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5 REGULAÇÃO ECONÔMICA DOS SETORES DE SANEAMENTO,ENERGIA

5.2 REGULAÇÃO DO SETOR DE GÁS NATURAL

5.2.2 Regulação do biogás e do biometano no Brasil

Em janeiro de 2015, a ANP promulgou a Resolução ANP n° 8/2015, que estabelece especificações para o biometano de origem nacional, conforme Regulamento Técnico n° 1/2015 anexado ao mesmo documento, também aprovado como parte integrante dessa Resolução. Em seu artigo 3º, inciso II, o biometano foi definido como biocombustível gasoso, constituído basicamente de CH4, derivado da

purificação do biogás (BRASIL, 2015). Dentre as disposições contidas nessa Resolução, destacam-se:

 determinação de regras de uso e de controle de qualidade do biometano;

 proibição da comercialização do biometano que não atenda às especificações providas no Regulamento Técnico;

 permissão para que o biometano seja misturado ao gás natural, desde que atenda às especificações contidas no referido Regulamento Técnico;

 exigência quanto ao teor mínimo de gás CH4 contido no biometano (96,5%

mol) para todas as regiões nacionais, exceto para a Região Norte (Urucu)64. Essa Resolução exige que esses cuidados sejam também dispensados ao gás natural, atendendo os mesmos requisitos na compressão, distribuição e revenda. Assim, esse combustível pode ser comercializado com garantias de qualidade equivalentes às do gás natural, o que significa dizer que é possível injetar o biometano nas redes de gás, ou ofertá-lo em postos de abastecimento como GNV. Com relação à injeção na rede de gás, ao contrário da rede elétrica que é bem desenvolvida no País, as redes de transporte de gás natural no Brasil concentram-se mais nas regiões costeiras e nos grandes centros urbanos, conforme já apresentado na Figura 26. Essa dificuldade de acesso limitou a entrada de gás natural nas regiões interioranas, possível somente por meio de transporte rodoviário, altamente custoso, de gás natural comprimido (GNC) ou de GNL.

A realidade observada na Figura 26 limita o uso dessa fonte de combustível no Brasil, pois a distribuição dos gasodutos não é acessível a grande parte do território nacional, principalmente ao interior do País. Por outro lado, segundo o Projeto Brasil- Alemanha de Fomento ao Aproveitamento Energético de Biogás no Brasil (Probiogás) (2016), esse combustível também pode ser gerado de forma descentralizada, obtendo melhores usos65. Nesse cenário, o biometano apresenta- se como “[...] excelente oportunidade de interiorização do gás natural para estados onde a pecuária, a suinocultura e a avicultura estejam bem desenvolvidas, caso dos Estados da Região Sul” (AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS, 2013, p. 3). Entretanto, o biogás oriundo dessas atividades não constitui objeto de estudo desta pesquisa.

Enquanto ainda se observa dificuldade de acesso às redes de gás natural no Brasil, pode-se aproveitar o biometano para outros fins, como secagem e moagem de grãos, aquecimento de granjas, abastecimento de veículos leves e pesados para

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A especificação de 90,0 a 94,0% mol de metano deve ser seguida somente nas localidades da Região Norte abastecidas pelo gás natural de Urucu (BRASIL, 2015).

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Segundo Germany Trade and Invest (2012), a Suécia também dispunha de uma baixa cobertura de gasodutos, mas conseguiu produzir uma elevada quantidade de biometano de forma descentralizada, gerando 1.473GWh no ano de 2011, metade da qual (50%) foi utilizada como combustível veicular, disponibilizado em 155 postos de abastecimento.

produção, bem como operações produtivas que não necessariamente precisam envolver a rede de gasodutos ou energia elétrica gerada nas grandes centrais, por meio de linhas convencionais. Pelo contrário, essas operações podem valer-se de energias e combustíveis gerados no local com os próprios resíduos orgânicos resultantes dessas atividades.

Relativo à questão regulatória, embora tenha representado um importante passo para o setor, a Resolução n° 8/2015, logo em seu artigo 1°, parágrafo único, restringiu o uso de biometano oriundo de RSU, liberando apenas o derivado dos resíduos orgânicos agrossilvopastoris e comerciais. De acordo com a Resolução n° 21/2016, permite-se somente a utilização do biometano de RSU em caráter experimental. Isso significa que o biometano de RSU é um combustível ainda não especificado pela ANP.

Obviamente, tal medida favoreceu ainda mais a aplicação do biometano oriundo de produtos e resíduos de atividades agrícolas, conforme mencionado, o que promoveu os setores do agronegócio e sucroenergético brasileiros e os demais negócios associados a essas cadeias de produção, deixando limitada a aplicação da fração orgânica de RSU para esse fim, restrita à utilização de resíduos orgânicos agrossilvopastoris como matéria-prima.

