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FESTIVIDADES, RITUAIS E MAJESTADES

1.3 Reis de Congo: Coroação, Danças e Batuques

A coroação de Reis de Congo é a mais antiga das dramatizações de origem africana documentada no Brasil. Realizada no âmbito das confrarias de Nossa Senhora do Rosário, instituição essa que constituiu o mais antigo espaço de sociabilidade cultural dos africanos subequatoriais no território de Portugal a partir do século XV.

As festividades ligadas à irmandade do Rosário aconteciam, principalmente, entre meados de dezembro e início de janeiro, período denominado ciclo natalino. A mais importante era a coroação do rei de Congo. Durante essa manifestação, homens e mulheres apareciam vestidos a caráter e presenciavam a coroação do rei, o qual era acompanhado por uma vistosa corte.

No Brasil, as chamadas manifestações populares, maracatus, congos e congadas apresentam um caráter complexo e dinâmico por evidenciar um sistema de configurações e símbolos, além de outras informações vivenciadas e contextualizadas ao longo de gerações num processo continuo de trocas e assimilações com o meio.

Nesses festejos, vamos encontrar completa fusão de traços totêmicos, esfacelados de autos de congos, com seus reis e rainhas, e suas embaixadas, sobrevivências da religião negra, com os seus fetiches ao lado da devoção a N.S. do Rosário.

Sempre foi costume entre os africanos e afro-descendentes, desde os tempos coloniais, elegerem seus soberanos de cor. Essas majestades não possuíam nenhum prestígio político nem civil sobre seus companheiros, mas era grande sua importância simbólica. No dia de eleição real, desfilavam pelas ruas das cidades e vilarejos uma vasta corte - príncipes e princesas seguiam em procissão ricamente adornados e acompanhadas por camareiros e pajens; seguiam-se outros levando as imagens dos seus santos de devoção, na maioria das vezes, pintadas de preto; vinha depois a banda de música com pandeiros, chocalhos, canzá e marimba; o rei e a rainha do ano anterior; e, finalmente, o real par, recém-escolhido, enfeitado com preciosidades de toda espécie. O

54 destino final do cortejo era a igreja da irmandade, onde o rei deposto entregava o cetro e a coroa ao seu sucessor.

“Havia reunião solemne da confraria, apparecendo enfeitados machos e fêmeas. Presidia o rei, e assentavam-se todos em cadeiras de espaldar com tampos de sola, bordada, as vezes bem bonitas. A negraria rebabu ocupava bancos de madeira, formando corte as damas aderessadas de collares de contas vermelhas, grande brincos de pedras verdes e azues, em metal dourado, anneis de tambaque, e outros enfeites, entre os quais sobresahião as fitas das quaes um carretel custava meia pataca!”(BRIGIDO,1900, pp.119-120)

A coroação descrita por Brigido era acompanhada de danças e batuques tirados de caixas de pandeiros. Nesse dia, também se comia e bebia-se muito. É importante destacar o aspecto de sociabilidade presente nesses dias festivos. O trabalho no preparo de comidas, de bebidas, roupas e tudo que fosse ser utilizado e consumido na festa criavam uma rede de vínculos, parcerias de relacionamentos. O festejo começava ainda no planejamento, quando era preparado as comidas, bebidas, música, dança etc.

Após a cerimônia de coroação do rei de Congo, aconteciam danças em frente a Igreja do Rosário, e em seguida os participantes caminhavam em cortejo pelas ruas da cidade de Fortaleza, atraindo muitas pessoas que acompanhavam a manifestação.

Mello Morais Filho na sua obra, “Festas e Tradições Populares no Brasil”, tem documentado um festejo de coroação de reis realizado no campo de S. Domingos a capela de Nossa Senhora da Lampadosa, em torno de 1742. Diz o documento:

“Illm. E Exm. Sr. Desembargador Ouvidor Geral do Crime: - Dizem o Imperador, o Rei, a Rainha e mais adeptos da nação do Santo Rei Baltazar, que eles costumão, em os domingos e dias santos festivos, tirar as suas esmolas por meio de danças e brinquedos que fazem com as demais nações, o que fazem com o todo o recato e sossego sem inquietação e perturbação alguma como é notório, cujas esmolas são com o necessário as festividades do Santo Rei: e porque do mesmo modo tem alcançado do Exm. Sr. Conde Vice Rei, como se vê no documento junto, e como querem também a concessão de V.Ex. para o mesmo fim acima

