4 PANORAMA HISTÓRICO SOBRE A REGULAMENTAÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO E OS DOCUMENTOS IMAGÉTICOS: UM EXEMPLO
4.2 Salvador e o desenvolvimento da normativa para a construção urbana
4.2.2.1 Regulamentação da altura e recuo dos edifícios
A regulação de interferência entre edifícios vizinhos, quanto aos limites de altura, surgiria explicitamente na legislação de Salvador no Código de Posturas de 1920. As restrições de altura inevitavelmente configuram um controle estético, mas seus argumentos mais comuns são propiciar relação equilibrada entre o adensamento populacional nas áreas mais valorizadas das cidades, ou preservar a
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155 salubridade no espaço urbano. Nesse Código de 1920, Capítulo VIII, são estabelecidos limites mínimos e máximos de altura dos edifícios, no entanto, os parâmetros restritivos aparecem apenas em 1926, na Lei 1146. A Postura 56 limita a um pavimento os edifícios que estivessem em ruas de largura inferior a cinco metros. A Postura 29 proibia prédios de apenas um pavimento na área central - Av. Sete de Setembro, Monsenhor Theodolindo, Rua Chile, Rua da Misericórdia, Rua da Lapa, Rua da Graça, Rua Visconde do Rio Branco - sem, contudo, propor limites máximos, enquanto permitia que àqueles localizados à Rua das Princesas, Rua da Alfândega, Cais Miguel Calmon e Praça Marechal Deodoro tivessem até vinte metros, criando-se, assim, a tradição de verticalizar a região central da parte baixa da cidade. A reforma urbana do centro de Salvador, entre 1912 e 1916, alargara as ruas dessa região densamente habitada da cidade. A restrição à construção térrea em ruas que fizeram parte desse projeto - Rua Chile, Rua da Misericórdia, Av. Sete de Setembro -, e demais áreas da cidade alta, coaduna-se com o momento de valorização dos lotes, densidade da população na área e com o desejo de modernizar a cidade também pela nova arquitetura eclética, o que favorecia edificações com mais de um andar38.
Na Lei 1146/26, destaca-se a divisão da cidade em quatro zonas - central, urbana, suburbana e rural -, e as ressalvas quanto às alturas e os recuos para a zona central e urbana. No Título I, Seção III, proibia-se a construção com recuos na zona central enquanto para a zona urbana o recuo mínimo deveria ser de quatro metros. No Título II, Seção II, estabelecia o mínimo de cinco metros de altura para os edifícios contíguos ao alinhamento da rua e condicionava os limites superiores pela sua largura - para ruas de até nove metros de largura, a altura limite poderia ser duas vezes maior; para ruas entre nove e doze metros, a altura limite poderia ser duas vezes e meia maior; para ruas com largura acima de doze metros, a altura limite poderia ser três vezes maior. Nas esquinas, tomar-se-ia a maior medida de rua. Alturas maiores poderiam ser analisadas em função de recuos, os quais, somados à largura da rua deveriam ser de nove, doze ou quinze metros. Alinhando- se as duas determinações, conclui-se que na região hoje considerada área de
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Sob os argumentos de salubridade, fluidez e estética, a reforma de Seabra, inevitavelmente, valoriza o solo da região afetada, que passa a ter nova rede de instalações e infraestrutura para circulação dos bondes, fazendo com que a população pobre residente até então migre para as novas áreas populares construídas (CF. PINHEIRO, 2002, P. 224-254).
preservação rigorosa no centro da cidade, cujas ruas em rara situação superaram os 12 metros de largura, as edificações sem recuo poderiam chegar aos 12,5 metros de altura. Na Seção III, o tema é a iluminação e a ventilação, na qual se pode verificar que a salubridade dos espaços também condiciona as alturas e recuos, quando se estabelece quantas horas de sol que deveriam receber as vias públicas nos dias de solstício de inverno, a fim de que um edifício não impedisse a insolação mínima para seu vizinho, de meia hora para as vias existentes e de duas horas e meia para as que fossem abertas futuramente; quando se tratasse de divisão dos lotes em uma quadra, o proprietário deveria assegurar afastamentos para a obtenção de três horas de insolação, no mínimo.
O zoneamento proposto no Decreto-Lei 701/48 delimita os setores, acompanha a ideia difundida pela Carta de Atenas, mas não define o gabarito para a altura dos edifícios. A Lei 1855/66 amplia e subdivide alguns setores, no Título II, capítulo I. No capítulo II dessa Lei, rompe-se com a definição da altura máxima para adotar-se a relação entre a taxa de ocupação e o coeficiente de utilização, ao impor recuos progressivos à medida que se ultrapasse determinadas cotas. Essa Lei regulamentava também as “galerias públicas”, fixava alturas mínimas para essas, as quais variavam de setor a setor, tornando-se um padrão estético que se impôs nas ruas do centro da cidade, o qual se repete na Lei 2403/72. A regulamentação da altura abandona a relação com a largura da rua e passa a atender aos projetos políticos preocupados em aumentar o rendimento dos terrenos em áreas de grande valorização. Na Lei 2403/72, a área central da cidade chega à taxa de ocupação de 90% com um coeficiente de utilização igual a oito e, assim, firma-se a tendência de não fixar-se altura máxima, como atualmente acontece para regiões externas às áreas de borda da cidade.
A normatização da altura e dos recuos é um meio indireto de construir a volumetria na paisagem e contribuir, intencionalmente ou não, para a caracterização estética de uma rua. Tratando-se das leis mais recentes, as quais apresentam amplas diretrizes para o desenvolvimento urbano, Lei 3.377/84 - LOUOS, Lei 6.586/2004 - PDDU 2004 e a Lei 7.400/2008 - PDDU 2008, o gabarito de altura é estabelecido apenas para a “Área de Borda Marítima” e para áreas adjacentes àquelas classificadas como “Área de Proteção Rigorosa”. Apenas na Lei 6.586/2004 justifica-se que os limites de gabarito estabelecidos têm a finalidade de preservar a paisagem e possibilitar a “aeração da porção continental do Município”.
157 Figura 49 – Localização em um mapa atual das ruas39
, no qual o Código de Posturas de 1920 permitia altura de 20m. Mapa: Google Earth.
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R. das Princesas se torna R. Portugal pela Resolução 561/1922 (Cf. Actos do governo do município da Capital). Demais nomes antigos obtidos por referência exata ou por aproximação, conforme a Listagem de Logradouros por RA, cedido pela SIFI/ COINF/ SEDHAM/ PMS, em fevereiro de 2012.
Figura 50 - Primeira zona ou zona central, descrita na Lei 1146/26: inicia-se no Cais do Porto, em frente ao Mercado do Ouro, passa pela lateral desse, segue pela rua Pilar, Caminho Novo, Taboão, Baixa dos Sapateiros, rua Dr. Seabra, Barroquinha, Ladeira do Theatro, Ladeira da Conceição da Praia e
159 Figura 51 - Em cores destacadas, mostra-se a área de borda de Salvador, como determina o PDDU/2008, para a qual há o estabelecimento de gabarito
4.2.2.2 Controle e proteção da paisagem urbana na legislação de