Para o desenvolvimento deste trabalho foi realizado um levantamento bibliográfico sobre fanfictions em bases de dados nacionais e internacionais como Scielo, Portal de Periódicos CAPES, JSTOR e Google Scholar. Como referencial teórico, foram usados livros dos pesquisadores bastante conhecidos no estudo das fanfictions, Henry Jenkins, Anne Jamison e Maria Lucia Vargas, referenciados na bibliografia ao fim deste trabalho.
Já para o recolhimento de dados necessários para a elaboração do perfil de leitores(as) de fanfics brasileiros(as), uma pesquisa quantitativa foi elaborada na forma de questionário online via Google Docs. Nele foram propostas vinte e uma perguntas, com o objetivo de conhecer melhor o recorte demográfico e os hábitos e interesses desse público, como gênero, idade, orientação sexual, interesse prévio por literatura, mídias de preferência, papel que o(a) entrevistado(a) desempenha dentro da comunidade, entre outras.
Para a divulgação da enquete, um vídeo foi postado no canal de YouTube Video Quest, focado em cultura pop, mais precisamente na crítica de animês e mangás. O vídeo foi publicado em 22 de outubro de 2019, com duração de 1 minuto e 19 segundos, e consiste em uma chamada para o preenchimento da enquete via link fornecido na descrição do vídeo. O vídeo foi compartilhado tanto para os cerca de 65 mil inscritos do canal à época quanto em grupos na rede social Facebook focados em discussões de cultura pop e nerd, principalmente animês e mangás, como os grupos Animanas, Grupo Wattpad, UFF Niterói, UFF Niterói 2, Otakei e Gulag Kawaii, Genkidama, entre outros, além do compartilhamento orgânico por perfis de redes sociais como o Twitter.
FIGURA 1 — Página de acesso ao vídeo de divulgação da pesquisa
Fonte: Video Quest1
1 Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=FS_PzEyi9vk&t>. Acesso em: 15 jun. 2020.
A pesquisa permaneceu aberta ao público desde a data de publicação do vídeo supracitado até o dia 5 de novembro de 2019, ou seja, por duas semanas.
Nesse período, 2.411 pessoas responderam. Além da pesquisa quantitativa aberta ao público direcionado, também foi realizada uma entrevista presencial com um leitor e autor de fanfics com o objetivo de se obter respostas individualizadas e cruzar com os dados recolhidos na enquete. Mas procedamos à definição do fenômeno.
A invenção do termo fanfiction e a definição atual do mesmo são razoavelmente recentes, mas a prática per se é, dependendo de como se define, muito antiga. De acordo com Jamison (2017):
Antes da era moderna dos direitos autorais e propriedade intelectual, as histórias pertenciam a todos, passadas de mão em mão e de narrador a narrador. Há uma razão pela qual Virgílio nunca foi processado pelos herdeiros de Homero pelo empréstimo de Eneias da Ilíada e sua transformação na Eneida. Personagens e mundos fictícios eram recursos compartilhados. (JAMISON, 2017, n. p.)
Em uma definição ampla, a fanfiction é qualquer produção literária, narrativa, baseada em alguma obra pré-existente e produzida por um(a) admirador(a) da citada obra. Sendo assim, mesmo importantíssimos marcos da história da literatura, como as grandes poesias épicas gregas, podem ser livremente definidas como formas ancestrais do que chamamos hoje de fanfic. Uma das maiores obras da literatura, tanto de língua inglesa como em escala mundial, Hamlet, de William Shakespeare, é na verdade baseado no conto dinamarquês de Amleth, cuja trama é basicamente a mesma da peça shakespeariana:
Ele, na verdade, possuía outras fontes para sua peça. Consultou, sem dúvida, o relato de nome semelhante escrito por François de Beleforest, uma história que o próprio autor francês havia adaptado a partir de uma narrativa semelhante, escrita por Saxo Grammaticus no século XII, em sua Gesta Danorum [Gesta dinamarquesa]. (PEREIRA, 2015, p.8)
Os irmãos alemães Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) são exemplos de uma produção literária comparável à fanfic. Seu trabalho de pesquisa cultural dos contos folclóricos alemães e europeus resultou no registro de diversas histórias da tradição oral e, com isso, ambos são hoje consagrados como autores, mesmo que haja a consciência de que a ideia de autoria, no caso deles, é de certa
forma discutível. Cem anos depois, Walt Disney (1901-1966) se apropriaria dos contos de Grimm e se consagraria como a vanguarda da arte da animação com seu revolucionário longa-metragem Branca de Neve e os sete anões (1937), em mais um exemplo de obra de arte considerada “oficial”, apesar de não ser uma produção completamente original.