55 descrito e assim também querem no dia dos Reis próximo coroar rei da nação Rebolo e Antonio, fâmulo do mesmo Illm.e.Exm.Sr. Vive-Rei ,e que nesse dia pretendem sair com seus instrumentos e danças da mesma nação, para ser feito com maior obsequio e dançar – pelo que pedem.”(MORAIS FILHO, 1946,p.242)

O viajante inglês, Henry Koster, numa de suas passagens pelo Nordeste do Brasil, no início do século XIX, presenciou em Amparo, na Bahia, uma festividade de coroação de Reis negros promovida pela irmandade do Rosário. O antigo Rei estava preste a abdicar de suas funções devido a idade já avançada, e no seu lugar um mais novo deveria ser escolhido. A indicação recaiu sobre um velho escravo da plantação de Amparo. “O negro velho que seria coroado nesse dia da festa, veio pela manha cedo apresentar seus respeitos ao vigário que lhe disse, em tom jovial: - “Perfeitamente, senhor, mas hoje estarei às suas ordens, devendo servi-lhe de Capelão!”” Conta o viajante que lá pelas onze horas da manhã foi para a Igreja com o Vigário esperar os soberanos, “apareceu um numeroso grupo de negros e negras, vestidos de algodão branco e de cor, com bandeiras ao vento e tambores soando”. O Rei estava vestido com uma roupa de cores diversas, vermelho, verde e amarelo, manto, jaleco e calções, e na mão trazia um cetro de madeira dourado. A Rainha usava um vestido de seda azul e ambos traziam na cabeça uma coroa de papel colorido e dourado. (KOSTER,1942,p.17)

Nesses dias de festejos, como os documentados acima atestam, levas de negros, mestiços e outros dançavam e cantavam.

Diz Mello Morais Filho:

“ Apenas amanhecia o dia de Reis, o campo de S.Domingos, nas proximidades da capela, opulentava-se de um espetáculo variado e estranho, em que moçambiques, cabundás, banguelas, rebolos, congos, cassanges, minas, a pluralidade finalmente dos representantes de nações da África, escravos no Brasil, exibiam-se autênticos, cada qual com seu característico diferencial, seu tipo próprio, sua estética privativa. Homens, mulheres, e crianças, em largo regozijo da liberdade de um dia, esqueciam por instantes as palmeiras de sua terra, os fetiches de seu país, aguardando a cerimônia da coroação do soberano, e rendendo culto ao

56 Santo Rei Baltazar, que lhes recordava pela cor que tinha sua pele e de seu destino.”(MORAIS FILHO,2002,p.242)

Essas manifestações festivas buscavam romper com a situação social à qual negros e mestiços estavam submetidos. A população de negros e mestiços, escravos e libertos, no âmbito das irmandades, elegia seus reis em diferentes regiões do Brasil. Nem sempre aceitos pelas autoridades vigentes, esses costumes foram sendo incorporados à sociedade colonial escravista. Foi por meio das irmandades que essa população alcançou a possibilidade de desenvolver relações específicas de inserção, circulação e contestação. As eleições de reis negros e as comemorações ensejaram nesses indivíduos um momento de ruptura do cotidiano, de extravasamento das paixões, de exaltação, de exasperação dos sentidos e de inversão de hierarquias.

Segundo o pesquisador, José Ramos Tinhorão, foi na Igreja de São Domingos de Lisboa, por volta de 1533, quando passou a funcionar a Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que os negros daquela cidade começaram a realizar as coroações de Reis de Congo.(TINHORAO,1988)

Para o autor, a prática da Coroação de Reis de Congo constituía, em verdade, apenas uma projeção simbólica da política missionária desenvolvida em comum pelo poder real e a Igreja portuguesa na África, e como tal, representaram apenas um reflexo da política econômica posta em prática por D. João II, D. Manuel e D. João III.

