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estrutura; C: Representação em 3D da continuidade da cerca (Fonte: A e B: Acervo do autor, 2016; C: Flávio Carvalho).

Este é um dos raríssimos relatos onde surge a presença do indígena nas interpretações comunitárias, sendo mais presente a narrativa onde o negro escravizado e o fazendeiro branco surgem como protagonistas da história local. Para a D. Maria José, se as paredes foram erigidas pelo trabalho braçal indígena, algumas questões merecem atenção: haveria a possibilidade da escravidão indígena em São Vitor?

Oliveira e Assis (2017, p. 93) pontuam que, a primeira mão-de-obra utilizada na Capitania do Piauí, bem como em toda a colônia, foi a indígena. A mesma foi abolida a partir das “Instruções Régias, Públicas e Secretas”, ratificada pelo capitão-general do Estado do Grão-Pará, em substituição pelo trabalho do escravo negro. “No primeiro censo oficialmente realizado na capitania do Piauí, pelo seu governador João Pereira Caldas, em 1762, os indígenas já não foram mais apresentados como escravos e sim como aldeados”.

Assim, não é arriscado pensar em tal hipótese, visto que, mesmo com a abolição, do mesmo modo como ocorreu em seguida com o trabalho do escravo negro, a lei não era aplicada de imediato. Sob um sistema político e econômico vigente sem o mínimo de preocupação com essas relações e, ainda, se levarmos em consideração a localização dessas fazendas distantes de centros urbanos, onde, provavelmente a “fiscalização” deveria ser mais efetiva, tal descaso era ainda mais recorrente.

A presença de cercas ou de muros de pedras associados a contextos de fazendas e a pontos d‟água são característicos de sítios dessa natureza na região. A Fazenda Caraíbas, localizada na área correspondente à atual cidade de São Lourenço do Piauí, também contemporânea à Fazenda São Victor e que constava na lista das fazendas abandonadas em 1809 em decorrência dos ataques dos Pimenteira, apresenta em sua configuração construtiva um exemplo desses muros de pedras (NEGREIROS, 2012). Este, denominado de “sítio histórico muro das Caraíbas”, foi escavado pela FUMDHAM no ano de 2007 (Imagem 22).

O sítio consiste na presença de montículos e de algumas estruturas em pedra onde se destaca uma barragem formada por duas paredes paralelas de blocos rochosos mediadas por um aterro de sedimentos e seixos. Em comparação ao que se conhece de vestígios arquitetônicos do passado na região, essa barragem é uma das mais grandiosas (NEGREIROS, 2012, p. 94).

Na escavação dos sete setores nos quais as estruturas foram divididas, evidenciaram-se uma cultura material diversificada, composta por materiais líticos, cerâmica, ossos, carvão, conchas, dentes, carapaças, além de verificarem que o alicerce da estrutura foi depositado na base rochosa, atingindo profundidade máxima de 1,80 metros (NEGREIROS, 2012).

Mesmo sem interpretações específicas acerca desse contexto, a configuração desses muros e sua localização denotam o represamento da água através do sistema de barragem, mais um dos mecanismos para se armazenar a água para a sobrevivência durante os longos meses de estiagem típicos de regiões semiáridas. Não há qualquer menção à autoria dessa construção.

Ainda sobre o muro da Lagoa de São Vitor, um dos questionamentos de nossa equipe e de membros mais novos da comunidade participantes da pesquisa era a extensão dessa construção, narrado pelos mais velhos como uma grande área delimitada por estas pedras. Pela dimensão do local, aproximadamente de um hectare (FUMDHAM, 2007), visualizar uma parede de pedras que circundasse todo esse espaço era algo além do imaginado por todos nós, inclusive os jovens e crianças.

Pensando nessa circunstância, realizamos uma atividade, no qual um membro mais velho da comunidade realizava a delimitação do percurso no qual o muro se desenhava. A partir de alguns pontos elencados pelo Sr. Andrelino Miranda que coordenou essa atividade, a equipe foi georreferenciando a partir do uso de um GPS de navegação, fotografando esses locais e anotando as informações obtidas durante o delineamento.

Como resultado, obtivemos um mapa da lagoa com a projeção da linha desse muro, como observamos a seguir (Imagem 23).

Imagem 22: Muro de Pedras do sítio Caraíbas.

Imagem 23: Projeção do muro de pedras em vermelho.