Qualquer discussão sobre “originalidade” de uma produção artística também demanda debater o conceito de “autoria”, ideia que muitas vezes parece de definição simples, pois desde o romantismo ela foi naturalizada como sinônimo de autenticidade, sinceridade, espontaneidade, pureza da criação, como esta brotasse diretamente do “gênio” do artista, sem qualquer diálogo com a tradição, sem esforço ou técnica. João Adolfo Hansen, em O que é um livro?, demonstra, contudo, que esse conceito tem história:
Foucault lembrou que, até o século XVIII, os livros de ciência eram citados pelos nomes dos autores, por exemplo Euclides e Galeno, e os de ficção não, porque pressupunham a mimesis aristotélica e a doutrina latina da imitatio como regramento dos gêneros. Cícero não era propriamente o nome de um indivíduo e um autor romano que viveu o fim da República, entre outros, como pensamos hoje, mas a classificação da oratória, assim como Virgílio significava “epopeia”. A partir do século XVIII, a coisa se inverteu: a autoria dos livros de ciência se dissolve na generalidade de um campo em que a iniciativa da pesquisa do cientista individual é somente um elemento hiperespecializado de um conhecimento anônimo, física, matemática, e os de ficção, determinados pela livre concorrência e pela competição burguesas, passam a ser comandados pela mercadoria inventada no século XIX, a “originalidade”, sendo conhecidos pelo nome de um autor com direitos autorais, Stendhal ou Joyce ou Guimarães Rosa.
(HANSEN, 2013, p. 5)
Ou seja, “autoria”, para a ficção, é um conceito recente e, historicamente, uma ideia fluida, ainda aberta à discussão. Já em seu artigo comentando o texto A ordem dos livros, de Roger Chartier, Hansen (1995) diz que o pesquisador recupera a categoria de autoria, mas não na concepção romântica do “autor”, nem como a constatação empírica que diz ser o autor aquele que desenvolveu o produto em questão, mas como um “ponto de vista” que orienta um discurso. Nas palavras de Hansen, “por vezes os textos são perspectivados numa iniciativa subjetivada, que se individualiza como autoria” (HANSEN, 1995, p. 124). Por outro lado, ao falar do leitor, a linguagem é a mesma: para Chartier, ele assume a posição de autoria, pois a função do leitor também é uma função de “ponto de vista”. Ambos os trabalhos,
tanto do assim chamado “autor” quanto do leitor/ouvinte, são trabalhos de leitura e interpretação da história e da literatura que os precedem.
Os objetos produzidos pressupõem, por isso, nos usos que fazem das prescrições retóricas do seu gênero, uma presença classificatória que os distribui segundo os regimes de legibilidade e intencionalidade de uma função autoral. (HANSEN, 1995, p. 124)
Sendo assim, a autoria não passa do uso que se faz das prescrições de um dado gênero, uma eterna reciclagem e ressignificação de referências e do cânone literário que se tem à mão. Um trabalho feito pelo escritor, sim, mas também feito pelo leitor no ato da leitura. E um ato necessário para o que entendemos como fanfiction, como será demonstrado neste trabalho.
A rigor, o conceito de “originalidade” é uma ideia que não encontra base lógica, quanto mais se pensa a respeito dele, pois ideias, estruturas narrativas, clichês de gêneros literários, até mesmo personagens específicos, são passados de mão em mão, reciclados, modificados, eternamente ressignificados. No caso da relação entre o folclore alemão, os irmãos Grimm e Walt Disney são bons exemplos do quanto a fanfic não é mera cópia de algo “original”. Tanto os irmãos Grimm fizeram modificações nos contos populares, assim imprimindo sua própria marca nessas histórias, quanto Walt Disney modificou os contos de Grimm, intervindo neles.
“Fanfiction” é geralmente usada como um sinônimo de “trabalho derivativo”, uma frase com implicações no direito autoral. Mas fanfiction é geralmente melhor descrita como transformativa, paródica, crítica e, sim, “original” em qualquer um dos sentidos acima. (JAMISON, 2017, n. p.)
