A auto-regulação tem como objetivo uma gestão ambiental proativa, resultante das constantes transformações econômicas provocadas pela globalização na produção e no consumo, numa nova concepção das empresas competitivas de que os gastos com proteção ambiental são investimentos para o futuro, bem como pela necessidade de atender consumidores cada vez mais exigentes quanto à qualidade dos produtos e ambiente cada vez mais limpo.
Segundo Sanches (2000, p.77)
[...] a auto-regulação representa iniciativas das organizações para empreender e disseminar práticas ambientais que promovam uma maior responsabilidade [...] quanto às questões ambientais, mediante a adoção de padrões, monitorações, metas de redução da poluição.
Sobre a regulação e auto-regulação ambiental9, Porter e Linde (1999), citados por
Barbieri (2006), introduzem na abordagem a regulamentação10 como mola propulsora para
estimular o surgimento de inovações, reduzir custos ambientais e permitir o uso racional dos recursos naturais. Nesse âmbito, Porter e Linde (1999) apontam algumas vantagens desse mecanismo de regulamentação, dentre os quais destaco resumidamente:
• pressiona as empresas a realizarem inovações;
• melhora a qualidade ambiental da empresa;
• educa as empresas nas ações preventivas e indica as áreas potenciais para melhorias;
• aumenta a probabilidade de que as inovações introduzidas para produtos e processos considerem o aspecto ambiental;
9 Auto-regulação ambiental: representa iniciativas tomadas pelas empresas para empreender e disseminar
práticas ambientais que promovam uma maior responsabilidade quanto às questões ambientais, mediante a adoção de padrões, monitoramento e metas de redução da poluição (SANCHES, 2000).
10 Regulamentação: instrumento que estabelece regras de comportamento ambiental para a empresa, visando
reduzirem impactos e inovar em tecnologias que contribuam para o desempenho ambiental favorável, garantindo competitividade e proporcionando benefícios ambientais e financeiros.
• cria demanda pelo aprimoramento ambiental, e
• assegura que nenhuma empresa seja capaz de ganhar posição sem realizar investimentos na área ambiental.
A regulamentação ambiental tem papel preponderante na empresa, bem como a regulação, sendo que essa requer ação do poder público e encontra-se pautada em política pública ambiental.
Esse tema também vem sendo tratado por Agra Filho et al. (2003), que destacam a importância da regulamentação ambiental na empresa, com vistas a conquistar maior ecoeficiência, e garantir ganhos ambientais e econômicos para a empresa.
Essa regulamentação é fortalecida pela regulação ambiental, responsável pela definição de políticas públicas, entendidas como um “conjunto de objetivos, diretrizes e instrumentos de ação que o Poder Público dispõe para produzir efeitos desejáveis sobre o meio ambiente” (BARBIERI, 2006, p.60). Destacam-se, neste estudo, os instrumentos de gestão ambiental de comando e controle, econômicos e de autocontrole, conforme comentados a seguir.
O comando e controle são exercidos pelo poder público, que tem a atribuição de licenciar, fiscalizar e punir aqueles que cometem infrações11 às leis, decretos, resoluções,
regulamentos e padrões normativos de uso dos recursos ambientais. Esse sistema é criticado por Barbieri (2006) devido à pressão que exerce sobre o Estado, e o aparato institucional dispendioso necessário para garantir sua eficácia.
Barbieri (2006) indica que os instrumentos econômicos de gestão ambiental podem ser de tipo fiscal ou de mercado.
11 Infração: toda ação ou omissão, voluntária ou involuntária, que resulte em risco de poluição ou degradação do
meio ambiente; a efetiva poluição ou degradação ambiental; e, a emissão, lançamento ou liberação de efluentes líquidos, gasosos ou resíduos sólidos, em desacordo com os padrões estabelecidos, e/ou que tornem ou possam tornar ultrapassados os padrões de qualidade (Decreto Estadual nº 7.967, de 5 de junho de 2001 – BAHIA, 2001a).
permissões transferíveis que podem ser negociadas, podendo o governo estabelecer um nível fixo de poluição em determinada área, cuja quota pode ser negociada entre empresas com atuação num mesmo local.
Interessante também destacar Bursztyn e Bursztyn (2006), que chamam atenção de já ter tido início no Brasil à adoção de instrumentos econômicos para enfrentamento da problemática ambiental, por ser reconhecido pelo Estado as suas limitações em realizar uma gestão eficaz dos recursos ambientais.
O autocontrole ambiental é previsto na legislação do Estado da Bahia, Decreto Estadual nº 7.967, de 5 de junho de 2001, artigo 209, que dispõe:
Instituições públicas ou privadas, utilizadoras de recursos ambientais ou consideradas efetiva ou potencialmente degradadoras, deverão adotar o autocontrole ambiental, por meio de práticas e mecanismos que minimizem, controlem e monitorem os impactos ambientais resultantes da atividade e que visem a melhoria contínua de seu desempenho ambiental e do ambiente de trabalho (BAHIA, 2001a). Entende-se que preservar o meio ambiente é dever de todos, cabendo às empresas públicas e privadas internalizarem o autocontrole ambiental, envolvendo os colaboradores, de modo a gerenciar os impactos ambientais inerentes às suas atividades.
O instrumento de autocontrole ambiental exige uma abordagem gerencial sustentável nas grandes organizações empresariais, em freqüente interlocução com a sociedade, buscando transmitir aos seus investidores, empregados e clientes, a credibilidade de sua atuação, a sustentabilidade no seu meio.