De acordo com a Nota Técnica ANP nº 157/2014, definiu-se dessa forma por que o biometano originado em aterros sanitários e esgotos é fonte que admite compostos voláteis denominados siloxanos em sua composição. Conforme explicado no Capítulo 4, siloxanos são contaminantes que podem causar incrustações nas tubulações e outros prejuízos. Essa Nota Técnica também destaca a inexistência de consenso sobre o teor máximo admissível para tais contaminantes no biometano. No entanto, em maio de 2016, considerando a necessidade de estabelecer regras para os agentes envolvidos no uso de combustível experimental e suas misturas, o órgão regulador federal promulgou a Resolução ANP n° 21/2016, que, em seu artigo 1°, sujeita a autorização prévia o uso de combustíveis experimentais em todo o território nacional.

Embasado no artigo 4º da Resolução ANP n° 21/2016, o biometano oriundo de RSU pode ser utilizado na condição de se comprovar sua viabilidade técnica e ambiental, além de se monitorar a emissão de gases nocivos por meio de um projeto a ser

aprovado por órgão ambiental competente. Na sequência, no artigo 5º da Resolução, dispensa-se a autorização para o uso de biometano de RSU e de estação de tratamento de esgoto em equipamentos industriais. Assim dispõem esses artigos:

[...]

Art. 4º. A autorização de que trata o artigo 1º desta Resolução, para o biometano oriundo de resíduos sólidos urbanos, fica condicionada à comprovação de sua viabilidade técnica e ambiental e com a implantação de programa de monitoramento de emissão de gases tóxicos aprovado pelo órgão ambiental, nos termos do art. 9º da Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010.

Art. 5º. Fica dispensada a autorização de que trata o art. 1º para utilização de biometano oriundo de resíduos sólidos urbanos e de estação de tratamento de esgoto em Equipamentos de Uso Industrial, sem prejuízo do disposto nos artigos 3º e 4º desta Resolução (AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS, 2016).

O artigo 5º da Resolução esclarece que, embora ainda não liberado para injeção na rede de gás, o biometano de RSU não necessita de autorização da ANP nos casos de utilização em equipamento de uso industrial66, o que abre mais um leque para seu aproveitamento em face da restrição relativa aos RSU.

A Nota Técnica ANP nº 157/2014 também esclarece que, no caso de uso em equipamentos industriais, como na geração de energia elétrica, térmica ou outra, não há necessidade de “uso experimental” e “específico”, porque as partes envolvidas são capazes de avaliar os riscos inerentes ao processo, não havendo, portanto, assimetria de informação que justifique a intervenção regulatória, até mesmo por já existirem instalações operando sem que as partes envolvidas tenham solicitado a ação da ANP e sem prejuízo para os consumidores finais, que são objetos da ação da ANP. Assim, foi proposto o uso experimental e específico, veicular e residencial, “[...] por se tratar de uma aplicação mais sensível aos diferentes contaminantes presentes no biometano obtido dessas fontes e para proteger o consumidor final" (AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS, 2014, p. 9).

Em resumo, apesar de o biometano de RSU ainda estar restrito ao uso experimental, havendo esclarecimento das possibilidades técnicas de remoção dos contaminantes

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De acordo com o artigo 11 da Resolução ANP n° 8/2015 e do artigo 1° da Resolução ANP n° 21/2016, fica sujeito a autorização apenas se o consumo mensal for superior a 10.000 litros para combustíveis líquidos e a 10.000Nm³ (a 20ºC e 1atm) para combustíveis gasosos.

mencionados, além da constatação de parâmetros utilizados nas unidades que mensuram essas características no exterior, é possível que a ANP aprimore a regulação para esse produto (AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS, 2014, p. 9).

Enquanto isso, o uso do biometano agrossilvopastoril pode ser incentivado até o ponto em que essa prática já não seja mais tão incipiente no Brasil e, uma vez liberado o uso por meio da fonte de RSU, seja possível comercializar esse produto em grande escala. Soma-se a isso, a obtenção de ganhos de eficiência nos setores associados.

Nesse sentido, cabe reforçar que o biometano pode resultar em ganhos de escala se unido ao gás natural. No caso do Espírito Santo, por exemplo, para incentivar esse tipo de uso, o Decreto nº 3.453-R/2013 permite à Distribuidora a compra de biometano para ser misturado ao gás natural canalizado. Este assunto será tratado de forma mais aprofundada no item a seguir, uma vez que representa o objeto de estudo desta pesquisa.