A noção moderna de fanfic é um tanto recente. Jamison (2017, n. p.) relata que, antes da década de 1960, a fan fiction, escrita assim, com um espaço entre as duas palavras, era a designação da ficção original escrita por autores amadores publicados em fanzines (revistas feitas por fãs). Levou muitos anos para que a fanfiction, no sentido de histórias baseadas em mundos e personagens previamente existentes, começasse a aparecer nos zines de ficção científica, mas tudo mudou com Star Trek:
[...] enquanto os textos individuais que lembram o que deveríamos agora chamar de fanfiction existem há muito tempo, não eram um elemento nos primeiros zines de ficção científica. Com Jornada nas estrelas, eles explodiram na cena. (JAMISON, 2017, n. p.)
Jornada nas estrelas (Star Trek, 1966-1969), ou melhor, o seu fandom (termo usado para designar a comunidade de fãs de uma dada obra, de determinado artista etc.), é considerado um pioneiro no que se entende hoje como fanfiction. Com o fim da série original, em 1969, seus fãs seguiram produzindo narrativas dentro do universo do seriado televisivo; uma prática que se expandiu para histórias que não exatamente tratavam das temáticas trabalhadas originalmente na obra de Gene Roddenberry. Enquanto a original focava seus esforços em ficção científica
“pesada” (ou hard sci-fi) e questões filosóficas e políticas um tanto complexas, muitas fics preferiam trabalhar relacionamentos interpessoais e, muitas vezes, românticos.
O elemento mais controverso foi que Jornada nas estrelas também inspirou o primeiro fandom slash (slash, aqui e em todo este volume, é definido como romance homoerótico, normalmente entre personagens canonicamente pintados como héteros), por mais que esse elemento não tivesse sido exatamente aceito ou mesmo tolerado pela maioria dos fãs.
(JAMISON, 2017, n. p.)
Essa se provou uma tendência que perdura até hoje, e que será também demonstrada pela pesquisa realizada para o presente trabalho, a ser exposta em um próximo momento. Além de expandir as possibilidades do mundo criado pelo autor original, os autores das fics, até hoje, trabalham as possibilidades, na opinião deles, não aproveitadas de relacionamentos amorosos entre os personagens, uma prática comumente chamada de shippar (do sufixo inglês -ship, da palavra relationship, relacionamento). Por consequência, um dos pilares do que se conhece hoje por fanfic são histórias nas quais personagens originalmente “codificados”
como heterossexuais são usados para criar relacionamentos homoafetivos, um tipo de relacionamento pouco explorado na ficção mainstream, oficial.
O que denota também o caráter interpretativo, crítico, da produção da ficção de fãs. Essa ficção pode ser interpretada, sob certos paradigmas, como uma simples libertação do(a) leitor(a)-autor(a) através da realização de fantasias por meio de obras que ele/ela admira, ou seja, mera “projeção”; mas, em muitos casos, esses textos partem de interpretações do “cânone” literário. Os fandoms debatem
sua obra preferida e, sendo a apreciação da arte algo inerentemente subjetivo, chegam às suas próprias conclusões. Muitas vezes, essas conclusões incluem a afirmação de que certos personagens do mesmo sexo, originalmente heterossexuais, na verdade nutrem sentimentos amorosos e sexuais um pelo outro.
Assim, a produção da fanfic é a materialização dessa interpretação, e a leitura da fanfic é uma forma de ver essa interpretação ser finalmente realizada. Neil Gaiman, premiado autor de literatura fantástica, ao ser perguntado em sua página na rede social Tumblr sobre a interpretação (e subsequente produção de fanfics) de que seu personagem Crowley, do livro Belas maldições, é homossexual e tem um relacionamento com o personagem Aziraphale, respondeu:
Você pode inferir, ou (mais direto ao ponto) pode imaginar, e muitas pessoas escolheram, não sem razão, shippá-lo com Aziraphale, mas ainda continua sendo Inventar Coisas. Pode estar Inventando Coisas que acontecem entre parágrafos, ou Inventando Coisas que não foram sequer mencionadas, mas continua sendo Inventar Coisas. (E estou considerando que o tipo de análise textual com olhos de águia que estudiosos da Bíblia usavam para decidir exatamente o que versos de quatro mil anos de idade significam também conta como Inventar Coisas.) Que é a parte divertida da fanfiction, e parte da tradição da fanfiction. (GAIMAN, 2017, n. p., tradução livre)
A atitude de Gaiman, como “autor”, não chega a ser consenso em seu meio.
