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CAPÍTULO 5 A regularidade espanhola e as povoações mineiras: como a geometrização do espaço se

5.1. A regularidade adequada

5.1.1. O exemplo de Mariana

Os núcleos de povoamento foram se tornando, ao longo do século XVIII em Minas Gerais, uma sociedade definida e arregimentada. Criaram-se administrações locais e muitas decisões foram impostas às colônias para que os pactos coloniais conservassem a balança oscilante de dependência para com as metrópoles. Era preciso manter o controle público principalmente em áreas mineradoras, como Minas Gerais (desde a década de 1690) e logo depois Cuiabá, Goiás e Bahia.

A verdade foi que a Coroa Portuguesa resistiu a cada esforço dos colonos de dar coesão ao vasto espaço geográfico, por medo de que tal ação constituísse um desafio à sua dominação sobre todos os aspectos da vida colonial e que pudesse acender o sentimento de autonomia, mas não necessariamente de separação. [...] Somente em 1676, um arcebispado foi criado em Salvador, e no final do período colonial havia apenas oito bispados.5

As áreas mineradoras possuíam leis próprias, que, apesar de terem sido formuladas no ano de 1700, só tiveram peso político a partir de 1710, quando Antônio de Albuquerque e em seguida Braz Baltazar da Silveira governaram a administração de São Paulo e Minas do Ouro, atuando também na contratação de técnicos e engenheiros enviados pela Coroa. Uma nova organização administrativa e urbana foi criada em 1711, resultando no termo de ereção da Vila Nossa Senhora do Carmo, atual Mariana. Bastos (2003) estabelece em seu trabalho correlações fiéis entre as estruturas políticas instauradas pela metrópole e a intenção de se manter a ordem sobre as cidades, atingindo o traçado urbano. Era preciso criar um equilíbrio entre o controle metropolitano e a prévia convivência que já se instaurara entre os colonos. Para tal, “[...] a regularidade construída (manifestação persuasiva e significativa da ordem e do poder) foi aquela regularidade geométrica possível [...]”6, adequada não só ao solo mineiro e topografia existentes, como também à conveniência política de Portugal. Assim é que os moradores de São João Del Rei, quando sua elevação à Vila, resistiram às ordens de se

5 RUSSEL – WOOD, A. J. R. Precondições e precipitantes do movimento de independência da América

Portuguesa. In: FURTADO, Júnia Ferreira. (Org.). Diálogos Oceânicos: Minas Gerais e as novas abordagens para uma história do Império Ultramarino Português. Belo Horizonte: UFMG, 2001, p. 431.

afastarem de suas lavras, pois já estavam adaptados, próximos e “acomodados” àquela região7.

Eram poucos os assentamentos criados pelos portugueses no Brasil que não mudaram uma ou mais vezes de lugar, confirmando uma rotina colonizadora que se mostrou perdida em terras repletas de “incômodos” que, frente à nova postura política, deveriam ser orientados. Quando foi feita a mudança para que Mariana se tornasse uma nova sede, digna de acolher o bispado da capitania, muitas considerações foram feitas acerca do novo sítio e pode-se dizer que um primeiro “planejamento urbano” foi neste momento proposto. Escolheram-se terrenos mais planos e cômodos, afastados do primitivo assentamento que havia se formado nas proximidades do Ribeirão do Carmo, contra-indicado pelas constantes inundações que atingiam as moradias; provocadas pela mineração nas encostas e pelos desvios do curso natural do rio. Data de 1745 uma planta enviada a Lisboa e que foi objeto de estudo na dissertação de Bastos, no momento em que analisa a formação da cidade de Mariana (planta representada na FIG. 111):

O que de imediato ressalta nessa concentração notável é uma distribuição de arruamentos bastante regular (quanto à geometria), apresentando alinhamentos cujos encontros conformam ângulos estritamente retos (90º). As larguras dos arruamentos são rigorosamente mantidas em suas extensões, e pode-se notar, também, uma certa hierarquia entre eles, permitindo-nos identificar as “ruas” – que geralmente prosseguem por várias quadras -, e “travessas” – sem prosseguimento obrigatório, como ligações de vias mais importantes.8

É possível notar as primeiras sugestões do conjunto formado pelo edifício da Casa de Câmara e Cadeia e pelas Igrejas do Carmo e de São Francisco, personagens urbanos que, pelo seu posicionamento, nos remetem às Praças existentes nas cidades de colonização espanhola: fato inusitado em Minas, em que prédios públicos dividem o mesmo espaço privilegiado dos edifícios religiosos.

