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egundo a Classificação e Codificação Brasileirade Desastres (COBRADE), proposta em 2012, os alagamentos caracterizam-se pela “extrapo- lação da capacidade de escoamento de sistemas de drenagem urbana e consequente acúmulo de água em ruas, calçadas ou outras infraestruturas urbanas, em decorrência de precipitações intensas” e da to- pografia suave (CERRI, 1999). Sua ocorrência está diretamente relacionada com os sistemas de Drena- gem Urbana, que são entendidos como o conjunto de medidas que objetivam a redução dos riscos re- lacionados às enchentes, bem como à redução dos prejuízos causados por elas (TUCCI et al. 2007a).
De modo geral, a urbanização promove a ca- nalização dos rios urbanos e as galerias acabam por receber toda a água do escoamento superfi- cial. Esses conceitos já ultrapassados dos proje- tos de drenagem urbana, que têm como filosofia escoar a água precipitada o mais rapidamente possível para jusante, aumentam em várias or- dens de magnitude a vazão máxima, a frequência e o nível de inundação e alagamentos à jusan- te (CHOW; MAYS, 1988). Desta forma, o rápido afastamento das águas propicia a combinação dos fenômenos de enxurradas e alagamentos, principalmente em áreas urbanas acidentadas, como ocorre no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e em cidades serranas, o que torna os danos ainda mais severos (CASTRO, 2003).
Os alagamentos são frequentes nas cidades mal planejadas ou que crescem explosivamente, já que a realização de obras de drenagem e de esgotamento de águas pluviais é deixada em segundo plano. Assim, os sistemas de drenagem são altamente impactados e sobressaem-se como um dos problemas mais sensíveis causados pela urbanização sem plane- jamento, ou seja, são os que mais facilmente comprovam a sua ineficiên-
Figura 4: a) Construção de novos loteamentos b) Aumento no hidrograma
Fonte: Tucci (2007)
Figura 5: a) Obstrução à drenagem b) Lixo retido na drenagem
Fonte: Tucci (2005)
cia imediatamente após as precipitações significati- vas, com transtornos à po- pulação quando causam inundações e alagamen- tos (FUNASA, 2006).
A Figura 4 demonstra como cada novo empreen- dimento que é aprovado aumenta a vazão e, conse- quentemente, a frequência de alagamentos. O aumen- to da impermeabilização gera um maior volume es- coado superficialmente. Como resposta, o municí- pio constrói um canal nos trechos em que a drena- gem inunda a cidade, o que apenas transfere para a jusante a nova inundação. Desta forma, a população perde duas vezes: pelo au- mento da inundação e pelo desperdício de recursos pú- blicos (BRASIL, 2009).
Outro grande proble- ma dos sistemas de dre- nagem está relacionado à própria gestão do saneamento. O carreamento de lixo e sedimentos para as sarjetas, bocas de lobo e galerias acaba por obstruir as entradas e as tubulações de drenagem, colaborando para a ocorrência de alagamentos localizados. Ademais, interligações clandestinas de esgoto contribuem para a insuficiência das redes de drenagem, com possibilidade de rom- pimento das tubulações. Nessas condições, mesmo pequenos volumes
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pluviométricos são capazes de gerar alagamentos intensos em cidades urbanizadas, com diversos transtornos e possibilidade de desastres.
Nesse sentido é oportuno citar os estudos de Mattedi e Butzke (2001), que demonstraram que as pessoas que vivem em áreas de risco perce- bem os eventos como uma ameaça, contudo não atribuem seus impactos a fatores sociais. Esta percepção é comum aos alagamentos, pois as pes- soas costumam atribuir à força da natureza a inundação de suas moradias e não à forma como ocupam e utilizam os espaços urbanos.
A Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (IBGE, 2010) indica que a eficiência dos sistemas de drenagem de águas pluviais – e a consequente prevenção de desastres com enchentes e alagamentos – está diretamen- te relacionada à existência dos dispositivos de controle de vazão, pois estes atenuam a energia das águas e o carreamento de sedimentos para os corpos receptores, onde há a disposição final dos efluentes da drena- gem pluvial. A ausência destes dispositivos é facilmente perceptível nos dados divulgados pelo IBGE (2010), que mostram que um em cada três municípios tem áreas urbanas de risco que demandam drenagem espe- cial. Dentre os municípios que relataram a existência de áreas de risco, somente 14,6% utilizam informações meteorológicas e/ou hidrológicas, o que limita ainda mais as condições de manejo das águas pluviais e dre- nagem urbana.
