Inúmeros desastres ocorridos no Brasil e no mundo são frequentemente destaques na mídia. Alguns registros envolvendo animais foram impactantes para o público em geral, comovendo e sensibilizando sobre a situação de animais circunscritos em desastres. O desastre relacionado ao furacão Katrina, em 2005, é um marco para a sensibilização do público norte-americano em relação aos animais, pois a cobertura midiática deu visibilidade aos animais domésticos que acabaram sendo forçadamente deixados para trás, o que acabou resultando na mudança da lei americana.
Um dos registros midiáticos marcantes de animais em desastres brasileiros, é a cena do resgate de uma senhora de cinquenta e dois anos que se agarrava ao seu cachorrinho enquanto tentava não ser levada pela enxurrada. A situação ocorreu em São José do Vale do Rio Preto, munícipio localizado na região serrana do Rio de Janeiro, afetada severamente em 2011. A
senhora está no telhado de um prédio, abraçada a seu cachorrinho, enquanto a correnteza das águas sobe e carrega todas as construções do entorno. Outras pessoas, em outro telhado, um pouco mais alto, jogam uma corda para que a senhora se agarre. O emocionante resgate não tem final feliz para o cachorrinho, pois a senhora não consegue segurá-lo enquanto luta por sua vida, tentando se agarrar na corda. Em um mergulho, a senhora emerge sem o cachorrinho nos braços. O acontecimento nos lança a questão sobre tecnologias de resgate disponíveis para humanos e animais. No caso, não era uma autoridade competente que realizou a retirada da senhora por corda, mas sim um morador local - que, na ocorrência de um desastre, são sempre os primeiros a fornecerem ajuda, muito antes do poder público chegar. Todavia, estarão as autoridades preparadas e equipadas para realizar resgates das diferentes espécies de animais?
A quantidade de artigos jornalísticos que abordam animais que se encontravam circunscritos em situações críticas nos mostra que a questão ganha espaço na mídia e a preocupação da sociedade. No Quadro 4 apresentamos um apanhado para ilustrar a afetação da população animal pelos mais diversos tipos de desastres.
Quadro 4 - Manchetes de artigos jornalísticos envolvendo animais em contexto de
desastres
Manchete Data Fonte
Animais são esquecidos em meio à cheia
do rio Acre na capital 06 março 2015 Redação da ac24horas
Doze pessoas morrem e animais fogem
de zoológico após temporal na Geórgia 14 junho 2015 O Estado de S. Paulo Homem usa ônibus para salvar mais de
100 cães de enchente no RS 21 julho 2015 G1 Rio Grande do Sul Morador só aceitou resgate quando pode
carregar junto os sete cães da família 20 julho 2015 ZH Notícias Refugiado sírio cruzou o mar
Mediterrâneo com seu gato no colo 11 setembro 2015 Redação RedeTV! Refugiados sírios fogem da guerra com
seus animais 11 setembro 2015
World Animal Protection Cachorro é abandonado por tutor durante
por outra pessoa
World Animal Protection está no México
avaliando o impacto do furacão Patricia 23 outubro 2015
World Animal Protection Cerca de 50 animais são resgatados em
tragédia em Bento Rodrigues
06 de novembro de
2015 Estado de Minas
Fonte: A autora.
Os acontecimentos relatados nos artigos nos dão indicativo que animais têm sido lembrados e incluídos nas ações dos tutores, mesmo em situações críticas e sem apoio institucional. Isso corrobora com a literatura do tema, que será explorada nos próximos capítulos, no que diz respeito à importância de animais serem incluídos em planos de contingência.
O desastre ocorrido no município de Ilhota-SC, em 2008, é um desastre em que, principalmente, animais de criação e de subsistência de pequenos produtores foram duramente afetados. Outro desastre relacionado às águas, ou no caso, à falta dela, foi a grande seca de 2012/2013 nos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Imagens marcantes desse período incluem o gado sedento, definhando, se amontoando com seus pares para aguardar a morte, como podemos ver na Figura 1.
Figura 1. A vegetação ressequida e o gado morto entremeiam-se no espaço desolado da seca de 2012/13. Vacas e bezerros estirados sem vida sobre a terra limitam também as possibilidades do
presente e do futuro do produtor familiar em Angicos/RN. Fonte: Norma Valencio, janeiro de 2013.
O caso mais recente de grandes proporções que podemos destacar é o desastre relacionado com o rompimento de barragens da empresa Samarco ocorrido em Mariana-MG na tarde do dia 05 de novembro de 2015. Nos primeiros dias após o rompimento, vídeos da lama se aproximando e inundando o distrito de Bento Rodrigues foram divulgados na internet e reproduzidos pelos canais de televisão. Em um deles, vemos um cachorro correndo tentando fugir da onda de lama que o vinha seguindo. Animais de grande porte, como cavalos e vacas foram vistos nos dias que se seguiram, atolados no meio da lama, sem que as autoridades permitissem a entrada de pessoas na área afetada, por causa do caráter movediço que a lama molhada tomou. Esses animais foram deixados ali mesmo, por dias a fio, segundo às autoridades, devido a dificuldades operacionais técnicas para se movimentar na lama e realizar o resgate. Entretanto, apesar da proibição da entrada de moradores na região, resgates noturnos escondidos aconteceram, como por exemplo, de uma cachorra que era carregada por moradores em um lençol e foi registrado pela mídia. Novamente, isso confirma a necessidade de se pensar nos animais e incluí-los em planejamentos, devido a possibilidade de retorno prematuro de tutores a áreas afetadas, caso os animais permaneçam sem ajuda.
Figura 2. Resgates de animais presos na lama em Mariana/ MG Fontes: Gazeta Minas, Bruno Bou, Exame e Catraca Livre.