Outros autores — escritores, roteiristas de cinema etc. — se opõem fortemente à ideia de deixar que suas obras sejam trabalhadas em forma de fanfic. Dois exemplos dessa mentalidade são George Lucas, criador da aclamada série cinematográfica (e detentor dos direitos de todos os produtos derivados) Star Wars, e Anne Rice, autora de Entrevista com o vampiro e toda a série subsequente. Os dois, como explica Jamison (2017, n. p.), adotaram a prática do “cease and desist”, uma ameaça de processo contra supostas violações de direitos autorais:
Quando a internet começou a aparecer, a Lucasfilm atacou fansites independentes, fazendo o melhor para dominar as consequências que seu marketing de massa tinha iniciado ao focar toda a atividade de fãs em seus próprios sites corporativos. Cartas de “cease and desist” não eram incomuns. Guerra nas estrelas, como uma entidade, não queria outras entidades de outros universos brincando com seus brinquedos. George Lucas não queria ver ninguém diluindo o poder de sua criação com criaturas ofensivas e ridículas de outros universos, ou histórias de amor pouco convincentes, ou até — Deus nos acuda — alterando elementos das histórias originais, distorcendo arcos de personagens ou cenas icônicas. [...]
Anne Rice mandou uma carta horrível para FanFiction.Net e eles apagaram
toda a fanfic baseada em seus livros, fecharam a seção e proibiram comentários no fórum. (JAMISON, 2017, n. p.)
Ambos os autores, como fica claro, adotam uma postura de proteção de suas histórias e personagens, denotando um medo de que uma “intromissão” de autores não autorizados possa vir a macular sua obra, talvez vulgarizar sua criação — e, claro, existe também a preocupação mercadológica da manutenção da coesão da marca. É interessante notar a ironia dos dois casos. George Lucas é hoje conhecido por incessantemente — e, para muitos, desnecessariamente — modificar seus próprios filmes, principalmente os três primeiros, das décadas de 1970 e 1980, quando da época do lançamento de sua segunda trilogia, no começo dos anos 2000, a fim de tornar coerentes os filmes antigos com os atuais, efetivamente replicando o que é prática comum das fanfictions: interromper e modificar o cânone da obra para que ele esteja alinhado com os interesses e temas necessários. Já o caso de Anne Rice remonta ao que já foi comentado, por exemplo, sobre os irmãos Grimm: embora seus personagens (como Louie e Lestat) sejam originais, o fato de ser uma história de vampiros inevitavelmente exige que ela se insira num cânone, neste caso o de todo um gênero inaugurado por Abraham “Bram” Stoker com o romance Drácula (1897), e selecione o que será ou não usado em sua própria história. Existem até momentos da trama que brincam com a ideia, nos quais personagens questionam se, neste universo, vampiros morrem com estacas no coração ou são afetados pela visão de cruzes cristãs, efetivamente lançando luz sobre o fato de que boa parte de sua criação não é original.
Essa postura não é exclusiva de autores que publicam exclusivamente do modo “tradicional”. Com a proliferação das fanfics como cultura de massa consumida por cada vez mais pessoas, autores de fanfictions estão começando a capitalizar seu sucesso internético por vias “oficiais” (o que será tratado posteriormente, neste mesmo capítulo). O caso mais famoso é o de E. L. James, autora da série Cinquenta tons de cinza, série de livros de forte teor erótico, fazendo uso ostensivo de cenas sadomasoquistas, que originalmente foi publicado como Master of the universe, uma fanfic AU dos livros da série Crepúsculo, eliminando todo o enredo sobrenatural, com vampiros e lobisomens, do original — aqui, em vez da relação entre um vampiro imortal centenário e uma adolescente comum, temos
um milionário cujo fetiche sexual é o sadomasoquismo e a dominação à qual contratualmente se sujeita uma jornalista virgem pela qual ele se apaixona.