Para suportar as modificações do uso do solo na bacia, são necessá- rias obras de ampliação do sistema de drenagem (medidas estruturais), cujos valores são tão altos que se tornam inviáveis. Tucci, Hespanhol e Cordeiro Netto (2001), por exemplo, citam valores de US$ 50 milhões/km para o aprofundamento de canais da macrodrenagem. Nesse quesito, as medidas não estruturais (planejamento, controle na fonte, zoneamento etc.) tornam-se menos onerosas e mais práticas.
Nessa temática, Pompêo (1999) afirma que se deve relacionar a sus- tentabilidade com a drenagem urbana, por meio do reconhecimento da complexidade das relações entre os ecossistemas naturais, o sistema urbano artificial e a sociedade. Esta postura exige que a drenagem e o controle de cheias em áreas urbanas sejam reconceitualizados em termos técnicos e gerenciais. Esta definição eleva o conceito de drenagem à dre- nagem urbana sustentável, a qual visa imitar o ciclo hidrológico natural
controlando o escoamento superficial o mais próximo da fonte, através de técnicas estruturais e não estruturais, com o objetivo de reduzir a exposi- ção da população aos alagamentos e inundações e, consequentemente, minimizar os impactos ambientais.
Os danos causados pelos alagamentos são, de modo geral, de pe- quena magnitude; pois a elevação das águas é relativamente baixa. Por outro lado, os transtornos causados à população são de ordem elevada, principalmente no que se refere à circulação de automóveis e pessoas, bem como à limpeza das residências e das edificações comerciais após o escoamento das águas. De fato, o escoamento das águas superficiais sempre ocorrerá, existindo ou não um sistema adequado de drenagem. Por isso, a qualidade do sistema é que determina a existência de benefí- cios ou prejuízos à população.
Registros das Ocorrências
O Estado do Ceará possui apenas 4 registros oficiais de alagamentos severos caracterizados como desastre, entre os anos de 1991 e 2012. O Mapa 5 apresenta a distribuição espacial desses registros no território cearense, cujos municípios atingidos foram Icapuí, Caucaia, Amontada e Ipaporanga.
Caucaia é o segundo município mais populoso do estado, com mais de 325 mil habitantes, enquanto Amontada possui 39.232 habitantes, sen- do a 45ª cidade mais populosa (IBGE, 2011). As demais cidades, Icapuí e Ipaporanga, possuem menos que 20 mil habitantes. Isso evidencia que não apenas os condicionantes antrópicos (população) estão associados a ocor- rências de desastres, mas também os condicionantes físicos, uma vez que municípios pouco populosos foram atingidos por alagamentos severos.
O Gráfico 11 apresenta a frequência anual de alagamentos registra- dos entre 1991 e 2012. A maior frequência é observada no ano de 2009.
Em relação à distribuição mensal, o Gráfico 12 mostra que os desas- tres ocorreram em apenas três meses: em março de 2003, abril de 2008 e 2009, e maio de 2009.
Os alagamentos podem originar consequências negativas para as comunidades cearenses. Reitera-se que estes eventos causam, de modo
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geral, poucos danos, já que a elevação do nível da água é relativamente baixa. Contudo, observa-se que mais de 15 mil pessoas foram afetadas, 3.639 desalojadas e 1.158 desabrigadas (Gráfico 13).
A Tabela 13 apresenta a quantificação dos danos humanos por mu- nicípio, em que se observa que a cidade mais afetada foi Amontada, no Norte Cearense.