A implementação do autocontrole ambiental se dá pela criação de Comissão Técnica de Garantia Ambiental (CTGA), conforme artigo 210 do mesmo decreto estadual, que estabelece a obrigatoriedade e responsabilidade no gerenciamento desta ferramenta, assim descrita:
Para a implementação do autocontrole ambiental deverá ser constituída, nas instituições públicas e privadas, que desenvolvam atividades sujeitas ao licenciamento ambiental, a Comissão Técnica de Garantia Ambiental (CTGA), que tem por objetivo coordenar, executar, acompanhar, avaliar e pronunciar-se sobre os planos, programas, projetos e atividades potencialmente degradadoras desenvolvidos no âmbito de sua atividade (BAHIA, 2001a).
É necessário avaliar sistematicamente as políticas públicas vigentes, com vistas a verificar a sua compatibilidade com as novas tecnologias e fazer avançar as práticas em gestão ambiental para alcance de um modelo voltado para o desempenho ambiental responsável.
Gestão ambiental, segundo Bursztyn e Bursztyn (2006, p.85), é definida como “um conjunto de ações que envolvem políticas públicas, o setor produtivo e a comunidade, com vistas ao uso sustentável e racional dos recursos ambientais”.
Nessa perspectiva Azevedo (2006) indica a necessidade de a política ambiental tratar das questões de governabilidade, crenças e valores ambientais, definição de recursos financeiros específicos, sincronia entre esferas de governo, como também, entre governo e sociedade, incentivos econômicos para o ambientalmente correto, além da definição de infra- estrutura operacional adequada.
Complementando, Bursztyn e Bursztyn (2006) citam que os pilares fundamentais dessa política devem estar alicerçados numa legislação ambiental sólida; em instituições públicas fortalecidas, que permitam a coordenação e a implementação dessa legislação; e na legitimidade social, que se traduza em apoio da população.
Fortalece esse entendimento Viana, Silva e Diniz (2001), quando apontam o desenvolvimento sócio ambiental como alternativa de política sustentável, e indicam que o mesmo deve estar pautado no fortalecimento das organizações sociais; na manutenção da capacidade de carga dos ecossistemas mediante a conservação dos recursos naturais
políticas de interesse da sociedade, especificamente aquelas que regulamentam a política socioeconômica e ambiental do estado.
Nesse contexto, Bursztyn (1993) apresenta uma série de fatores que comprometem e limitam as ações da administração pública no âmbito ambiental, em decorrência do crescimento do setor na estrutura governamental, e consequentemente dos problemas que comprometem a eficácia da gestão ambiental, conforme relacionado abaixo:
- degeneração das instituições públicas (o Estado incapaz de criar instituições públicas fortes, sólidas, que assegure a implementação de medidas ambientais de comando e controle, e dos instrumentos econômicos);
- cultura burocrática do aparelho de Estado (a área ambiental possui especificidades devido suas ações ultrapassarem competências em outros setores na execução da política de meio ambiente, provocando oposições burocráticas);
- fragilidade dos instrumentos e à carência de meios (dificuldades em aplicar na política ambiental os instrumentos econômico ou normativo, por parte dos organismos governamentais e do setor produtivo), e
- problemas de natureza política (ATRATIVIDADE, riscos de transformar a área de meio ambiente num vetor de transferência de verbas sem garantias dos critérios ambientais; VISIBILIDADE, desvio das atenções das questões ambientais do fim para os meios;
12 Mão invisível: voltada para hegemonia de mercado sobre o Estado, regulando os sistemas econômico-sociais
BANALIZAÇÃO: necessidade de esclarecimento ao povo sobre os jargões e conceitos ambientais, uma vez que a maioria da população os utiliza, mas desconhece seu significado).
Nesse contexto, interessante a posição de Azevedo (2005), quando indica que o interesse público não deve ser monopólio do Estado e que este não deve ter papel controlador, mas de liderança legitimada pela sociedade civil e interesses privados.
O entendimento sobre o papel do órgão executor da política ambiental do Estado como liderança e não apenas como controlador vem sendo posto em prática pelo CRA, ainda que timidamente mediante o exercício da co-responsabilidade na gestão ambiental, o que proporciona maior comprometimento das empresas com sua atuação ambiental e incentiva a busca pela sustentabilidade das suas atividades, o que resulta em melhoria no desempenho ambiental.
Outra ferramenta que deve ser registrada é o Programa de Atuação Responsável, adotado voluntariamente por empresas privadas, visando viabilizar soluções para os problemas ambientais pró-ativamente, dentro de um processo de melhoria contínua e uma visão sistêmica da organização, constituída por cinco elementos, conforme Cagnin (2000):
• princípios diretivos: declaração de propósitos, na qual as empresas que aderem ao programa estabelecem os princípios para atingir os objetivos propostos;
• códigos gerenciais: constituem em padrões de desempenho que devem ser atingidos pelas empresas participantes, no âmbito de segurança dos processos, saúde e segurança de seus funcionários, prevenção dos riscos ambientais, transporte e distribuição de seus produtos e atendimento de emergências;
• conselho comunitário consultivo: estabelece as regras de convivência da indústria com a comunidade;
• grupos de liderança executiva: participa desse grupo a alta direção da empresa que visa avaliar e identificar áreas que necessitam de suporte, e
ambientais, indicando alternativas legais preventivas para evitar ou minorar os impactos sobre o meio ambiente e viabilizar uma gestão pautada no gerenciamento dos passivos e valorização dos ativos ambientais.
Existe similaridade entre o programa de atuação responsável com o instrumento de autocontrole ambiental quanto ao comprometimento empresarial, uma vez que tanto as empresas da indústria química como de outro ramo de atividade, exigem a inclusão no seu processo produtivo de mecanismos de controle ambiental.
O capítulo seguinte analisa a certificação ambiental, enquanto instrumento de auto- regulação, contemplando o seu histórico, requisitos normativos e processo de implementação.