6 BASTOS, Rodrigo Almeida. A arte do urbanismo conveniente: o decoro na implantação de novas povoações

em Minas Gerais na primeira metade do século XVIII. 2004. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) - Escola de Arquitetura, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2003, p. 96.

7 Representação dos oficiais da Câmara de São João Del Rei a Francisco de Borja G. Stockler, procurador das

Comarcas da América, pedindo uma interseção junto ao rei para que mantenha a cidade “cômoda”, conservando seus moradores próximos à Freguesia das Lavras do Funil. E que forneça recursos para que haja melhorias, como a criação de um hospital de lázaros e faculdade para se fazer uma loteria destinada às obras públicas. Arquivo Histórico Ultramarino – AHU Brasil/MG Cx. 173 doc. 62, São João Del Rei, 24/12/1804.

FIGURA 111 - Mapa da cidade de Mariana na segunda metade do século XVIII Fonte: SANTOS, Paulo Ferreira, 2001, p. 152.

LEGENDA:

a – Rua Nova, b – Rua Direita, c – rua da Sé, d – Rua da Olaria, e – Rua dos Cortes.

1 - Catedral da Sé, 2 – Igreja de São Francisco, 3 – Igreja do Carmo, 6 – Igreja de São Pedro dos Clérigos, 7 – Igreja do Rosário, 12 – Casa de Câmara e Cadeia.

A planta cadastral da cidade, atualizada, não segue o geometrismo da primeira proposta de 1745, como os ângulos retos entre as quadras ou o alinhamento constante reconhecível nas colônias vizinhas. O que se destacou em Mariana foi a adaptação da figura ao lugar, “propriedade das partes da praça por ordem ao sítio”.9 Levou-se em consideração o convênio

9 BASTOS, Rodrigo Almeida. A arte do urbanismo conveniente: o decoro na implantação de novas povoações

em Minas Gerais na primeira metade do século XVIII. 2004. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) - Escola de Arquitetura, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2003, p. 171

entre as propriedades naturais do assentamento e as construções que já haviam se adaptado àquela geografia, pois foram as primeiras definições dentro dos arraiais. Acentuando sua pesquisa na arte do decoro, Bastos (2003) o utiliza numa comparação entre aquele seu instrumento – o desenho – e seu princípio, destacando os melhores “ajustes” executados na (e pela) cidade. Mariana é um exemplo notável, pois demonstra resultados bem inseridos na melhor maneira de se controlar, convenientemente, os espaços. A questão era fazer com que estes e outros desenhos geometricamente regulares – projetos - orientassem as melhores maneiras de se implantar o povoamento sobre o local apresentado. “A macro estrutura da cidade foi bem encaminhada pelas estruturas preexistentes”,10 como aspectos físicos ou éticos indispensáveis à ocupação urbana. Plantas e desenhos compunham uma etapa preparatória ao seu acabamento final, para a prática do convívio coletivo: o treinamento do que, mais tarde, viria a se transformar parte de uma república.

Chegado ao ponto em que uma freguesia era elevada a vila, como o caso da Vila de Nossa Senhora do Carmo ou a ereção de Vila Rica também em 1711, as relações deste conjunto com o poder religioso tomavam uma outra dimensão, adicionada então ao controle político. Era preciso manter uma nova postura, em que várias igrejas ou outras sedes de irmandades, se não a matriz, se submetiam às mesmas normas do Concílio de Trento. Estas foram codificadas mais tarde, na colônia portuguesa, como as “Constituiçõens primeyras do

arcebispado da Bahia”, redigidas em 1707 e publicadas em 1719. Regulavam a implantação,