Para o Sr. Andrelino Miranda, o muro de pedras, quando presente na margem da lagoa contribuía para manutenção da umidade do terreno ao aprisionar a água, facilitando o cultivo de algumas árvores frutíferas na área que corresponde à vazante da lagoa. “Se chovesse em fevereiro, março... ela [água] ficava aí até abril, aí secava (...). Isso aqui, um aninho desse era vazante. Tinha manga, tinha laranja, tinha limão, tinha caju (...). Mas aqui sempre foi uma vazante” (ANDRELINO MIRANDA, comunicação oral, 2016).

De acordo com o Sr. Andrelino,

A cerca vinha até alí (...) e aqui era a saída, pros bichos beber e entrar. Aqui tinha essas pedras que você tá vendo, alí tem aquelas outras [aponta]. Lá no fundo, se tinha era, como se fosse pra pegar os bichos. Vaca pra botar chocalho, égua pra botar chocalho... e elas vinham beber aqui, que tava chei d‟água. É o “beco do Coronel (ANDRELINO MIRANDA, comunicação oral, 2016).

Tais estruturas demonstram a importância para a configuração e manutenção das atividades produtivas da fazenda, bem como aponta diretrizes para a compreensão do cotidiano escravista da região que, referendados pelos diálogos e relatos da comunidade, leva- nos a considerar a oposição de um sistema harmonioso para a prática da escravaria no sudeste do Piauí.

Já para a comunidade, as estruturas correlacionam-se com um sistema de pertencimento, quando da preservação dessa construção em decorrência de uma manifestação

coletiva resultante da luta de autorreconhecimento e identidade negra a partir da busca pela oficialização do território quilombola. O conteúdo exposto pelas disciplinas de História em sala de aula, narrados por professores da escola local, buscam realizar visitas ou pesquisas de memória e oralidade correlacionadas a esse ambiente, enfatizando a relevância desse “sistema” de ligação entre a comunidade e o espaço enquanto representação de uma identidade coletiva bem como dando “uso” ao sítio arqueológico, fortalecendo as relações de pertencimento.

4.5 Cemitério dos escravos

Este local, também denominado de “cemitério velho”, situa-se a norte da comunidade, distando cerca de 1 km e meio do centro do povoado, em uma região sem a presença de habitações em seu entorno imediato, à margem de uma das principais vias que levam à comunidade Lagoa de São Vitor, a estrada do Povoado Currais (Imagem 24). Os relatos sobre esse local aparecem espontaneamente em escassas entrevistas, exceto quando questionados sobre, aparentando-se mais presente na memória dos jovens que participavam da equipe, ao sempre mostrarem interesse em nos levar para conhecer o local, talvez guiados por um impulso de curiosidade.

Trata-se de um espaço de aproximadamente 76 m², tomado pela vegetação nativa, de difícil visibilidade do solo, no qual cerca de quinze arranjos de pedras dispersos no terreno sinalizam antigos enterramentos, popularmente chamados de covas rasas. Associados a esses pequenos montículos, nota-se a presença de cruzes e cercas de madeira que demarcavam tais locais. O principal elemento marcador dessa área é um único túmulo em alvenaria, pintado de branco, com uma cruz de ferro em uma de suas cabeceiras, sem qualquer identificação.

Sobre a antiguidade do cemitério, os próprios moradores estabelecem um parâmetro de “datação relativa” para o mesmo: sua própria memória. De acordo com o Sr. Andrelino Miranda, por exemplo, o mesmo não se recorda de algum enterramento que tenha sido realizado lá, o que denota a sua possível antiguidade, pois o “cemitério novo”, situado próximo a essa área, é o local mais recente que a comunidade guarda dos enterramentos de parentes e conhecidos.

O Sr. Claudio Marques nos conta que o cemitério possibilita estabelecermos, inclusive, uma datação para a própria fazenda, pois o mesmo explica que o túmulo de alvenaria presente no cemitério sempre foi relatado pelos mais antigos moradores da comunidade, neste caso, se idosos com aproximadamente cem anos de idade já narravam a presença desse túmulo, provavelmente ele deva pertencer a algum dos donos da fazenda São Victor, desse modo, tornando o local ainda mais antigo.

Para a comunidade, sem dúvidas, as estruturas em covas rasas estruturadas em pedras representam sepultamentos dos escravos da Fazenda São Victor, por apresentarem uma configuração simples e pela utilização de matérias-primas locais, opondo-se ao imponente túmulo mencionado, no qual intriga a todos os que dividem a opinião sobre a identidade de quem ali está sepultado.

Imagem 24: Localização e delimitação da área do cemitério.

PRANCHA 22: Detalhes do cemitério. A: Vista geral