Diz Tinhorão:

“Desde os últimos anos da ação do infante D. Henrique á frente da empresa das navegações, pelo correr da década de 1450, a diretriz para as relações dos comerciantes navegadores com as populações da costa da África negra passara a ser a da substituição dos ataques armados contra os naturais pelo entendimento pacífico com os potentados locais, no sentido de obter as bases de uma política de intercâmbio comercial duradouro. (...)” (TINHORÃO,1988, p 45)

Marina de Mello e Souza, na obra “Reis Negros no Brasil Escravista”, entendeu que essas manifestações vão de encontro a uma situação específica onde culturas diferentes, em dado contexto de dominação social, produziu “manifestações culturais mestiças”.

57 Quando os portugueses chegaram ao Congo foram recebidos pela população local como emissários da terra dos mortos, fonte de toda sabedoria, e seu Rei D. João II como Nzambi Mpungu, a mais poderosa de todas as entidades, tido como rei divino ou deus. O Rei de Portugal pareceu aos olhos dos congoleses ser um deus vivo, habitante de outro mundo além da água, lugar dos mortos. (SOUZA,2002)

Nessa relação estabelecida entre portugueses e congoleses, onde noções alheias de culturas prevaleceram, se forjou analogias que levaram ambos a achar que estavam tratando da mesma coisa, quando na verdade sistemas culturais distintos permaneciam inalterados. (SOUZA,2002)

O contado estabelecido entre os dois povos envolveu uma série de situações ritualizadas por parte dos representantes dos dois reinos, que buscavam entender-se a partir dos instrumentos cognitivos disponíveis em cada uma das culturas.

“Nessa linha de pensamento, a conversão voluntária dos congoleses foi resultado da compreensão particular que tiveram da chegada dos portugueses, vistos como emissários do mundo dos mortos. A aceitação e reavaliação, por parte dos padres portugueses, das revelações que alguns congoleses tiveram naquele momento – como a aparição da bela mulher para dois dos nobres batizados junto com o mani Congo, o encontro da pedra cruciforme pelo seu irmão junto com ele batizado e provável sucessor do mani Vunda, o principal kitome – reforçaram a legitimidade da conversão para as duas partes envolvidas. Sonhos, transes e presságios indicativos de que os novos ritos aumentariam o poder do rei e de seus aliados, e conseqüentemente fortaleciam o reino, foram aceitos pelos portugueses como mostra de um verdadeiro e sincero contato com Deus, e pelos Congoleses, como sinais enviados do mundo dos mortos, fonte de toda sabedoria, harmonia e poder.”(SOUZA,2002,p.67)

Nesse sentido, as eleições de reis negros e as festas que celebravam estas eleições realizadas no Brasil podem ser entendidas a partir do encontro entre duas culturas distintas, Ibérica e africana. Nelas, escravos, libertos e negros livres encontraram meios de se organizarem em comunidades, de alguma forma, integradas à sociedade escravista. Tais manifestações apresentam tradições comuns a todo mundo

58 banto, eventos históricos de alguns povos específicos que foram incorporados como símbolos de africanidade, e elementos da sociedade portuguesa, reinterpretados a partir da cosmogonia dos africanos e seus descendentes.

O fato de haver uma paulatina predominância de um rei, chamado de rei do Congo, sobre os demais reis de nação deve-se, sobretudo, ao processo histórico formado a partir das relações entre Portugal e África Centro-Ocidental, na natureza do tráfico que lá se implantou e nos mecanismos de constituição de comunidades negras na América Portuguesa.(SOUZA,2002)

A Instituição do rei do Congo era formada por alianças, que não as étnicas, estavam presentes diversos elementos atribuidores de identidades, tecidos no interior da sociedade, em grupos de trabalho, lazer, moradia e família. Condições de boa vizinhança e harmonia nas relações pessoais favoreciam o bom desempenho do reinado, onde o casal real e sua corte deviam representar toda a comunidade.

A coroação do rei de Congo apresentava um cenário de criação e expressão de identidades, sustentada constantemente nas ruas por libertos, escravos e mestiços. A coroação do rei de Congo reunia a condição para os mais variados espetáculos; muita música, dança, bebida e comida formavam o ambiente profano de uma festa religiosa.