orientação e relações existentes entre o casario, assim como foi também norma o Tratado de São Carlos Borromeo11, aplicado a alguns exemplos arquitetônicos nos capítulos anteriores. O uso de nossa província se vinculava ao que de melhor e mais freqüente beneficiasse os sacros templos, como o seu posicionamento elevado, superando a paisagem natural. Deveriam se posicionar afastados de insalubridades, estábulos, tabernas ou locais que praticavam vendas, funcionando como ilhas de adoração. As frentes dos templos voltar-se-iam para a cidade; se estes estivessem fora dela, suas frentes deveriam se fazer para os caminhos públicos. Se houvessem rios, que se posicionassem acima deles, para que os viajantes vissem o templo e fizessem a ele reverência. Tal Tratado já especificava noções de engenharia, como a

10 BASTOS, Rodrigo Almeida. A arte do urbanismo conveniente: o decoro na implantação de novas

povoações em Minas Gerais na primeira metade do século XVIII. 2004. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) - Escola de Arquitetura, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2003, p. 173.

11 Tal Tratado vai de encontro aos documentos e representações oficiais encontradas no Arquivo Histórico

Ultramarino, especialmente no que diz respeito às poucas tentativas de ordenação das cidades, à escolha de sítios apropriados e regulares para que a aliança Estado-Igreja melhor atuasse. Sobre o trabalho de São Carlos Borromeo, checar suas primeiras colocações encontradas antes e inseridas no livro I. Cf. BORROMEO, Carlos. Instrucciones de la fábrica y del ajuar eclesiásticos. México: Universidad Nacional Autônoma de México, 1985, p. 1 a 6.

preocupação com a umidade de um determinado sítio e a possibilidade de desmoronamento. O lugar para se implantar a Igreja deveria ser amplo, capaz de conter não apenas a comunidade visitante e que ali habitava, como também outros homens que viessem assistir às solenidades.

Entretanto, como nos lembra Marx (1991), nossa Constituição não mencionava sobre a disposição e o tamanho dos terrenos que eram aforados12, assim nomeados por cobrarem ao beneficiário uma quantia em nome da manutenção dos templos. Os edifícios religiosos eram exatamente aqueles que garantiam e iniciavam o agrupamento e a conseqüente subdivisão de terras em seu entorno. Criava-se um “patrimônio religioso”, determinante pelo nascimento de um conjunto urbano que a ele se subordinava. A conformação desse patrimônio não se iniciava, portanto, aleatória, sem a vigilância ou a coordenação da igreja, apesar de em geral se denominar “irregular”. Para o traçado das cidades brasileiras, destaca-se o fato de não ter sido adotado um padrão urbanístico invariável, repetido ortogonal e padronizadamente.

E quando, perante situações ou momentos especiais, cuidou-se então e só então de bem traçar ou traçar com clareza os núcleos coloniais, adotaram-se planos regulares sim, porém completamente distintos daquele padrão eleito pelos espanhóis e feito lei.13

5.1.2. A referência de Ouro Preto

Vila Rica surgiu exatamente a partir dos alvos da coroa para sossegar e acomodar sua população, dividida em arraiais que tão bem foram esquematizados por Vasconcellos (1977), seguindo a longitudinalidade do vale do córrego do Funil. Esses caminhos formavam ruas que se preocupavam com o devido alinhamento e a decorosa organização das edificações. Sua disposição mostra empenho em causar um aspecto urbano impressionável por meio de recursos especiais, como ilusões proporcionadas pela perspectiva: valorizavam ou escondiam algum prédio, alargavam ou faziam parecer mais estreita determinada passagem.