Gráfico 11: Frequência anual de desastres por alagamentos no Estado do Ceará, no período de 1991 a 2012
1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Fr equência Anual 5 4 3 2 1 0 2 1 1 Frequência Fonte: Brasil (2013)
Gráfico 12: Frequência mensal de desastres por alagamentos no Estado do Ceará, no período de 1991 a 2012
5 4 3 2 1 0
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
Fr equência Mensal 2 1 1 Frequência Fonte: Brasil (2013)
Gráfico 13: Danos humanos causados por desastres de alagamentos no Estado do Ceará, no período de 1991 a 2012
Mor
tos
Feridos
Enfermos
Desabrigados Desalojados Desapar
ecidos Outr os Afetados 20.000 18.000 16.000 14.000 12.000 10.000 8.000 6.000 4.000 2.000 0 Númer o de pessoas a tingidas 1.158 3.639 15.727 Fonte: Brasil (2013)
Tabela 13: Danos humanos relacionados aos eventos de alagamento (1991-2012)
Ano Município Mesorregião Desabrigados Desalojados Afetados
2003 Amontada Norte Cearense 352 3.563 12.073 2003 Ipaporanga Sertões Cearenses - - 2.288 2003 Caucaia Metropolitana de Salvador 800 - 1.100 2003 Icapuí Jaguaribe - 76 266
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Na descrição do desastre do Município de Amontada, o registro cita como causa as fortes chuvas sobre as nascentes do Rio Aracatiaçu, no Município de Sobral, que provocaram o transbordamento em todo o seu leito e comprometeram as comunidades ribeirinhas. Nota-se, pela des- crição do evento, que o fenômeno ocorrido foi de inundações, que são naturais e cíclicas. O mesmo ocorre em Ipaporanga, que descreve 853 mm de chuvas que elevaram o nível dos rios. Assim, desastres que foram registrados como alagamentos, são, provavelmente, inundações que po- dem estar associadas a alagamentos.
O registro errôneo dos desastres é muito comum, conforme foi expla- nado no capítulo de enxurradas. Reitera-se, no entanto, que o registro cor- reto permite avaliar com maior clareza os fatos e características reais que desencadearam determinado desastre. Os alagamentos, por exemplo, estão associados à dificuldade de escoamento da água, problema intensificado pela urbanização, cujo nível da água é baixo e causa poucos danos. As en- xurradas são características de pequenas bacias com relevo acidentado, cujo escoamento da água possui alta energia, o que pode gerar danos vultosos. Já nas inundações, o transbordamento ocorre de modo gradual, geralmente ocasionado por chuvas prolongadas em áreas de planície. Assim, os alaga- mentos registrados no Estado do Ceará podem ser, de fato, inundações, que são eventos naturais que ocorrem com periodicidade nos cursos d’água.
A Tabela 14 apresenta todos os prejuízos materiais registrados por alagamentos. Observa-se que as habitações são as unidades mais impac- tadas, o que é coerente nos casos de inundação, pois as comunidades se fixam nas margens e planícies de inundação dos rios.
A Tabela 15 apresenta os danos materiais registrados pelos muni- cípios. Os registros de Caucaia e Icapuí não possuem danos materiais quantificados.
Ressalta-se que apesar de o Estado do Ceará ter apenas 4 desastres registrados, a ocorrência de alagamentos é cada vez mais frequente, com inúmeros pontos críticos de drenagem (SILVA et al., 2005). Embora não cau- sem danos que caracterizem desastres, esses fenômenos geram inúmeros transtornos às pessoas. As causas desse cenário estão relacionadas à ocu- pação do espaço urbano pela população e à atual gestão da drenagem no nível local. Assim, a elaboração de um Plano Diretor de Drenagem Urbana, aliada a outras medidas não estruturais, colabora para a redução dos alaga- mentos e, consequentemente, dos transtornos e desastres.
O Infográfico 4 apresenta um resumo dos registros oficiais de alaga- mentos ocorridos no Estado do Ceará.
Tabela 14: Quantificação dos danos materiais (1991-2012)
Descrição Dano Material Unidades Destruídas Unidades Danificadas
Saúde - 2
Ensino - 6
Habitações 82 680 Infraestrutura 7 13
Fonte: Brasil (2013)
Tabela15: Descrição danos materiais nos municípios afetados por alagamento no Estado do Ceará (1991-2012)
Ano Município Mesorregião Total Destruídas Total Danificadas Total
2003 Amontoada Norte cearense 89 701 790 2003 Ipaporanga Sertões cearenses - 4 4 2003 Caucaia Metropolitana de Salvador - - - 2003 Icapuí Jaguaribe - - -
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Infográfi co 4: Síntese das ocorrências de alagamento no Estado do Ceará
Alagamentos Eventos por ano
Totais por ano 1 1 2 4
Município 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Total AMONTADA 1 1 CAUCAIA 1 1 ICAPUÍ 1 1 IPAPORANGA 1 1 0 1 2 3 Fonte: Brasil (2013)
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