desenvolvimento local
4.2 Projeto URBE e a construção de capital social
4.2.1 Formas estruturais de capital social
4.2.1.3 Regras e procedimentos
A existência de regras e procedimentos estabelecidos entre os indivíduos, assim como de
papéis e padrões de relacionamentos, na concepção de Uphoff (2000), facilita a ação coletiva,
justamente porque aumentam a previsibilidade do comportamento do outro.
Neste sentido, a análise deste caso aponta que, dentre os participantes do projeto URBE,
percebeu-se poucas regras e procedimentos formais. Quando questionados, a maioria dos
entrevistados hesitou e procurou lembrar-se de algo que pudesse ser considerado uma regra ou
um procedimento, demonstrando a baixa formalização dos mesmos.
Em contrapartida, havia mais regras e procedimentos informais como as regras de
convivência, as quais foram as mais lembradas. Tais regras e procedimentos foram observados,
principalmente, em dois momentos relacionados com processos decisórios, ou seja: nas reuniões
do Coletivo URBE e nas dos grupos de Comunicação e Interlocução, momentos em que se
reuniam as entidades e as lideranças, respectivamente, com o SEBRAE.
a) Coletivos URBE
No que diz respeito às reuniões do Coletivo URBE, certas regras e procedimentos
acontecimentos e dos resultados dos trabalhos na comunidade. Em relação ao primeiro, as ONG’s
e o SEBRAE, como visto, apresentaram formas de pensar e de trabalhar diferentes, com
metodologias de intervenção distintas. O respeito a essas diferenças, lembrado nas entrevistas,
remete ao fato de que as regras e procedimentos de cada uma das entidades estavam sendo
considerados por serem entes autônomos e ciosos de seus espaços, mesmo quando atuando em
conjunto.
Por isso mesmo, a troca de informação foi vista não apenas como objetivo das reuniões do
Coletivo URBE, mas como fruto de um “acordo” entre os representantes das instituições
participantes. Isso porque o andamento e resultado dos trabalhos interessavam não somente ao
SEBRAE e ao URBE, mas a todas as entidades, visto que permitiria potencializar e aproveitar as
ações umas das outras em prol das suas próprias intervenções.
Entretanto, admitiu-se ter havido “falhas” nesse processo de trocar informações, ou seja,
momentos em que entidades não cumpriram o “acordo”, mas nada que pudesse provocar a
ruptura da parceria. Foi relatado pelo SEBRAE que,
[...] em determinados momentos tiveram instituições que fizeram determinadas ações, tomaram iniciativas que a gente ficou à revelia, soube depois, mas sempre conversando, se entendendo, a gente contornou. [...] houve erros, houve falhas na comunicação, no cumprimento integral das regras. Mas nada que tivesse provocado um distanciamento ou que destruísse a parceria (Entrevista, 02/09/2005).
O comparecimento às reuniões do Coletivo URBE constituía em si mesmo uma regra
entre as entidades participantes. A presença e a participação de cada uma das instituições eram
requeridas por todas, pois elas pareciam interessadas nas informações a serem ali transmitidas.
Até porque, as faltas não eram vistas com “bons olhos”, digamos assim. Nesse quesito, a
representação da PCR/SDE foi muito solicitada, visto que era o principal momento para se obter
dele. Levantou-se, em relação a esse ponto, a importância do papel do SEBRAE em trazer a PCR
por meio dessa Secretaria para as reuniões devido, principalmente, à existência do Protocolo de
Intenções firmado entre estas duas entidades. Porém, embora tenha participado mais
assiduamente no primeiro ano de implementação do projeto, como lembrou um dos entrevistados,
no segundo ano teve sua presença bastante enfraquecida. De acordo com o representante da SDE,
tais ausências se deram devido às mudanças de representantes deste órgão no acompanhamento
do projeto URBE.
Foram observadas, ainda, algumas regras relacionadas ao tempo de fala de cada
representante das instituições durante as reuniões, agendamento de horários e datas das próximas
reuniões, que eram sempre estabelecidos no encontro anterior, incluindo o revezamento do local
do encontro proposto pelos participantes. Pelo visto, os Coletivos URBE tinham um
procedimento – ou um ritual facilitador da sua dinâmica – para se realizar, decorrente de sua
própria prática e construção pelos participantes.
Realmente, contando com a mediação da Coordenadora do Projeto nas reuniões,
primeiramente, todos os participantes se apresentavam, desde que, no encontro, estivesse presente
alguma instituição convidada, o que dependia do interesse e do assunto tratado naquele momento.
A Coordenadora informava sobre resultados de negociações relativas ao projeto realizadas entre
o SEBRAE e outras organizações. Em seguida, eram passadas as informações sobre a intervenção
na comunidade de cada uma das entidades. Percebeu-se que todos os participantes recorriam a
registros e à anotações para que nada relevante deixasse de ser transmitido, facilitando o
cumprimento dessa regra que, conseqüentemente, organizaram e dinamizaram os encontros. Com
isso, novos fatos eram trazidos, resultados de buscas de informações e de iniciativas realizadas
b) Grupo Interlocutor e Grupo de Comunicação
Entre os membros dos grupos formados na comunidade – o Interlocutor e o de
Comunicação – foi feito um acordo informal de convivência importante, discutido e estabelecido
pelos seus participantes para o bom desenrolar das reuniões, ou seja: a) o cumprimento do
horário; b) a presença participativa em todas as reuniões; c) o respeito ao próximo; d) a união; e)
o compromisso com responsabilidade; e f) a delegação de tarefas.