Os reisados de Congo tiveram uma forte presença no Brasil. Foi ainda na região Nordeste, por ocasião do casamento de D.Maria, princesa do Brasil, com D.Pedro, infante de Portugal, que o fidalgo da casa real, Francisco Calmon, registrou uma apresentação de reinado de congo18. Além de várias manifestações apresentadas, a “dança dos Congos” se apresentou durante dois dias, 16 e 18 de outubro de 1760.

“Na tarde do dia dezesseis sahio o Reinado dos Congos, que se compunha de oitenta mascaras, com farças ao seu modo de trajar, riquíssimas pelo muito ouro, e diamantes de que se ornavam, sobressahindo a todos o Rei, e a Rainha. Buscando todo este estado os Paços do Conselho, foi recebido pelo Capitão Mor, Juiz, e mais Cameristas, que se achavão em assentos competentes aos seus officios, e

18 Sobre tais narrativas, a historiadora Silvia Hunold Lara teceu algumas considerações, “De natureza

encomiástica, a narrativa de Calmon pertence a um gênero literário bastante difundido no século XVIII [...] Nos séculos XVII e XVIII, textos de mesma natureza eram escritos por todo o reino, para comemorar casamentos e nascimentos de membros da família real, aclamação de reis ou rainhas e, ainda, outros atos de ostentação do poder e da glória do soberano português, como as “entradas” e “embaixadas”. Estes relatos constituem, pois, a culminância de um procedimento laudatório, que se iniciava com os preparativos nas câmaras das vilas e podia ser ou não instrumentalizada por alguns potentados locais.”(LARA, 2002,pp.73,74)

59 pessoas. Para o Rei, e a Rainha se havia destinado lugar sobre hum estrado de trez degráos, cubertos de preciosos pannos, com duas cadeiras de veludo carmesim franjadas de ouro debaixo de hum ló verde com florões de ouro, e franja do mesmo. Vinha o Rei preciosissimamente vestido de uma rica bordadura de cordões de ouro matizadas de luzidas peças de diamantes. Trazia pendente do cinto hum famoso lagarto formado dos mesmos cordões, com tal artifício, que parecia natural: na cabeça coroa de ouro, na mão direita sceptro, e na esquerda o chapeo guarnecido de plumas, e dobrões, que o fazião ao mesmo tempo rico, e vistoso: nos braços e pernas, manilhas de ouro batido, nos çapátos bordaduras de cordões, e matizes de luzidos diamantes. A capa que lhe descia pelos hombros, era de veludo carmesim agaloada de ouro, e forrada de tela branca com agradáveis florões. Pelo ornato do Rei se pode medir a Rainha, que em nada era inferior [...]

No dia dezoito sahio segunda vez o Reinado dos Congos com todo o seu estado, discorrendo pelas ruas da Villa, e não foi para os moradores pouco plausivel este divertimento, por verem grandeza, apparato e tratamento dos Sobas, que o acompanhavam, alguns dos quaes levavão as roupas semeadas de dobrões [...]” (CALMON, In: Lara,2002, p 72)

Para Silva Lara, o principal aspecto da manifestação, apresentada acima ,é que nesses dias, o espaço urbano transformava-se em palco para a reafirmação do domínio colonial. Os cortejos, procissões e encenações, apresentadas nessas ocasiões, tinham a função de atualizar a presença do rei em terras distantes da Corte. “ A passagem das festividades nas ruas e praças públicas para as páginas de uma “relação” caminhava no mesmo sentido, reatualizando e perpetuando a celebração da Casa Real [...]” (LARA,2002,p.74)

Os reinados de Congo, como os descritos por Calmon, desfilando em ruas e praças das vilas coloniais nas festas públicas da Casa Real, fingidos ou não, tinham a intenção também de rememorar outros reis negros, irmãos e confrades pretos. O desfile daqueles homens, ricamente adornados, ganhava outros sentidos quando interpretados pela população negra e mestiça que assistia. “Ao invés de servir como mais um elemento de reativação do poder real e metropolitano, o reinado dos congos da Vila de

60 Santo Amaro pode também ter sido visto e entendido juntamente em sentido oposto.”(LARA,2002,p.87)