Os edifícios religiosos que em Vila Rica se ergueram deveriam seguir as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, com plantas arquitetônicas em proporções adequadas à

12 AFORAMENTO: Cessão do senhorio útil, da posse e usufruto de prédios rurais ou urbanos, geralmente por

um longo prazo e por módica quantia fixa, o foro. MARX, Murillo. Cidade no Brasil em que termos? São Paulo: Nobel, 1999, p. 141.

melhor distribuição e ordem que se implantava naquela Capitania. Edifícios públicostambém representavam o reino e a regulação a ele submetida, cujas construções deveriam se adequar à conveniência e atuação desse poder; ou pelo menos a representação deste para o povo. Articulou-se um espaço determinante e identificado à cidade como a Praça Tiradentes, que apresenta uma surpreendente regularidade onde a amplitude e a questão cenográfica se destacam pelos desníveis de seus edifícios únicos, peças hierarquizantes de uma praça em que não há a presença da Igreja: de um lado a atual Escola de Minas, antigo Paço dos Governadores; do outro, o atual Museu da Inconfidência. As lacunas formadas entre os arraiais e suas igrejas iam aos poucos sendo preenchidas por prédios administrativos, pelo comércio e moradias que já substituíam a cobertura de palha pela telha, participando de uma dinâmica político-construtiva que regulamentava como o edifício poderia se fazer mais nobre e adequado àquele convívio público.

Em 1759 foi solicitada14, pelos oficiais da Câmara de Vila Rica, a real atenção para assuntos relativos ao uso do espaço coletivo. Relataram-se os prejuízos sofridos por aquela Comarca pelo contínuo conserto das calçadas, pedindo à Vossa Majestade que exijisse a contribuição dos próprios carreiros15 para o reparo das mesmas, defendendo ainda a sua anual conservação.

Trata-se aqui de enxergar cidades como Mariana e Ouro Preto como aquelas dotadas de uma ordem coerente, “menos evidente do que a abstrata ou rigidamente geométrica”,16 como as colônias espanholas, mas dentro dos melhores padrões que pudessem ser ajustados a um núcleo que já tomava vida e definira prioridades. Assim é que, olhando pontualmente para o traçado de cada porção de terra, pode-se verificar um formato usual quadrangular dos terrenos urbanos. Desde as sesmarias, que foram a primeira tentativa de parcelamento do solo brasileiro, os novos terrenos tinham na testada o alinhamento de maior importância, valorizada apesar de sua estreiteza e contraposta à profundidade dos quintais. Voltar-se para o espaço público era tão importante como resolver questões de salubridade, levantadas principalmente na segunda metade do século XVIII: aberturas propunham fazer as casas mais arejadas, voltavam-se para a melhor circulação dos ventos; os terrenos procuravam uma orientação mais lógica, adequada ao melhor escoamento das águas, preferencialmente em

14 A representação oficial encontra-se microfilmada no Arquivo Público Mineiro: Arquivo Histórico Ultramarino

– AHU Brasil/MG Cx. 74, doc. 59, Vila Rica, 22/11/1759.

15 Os carreiros eram os condutores de carros, dedutivamente os carros de boi, que circulavam em grande número

pelas ruas das antigas cidades coloniais, levando mantimentos em tropas.

16 BASTOS, Rodrigo Almeida. A arte do urbanismo conveniente: o decoro na implantação de novas

povoações em Minas Gerais na primeira metade do século XVIII. 2004. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) - Escola de Arquitetura, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2003, p. 175.

ângulo reto à rua. A orientação topográfica começava por definir uma nova hierarquização dentro das cidades, onde traçados e ocupações se faziam visando o bem comum e o melhor aproveitamento daquele sítio como um todo. O espaço público confirmava sua vocação de servir aos templos, crescendo e se expandindo a partir deles, num movimento urbano que denunciava a fusão entre a esfera política e religiosa.

As cidades mineiras mais urbanizadas do século XVIII eram um retrato fiel da mentalidade que viera da Europa, que buscava luxo e acabou por demonstrar a riqueza encontrada nas minas. Consolidavam o fim daquele momento inicial da colonização no Brasil, perdido em ambientes naturais e indígenas; portanto, lugares em descontrole, desorganizados e desordenados, na visão ibérica. Apesar de terem se implantado e conformado suas cidades a partir de princípios diversos, regulares ou não, portugueses e espanhóis nesse momento são únicos, pois todo e qualquer traçado que não fosse aquele coerente às idéias de controle do império ibérico, estava em desarranjo.

5.2. A utilização da rua e espaços públicos das cidades latino-americanas: palcos para