina, uma senhora de Tempo, Dona Iraildes, mãe Juçara e um pai de Santo também temos fotos dessa mesa.

Foto 86: Participação do representante da ACBANTU em reunião do CONSEA/MDS,