De fato, o cumprimento de horário foi a regra mais citada dentre as lideranças, embora
tenha sido uma das mais burladas pelos participantes. O respeito ao próximo, a união e o
compromisso com responsabilidade também foram lembrados nas entrevistas. Não obstante ter
sido observada a ocorrência de conflitos entre alguns participantes, acredita-se que os mesmos
não foram suficientes para comprometer valores como união ou compromisso com
responsabilidade.
A delegação de tarefas, na organização de oficinas e eventos, foi algo que, de acordo com
a Consultora de Campo, funcionou bem, inclusive com a exposição das atividades a serem
desenvolvidas pelas comissões num quadro: “havia um quadro grande na sala onde havia um
planejamento do revezamento para que todos passassem por todas as comissões – divulgação,
planejamento e a de animação” (Entrevista, 03/09/2005).
A regra deste acordo de convivência que teve seu cumprimento mais comprometido foi a
presença participativa em todas as reuniões. Isto se deu em função de o Grupo Interlocutor ter
assumido um caráter de significativo revezamento da presença dos participantes, resultando num
pequeno número de pessoas que as freqüentava de forma assídua. Estas últimas, na opinião de
algumas lideranças, eram aquelas que “acreditavam no encontro” (Entrevista, 03/08/2005).
Embora Uphoff (2000) não considere a necessidade de formalização dos papéis, regras e
construídos, é necessário, de acordo com o autor, que eles suportem quatro funções básicas da
ação coletiva: a) tomada de decisão, por meio do planejamento e da avaliação do grupo; b)
mobilização e a administração dos recursos; c) comunicação e coordenação; e d) resolução de
conflitos. Diante disso, pode-se inferir que as regras informais estabelecidas facilitaram a tomada
de decisão coletiva e a coordenação dos esforços. Serviram também para apoiar o fluxo de
comunicação. No que diz respeito à resolução dos conflitos, percebeu-se que as regras
identificadas não foram suficientes para eliminar as divergências existentes, talvez por não terem
sido tratadas de maneira explícita nas reuniões e entre todos os atores.
4.2.1.4 Precedentes
Os precedentes ou antecedentes são também elementos importantes para facilitar a ação
coletiva e agregam experiências anteriormente vividas pelos membros de um grupo. Entende-se,
com base em Uphoff (2000) que, uma vez que alguém participou de um trabalho coletivo e
percebeu resultados positivos, tenderá a participar outras vezes fazendo ações que também
beneficiem outras pessoas.
Como era esperado, identificou-se que as ONG’s e o SEBRAE tinham o hábito de
desenvolver seus programas e projetos em parceria com outras instituições. Até hoje, o SEBRAE
incentiva o estabelecimento dessas relações, pois proporcionaram à continuidade e o progresso
das ações conjuntas, a exemplo do que acontece no interior do Estado de Pernambuco.
Da mesma forma, as ONG’s também sempre estabelecem parcerias no desenvolvimento
dos seus programas com a perspectiva de dividir esforços e riscos, fortalecer ações e otimizar
onde a gente puder trabalhar no coletivo para nós é mais importante” (Entrevista, 19/03/2005).
Além disso, “a experiência é enriquecedora e ela se consolida” (Entrevista, 12/03/2005).
Dentre os líderes comunitários entrevistados, percebeu-se tais precedentes no próprio
trabalho dos Jovens Empreendedores e na participação em trabalhos coletivos como os mutirões.
Em relação aos Jovens Empreendedores, cabe observar que uma peça a ser produzida é feita por
vários artesãos em conjunto, ou seja: selecionar o material (material reciclável, madeira), cortar a
madeira, cortar os azulejos, desenhar a arte, montar os mosaicos, pintar etc. Sendo assim,
“quando tinha uma encomenda, juntava todo mundo para terminar” (Entrevista, 03/08/2005).
Além disso, a própria reforma, limpeza e pintura da casa, sede dos Jovens Empreendedores, foi
resultado de uma ação coletiva que reuniu alguns membros considerados hoje lideranças
comunitárias e participantes do projeto URBE.
No caso dos mutirões, os relatos remetem à construção de casas para moradores da
comunidade, inclusive a sede da União dos Moradores; à retirada de garrafas “pet” do rio
Capibaribe ajudando na despoluição do mesmo; e a trabalhos no campo na limpeza de roças
como a prática chamada de adjunto, no interior. Todos demonstraram ter sido válida a
experiência, reconhecendo os benefícios trazidos pela Ação Coletiva Mutuamente Benéfica. Um
exemplo vem a ser este depoimento de uma das lideranças entrevistadas:
[...] a partir do momento que a gente não tem dinheiro para pagar e as pessoas se oferecem para ajudar, eu acho que une até mais os moradores, porque eles estão vendo a dificuldade que você tem, tá vendo que você é importante e capaz de ajudar. Então, um carregava os tijolos, um cortava a madeira e várias casas foram feitas assim (Entrevista, 02/08/2005).
Nesse sentido, pode-se inferir que as experiências anteriores, indicativas de indivíduos
que atuam cooperativamente, explica, em grande parte, porque estas lideranças persistiram
entre esta e outras entidades. A percepção dos benefícios comuns trazidos por estas experiências,
é fundamental para suportar futuras Ações Coletivas Mutuamente Benéficas (UPHOFF, 2000).
As próximas seções procuram focalizar o capital social cognitivo identificado dentre os
atores relevantes durante a implementação do projeto URBE.