A autora de Crepúsculo, Stephanie Meyer, em entrevista em vídeo para o canal do YouTube da revista americana Time, quando perguntada sobre Cinquenta tons de cinza, declarou apenas:
Fico feliz que ela esteja se dando bem e tendo sucesso e isso é legal; a parte indecente eu preferiria que não estivesse ligada a Crepúsculo, porque não é assim que eu vejo as coisas, mas não afeta Crepúsculo…
Crepúsculo é uma entidade própria, é separado, e está tudo bem” (tradução nossa). (MEYER, 2013, n. p.)
Cinquenta tons de cinza, antes uma fanfic, tornou-se a série de livros mais vendida, de 2011 a 2019 (AVILES, 2019), com 35 milhões de cópias físicas e digitais apenas nos Estados Unidos, o que gerou um fenômeno cultural próprio, um fandom próprio e, por consequência, produção própria de fãs. Mas, mesmo lucrando diretamente com um trabalho de fã, baseado em uma obra pré-existente, apenas com os nomes dos personagens e o cenário trocados, James não tolera que os fãs reutilizem ou ressignifiquem o seu material, que agora teria ganho status de “oficial”.
Os advogados de James também se ocuparam de reprimir tudo que podiam, de festas de lingerie com temas de Cinquenta Tons a camisetas piratas. Sua agente, Valeris Hoskins, defendeu esta postura: “Não se pode simplesmente tomar algo que pertence a outra pessoa”, disse Hoskins ao Mirror. No entanto, se o sucesso de Cinquenta Tons e outras fanfics de Crepúsculo indica alguma coisa, é que você pode sequestrar algo que pertence a outra pessoa — e ganhar dinheiro com isso. (JAMISON, 2017, n. p.)
O temor, por parte dos ficwriters, da chegada da famigerada carta de cease and desist dos detentores dos direitos autorais das obras originais era tamanho que, no Brasil, era de praxe incluir um disclaimer no início da cada fanfic, deixando claro que o escritor da fic não era o dono dos direitos autorais e que não tinha a intenção de lucrar com a fic, e apontando para os verdadeiros donos da propriedade intelectual, na esperança de que esse aviso fosse suficiente para impedir que um processo aos moldes do exemplo acima fosse movido contra si:
FIGURA 2 — Disclaimer de ficwriters
Fonte: Fanfiction.Net2
Além do medo de processos judiciais, o aviso também existia em decorrência de discussões internas que a comunidade “fanfiqueira” promove há anos: é correto ganhar dinheiro com fanfics? Não existe consenso, como comenta Jamison:
No final, os sistemas culturais e financeiros de valor são muito diferentes, e provavelmente deveriam ser entendidos de forma distinta. Em vez disso, eles são confundidos de forma contínua e, talvez, inevitável. Esta confusão certamente ficou aparente no mundo emaranhado da fanfiction. Em parte por causa do medo das consequências legais, por um senso de originalidade exagerado do material fonte em oposição às fanworks que ele inspira, e pelo orgulho de fazer “fic pelo prazer de fazer fic” e o ethos da economia da troca. O princípio de que “não deveis lucrar com fanworks” na cultura de fã foi, dependendo de quem for seu interlocutor, um princípio fundador quase sagrado e inviolável, totalmente necessário. Para outros dentro da mesma comunidade, é apenas um mal necessário. (JAMISON, 2017, n. p.)
Por conta da natureza derivativa dos fanworks, para alguns, mesmo os que os produzem, esses trabalhos configuram violação de direitos autorais, logo, não devem ser usados para fins lucrativos. Mas a lei de direitos autorais é de difícil compreensão, além de constantemente abusada pelas grandes corporações — que, ao mesmo tempo, incentivam e precisam da formação de comunidades de fãs e de identidade de grupo a partir de suas propriedades intelectuais, enquanto que paradoxalmente punem qualquer produção cultural que surja a partir disso. Em certos aspectos filosóficos, ela não se aplicaria ao caso das fanfictions, pois a literatura como um todo, depende da existência e do entendimento, tanto do leitor
2 Disponível em: <https://www.fanfiction.net/s/630203/1/Inoc%C3%AAncia-Doce-Inoc%C3%AAncia>.
Acesso em: 15 jun. 2020.
quanto do escritor, do restante da literatura que a precede. Nas palavras de Eagleton:
Toda leitura supõe uma boa dose de preparação de cena. É preciso que muitas coisas já estejam ali para que um texto seja meramente inteligível.
Toda leitura supõe uma boa dose de preparação de cena. É preciso que muitas coisas já estejam ali para que um texto seja meramente inteligível.