• Nenhum resultado encontrado

Reis (2008), Bittencourt (2012) e Bittencourt (2014): o domínio funcional do FS

1.5. O Modo Subjuntivo

3.1.2. Reis (2008), Bittencourt (2012) e Bittencourt (2014): o domínio funcional do FS

Reis (2008), baseando-se nos mesmos testes escritos aplicados por Macedo (1980), observou o uso do FS pelas crianças e adolescentes de Santa Catarina. A autora encontrou cerca de um terço de uso da flexão do FS contra dois terços de uso de IF, obtendo a mesma quantidade de variação entre as formas verbais encontradas por Macedo (1980).

11 A autora argumenta esse alto índice de regularização é para evitar a homonímia de vir (verbo no

infinitivo) com vir (FS do verbo VER).

12 A autora argumenta que a reestruturação de formas compostas se dá pela perda da noção de estrutura prefixo + verbo, passando a ser analisada como formas simples.

37

Porém, Bittencourt13 (2012) reobservou esses dados de 2008 e notou que nos testes aplicados havia uma grande quantidade de verbos irregulares com baixa frequência de uso, como: compor (compuser), reter (retiver), entre outros. Sendo assim, ela acreditou que esse fator pode ter influenciado no alto índice de variação entre as formas. Baseando- se nos dados observados, os falantes regularizam pouco os verbos irregulares de frequência alta de uso (ser, estar, ter, etc), sendo assim, para a autora, quando há a variação entre FS e IF estaria havendo, na verdade, uma variação por analogia, uma vez que o falante usa a forma de IF quando desconhece a forma do FS e, por isso, acaba por regularizar o FS (BITTENCOURT, 2012).

Em sua tese, Bittencourt (2014) fez um estudo sobre o domínio funcional do FS, tratando especificamente de modalidade e temporalidade. Ela encontra, em seu corpus de 534 dados do Banco de Dados da Varsul14, alta frequência de verbos irregulares no FS, sendo os mais frequentes: for (ser), for (ir), quiser, tiver e der. A autora reitera o estudo de 2012 e também afirma ter encontrado poucos dados de variação entre FS e IF, totalizando menos de 10 ocorrências.

O estudo de Bittencourt (2014) apresenta o FS como um tempo verbal que

descreve situações posteriores ou simultâneas ao momento de fala, cujo emprego se restringe a orações subordinadas (...) [O FS] estabelece ainda uma segunda expressão de tempo, relativa à outra situação do enunciado, geralmente de anterioridade ou cotemporalidade à situação codificada pela oração principal da construção de subordinação (BITTENCOURT, 2014, p. 31).

Para a autora, a construção com FS forma, junto com a oração principal, um enunciado não factual, ou seja, predomina a ideia do hipotético/provável ou até do incerto ou desejado, sobressaindo o irrealis. A autora elenca os traços das situações em que ocorre o FS:

(i) são situações em algum intervalo de tempo entre o presente e o futuro; (ii) é cotemporal, anterior ou ainda posterior à situação principal do enunciado;

(iii)está associada à expressão de noções, como possibilidade, (in)certeza, desejo, obrigação, manipulação, dentre outras nuances modais relacionadas à

13 A autora é a mesma Reis (2008).

14 Variação Linguística na Região Sul. 72 entrevistas, sendo 24 informantes de Florianópolis, 24

38

avaliação do falante frente a sua proposição, ou seja, à modalidade (BITTENCOURT, 2014, p. 31).

O exemplo dado pela autora para explicar esses traços descritos acima é:

(44) Acredito na lei do carma, né? Que tudo que tu fizeres, tu vais prestar conta um dia. (Informante 18, de Porto Alegre).

A partir do exemplo (44) podemos observar que a situação expressa pelo FS é posterior ao momento de fala, mas é anterior à situação que se descreve na oração principal. Sendo assim, segundo a autora, trata-se de um enunciado não factual, pois é posta em evidência a avaliação do falante. Além disso, no enunciado, é expresso o que a autora chama de “traço/valor modal de possibilidade ou probabilidade”, juntamente com a ideia de futuridade. Para a autora, ambas as noções estão relacionadas à expressão da modalidade irrealis.

A autora baseia a sua análise na perspectiva funcionalista, tendo como base teórica os estudos de Bybee (1998); Fleischman (1982); Givón (2009); e Comrie (1985).

Em se tratando do irrealis, a autora afirma que o FS é “duplamente irrealis”, pois é futuro e subjuntivo, resultando numa forma verbal “multifuncional” uma vez que se relaciona à categorias futuro e modo/modalidade que são não factuais, irrealis.

A autora faz uma análise da temporalidade do FS através de uma escala gradual, como pode ser observado na figura abaixo, partindo dos contextos em que há mais futuridade aos contextos ligados ao passado. Sendo assim, a expressão da modalidade do FS se dá num continuum (figura 5).

Figura 5 Escala irrealis

Para Bittencourt (2014), a temporalidade deve ser vista de maneira mais ampla, considerando o contexto discursivo no qual se encontra o FS. A seguir, explicitamos as

39

projeções temporais dos enunciados, conforme a figura 5, utilizando os exemplos da autora.

 projeção futura [+irrealis]: situações descritas por tempos verbais de futuro ou com outros marcadores de futuridade, como advérbios. Esses contextos são mais

irrealis por possuírem marcas de projeção futura.

(45) A partir do momento que TIVER esse desenvolvimento todo aí, vai

acontecer que todo mundo vai ter seu emprego, todo mundo vai ganhar, bem,

né?

 presente estendido (que se estende ao futuro) [irrealis]: é quando há asserções de futuro e de presente no mesmo contexto, uma situação que está ocorrendo no momento presente e se estenderá ao futuro.

(46) A Flávia, enquanto ela, né, PUDER aguentar o estudo dela, vai. Depois é, se não AGUENTAR, ela trabalha. Ela ganha pra pagar o estudo dela.

 presente habitual e factual [realis-irrealis]: quando há várias situações no presente, dando um caráter mais factual ao contexto. Também está relacionado à ideia aspectual de habitualidade. Também abrange enunciados mais genéricos que funcionam como “verdades universais”, além de contextos com vários elementos marcadores de tempo presente.

(47) Eu gosto muito de cantar. [...] Você levanta o manto de Jesus, assim, né? Fico cantando atrás. Porque mesmo na missa que eu vou no sábado, se FOR pra mim cantar no microfone, eu não canto.

 passado [+realis]: quando se narram fatos passados ancorados em situações no presente ou no futuro expressas por uma oração com FS. Há vários elementos marcadores de passado e, por isso, são contextos realis.

40

(48) Eu lembro que o meu pai trazia pra gente, e ele tinha oito filhos, então, trazia pra gente vinte pães ... Que naquela época tinha fartura, porque o custo de vida era melhor, entendeu? Então ele trazia vinte pães, trazia um potezinho de mel, um vidrinho, que seja lá o que, que FOR. Mas mel puro.

A partir da análise da autora sobre o continuum realis-irrealis no qual se encontram as construções com FS, buscou-se no corpus, aqui analisado, dados em tais contextos os quais apresentam-se na seção 3.2. Ademais, a análise da autora também contribuiu com a descrição dos traços do FS no Capítulo 4.